terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Desejos de ano novo.



Que seja doce. É o que eu desejo, feito uma prece, no meu coração. Que o ano que chegar saiba compreender nossos sonhos, nossos medos, nossos desejos sinceros de encontrar um caminho melhor para nós mesmos e para os que estão ao nosso redor. Que ele saiba chegar de mansinho, sem muito susto, com novas possibilidades de aprendizado. Porque passar pela vida e nada aprender não é viver. Que ele traga amigos do peito para perto, e que afaste de nós quem não compartilhar de nossa boa energia. Que nos ajude a não perder a fé, quando sua doçura ficar um pouco amarga. Que saibamos vivenciar o amargor de horas incertas para aprender a dar mais valor ainda ao que realmente vale a pena. Lembrem-se: as melhores coisas da vida não são coisas.

Seja doce, 2014. Traga aqueles sorrisos largos, uns abraços apertados e o calor verdadeiro de se estar em família. E que a gente consiga ser pelo menos um pouquinho melhor do que fomos no ano que passou. E que não nos faltem livros bons, para acelerar esse aprendizado e tornar os nossos dias mais cheios de imaginação e fantasia.

Feliz ano novo e obrigada pela companhia em 2013. 

:o)


domingo, 29 de dezembro de 2013

Os 10 melhores de 2013

O ano está acabando e chegou o momento de rever a nossa lista de leitura de 2013 e de escolher os dez melhores livros lidos no ano.

Esse ano mantive a minha meta de leitura (63 livros) e acho que posso dizer que foi o ano do Valter Hugo Mãe, porque foi o ano em que terminei de ler todos os romances e poesias do autor, ficou faltando apenas os livros infantis. E como vocês poderão ver no meu Top 10, todos eles entraram para a listinha dos melhores. Então, se você não leu nada desse autor ainda, está perdendo, viu? Li livros maravilhosos esse ano, que não entraram na lista porque é difícil ter que escolher só dez, vocês sabem.

Bom, aí estão as minhas melhores leituras de 2013:

1. The Bell Jar - Sylvia Plath

2. O apocalipse dos trabalhadores - Valter Hugo Mãe

3. The end of your life book club - Will Schwalbe

4. A Desumanização - Valter Hugo Mãe

5. The History of Love - Nicole Krauss

6. O Nosso Reino - Valter Hugo Mãe

7. A Máquina de Fazer Espanhóis - Valter Hugo Mãe

8. Uma escuridão bonita - Ondjaki

9. E a noite roda - Alexandra Lucas Coelho

10. Falar sozinhos - Andrés Neuman



P.S: Os livros foram listados em ordem de leitura apenas.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Poesia domingueira: Ana Cristina Cesar

Travelling (Ana C. Cesar)

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirmava, "Perder é mais fácil que se pensa".
Rasgo os papéis todos que sobraram.
"Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não", dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. "É perigoso",                                          
ria a Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco
sem notar
como quem procura um fio.
Nunca mais te disse
uma palavra, repito, preciso alto,
tarde da noite,
enquanto desalinho
sem luxo
sede
agulhadas
os pareceres que ouvi num dia interminável:
sem parecer mais com a luz ofuscante desse mesmo
dia interminável.

Ana Cristina Cesar. A teus pés. São Paulo: Ed. Ática/ IMS, 1998. pág. 73-74

sábado, 14 de dezembro de 2013

Falar Sozinhos


“Um talento iluminado. A literatura do século XXI pertencerá a Neuman 
e a alguns poucos de seus irmãos de sangue.” – Roberto Bolaño

Falar sozinhos é o segundo livro do escritor argentino Andrés Neuman publicado no Brasil. Com cinco livros já publicados e elogiado por Bolaño como um dos grandes autores do século XXI, Neuman é também considerado um dos melhores jovens escritores em língua espanhola.
Falar Sozinhos é um romance sobre partir e ficar; sobre despedidas, saudade e silêncios; sobre a comunicação em uma família e sobre tudo o que falamos sozinhos. Narrado a três vozes, cada uma delas muito bem construída, o texto flui à medida que vamos conhecendo esses três personagens e nos encantando por eles.

Lito é um menino de 10 anos de idade, com uma imaginação e uma inocência que nos comovem, e que acredita que enquanto está com o pai viajando de caminhão, o que ele sente pode interferir nas condições do tempo. Fazendo uma viagem de caminhão com o pai, que está muito doente e não quer contar ao filho sobre a gravidade do problema, seja por não ter coragem, seja por não saber como. Mario se despede em silêncio a cada momento que tem para estar com o filho, de poder alimentar seus sonhos, sua fantasia de criança. Nessas horas fica impossível não se comover e de sentir essa melancolia da despedida muito bem retratada no texto de Neuman.

Elena é uma mulher prestes a ficar viúva, obcecada com a ideia de perda,  que mergulha em uma aventura sexual para desafiar seus limites enquanto cuida do marido, e que busca nos livros uma forma de enfrentar sua dor, tentando se deparar com sua vida em tudo o que lê. É na voz de Elena que vamos encontrar diversas referências literárias, que parecem dar continuidade ao texto.

"Quando um livro me diz o que eu queria dizer, sinto o direito de me apropriar de suas palavras, como se alguma vez tivessem sido minhas e as estivesse recuperando." pág.122

Neuman coloca uma nota no final do livro dizendo que as traduções dos trechos citados são improvisações do autor, pois "se a escritura nos permite falar sozinhos, ler e traduzir são semelhantes a conversar".
O único porém (na minha humilde opinião de leitora comum) foi que cada vez que ele citava um trecho de um romance de Atwood, de Hemingway, e de tantos outros, eu, na minha curiosidade de leitora ciente de que um livro sempre nos leva a descobrir muitos outros, me perguntava: qual romance? qual o título? Não há nenhuma referência bibliográfica e eu lamentei muito por isso. Ficamos sem saber quais são os livros que Elena lia, temos a chance apenas de ler os trechos que se mesclam ao texto com perfeição. O que fiz foi apenas listar todos os autores que ele cita, mas sem saber de qual livro é cada trecho.

"Vou escolher os textos para os exames. Depois vou passar a tarde lendo. Meus nervos se acalmam com a leitura. Falso. Não se acalmam: mudam de direção. Quando saí do consultório, fui (fugi) a uma livraria. Comprei vários romances de autores que eu gosto (fiz isso rapidamente, quase sem olhar, como se fosse analgésicos) e um diário de Juan Gracia Armendáriz que folheei por acaso. Imagino que este livro, mais que um analgésico, poderia ser uma vacina: vai inocular em mim a inquietação que tento combater". pág. 22

Mario está muito doente e sabe que pouco tempo de vida lhe resta, por isso sofre nas pequenas despedidas silenciosas que faz do filho de 10 anos, registrando também com um gravador o que gostaria de dizer ao filho e à esposa, mas não tem coragem. A consciência da morte próxima e as reflexões que ele faz enquanto observa silencioso alguns momentos do dia a dia e da convivência com Lito e Elena são realmente capazes de levar os leitores mais sensíveis às lágrimas.

"Acredito que todas as despedidas são incompletas. Como na nossa vida. Por isso vivemos nos despedindo. E talvez por isso, também, somos viciados em ficção: para nos completarmos, para fabricarmos o tempo e a vida que não teremos." (Em entrevista para o Estadão, 13/11/2013)

Andrés Neuman me conquistou com esse livro, que mesmo me fazendo chorar, me deixou sem querer parar de ler o livro até o fim. Entrou para a minha lista de melhores leituras de 2013. Recomendo.

Andrés Neuman. Falar Sozinhos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. 168 páginas. Tradução: Maria Alzira Brum Lemos.

A seguir, compartilho o link para o blog do Andrés Neuman, considerado um dos melhores blogs literários da Argentina; o link para uma entrevista linda que ele deu para o Estadão, o primeiro capítulo para quem quiser ler, e a lista com os autores citados no livro.

Entrevista com Andrés Neuman : Todas as formas de viver e morrer

Blog do Andrés Neuman: Microrréplicas

Primeiro Capítulo: Falar Sozinhos

Autores citados:
Margaret Atwood; Sylvia Plath;Virginia Woolf ; Flannery O'Connor ; Kenzaburo Oe ; Roberto Bolaño; Mallarmé; Justo Navarro; Hemingway; Ana María Matute; Lorrie Moore;Javier Marías; Chekov; Iréne Némirovsky; César Aira; Philippe Ariés; Christian Bobin; Richard Gwyn; Juan Gracia Armendáriz; John Banville; Cynthia Ozick; Helen Garner; Shakespeare; Alonso Quijano;  De Pablos;  Funes;  Neruda;  Keats; Bécquer; Garcilano

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Anatomia de um desaparecimento


"Às vezes a ausência do meu pai pesa tanto quanto uma criança sentada no meu peito".

Anatomia de um desaparecimento conta a história de Nuri, um menino de 13 anos que perde sua mãe muito cedo e que, pouco tempo depois, tem que se acostumar com a presença de Mona, a nova esposa de sua pai. Mona é muito mais jovem que o pai de Nuri e acho que podemos dizer que ela foi o primeiro amor desse menino, que tinha por ela uma espécie de encantamento platônico antes mesmo dela se relacionar com seu pai. Esse encantamento era bastante incentivado pela madrasta, que desde o início mostra ser uma incógnita em relação aos seus sentimentos.

As descrições desse garoto sobre o objeto de sua paixão são bastante líricas, e o texto de Hisham Matar é de modo geral bem delicado e melancólico na forma de narrar os relacionamentos descritos: de Nuri com sua mãe; com Naima, a criada que cuida dele como se fosse um filho; com seu pai, que sempre foi muito distante mesmo quando estava em casa; e de Nuri com sua madastra. Há uma delicadeza no texto que foi muito bem reconstruída na tradução de Julian Fuks.

Depois de algum tempo, o pai de Nuri desaparece misteriosamente no que parece ser um sequestro motivado por razões políticas. Kamal tem uma aura de mistério desde o início do livro, o que faz com que Nuri o veja com admiração, mas também com certo distanciamento, um sentimento de nunca o ter conhecido ou compreendido por completo. Com o desaparecimento do pai, a vida de todos os personagens muda significativamente e todo o restante da história passa a ser a busca de um filho por si mesmo, por seu lugar no mundo sem o pai, tentando lidar com a perda, com a ausência de quem ele amava e com os muitos segredos que aos poucos o tempo vai revelando. 

Um romance/ fábula sobre a perda e sobre como a ausência de alguém que amamos pode moldar nossas vidas para sempre.

Hisham Matar. Anatomia de um desaparecimento. São Paulo: Record, 2012. 220 páginas. Tradução: Julian Fuks.                                                                      

sábado, 7 de dezembro de 2013

O Testamento de Maria


"He was the boy I had given birth to and he was more defenceless now than he had been then. And in those days after he was born, when I held him and watched him, my thoughts included the thought that I would have someone now to watch over me when I was dying, to look after my body when I had died. In those days if I had even dreamed that I would see him bloody, and the crowd around filled with zeal that he should be bloodied more, I would have cried out as I cried out that day and the cry would have come from a part of me that is the core of me. The rest of me is merely flesh and blood and bone." [pág. 74]

Entre os finalistas do Booker Prize 2013, O Testamento de Maria (The Testament of Mary, Penguin 2013), do escritor irlandês Colm Tóibín, conta uma história de luto e perda, um tema recorrente na obra de Tóibín. O Testamento de Maria é uma novela melancólica sobre o sofrimento de uma mãe que perdeu um filho. É assim que podemos resumir esse livro e foi assim que tentei ler essa história, fugindo dos enlaces teológicos que certamente devem ter causado alguma polêmica em torno do livro. Mas o que Tóibín tentou fazer, acredito que ele conseguiu: humanizar uma "personagem" que é um mito, torná-la antes de mais nada uma mulher, uma mãe. E são esses sentimentos humanos e maternais que nos aproximam de Maria, uma mulher que perdeu seu filho para o mundo, que não aceita tê-lo perdido, que não acredita no que os outros dizem: que ele é o filho de Deus. Sem entrar em nenhum mérito religioso (lembremos que é ficção), vamos reviver eventos já bastante conhecidos, mas eles não são o foco aqui. A história toda é contada através dos olhos de Maria, do seu luto, seu sofrimento, sua perda. Raiva e um sentimento de culpa por não ter conseguido salvar seu filho se misturam na narrativa de Maria, que é bastante lírica ao relembrar os últimos dias do seu filho antes da crucificação e o que aconteceu depois disso.

Uma perspectiva muito interessante e que me emocionou bastante.

Colm Tóibín. The Testament of Mary. UK: Penguin Books, 2013. 104 págs.

Edição brasileira:
Colm Tóibín. O Testamento de Maria. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 88 páginas. Tradução: Jorio Dauster. (29 reais)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

TAG: Um livro que...



A querida Juliana Brina me indicou para responder uma TAG criada pela Lélia Santos e eu fiquei muito contente com a indicação. Vou tentar responder, mas acho difícil conseguir citar um só livro para cada pergunta:

1) Um livro que te emocionou muito...

Foram tantos! Provavelmente depois me lembrarei de mais algum, mas, por hora, fechei os olhos e tentei lembrar dos livros que me deixaram muito comovida quando terminei de ler (sabe quando a gente termina de ler um livro, deitada na cama tarde da noite, e ele acaba e, quando nos damos conta estamos abraçadas ao livro? São esses que vou citar:

Nas tuas mãos, da Inês Pedrosa - Foi a Inês Pedrosa que me fez enveredar pelas linhas da literatura portuguesa e serei sempre grata a ela por isso. Depois de ler todos os livros dela, senti tanta falta dessa linguagem poética e apaixonada que saí em busca de mais livros que me fizessem sentir assim. Foi procurando nas livrarias que encontrei livros muito queridos de José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Miguel Sousa Tavares e claro, do Valter Hugo Mãe. Nas tuas mãos é um livro sobre as muitas formas de amar.

Seda, do Alessandro Baricco - Para quem não sabe,  o escritor italiano Alessandro Baricco é um dos três mosqueteiros do meu coração, como eu costumo brincar (os outros dois são José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe).  Seda é um poema em prosa, de uma delicadeza que apaixona. Adoro a forma como Baricco usa a linguagem para contar histórias incríveis nas entrelinhas. Vou fazer um comentário sobre esse livro em breve aqui no blog.

O Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mãe -  Não tinha como não citar esse livro que tem sido meu xodó desde que foi lido (e já relido também). É um livro que recomendo sempre.

A Trégua, do Mario Benedetti. Um dos livros da minha vida, sem dúvida. Já tem comentário sobre ele aqui.

2) Um livro que queria muito ler, mas descobriu que não era tudo aquilo que pensava...

O Conto do Amor, do Contardo Calligaris
Um quarto para ela, da Helen Garner
A livraria, da Penelope Fitzgerald
A visita cruel do tempo, da Jeniffer Egan

3) Um livro que achava que não iria gostar e te surpreendeu...

Não te deixarei morrer, David Crocket -  do Miguel Sousa Tavares. É uma coletânea de contos, que não é meu gênero favorito, e tem esse nome estranho, mas foi uma surpresa, tem contos lindos nesse livro. O Miguel Sousa Tavares, para quem não sabe, é filho da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen.

As boas mulheres da China, de Xiran. Todo mundo devia ler esse livro.

4) Um livro que já tem há muito tempo em sua estante e ainda não leu...
Já estou com vergonha de dizer isso, mas são eles: Crime e Castigo e O jogo da amarelinha

5) Um livro que te passou uma lição de vida...
Escolhi livros que me ensinaram alguma coisa:
Novecentos, do Alessandro Baricco. Um dos meus livros favoritos, acho que faz a gente pensar muito na vida.
A solidão dos números primos, do Paolo Giordano

6) Um livro que te fez suspirar...

Carta a D., história de um amor - Não tem como não se emocionar com essa história de amor.
84 Charing Cross Road, da Helene Henff (em português: Nunca te vi, sempre te amei) -  Sou apaixonada por essa história, caminhei pela Charing Cross Road em Londres procurando o lugar onde a livraria existiu, já não existe mais, apenas para dizer "Helen, eu consegui!"

7) Um livro que você ainda não tem e quer muito ler...

A Ju já comentou isso no vídeo dela e porque adoro a literatura portuguesa ando muito curiosa para ler os livros do Afonso Cruz, principalmente o "Para onde vão os guarda-chuvas"

Os livros infantis que o Valter Hugo Mãe escreveu, quero muito ler e não consigo encontrar esses livros para comprar aqui. Tenho todos os romances, as poesias, só falta os livros infantis para a coleção Valter Hugo Mãe ficar completa.

Tem um livro que eu li emprestado da biblioteca e que amei e gostaria de ter na minha estante: O Colecionador de Mundos, do Ilija Trojanov.

E tem uma lista enorme de desejados que vocês podem ver no meu perfil do skoob :)

8) Um livro que de tão bom era difícil de parar de ler...

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata, um dos livros mais queridos da minha estante, que tem uma história bonita desde a sua criação. Fiz muitos amigos por conta desse livro, que é uma homenagem ao amor pelos livros, ao poder transformador da literatura.

9) Um livro que não é muito seu estilo, mas tem vontade de ler...

A Guerra dos Tronos. Não é muito meu estilo, mas agora que o frisson está diminuindo (e os preços dos livros também) eu ando curiosa para ler para ver se é tão envolvente quanto dizem. Será que vou gostar?

10) Um livro que indica...

Leio muita coisa, mas só comento aqui livros que eu indico. Às vezes o blog fica sem atualização, mas não é porque não estou lendo, só não encontrei nada que gostasse tanto a ponto de indicar.

Mas posso recomendar sem pestanejar qualquer um dos livros do Valter Hugo Mãe;

Mário Benedetti, sempre.

Livro, de José Luis Peixoto, um dos melhores do autor.

O último chef chinês, da Nicole Mones - Adoro livros que misturam literatura e culinária e esse foi um dos mais interessantes que eu já li.

A Caixa Preta, do Amós Oz - um livro que pouca gente comenta, mas que é um absurdo de bom e que eu sempre recomendo. Uma história de amor e de separação com toda a elegância da escrita do Amós Oz.

A arte de ler, da Michele Pétit - apesar de ser um livro mais acadêmico, mesmo quem não tem formação na área consegue ler sem problema e se encanta, porque o amor pelos livros e pela literatura está presente em cada página.

A Máquina, da Adriana Falcão. Uma história de amor bonita, poética e bem brasileira.

Já que estamos falando de linguagem poética, não poderia deixar de indicar um livro que é quase um haikai: Rakushisha, da Adriana Lisboa.

A chave de casa, da Tatiana Salem Levy, uma das escritoras brasileiras contemporâneas de quem mais gosto.

Espero que vocês tenham gostado e obrigada pelo interesse! :)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

E a noite roda


"Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. 
Esquece a morte e segue-me".

E a Noite Roda é o primeiro romance da jornalista Alexandra Lucas Coelho, que já publicou narrativas de viagem e que por esta primeira aventura pelos campos da ficção recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) relativo a 2012, prêmio já concedido a grandes autores como José Saramago e Antonio Lobo Antunes. 

E a Noite Roda é a história de amor entre uma jornalista catalã (Ana Blau, a narradora) e um jornalista belga (Léon) que se conhecem em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat. Essa história de amor atravessa várias cidades e paisagens diferentes, levando o leitor a viajar junto com os personagens por esses espaços, seus cheiros, imagens e climas tão diversos. Em meio às descrições de lugares e cenários políticos, muitos dos quais são zonas de conflito, passamos a conhecer mais sobre Ana e Léon e o que os une, enquanto a narradora reconta os capítulos dessa relação. Um amor que desde o início está fadado ao fracasso, mas é daquelas paixões arrebatadoras, nas quais mergulhamos de olhos fechados, mesmo sabendo que, cedo ou tarde, chegará ao fim.

"Não posso dizer que não sei: eu vejo. Mas é para a frente que caminho. 
Se for amor, deixará de ser crime." [pág.66]

As referências literárias e musicais permeiam o texto e acabamos por terminar de ler com uma lista interessante de coisas novas a serem lidas ou descobertas. De Proust a Amós Oz, de Victor Hugo a Alejandra Pizarnik, de Wislawa Szymborska a Sigur Rós, entre tantos outros. São os livros e poemas que os personagens trocaram, como acontece em qualquer história de amor; são as músicas que ouviram juntos ou recomendaram e gravaram um para o outro, e que passam a ser a memória afetiva dessa saudade, dessa paixão.

"Um amor é sempre a sua circunstância.[...] Cada um saberá o que 
vê no outro e sobre isso mais ninguém sabe nada". [pág. 59]

As descrições de Alexandra Lucas Coelho são líricas e poéticas, há diversas frases que sozinhas já são tão belas que merecem destaque. É com essa narrativa cheia de lirismo que a autora cativa o leitor, que termina por se apaixonar e sofrer junto com Ana e Léon, torcendo por um final feliz. A experiência da autora com as narrativas de viagem contribui para que o texto flua com muita suavidade permitindo que nós, leitores, possamos também viajar pelos lugares citados, sem que a viagem seja cansativa: passeamos por Jerusalém, Gaza, Roma, Barcelona, entre outros.

A cor azul da capa (que por sinal é muito bonita) é também simbólica no texto já desde a sua epígrafe: "Se azuis são os seus olhos, azul será a minha lança" (Ibn Al Qaysaran). Foi interessante encontrar detalhes significativos na história que possuem essa cor: os olhos de Léon, a cor da permissão para entrar em Jerusalém, o vestido que ela usa quando se encontraram, e o próprio sobrenome da narradora, Ana Blau. 

Viajar nas palavras de Alexandra Lucas Coelho foi uma experiência muito prazerosa, ainda que meu coração sempre sofra um pouco com histórias de amor assim. Inesquecíveis, porém reais e bem possíveis de acontecer. Recomendo.

"Noite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé." [pág. 82]

Alexandra Lucas Coelho. E a noite roda. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2012. 247 páginas.


Andrea del Fuego

É sempre uma delícia ouvir os escritores que nós gostamos falarem sobre seu processo de escrita e criação, esse universo mágico que me encanta. E é sempre uma delícia ouvir a Andrea del Fuego. Vale a pena ver o vídeo:




 Andrea del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e jornalista, publicou os volumes de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e Nego fogo (Dulcinéia Catadora, 2009), além de diversos livros juvenis e infantis. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), foi ganhador do Prêmio Saramago de literatura em 2011. Seu mais recente romance, As Miniaturas, foi publicado em 2013 pela Companhia das Letras. 

Para baixar o primeiro capítulo do livro Os Malaquias clique aqui

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Todo mundo já leu (menos eu!)

Apesar de ler muito e de sempre estar fazendo listas dos livros que pretendo ler no ano (e que nunca dão certo, porque sempre acabo lendo outros autores que não constam na lista), há aqueles livros e autores que todo mundo já leu menos eu.
Essa tag, que vi no canal da Inês e que foi criada pela Nayara é o que vou responder aqui hoje, assim, quem sabe, terei esse registro de pelo menos cinco livros que eu não posso deixar de ler em 2014.

1) Dostoiévski - Crime e Castigo
Tenho certeza de que vou gostar desse livro, já me foi recomendado por muitas pessoas, é um clássico da literatura mundial e sinto vergonha de dizer que apesar de ter o livro há anos, ele ainda não foi lido. A culpa é toda minha. =/

2) Cortázar - O Jogo da Amarelinha
Ganhei de presente de aniversário há alguns anos e não sei porque motivo ainda não li esse livro. Olho para ele na minha estante e sinto culpa, mas ao mesmo tempo é daqueles livros que sabemos desde sempre que vamos gostar. Espero não me desapontar!

3) Antonio Lobo Antunes
Todos elogiam esse escritor. O Valter Hugo Mãe elogia muito ele. E eu, vergonhosamente, ainda não o li.
E confesso que tenho um pouco de medo de não gostar (ou de não entender). Já tenho o livro "Os cus de Judas" aqui para começar a conhecer o Lobo Antunes.

4) Javier Marías
Tenho uma amiga que é super fã do Javier Marias. Ela diz que eu vou gostar do Javier. E estou fazendo uma pequena chantagem com ela: só vou ler o Javier Marias quando ela começar a ler o Valter Hugo Mãe. Porque tenho certeza de que ela vai gostar dos livros dele também. :) Ainda estou decidindo se vou começar por Os Enamoramentos, por Todas as Almas ou se por Coração tão branco.

5) Carlos Ruiz Zafón
Mesmo com tantos elogios que já ouvi sobre A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e os outros todos, nunca li o Zafón, mas espero conseguir conhecer pelo menos A Sombra do Vento em breve.

Quem tiver alguma recomendação/indicação de livro bom para começar a ler esses autores e quiser compartilhar comigo, vai me deixar muito contente. E quem quiser responder a essa tag também, fique à vontade.
:o)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Vermelho Amargo



"Para alimentar a saudade do meu primeiro amor, comia retratos, rezava sem fé, mastigava hóstia, subtraía-me, entregava-me às amoras e seus aromas. Não havia mundo lá fora. Só amor, dentro e fora de mim. Virei dois, como a mulher de duas almas que visitava a minha rua. Faltavam-me rédeas para frear meu amor. Ele me roubava para o fundo do quintal, afogava-me nos rios, transportava-me para os pastos, subia-me nos galhos das árvores, mesmo sem fruto para colher. Eu amava, ou melhor, por inteiro, eu só era amor." [pág.22]


"Sempre suspeitei o nascer como entrar num trem andando. Só que, o mundo, eu não sabia de onde vinha nem para onde ia. E, no meu vagão, não escolhi os companheiros para a viagem. Eram todos estranhos, severos, amargos, impostos. Também entrei sem comprar o bilhete de viagem. Minha bagagem, pequena, cabia debaixo do banco - da segunda classe - sem incomodar. Contrabandeava poucos pertences : uma grande dor que doía o corpo inteiro e a vontade de encontrar um remédio capaz de remediar o incômodo. Até hoje o mundo ainda não atracou. Vou sem escolher o destino. O trem estancava na minha cidade, trocava de carga e reabastecia-se. O mundo só nos permite uma baldeação definitiva."
[pág. 38]

Bartolomeu Campos de Queirós. Vermelho Amargo. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

sábado, 16 de novembro de 2013

Fliporto


Desde que cheguei aqui que fico pensando no que vou escrever para contar para vocês como está sendo minha primeira vez em uma feira literária. Mas tem sido uma mistura de encantamento e emoção que as palavras faltam. E quem está acompanhando as fotos no meu Instagram pessoal vai entender que uma imagem às vezes fala bem mais que mil palavras. E que olhos brilhando dizem mais ainda. 

Descobri que não é tão ruim quanto se pensa viajar só. Porque quando estamos sozinhos ficamos de coração mais aberto para conversar com quem encontramos, para fazer novos amigos, para querer fazer coisas novas que talvez, se estivéssemos acompanhados não faríamos. Tem sido divertido. E quando me perguntam se eu estou só a primeira coisa que escuto é: como você é corajosa! E inevitavelmente lembro da epígrafe do novo livro de Valter Hugo Mãe: "um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho". Talvez isso seja um começo pra mim.

O primeiro dia na Fliporto foi emocionante. Valter Hugo Mãe e Andrea del Fuego leram juntos a autobiografia de José Saramago. Os dois vencedores do Prêmio José Saramago, que ajuda a reconhecer os novos talentos da literatura em língua portuguesa. Depois, ouvir a Pilar Del Rio. E se emocionar, porque quando ela terminou de falar eu estava mesmo com os olhos marejados. Arrepiada. Porque ela disse tudo desse amor que sentimos pelos escritores e que quem não ama literatura nunca vai compreender. Emocionante lembrar de Saramago, na véspera do seu aniversário. Saber do dia do desassossego.

Estar cercada de literatura. De gente que gosta de ler, dos escritores e tradutores que você já leu e gosta, ter a chance de dar um abraço no seu escritor preferido, tem sido uma grande emoção. Hoje e amanhã teremos ainda muita coisa boa no congresso literário. Hoje verei o escritor Francisco Azevedo, autor de O Arroz de Palma. Amanhã tem Andrea del Fuego e Valter Hugo Mãe, o mais esperado. O final de semana vai ser lindo. Como o dia lindo de sol que está fazendo aqui em Olinda. Só não está perfeito porque eu ainda não consegui comer o bolo de rolo pernambucano que eu adoro. Mas até terça isso precisa mudar. :)

Viva Saramago!

"Vivo desassossegado, escrevo para desassossegar"
José Saramago

Dia do Desassossego


Hoje José Saramago faria 91 anos. Ele, que escrevia para desassossegar. Segundo a Pilar del Río, seu sonho era poder conversar com todos os leitores do mundo, era algo que sempre o alegrava. Na abertura da Fiporto, Pilar, a namorada de Saramago, como ela diz preferir ser chamada, disse que quando acarinhamos um livro, também acarinhamos o escritor que nele habita. E pediu que hoje todos nós fizéssemos um carinho em Saramago, apenas para lembrá-lo que ele é eterno. No mundo inteiro, os leitores hoje sairão nas ruas com um livro de Saramago. Alguns farão leituras em voz alta em algum lugar que julgarem adequado para essa homenagem. Outros podem preferir ler em silêncio. Não importa. O importante é participar desse carinho. Seja com uma foto de um livro de Saramago no Instagram, um vídeo ou post no blog, vale tudo. Vale até mesmo aquele carinho na capa de um livro dele.
O que vale é fazer voar as palavras de Saramago, hoje e sempre.
Participem.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Contagem regressiva - Fliporto 2013




Já começou a contagem regressiva para a IX Festa Literária Internacional de Pernambuco, que acontecerá de 14 a 17 de novembro de 2013 em Olinda. O homenageado desse ano é o escritor José Lins do Rego.
Pilar Del Río, Valter Hugo Mãe, Andrea Del Fuego, Luiz Ruffato são alguns dos escritores que participarão do evento, que promete ótimos diálogos sobre arte e literatura.

Eu já estou arrumando as malas e farei o possível para contar para vocês as notícias e impressões do evento.

Clique aqui para ver a Programação da Fliporto 2013.



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A Solidão dos Números Primos

Com um dos títulos mais bonitos já vistos, A Solidão dos Números Primos, do escritor italiano Paolo Giordano, foi uma grande descoberta. Intenso, verdadeiro e, em muitos momentos, extremamente doloroso de ler, tal sua veracidade, o livro faz uma reflexão sobre as diferenças, sobre a solidão, sobre as relações familiares (e os problemas que encontramos nelas) e sobre muitos conflitos da nossa juventude.

Contando a história de Mattia e Alice, duas crianças desde a infância marcadas por suas diferenças, acompanhamos a passagem dos dois pela adolescência, com todas as dificuldades, encontros e desencontros, até sua vida adulta. Nesse percurso o que chama a atenção são as relações familiares, os problemas de comunicação entre as pessoas de uma mesma família e o quanto isso será determinante para a formação de cada indivíduo. O autor nos mostra como nossos erros e nossas escolhas deixam marcas em nós por toda a vida.

Alice é uma menina oprimida que tem distúrbios alimentares e frequenta aulas de esqui. O detalhe mais importante é que Alice não quer aprender a esquiar, ela só frequenta as aulas porque é obrigada pelo pai. Durante um dos treinos, Alice sofre um acidente que a deixa com uma deficiência permanente na perna.

Mattia tem uma inteligência rara, enquanto sua irmã gêmea tem uma doença mental, da qual ele se envergonha. Um dia, indo para o aniversário de um amigo da escola, levando a irmã junto com ele apenas porque sua mãe o obrigava, Mattia deixa a irmã em uma praça e segue para o aniversário, porque queria ser aceito pelo grupo de colegas pelo menos uma vez, mas sua irmã desaparece, e esse fato marcará sua vida para sempre.

Em suas diferenças, Mattia e Alice se reconhecerão em sua solidão, e são muitos os encontros e desencontros que permearão a história dos dois durante todo o livro, numa avalanche de aspectos psicológicos muito bem explorados pelo autor, mas que deixam o leitor quase sempre com o coração apertado, sofrendo pelos personagens. 

Mattia tinha estudado que entre os números primos existem alguns ainda mais especiais. Os matemáticos os chamam de primos gêmeos: são casais de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase vizinhos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente. Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos, mas não o bastante para se tocar de verdade”.

Este é sem dúvida um livro com personagens extremamente complexos que nos levam a refletir sobre várias questões, não só sobre as relações familiares, mas sobre a juventude nos dias de hoje e todas as dificuldades que ela enfrenta. E o livro nos mostra o quanto o ser humano pode ser cruel com o simples fato de ficar em silêncio. É um livro que recomendo não apenas para os jovens, mas para os pais de todas as idades, porque às vezes ver no outro o nosso erro é uma forma de reconhecê-lo, e acompanhar o doloroso desenvolvimento desses personagens acaba por ser uma grande lição de como relacionar-se com o outro, de como ser mais humano diante de nossas imperfeições e diferenças.

Eu ainda estou torcendo por Mattia e Alice. E tenho certeza de que você terminará de ler este livro torcendo por eles também.

Paolo Giordano. A solidão dos números primos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
***
Paolo Giordano nasceu eu Turim em 1982. Formou-se em Física e ganhou o Prêmio Strega 2009 por este romance de estreia.

domingo, 3 de novembro de 2013

Carta a D., história de um amor

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher”.

Assim começa essa história de amor, quase um Romeu e Julieta, com a diferença de que aqui o tempo e a saúde foram os vilões. Relendo esse livro me dei conta de duas coisas: que há mesmo um tempo certo para cada livro, porque não tinha gostado tanto dele quanto gostei agora; e que ainda há amores que duram para sempre, mesmo nos tempos de hoje.

André Gorz é um dos mais importantes intelectuais da atualidade, foi filósofo e jornalista, publicou dezenas de livros, centenas de artigos e ensaios. Nasceu em Viena, na Áustria, em 1923. Foi levado para a Suíça pela mãe em 1938, que temia o exército nazista. O pai havia sido preso pelas tropas nazistas e ela não queria que o mesmo ocorresse com o filho por conta de sua ascendência judaica. André Gorz, que na verdade é um pseudônimo, com o qual ficou mundialmente famoso (seu nome verdadeiro é Gerhard Horst), permaneceu na Suíça até o final da guerra, estudou engenharia química, e se tornou um dos principais conhecedores da obra de Jean-Paul Sartre. Paralelamente à atividade de jornalista, desenvolveu uma intensa atividade teórica e política.

Carta a D. foi seu último livro, escrito em homenagem a sua esposa Dorine, com quem viveu por quase sessenta anos. Acho que podemos considerá-lo uma carta de amor e também uma carta de despedida. Nele, André Gorz faz uma análise de toda sua vida, relembrando os momentos mais difíceis e importantes de sua carreira apenas para constatar que nada do que fez ou produziu teria sido possível sem sua esposa, e que talvez ele não tenha dito isso com todas as letras em seus trabalhos. Ficamos sabendo como os dois se conheceram, de como ele se sentia em relação ao mundo e à sua família (“Minha família se tornara tão estrangeira para mim quanto meu próprio país” pág. 13) ressaltando essa relação de amor e de companheirismo que se estabeleceu entre os dois no decorrer de suas vidas. E ficamos sabendo também que Dorine teve um papel fundamental em toda a produção teórica/filosófica/política desse autor, tendo o encorajado durante toda sua vida:

Você dizia que tinha se unido a alguém que não podia viver sem escrever, e sabia que quem quer ser escritor precisa se isolar, tomar notas a qualquer hora do dia ou da noite; que seu trabalho com a linguagem continua mesmo depois de largar o lápis, e pode inesperadamente se apossar dele por completo, bem no meio de uma refeição ou uma conversa. “Se eu pelo menos soubesse o que se passa na sua cabeça”, você dizia ás vezes, diante de meus longos devaneios em silêncio. Mas você também sabia disso porque você mesma já tinha passado por isso: um fluxo de palavras procurando o arranjo mais cristalino; fiapos de frases continuamente remanejados; começos de ideias que ameaçavam desvanecer se uma senha ou símbolo não conseguisse fixá-las na memória. Amar um escritor é amar que ele escreva, dizia você. “Então escreva!”. (página 21)

Chamou minha atenção que Dorine quis aprender alemão e Gorz lhe disse “Não quero que você aprenda nenhuma palavra dessa língua, nunca mais vou falar alemão”, demonstrando o peso de um passado que transformou o alemão numa língua relacionada à morte, ao ódio, à tristeza, ao que não se quer lembrar. No entanto, as últimas palavras da carta são em alemão, como se diante da ideia da morte de sua amada, uma dor tão grande de suportar, só mesmo a  língua materna (ou a tristeza a ela relacionada) pudesse descrever: Die Welt is leer, Ich will nicht leben mehr (O mundo está vazio, não quero mais viver).

Eu não posso me imaginar escrevendo se você não mais existir. Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância. Disse-lhe isso na dedicatória do meu último escrito.” (Pág. 51)


Terminei de ler o livro chorando, porque não há dor maior do que perder quem se ama e o relato foi realmente emocionante. E fiquei pensando se Dorine chegou a ler essa carta que ele escreveu. Espero que ela tenha lido. O posfácio informa que Gorz e Dorine se suicidaram juntos em setembro de 2007, mas o último parágrafo me fez pensar que é possível outra interpretação, pois não temos um depoimento de Dorine: talvez ela tenha falecido, pois estava muito doente, e, diante da visão de perdê-la, ele tenha se suicidado para que os dois pudessem seguir juntos, porque ele não saberia mais viver no mundo sem ela. Feito Romeu e Julieta. Se eles decidiram juntos em vida ou se ele decidiu isso depois de sua morte, pouco importa. O que fica claro nesse livro, nessa carta, é a história de um amor que existiu durante toda uma vida.


André Gorz. Carta a D. : história de um amor. Cosac Naify Portátil: São Paulo, 2012.

sábado, 2 de novembro de 2013

Beatriz

Acho que fiz as pazes com o Cristovão Tezza nesse livro. Explico: quando li o tão aclamado O Filho Eterno, eu não consegui me encantar pelo autor. Não sei se foi o momento certo para ler o livro, mas não gostei. Quando encontrei Beatriz em uma promoção da fnac, decidi dar mais uma chance ao escritor depois de ler o prólogo do livro ainda na livraria. 

Beatriz é um livro composto de setes contos e um prólogo, e nesse prólogo, que o próprio autor diz ser coisa ultrapassada, mas que eu achei excelente, ele explica um pouco o livro e se aproxima do leitor, pois é quase uma conversa. Tezza diz que não é muito bom em contos, explica um pouco as diferenças entre o conto, o romance e a novela; reconhece que o público leitor é formado em sua maioria por mulheres (sim, estatisticamente comprovado que as mulheres leem muito mais) e diz que o livro surgiu de várias tentativas de compor uma personagem, a Beatriz, que inicialmente foi pensada como Alice. Achei interessante ver esse processo de criação no decorrer do livro e a personagem cresceu tanto que acabou virando personagem de um outro romance do autor, se não me engano, Um Erro Emocional. Não sei qual dos dois livros foi publicado primeiro, mas nesses contos vemos uma personagem que precisou ter mais vozes, vivenciar mais histórias.

Os três primeiros contos não me cativaram, confesso, e já estava pensando que tinha sido uma bobagem comprar o livro quando os contos começaram a melhorar, e foram crescendo até chegar ao último conto, O Homem Tatuado, que foi o que mais gostei. Parando para analisar o prólogo e esse crescente que foi o livro, terminei com uma boa impressão de Beatriz. Não é um livro perfeito, porque metade foi interessante, metade não, mas para quem se interessa por esse processo criativo dos escritores, acho que pode ser uma boa leitura. É, talvez eu tenha feito as pazes com o Tezza. Veremos.

Cristovão Tezza. Beatriz. Rio de Janeiro: Record, 2011.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dedicatórias e outras histórias

Quando encontro um livro, sempre gosto de abri-lo para olhar a dedicatória. Acho que isso diz muito sobre o autor e às vezes revela algo bem mais pessoal que o próprio texto. As epígrafes são interessantes, tenho mania de anotar aquelas que chamam minha atenção, mas é a dedicatória que me leva um pouco mais para perto do autor. Dedicar a alguém um trabalho que nos tomou tanto tempo, que contém tanto de nós e do nosso esforço é sem dúvida uma prova de amor. Uma homenagem a que nos é importante. Seja em um trabalho acadêmico, seja nos romances da literatura universal, as dedicatórias contam histórias e eu sempre lamento quando abro um livro de um escritor de quem gosto e não há dedicatória para ninguém.
Algumas dedicatórias surpreendem, e as mais bonitas foram feitas por grandes teóricos, nem sempre por grandes romancistas e poetas.

Uma das minhas favoritas foi escrita por Lawrence Venuti, um dos principais teóricos da tradução, no livro Escândalos da Tradução (The Scandals of Translation - towards an ethics of difference). Venuti dedicou o livro, um dos mais importantes na teoria da tradução, à Gemma Leigh Venuti, sua esposa, em italiano e em Japonês:

André Gorz, jornalista austríaco radicado na França, reconhecido mundialmente por seus trabalhos nas áreas da filosofia e sociologia, dedicou seu livro "Metamorfoses do Trabalho", assim como todos os outros que escreveu durante sua carreira, à sua esposa Dorine, sua companheira por quase 60 anos:


Gorz surpreendeu o mundo quando escreveu o livro "Carta a D., história de um amor", publicado no Brasil pela Cosac Naify, uma pungente declaração de amor a Dorine. Dirigindo-se à mulher doente, Gorz relata a história da paixão, cumplicidade e militância (com propostas inovadoras no setor trabalhista e uma atuação pioneira em ecologia política) que os uniu para sempre desde que se conheceram em Lausanne, na Suíça, em outubro de 1947. Com o agravamento irremediável da doença de Dorine, os dois se suicidaram e seus corpos foram encontrados lado a lado em 24 de setembro de 2007.

Um dos meus livros favoritos, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, do escritor Jonathan Safran Foer, tem uma das dedicatórias mais lindas, que encanta pela simplicidade e que faz todo o sentido para quem leu o livro. Ele foi dedicado à Nicole Krauss, também escritora e esposa de Foer:

Impossível falar de dedicatórias sem mencionar o escritor José Saramago, que com poesia e simplicidade fez as dedicatórias mais bonitas em vários dos seus livros para Pilar Del Rio: "A Pilar, como quem diz água"; "Para Pilar, minha casa"; "A Pilar, que não deixou que eu morresse":


No livro Morder-te o coração, a escritora portuguesa Patrícia Reis resume tudo em uma frase simples e apaixonada como esse livro, que eu muito recomendo.


Há ainda os que chamam a atenção por lembrar daqueles que quase sempre são esquecidos, apesar de possibilitar o nosso acesso a tantas obras de diversos países cujo idioma não dominamos. É o caso do escritor uruguaio Mario Benedetti, que dedicou seu livro A Borra do Café aos seus tradutores:


A escritora brasileira Andrea Del Fuego dedicou seu livro Os Malaquias, vencedor do Prêmio José Saramago em 2011, aos personagens da história. Segundo a autora, o livro foi inspirado em uma história de família, talvez por isso a homenagem:

E há livros que são inteiramente uma homenagem. Em Morreste-me, José Luís Peixoto dedica o livro inteiro ao seu pai, em uma declaração de amor e de saudade que emociona até os corações menos sensíveis. É o único livro do José Luís que tem dedicatória, o que só demonstra a importância desse gesto.

E vocês, tem alguma dedicatória bonita para compartilhar comigo? :)

Neil Gaiman e o poder da leitura

Vídeo apaixonante, merece ser visto!



fonte: o esquema

Valter Hugo Mãe fala do seu novo livro


Link para o áudio da entrevista com o escritor Valter Hugo Mãe sobre seu novo livro, A Desumanização:

http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917512&audio_id=3478247


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Escrever é traduzir



"Escrever é traduzir. Sempre o será. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos para um código convencional de signos, a escrita, e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não a integridade da experiência que nos propusemos transmitir, mas ao menos uma sombra do que no fundo do nosso espírito sabemos ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro [...] O trabalho de quem traduz consistirá, portanto, em passar a outro idioma (em princípio, o seu próprio) aquilo que na obra e no idioma original já havia sido “tradução”, isto é, uma determinada percepção de uma realidade social, histórica, ideológica e cultural que não é a do tradutor, substanciada, essa percepção, num entramado linguístico e semântico que igualmente não é o seu."

José Saramago

O meu peito diz



A voz é linda. A letra é de José Luís Peixoto. Para ouvir com o coração.
Minha dica de música para hoje.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O Nosso Reino


Valter Hugo Mãe em "O Nosso Reino"

Quando termino de ler um livro do Valter Hugo Mãe geralmente fico sem saber se sou capaz de dizer qualquer coisa sobre ele, algo que faça jus à beleza desse texto, aos pensamentos e sentimentos que ele desperta em nós. Foi assim com O Nosso Reino. Eu gostaria de comentá-lo aqui, mas hoje vou recorrer ao Daniel Pennac e ao meu direito de calar:

"Aquilo que lemos, calamos. O prazer do livro lido, guardamos, quase sempre, no segredo de nosso ciúme. Seja porque não vemos nisso assunto para discussão, seja porque, antes de podermos dizer alguma coisa, precisamos deixar o tempo fazer seu delicioso trabalho de destilação. E este silêncio é a garantia de nossa intimidade. O livro foi lido, mas estamos nele, ainda. Lemos e calamos. Calamos porque lemos".

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

As cartas que não chegaram

Encontrei esse livro na livraria ontem, traduzido pela Letícia Wierzchowski e com um comentário bonito dela, sobre como se emocionou lendo esse livro em uma viagem de trem pela Alemanha. Só de pensar no título, já dá pra sentir aquele aperto no coração, porque coisa triste é carta que não chega ao seu destino. E foi triste imaginar quantas cartas mais podem não ter chegado às mãos de quem as esperava, nessa época tão triste de guerra e de barbárie. É, a Alemanha aparece aqui não apenas como cenário para a leitura do livro pela tradutora, mas como cenário de uma parte importante da história. Os pais de Mauricio eram poloneses e fugiram de seu país para escapar dos nazistas. Eram judeus. Primeiro foi o pai quem partiu para o Uruguai, e com muito trabalho conseguiu trazer a mulher e o filho mais velho. Esperou muitas cartas de suas irmãs e do restante da família, cartas que não chegaram e causaram muito sofrimento. Mauricio, o filho mais novo, cresceu nesse outro país, não compartilhando do idioma dos pais e do irmão. Sem o iídiche, Mauricio fica um pouco distante desse sofrimento que os pais carregaram em silêncio durante a vida.

Imaginar a dificuldade do exílio, de aprender uma nova língua, em uma situação financeira muito difícil, de sofrer pela família que ficou na Polônia e que foi morta nos campos de concentração alemães é sempre algo que dói. Os relatos em trechos de cartas que teriam sido enviadas pelas tias contando como era a vida lá, ou o que os judeus ingenuamente pensavam que seria a vida lá a princípio, é de partir qualquer coração. Porque sabemos que foi assim que aconteceu e, por mais difícil que seja, são histórias que não podem ser esquecidas. Para quem já leu outros livros com relatos bem mais fortes de sobreviventes, sabe do que eu estou falando.

Mais adiante no livro, é Mauricio quem está preso e, para não enlouquecer, escreve cartas em seu coração, porque não havia papel, para o pai e para a mãe que estão lá fora lhe esperando. Não ficou muito claro o motivo da prisão de Mauricio durante a leitura, mas na contra-capa ficamos sabendo que ele foi Dirigente do Movimento de Libertação Nacional (Tupamaros) e, refém da ditadura uruguaia, ficou preso desde 1972 e mantido incomunicável em uma cela durante onze anos, seis meses e alguns dias. Essa informação é fundamental para entendermos a natureza do texto, um desabafo, uma catarse, um registro de uma vida que a muito custo tentava manter o mínimo de razão possível em tais circunstâncias. E lemos as cartas de Mauricio para o pai, o Velho, como ele chama no livro, como uma forma de não perder a conexão com o seu passado, com sua memória.

Um livro muito triste, sem dúvida, mas eu senti falta de uma introdução sobre a vida do autor, para nos ajudar a compreender um pouco mais dessas cartas, que falam sobre vários assuntos, desde o sofrimento dos familiares na Polônia, da saudade que ele sente da comida feita pela mãe sempre com muito amor, de como se sentia isolado por não partilhar com os pais do idioma materno e tantos outros pensamentos que povoaram seu sofrimento durante os anos em que esteve na prisão.

Mauricio Rosencof. As cartas que não chegaram. São Paulo: Record, 2013. Tradução: Letícia Wierzchowski.

A Literatura em Perigo


"Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me fez descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano. "

(Tzvetan Todorov em A literatura em perigo)

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Afinação.


Mariana Botelho. O silêncio tange o sino. São Paulo: Ateliê Editorial, 2010.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Tudo o que eu queria lhe dizer

Recebi uma fotografia e ela tinha que resultar em um texto. Exercício de escrita e imaginação. A fotografia colorida mostrava um casal jovem, abraçados, como se dançassem ou pulassem juntos, sorrindo. Estão no meio de uma praça onde se vê ao fundo muitas árvores, muito verde, algumas pessoas. Há uma fonte ou chafariz no centro da praça.

E o texto foi esse aqui:

Não tinha me dado conta de que o passado tinha ficado para trás, guardado em algum cantinho do coração. Será que eu também te esqueci? Abro uma pasta antiga, da qual já nem mais lembrava, e vejo você. E o seu sorriso gritando a nossa alegria. Aquele dia, lembra? Quando a gente era tão feliz sem saber. Aquela música que você gosta começou a tocar no rádio da loja da esquina, tão alto que a gente começou a rir. E você disse que queria dançar. Aqui no meio da praça? Tem certeza? E você disse que sim. Que queria dançar o nosso amor para o mundo inteiro ver. E eu te puxei para perto de mim e a gente dançou até depois da música acabar. Como pude esquecer esse dia?

Esse jeito tão seu foi o que me conquistou. Tinha um brilho no olhar e uma vontade tão grande de viver. Tinha pressa. Você dizia que eu era um bobo, me chamava de careta. Sempre pensei demais, Júlia, enquanto você dizia e fazia tudo sem pensar. Juntos, éramos completos.

Olho para trás e vejo esse céu azul que você amava, e me perco olhando esse azul dos seus olhos cansados ainda hoje. Eles dizem que você não se lembra, que eu preciso ter paciência. Ter paciência, Antônio, digo para mim. Faz parte da vida aceitar as coisas que não podemos mudar. Vejo seu olhar perdido nesse céu azul, e quero tanto saber o que você pensa nesse silêncio sem tamanho.

Trouxe comigo essa foto do nosso amor, que não envelhece, não no meu peito. Coloquei a fotografia no seu colo, depois de beijar seu rosto e sorrir para você. Eles dizem que você não se lembra de mim e isso vai me matando aos poucos. Como você pôde me esquecer assim?

Você pega a fotografia com ternura, seus dedos sobre o meu rosto jovem um carinho. E a gente se olha nos olhos e, por alguns instantes, eu vejo o mesmo brilho de antes nos seus. E você sorri pra mim.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Extremamente alto e incrivelmente perto


Histórias podem ser contadas e recontadas de várias maneiras, cada uma a partir de uma perspectiva diferente. Quando achei que nada mais podia ser contado sobre a tragédia de 11 de setembro que abalou os Estados Unidos, eis que surge Jonathan Safran Foer, uma das grandes promessas da literatura contemporânea, e nos emociona com a sua versão da história, que mistura humor e melancolia.

Uma história de sobreviventes, é assim que podemos resumir "Extremamente alto e incrivelmente perto" (Extremely loud & incredibly close, EUA, 2005), publicado no Brasil pela Editora Rocco, com ótima tradução do escritor Daniel Galera. O livro conta a história do pequeno Oskar Schell, um menino de 9 anos que perdeu o pai na queda das torres gêmeas e sofre com essa perda. Quando encontra a chave de uma porta e um nome anotado em um papel entre as coisas do pai, o menino, que nos encanta por sua inteligência, decide sair em busca da porta que será aberta pela chave, na esperança de encontrar um pouco mais do pai, sem se dar conta de que, na verdade, está apenas buscando uma forma de exorcizar a tragédia que abalou sua família. Durante essa jornada pelas ruas de Nova York, Oskar fará novos amigos, todos eles sobreviventes de alguma tragédia, seja ela física ou não, e aos poucos redescobrirá o amor de sua mãe, a quem estava culpando por tentar seguir uma vida normal sem o pai.

É uma história que nos faz pensar sobre as nossas próprias relações familiares e nos leva do riso (diante da inocência de Oskar ao ver o mundo) às lágrimas, quando compreendemos um pouco mais do seu sofrimento e sentimos vontade de consolá-lo. Depois de ler "Extremamente alto e incrivelmente perto" acho pouco provável que alguém tenha a coragem de deixar uma carta sem resposta, principalmente se for de uma criança, por mais corrida que a vida possa ser. E ainda: acho que depois desse livro não perderemos mais a chance de dizer às pessoas que nos são importantes o quanto as amamos, sempre que houver uma oportunidade.

O livro de Jonathan Safran Foer ganhou em 2012 uma nova tradução, agora para o cinema, com direção de Stephen Daldry e tem no elenco grandes nomes como Sandra Bullock e Tom Hanks. No Brasil o filme tem o título "Tão forte e tão perto", e também me emocionou bastante.

Jonathan Safran Foer. Extremamente alto e incrivelmente perto. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A Elegância do Ouriço

Estou revisitando alguns livros de minha estante sobre os quais, não sei porque motivo, deixei de registrar minhas impressões. Hoje decidi então escrever sobre um livro que me é muito querido: A Elegância do Ouriço, da escritora francesa Muriel Barbery. Lembro que fiquei sabendo desse romance logo que ele foi lançado pela Companhia das Letras, em 2008, quando meu pai me mostrou um comentário na revista Carta Capital falando sobre o livro e me disse que ele tinha tudo a ver comigo pela descrição. Uma personagem que é a zeladora de um prédio muito chic em Paris e que esconde um segredo: uma paixão pela arte e pela literatura. E logo que ele terminou de me dizer isso eu já estava na livraria comprando o livro. E ele tinha toda razão, porque me apaixonei pela história. Depois disso, acho que já comprei duas ou três edições que acabaram virando presente para pessoas queridas, que depois de uma conversa gostosa sobre a história ficaram com muita vontade de ler também. E hoje procurando o livro me dei conta de que não tenho mais a edição em português. Nesses momentos, ter mais de uma edição de um livro favorito, ainda que em outro idioma, não tem preço. (tudo culpa dessa mania de ser precavida, viu, gente? Precaução: motivo maior de se ter mais de uma edição do mesmo livro) =]

Toda a história se passa em um prédio luxuoso de Paris. As pessoas que  moram lá são bem esnobes, a alta burguesia que precisa realmente esbanjar tudo o que tem, sendo que na verdade sabe muito pouco ou quase nada sobre o que tem. Entre os moradores do prédio, uma família se destaca: a família Josse. O pai de Paloma é um político muito influente; a mãe é uma super dondoca que durante todo o livro dará demonstrações claras do quanto é vazia; a irmã de Paloma, que segue o mesmo caminho da mãe e com quem Paloma não tem nenhuma afinidade. E por fim, Paloma, uma menina de 11 anos, brilhante e extremamente inteligente, além de muito sensível. Na verdade, ela é a pessoa mais lúcida dessa família onde as relações são muito superficiais. Paloma sofre com isso, por não sentir que pertence a esse meio em que se encontra, e planeja se suicidar no seu próximo aniversário, tamanha é a sua solidão. É lendo o diário de Paloma que vamos compreendendo esse universo e o que se passa pela cabeça dessa personagem que imediatamente nos cativa. Dá vontade de adotar Paloma como filha.

A outra personagem principal é a zeladora Renne, uma mulher discreta, calada, meio sisuda, sobre a qual ninguém sabe nada. E é aqui que talvez esteja a grande crítica da Muriel Barbery: será que a Renne realmente esconde um segredo ou será que ela é invisível pela condição social que ocupa entre os habitantes desse prédio? Os moradores entram e saem sem lhe dirigir o olhar. Muitos deles nem sabem o nome da zeladora, que segue cuidando e mantendo a rotina do prédio em funcionamento e, ao final do dia, encontra no seu quarto um pequeno refúgio, espaço para seu gato e para os muitos livros que devora. Renné é uma leitora voraz, uma mulher extremamente culta, mas que não fica esnobando esse conhecimento todo para os outros. E é isso o que eu mais gosto nessa personagem. Renne tem um conhecimento vasto sobre os clássicos da literatura mundial, que acumula em cada canto disponível do seu quarto; sabe muito sobre teatro, sobre ópera, sobre música clássica. Paloma, essa menina inteligente, mas que anda cultivando pensamentos mórbidos, é a única moradora do prédio que consegue de fato “ver”  Renne.  E Renne, por sua vez, sendo igualmente sensível diante do universo que habita, consegue ver que Paloma está sofrendo, pois entende como ela se sente. As duas, através do amor à literatura e à arte, desenvolverão uma amizade bonita e redentora. Por conta de Renne, os planos de Paloma talvez mudem. E com Paloma, talvez Renne se faça notar, sem esconder o que de belo tem na alma.

Enquanto essa amizade se desenvolve, é o gato de Renne que vai mudar todo o destino da história. Um novo morador chega ao prédio, um japonês muito educado chamado Kakuro Ozu, e notando o nome do gato de Renne percebe imediatamente que ela não é tão comum quanto o que os outros moradores pensam. Ele também tem olhos que conseguem ver as pessoas como elas são e o muito que elas podem trazer para nossas vidas.

A Elegância do Ouriço não é só um livro sobre amizade. É um livro sobre a vida, sobre a importância do conhecimento (mas do conhecimento que se compartilha e que nos enriquece, sem esnobismos), uma reflexão bonita e, em alguns momentos, até filosófica sobre o ser humano (acredito que por conta da formação da autora em filosofia) através de personagens extremamente complexos.

Hoje fiquei com muita vontade de reler essa história (já estou com minha edição em inglês em mãos) e isso já é o suficiente para dizer o quanto esse livro é especial. São poucos os livros que podemos revisitar. Só aqueles dos quais sentimos saudades. Não posso deixar de recomendar também o filme que é igualmente lindo e tem cenas muito engraçadas: A Elegância do Ouriço (Mona Achache, Le Hérrison, 2009).

Muriel Barbery. A elegância do ouriço. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 352 páginas. Tradução: Rosa Freire D'Aguiar.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A Caminhada

Obrigada por me acompanhar. Ainda que seja para caminhar ao meu lado em silêncio. Não compartilhamos os nossos silêncios com qualquer pessoa. Só com aquelas com as quais a nossa alma conversa. Os dias estão tão confusos, tanta gente falando ao mesmo tempo, quase não consigo ouvir meu coração. Silêncio é bom. É como se alcançássemos por alguns instantes a eternidade. Tenho vontade de segurar tua mão como fazia antigamente. Para atravessar a rua, passear nesse parque. Por que deixamos de dar as mãos? Já não me lembro. Em algum lugar entre o ser criança e essa vida louca. Sinto saudade desse tempo em que nada perturbava o meu sono, nada conseguia deixar inquieto meu coração. Não havia grandes decisões a serem tomadas. Viver bastava. Era um tempo bom e a gente não sabia. E vivíamos sonhando com o futuro. Que tolos éramos nós!

Caminhar por esse parque traz calma ao meu coração. Sinto-me mais forte por você estar aqui. És o meu chão. Fico me perguntando se você ainda sabe disso. Costumava dizer isso sempre quando era criança, e depois não sei mais porque deixei de lhe dizer. Porque mesmo que deixamos de dizer as coisas mais importantes?

Estava pensando e pensando sem parar sobre o que tenho que fazer, sobre a grande decisão que eu tenho que tomar, até você chegar. E trazer de volta a paz. Você sempre disse que eu fico nervosa à toa, mas não sei ser diferente. Nunca soube. Ir ou ficar, partir ou chegar, sempre é tão difícil escolher. E mesmo que eu não dissesse nada, bastava um olhar e você me via por inteiro. Espelho.

Caminhar mais um pouco para acalmar o coração, assim em silêncio mesmo. Nossas almas conversam, se entendem. Sempre foi assim. Mesmo que eu não diga nada. Mesmo que a gente não dê as mãos. Há uma força tão grande nesse amor que pode afastar qualquer coisa dolorosa do caminho. Espanta o medo, apaga a dor, alimenta. Amor-chão.

(Paula Dutra - 28/09/2013)
*texto inspirado em uma fotografia, exercício de escrita criativa - a fotografia em preto e branco é de um parque no inverno, provavelmente coberto de neve. No plano de fundo, duas mulheres caminham lado a lado.

domingo, 29 de setembro de 2013

Para não perder a ternura

Valter Hugo Mãe inquieta-se no seu novo livro

Desde que eu li O Filho de Mil Homens que me encantei pela escrita do Valter Hugo Mãe. Poético, intenso, imensamente humano. Cada livro é uma aventura poética, que provoca em nós a reflexão sobre temas importantes da vida. Tive a sorte de conhecer a escrita de Valter Hugo Mãe lendo O Filho de Mil Homens, que é meu grande favorito. Depois dele nenhum outro livro chegou tão perto do meu coração. Por tudo isso, a expectativa em relação ao novo romance, A Desumanização, que acaba de ser lançado em Portugal (com previsão de lançamento aqui no Brasil para o início de 2014) era das maiores. E o livro não me decepcionou. Continuou sendo essa leitura que instiga e que é por si só uma aventura.

Mas A Desumanização não é um livro fácil, que possibilite aquela leitura corriqueira e despretensiosa. Estava tão ansiosa para ler o livro que ele foi devorado tão logo chegou às minhas mãos. E apesar de ter gostado muito da leitura, terminei de ler com a sensação de quero mais, de quero outra vez, porque eu fui rápida demais. Então comecei a ler novamente. Sem pressa. Apreciando a linguagem como esse livro deve ser lido. E senti a necessidade de reescrever esse comentário sobre o livro.

A linguagem poética de Valter Hugo Mãe parece emergir dessa Islândia onde a natureza é tão forte, onde a solidão é tão grande. Sim, o livro fala de solidão, mas não só sobre isso. Fala de amor, de perdas, de luto, de relações familiares, e muitas outras coisas. E contando a história de uma menina que perde a sua irmã gêmea quando criança, nessa Islândia que passamos a imaginar pelas descrições como um lugar talvez difícil de se viver (uma representação do mundo de hoje?), onde as pessoas vão perdendo a sensibilidade para conseguir continuar vivendo diante de ações e sentimentos cada vez mais desumanos. A decadência da família de Halla é contada, e todo o sofrimento que a perda de sua irmã gêmea vai acarretar na vida das personagens é o fio condutor da história. Temos uma criança perdendo sua inocência e lutando para manter sua individualidade, e é bem chocante a figura materna nessa história, que não se conforma com a dor de perder uma filha, e que acaba por se tornar uma pessoa muito cruel pelo sofrimento. A filha que sobrevive será sempre a lembrança da que morreu. A solidão na dor e na ausência, por parte da mãe, e a solidão imensa da filha que fica "órfã" de mãe em vida e que perde sua metade, sua irmã. 

Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho”, essa frase de Halldór Laxness, é a epígrafe do livro e a inspiração para o nome da personagem principal, Halldora, uma menina de 11 anos. É muito interessante ver a capacidade do autor de dar voz a essa personagem, narrando os sentimentos dessa menina, que ao longo do livro vai se tornando mulher, enfrentando todas as mudanças e descobertas que uma menina entrando na adolescência vai vivenciar.

Em A Desumanização, a figura paterna ganha força na história como ponto de equilíbrio diante da crueldade da figura materna. É o pai de Halla que traz a poesia e a literatura para a vida da filha e com isso ambos ganham uma dose extra de força para sobreviver aos desencantos:

"Os poemas, dizia o meu pai, podem ser completos como muito do tempo e do espaço. Podem ser verdadeiramente lugares dentro dos quais passamos a viver".

"O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia".

Continuo achando que Valter Hugo Mãe é um dos escritores contemporâneos que devem ser lidos, porque em todos os livros dele terminamos a leitura refletindo sobre algo relevante. É sempre difícil terminar de ler um livro dele e dizer alguma coisa a respeito, pelo menos é assim que eu me sinto. É como se precisássemos de silêncio para que toda essa realidade dolorosa dos temas que ele aborda possa ser absorvida. E se essa não é a literatura que transforma, então eu não sei mais o que é. Creio que foi em O Filho de Mil Homens que o autor nos deu uma pequena permissão para sonhar, pois nos outros livros, e em A Desumanização não é diferente, por mais doloroso que nos seja, (por mais doloroso que seja para o autor também, como ele mesmo afirmou em entrevistas) a vida não perdoa os personagens. E nem todo leitor está preparado para esse tipo de leitura. Eu já espero ansiosamente pelo próximo livro do Valter Hugo Mãe.

Valter Hugo Mãe. A Desumanização. Portugal: Porto Editora, 2013. 252 páginas

O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer.” ...”Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos.”

Link para uma entrevista do autor sobre A Desumanização: clique aqui

Link para o vídeo do autor apresentando o livro: