sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Fim de Verão


Esta poderia ser a história de um verão qualquer, aquele que antecede a volta às aulas, que marca o fim de um período de descanso e de férias. Mas é a história do fim daquela inocência que marca a infância, aquela linha tênue que separa a infância da adolescência, quando passamos a ver o mundo com outros olhos.

Esta é a história de um menino de treze anos, Henry, que está deixando de ser criança e passando por todos os percalços da adolescência: as mudanças no corpo, os questionamentos, as descobertas. Henry vive com a mãe, Adele, uma mulher que ficou depressiva e se isolou do mundo depois da separação e de ter perdido um filho no parto, criando um mundo só dela e de Henry, seu único companheiro. O pai de Henry casou-se novamente, e tem um filho pequeno com uma nova mulher, mas Henry não se sente muito bem acolhido nessa nova família que o pai construiu para si. Nesse aspecto, ele é um garoto bem maduro, que cresceu conversando muito com a mãe, que às vezes se esquecia de que ele era só uma criança e acabava por contar histórias e compartilhar lembranças que o tornaram maduro um pouco mais cedo do que o normal, mas que fizeram dele um menino mais sensível ao sentimento dos outros. Henry não tem amigos na escola, não faz parte do time dos populares, e é um menino com bom coração, sentindo-se responsável por não deixar a mãe sozinha.

Um dia os dois estão no supermercado da cidade pequena onde moram, e um homem ferido na perna, com a roupa de um dos funcionários do supermercado, pede uma carona aos dois. O que pareceria insensato para qualquer pessoa (afinal, é bem estranho encontrar uma pessoa com a perna ferida no supermercado, não é?) é algo que não desperta a menor reação na mãe de Henry, que parece estar anestesiada pela tristeza constante que sente. O garoto, apesar de ver o homem roubando um boné do supermercado, simplesmente sente que pode confiar nesse homem estranho que acaba de conhecer. No carro, o homem pede abrigo por uns dias na casa de Adele, e a mãe aceita, só depois vindo a descobrir que ele é um fugitivo da penitenciária local. Cria-se um clima de suspense, mas não há violência. O texto de Joyce Maynard é bem sentimental e nesse ritmo a autora constrói uma história que nos envolve, pois é narrada através do olhar desse menino, mas que aguça nossa curiosidade para saber o que vai acontecer, sempre com o receio de algo muito ruim possa acontecer com aquela família. A dúvida se é mesmo uma história de amor, ou se é síndrome de Estocolmo passou pela minha cabeça durante a leitura, assim como a dúvida de se haverá um final feliz, mas aos poucos percebemos que é uma história de amor. 

Com essa história, a autora nos faz pensar nas injustiças e nos julgamentos que às vezes fazemos do outro, fazendo-nos lembrar que todo mundo tem uma história que merece ser ouvida, que às vezes estamos presos a uma situação que não desejamos, e que a atitude que temos com aqueles que estão ao nosso redor é o que realmente importa. 

Este é um dos livros que foram adaptados para o cinema esse ano: Refém da Paixão tem estréia prevista para 14 de março nos cinemas brasileiros e tem Kate Winslet no papel de Adele. A seguir, o trailer do filme, que já me deixou bastante curiosa:


*Uma curiosidade: a autora Joyce Maynard teve um relacionamento de 10 meses com o escritor J. D. Salinger (autor de O apanhador no campo de centeio) quando ele tinha 53 anos e ela, apenas 18. Salinger, conhecido pelo seu isolamento, terminou seu relacionamento com Maynard de forma abrupta, deixando-a devastada. Ela abandonou a faculdade para morar com ele durante esses 10 meses e depois nunca retomou os estudos. Já expôs muito de sua história pessoal no que escreve: seus distúrbios alimentares (mencionados no livro Fim de Verão na personagem da primeira namoradinha de Henry), os problemas de alcoolismo do pai, seu divórcio conturbado (talvez recontado no sofrimento da personagem Adele, em fim de verão).  Artigo em inglês sobre o relacionamento da autora com Salinger aqui.

Joyce Maynard. Fim de Verão. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. 223 páginas. Tradução: Caroline Chang.

4 comentários:

Flávia disse...

Ontem mesmo, eu estava namorando esse livro, justamente porque foi adaptado para o cinema. Agora fiquei com mais vontade ainda.

Beijos.

Michelle disse...

Não sabia que era esse o livro que deu origem ao filme. Essa história do cara baleado no mercado pedindo carona soa meio estranha mesmo, mas enfim... fiquei curiosa. Tks pela dica! :)

Pipa disse...

Não é a mais alta literatura, mas eu realmente fiquei curiosa pra saber o que ia acontecer no final.
Essa parte de dar carona ao cara é bem surreal no livro, até porque tudo acontece pacificamente na história. Já no filme parece que foi retratado de forma diferente, pelo que vi no vídeo.

beijo,

Pipa

Patrícia Di Carlo disse...

Eu ando tão triste com a saraiva daqui de Uberlândia, nunca chego com uma listinha de livros lá pra achar ao menos um... Fui na quarta, lá, pra me dar esse de presente de niver e cadê? Só por encomenda... Saí de mãos abanando!:( Pelo visto vou ter mesmo que continuar comprando online e esperar dias...
Well, era pra ser um comentário sobre o que escreveu e acabou sendo um mimimi, mas é pq o que vc escreveu me fez querer muito esse livro!! rs

Xerinhos, lindeza!