quinta-feira, 5 de outubro de 2017

E o Prêmio Nobel vai para...


O escritor inglês Kazuo Ishiguro ganhou hoje o Prêmio Nobel de Literatura 2017 "por seus romances de grande força emocional que revelaram o abismo sob o nosso senso ilusório de conexão com o mundo", disse a Academia Sueca. Eu sempre lamento quando o prêmio não vai para uma escritora, mas hoje confesso que fiquei feliz com a premiação, pois Ishiguro escreveu um dos livros da minha vida (aquela listinha seleta de livros que me emocionaram muito e com os quais me identifiquei profundamente): Os vestígios do dia é um dos livros mais bonitos que eu já li. O filme, adaptado para o cinema em 1993, com Anthony Hopkins e Emma Thompson, também é incrível. (Clique para ver o filme). Também gostei bastante de Não me abandone jamais (Never let me go), que já virou filme.



Kazuo Ishiguro nasceu em 8 de novembro de 1954, em Nagasaki, no Japão. A família mudou-se para o Reino Unido quando ele tinha cinco anos. Ele só voltou para visitar seu país de origem quando adulto. No final dos anos 1970, formou-se em Inglês e Filosofia pela University of Kent, e depois estudou escrita criativa na University of East Anglia. Desde a publicação de seu primeiro romance, Uma pálida visão dos montes (A Pale View of the Hills) em 1982, é escritor em tempo integral. Ele ganhou o Booker Prize em 1989 por Os vestígios do dia. Os temas mais associados às suas obras são a memória, o tempo e a desilusão. Seus dois primeiros romances são ambientados em Nagasaki, logo após a Segunda Guerra Mundial. Além dos oito livros publicados, Ishiguro também escreveu roteiros para o cinema e televisão.

Obras de Kazuo Ishiguro:

(1982) Uma pálida visão dos montes (A Pale View of Hills)
(1986) Um artista do mundo flutuante (An Artist of the Floating World)
(1989) Os vestígios do dia (The Remains of the Day)
(1995) O Inconsolável (The Unconsoled)
(2000) Quando Éramos Órfãos (When We Were Orphans)
(2005) Não me abandone jamais (Never Let Me Go)
(2015) O Gigante Enterrado (The Buried giant)

(Informações traduzidas por mim e extraídas do site da Academia Sueca, aqui ).

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Dos direitos das mulheres



CONVENÇÃO INTERAMERICANA PARA PREVENIR,
PUNIR E ERRADICAR A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER,
“CONVENÇÃO DE BELÉM DO PARÁ”

(Adotada em Belém do Pará, Brasil, em 9 de junho de 1994,
no Vigésimo Quarto Período Ordinário de Sessões da Assembléia Geral)


            OS ESTADOS PARTES NESTA CONVENÇÃO,

            RECONHECENDO que o respeito irrestrito aos direitos humanos foi consagrado na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e na Declaração Universal dos Direitos Humanos e reafirmado em outros instrumentos internacionais e regionais;

            AFIRMANDO que a violência contra a mulher constitui violação dos direitos humanos e liberdades fundamentais e limita total ou parcialmente a observância, gozo e exercício de tais direitos e liberdades;

            PREOCUPADOS por que a violência contra a mulher constitui ofensa contra a dignidade humana e é manifestação das relações de poder historicamente desiguais entre mulheres e homens;

            RECORDANDO a Declaração para a Erradicação da Violência contra a Mulher, aprovada na Vigésima Quinta Assembléia de Delegadas da Comissão Interamericana de Mulheres, e afirmando que a violência contra a mulher permeia todos os setores da sociedade, independentemente de classe, raça ou grupo étnico, renda, cultura, nível educacional, idade ou religião, e afeta negativamente suas próprias bases;

            CONVENCIDOS de que a eliminação da violência contra a mulher é condição indispensável para seu desenvolvimento individual e social e sua plena e igualitária participação em todas as esferas de vida; e

            CONVENCIDOS de que a adoção de uma convenção para prevenir, punir e erradicar todas as formas de violência contra a mulher, no âmbito da Organização dos Estados Americanos, constitui positiva contribuição no sentido de proteger os direitos da mulher e eliminar as situações de violência contra ela,

            CONVIERAM no seguinte:

CAPÍTULO I

DEFINIÇÃO E ÂMBITO DE APLICAÇÃO

Artigo 1

            Para os efeitos desta Convenção, entender-se-á por violência contra a mulher qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada.

Artigo 2


            Entende-se que a violência contra a mulher abrange a violência física, sexual e psicológica:

a.    ocorrida no âmbito da família ou unidade doméstica ou em qualquer relação interpessoal, quer o agressor compartilhe, tenha compartilhado ou não a sua residência, incluindo-se, entre outras formas, o estupro, maus-tratos e abuso sexual;

b.     ocorrida na comunidade e cometida por qualquer pessoa, incluindo, entre outras formas, o estupro, abuso sexual, tortura, tráfico de mulheres, prostituição forçada, seqüestro e assédio sexual no local de trabalho, bem como em instituições educacionais, serviços de saúde ou qualquer outro local; e

c.       perpetrada ou tolerada pelo Estado ou seus agentes, onde quer que ocorra.


CAPÍTULO II

DIREITOS PROTEGIDOS

Artigo 3

            Toda mulher tem direito a ser livre de violência, tanto na esfera pública como na esfera privada.

Artigo 4

            Toda mulher tem direito ao reconhecimento, desfrute, exercício e proteção de todos os direitos humanos e liberdades consagrados em todos os instrumentos regionais e internacionais relativos aos direitos humanos.  Estes direitos abrangem, entre outros:

a.       direito a que se respeite sua vida;

b.       direito a que se respeite sua integridade física, mental e moral;

c.       direito à liberdade e à segurança pessoais;

d.       direito a não ser submetida a tortura;

e.       direito a que se respeite a dignidade inerente à sua pessoa e a que se proteja sua família;

f.        direito a igual proteção perante a lei e da lei;

g.       direito a recurso simples e rápido perante tribunal competente que a proteja contra atos que violem seus direitos;

h.       direito de livre associação;

i.        direito à liberdade de professar a própria religião e as próprias crenças, de acordo com a lei; e

j.        direito a ter igualdade de acesso às funções públicas de seu país e a participar nos assuntos públicos, inclusive na tomada de decisões.

Artigo 5

            Toda mulher poderá exercer livre e plenamente seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais e contará com a total proteção desses direitos consagrados nos instrumentos regionais e internacionais sobre direitos humanos.  Os Estados Partes reconhecem que a violência contra a mulher impede e anula o exercício desses direitos.

Artigo 6

            O direito de toda mulher a ser livre de violência abrange, entre outros:

  a.     o direito da mulher a ser livre de todas as formas de discriminação; e

  b.     o direito da mulher a ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e costumes sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação. 

Link para o documento completo, aqui

Leitura recomendada: Já se mete a colher em briga de marido e mulher.

Relógios da Violência

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Escuro


A CARTA
(Ana Luísa Amaral)

Senhores:
hão de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos

Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão

Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira

Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai

Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas,
eu, que as fui construindo devagar,
na escuridão da cela

O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários

Não fui só voz:
fui eu, dona de mim,
porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso

Só para isso me valeu viver,
para compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei

Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário

Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência

Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura

E os atos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura

E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui

Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus

Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência

Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói -

AMARAL, Ana Luísa. Escuro. São Paulo: Iluminuras, 2015. p. 47-48.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Na esperança, o homem


Da cabeceira do rio, as águas viajantes
não desistem do percurso.
Sonham.

A seca explode no leito vazio
e a pele enrugada da terra seca e
sonha.

O barco espera.
O sábio contemplativo aguarda.
O homem, ao peso de qualquer lenho,
Não se curva.
Sonha.

Sonha e faz
com o suor de seu rosto,
com a água de seus olhos,
com a fluidez de sua alma,
cospe e cospe no solo
amolecendo a pedra bruta.

Faz e sonha.

E no outro dia, no amanhã de muitos
outros dias, a vida ressurge fértil,
úmida,
alimentada pelo seu hálito.

E que venham todas as secas,
o homem esperançoso
há de vencer.

Conceição Evaristo. Poemas da recordação e outros movimentos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Malê, 2017. p. 55-56.

domingo, 20 de agosto de 2017

O castelo de vidro



O castelo de vidro é um romance biográfico no qual a jornalista e escritora estadunidense Jeannette Walls narra suas memórias de infância e as memórias de sua família bem peculiar. Boêmios, errantes, sem vínculo a nenhum lugar e sem nenhum apego aos valores tradicionais, essa família atípica vive na verdade em condições insalubres, de muita pobreza e privações, fugindo de credores - mas tudo isso é mascarado e romantizado no discurso dos pais, que tentam convencer seus filhos e a si mesmos de que a vida que levam é por opção.

O pai de Jeannette era alcoólatra e não permanecia nos empregos por muito tempo. Quando bebia, sempre voltava para casa agressivo, principalmente com a esposa. Apesar de ser carinhoso com os filhos e ter um carinho especial pela filha Jeannette, que sempre acreditava em suas histórias mais mirabolantes, os problemas em família eram muitos: as crianças não frequentavam a escola, ficavam com frio e com fome porque ele gastava todo o dinheiro que recebia em bebidas e apostas, com roupas rasgadas e morando em casas em condições precárias ou mesmo dormindo ao relento enquanto a família inteira se mudava de cidade em cidade, carregando seus poucos pertences em um carro velho, que quase sempre os deixavam no meio do caminho.

Muito dessa negligência é narrada pela autora com certo romantismo. De certa forma, é de se imaginar que apesar de todos os problemas que ela descreve no livro, de tudo que os pais aprontaram com ela e os irmãos (e que a maioria das pessoas com bom senso considerariam negligência e irresponsabilidade) ela ainda sente por eles amor, talvez até mais compaixão. Há sempre uma passagem mais terna depois de um incidente bem problemático que faz com que o problema se suavize em uma leitura mais rápida. Ou talvez seja simplesmente o desejo da autora de não querer condenar os pais pelos seus erros, na tentativa de mostrar que também houve pontos positivos em sua criação.

Desde a infância que Jeannette ouvia do pai que ele construiria um castelo de vidro para a família: uma casa com telhado de vidro para que eles pudessem observar as estrelas e com tudo o que cada um deles sonhava em ter em uma casa, o que na época eles não tinham. Jeannette era a única que parecia ainda acreditar nessa promessa do pai, de que ele encontraria ouro ou ganharia muito dinheiro para construir o castelo de vidro. A irmã mais velha de Jeannette e a mãe já conseguiam perceber que isso era só mais uma das histórias do pai. Essa relação mais próxima entre Jeannette e o pai é narrada com sentimento pela autora, que ainda assim não deixa de registrar os momentos (muitos, na verdade) em que o pai a decepcionou. 

Foram muitas as questões que chamaram a minha atenção no livro. A primeira é como esse casal com cinco filhos conseguiu fugir das instituições responsáveis por proteger os menores de idade. Uma única tentativa de visita do oficial de justiça na casa dessa família é narrada pela autora e mesmo assim, depois disso ninguém mais aparece. O que nos faz pensar na fragilidade desse sistema de proteção que, mesmo com denúncias, provavelmente dos vizinhos, nada é feito pelas crianças.

A segunda questão são as inúmeras violências que as meninas e mulheres sofrem. Desde a mãe de Jeannette, que derruba a narrativa romântica do pai de como eles se casaram para revelar que ele não aceitava um não como resposta, às agressões verbais e físicas que a mãe sofria quando o pai voltava bêbado para casa. O impacto dessa violência na formação das crianças, que presenciavam tudo isso e “fingiam não ver” como uma forma de sobrevivência, é algo terrível de se imaginar. Nesse sentido o livro também mostra o impacto desses problemas na vida das crianças quando toda a família precisa voltar para a cidade natal do pai e morar na casa da avó paterna, também alcoólatra, e esse período é suficiente para que as crianças também compreendam o que o pai deles havia sofrido.

A própria Jeannette é atacada por um dos meninos do bairro que quer namorar com ela (ela nem tinha doze anos na época) e esse acontecimento é silenciado porque ela conseguia pressentir, desde aquele momento, que isso traria muitos problemas para ela, ou seja, as mulheres dessa família já crescem aprendendo que o silêncio é o caminho que a mulher deve tomar nessa sociedade. Pouco tempo depois, ela é assediada dentro de casa por um tio e quando relata o ocorrido para a mãe esta é a resposta (que me deixou bastante inconformada, para usar um eufemismo, tamanho foi o absurdo do argumento e a negligência da mãe):

“Está tudo certo – disse, e explicou que agressão sexual era um crime de percepção. – Se você não acha que foi agredida, não foi. Muitas mulheres fazem escândalo demais com essas coisas. Mas você é mais forte que isso – falou, e voltou às palavras cruzadas” (WALLS, p. 215).

Além disso, uma das colegas de escola de Jeannette, quando mais tarde eles retornam para a cidade natal do pai e voltam a frequentar a escola, tem uma significativa mudança de comportamento, que chama a atenção de Jeannette e que ela explica como sendo pela mudança do namorado da mãe para casa onde ela morava. Pouco tempo depois a menina diz estar grávida, não aparece mais na escola e quando Jeannette vai até a casa dela saber o que está acontecendo o namorado da mãe não permite que ela fale com a amiga. E essa violência, tão evidente para quem lê, é só mais uma das muitas violências descritas no livro que ficaram por isso mesmo.

O ponto alto do livro talvez seja mostrar a determinação dessas crianças em lutar pelo sonho de sair dali, de ter uma vida melhor e fazer tudo para conseguir isso. Certamente foi uma infância bastante prejudicada pela preocupação que tinham com a comida, com o frio, com as roupas, às vezes agindo com mais maturidade que os próprios pais. De tão surreal, por vezes queremos acreditar que essa história é ficção, mas infelizmente não é. Talvez por isso nós sentimos (ou a autora mesmo) o desejo de extrair dessa história algo positivo.

Vejo o livro como uma forma de a autora exorcizar esse passado e talvez ficar em paz com suas próprias lembranças. Sem dúvida é uma história que nos inquieta e faz pensar em quão complexas são as relações familiares - nunca perfeitas, é certo – mas em alguns casos bastante problemáticas. É importante ter em mente isso durante a leitura, e reconhecer e nomear essas violências que acabam por ser naturalizadas ao se transformarem em apenas mais uma história.


*Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Drummond

Carlos Drummond de Andrade. Eterno.
(31 de outubro de 1902 - 17 de agosto de 1987)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Cozinha de afeto


Quem me conhece sabe o quanto gosto de histórias que misturam receitas e a paixão pela culinária. Mais que um livro de receitas, Cozinha de afeto, de Alexandra Gonsalez e Sônia Xavier, é um livro de histórias de mulheres que vieram para o Brasil em diferentes épocas e condições e aqui construíram parte de sua história de vida, sempre ligadas pelos ingredientes e temperos de sua terra natal. 

Na bagagem de qualquer imigrante, além de alguns objetos que carregam memórias afetivas, há também as lembranças dos aromas e sabores e as receitas, muitas vezes passadas de geração para geração, de sua culinária. 

Nesse livro, são doze mulheres imigrantes, vindas de Angola, Alemanha, Argentina, Colômbia, Etiópia, Espanha, Índia, Irã, Japão, Grécia, Itália e Ucrânia, que reconstituem uma pouco de sua história e da história de suas famílias ao narrar as lembranças associadas a uma refeição de família, e aos sabores dos ingredientes muitas vezes só encontrados em sua terra natal, que precisaram ser substituídos aqui no Brasil. O resultado são receitas e histórias cheias de paixão, que descrevem os sentimentos vividos nesse percurso: da viagem e do estranhamento ao chegarem aqui, à saudade de casa e os novos encontros realizados aqui no país. Como em uma boa comida, a prova de que é a mistura de temperos (e de culturas) que rende uma boa história.


domingo, 23 de julho de 2017

Elas por elas


Qualquer lista ou seleção sempre deixa de incluir algo, não tem jeito. No caso dessa antologia, organizada por Rosa Amanda Strausz, não é diferente. Basta uma rápida olhada nos nomes listados na capa para perceber que são todas autoras brancas e já consagradas no campo literário brasileiro. Não que por isso muitas delas não sejam excelentes, porque são. Mas eu particularmente acho que a graça das antologias é justamente esta: permitir que a gente conheça novas autoras ou autoras cujos trabalhos não sejam fáceis de encontrar (no caso do Elas por Elas, apenas o texto de Pagu se encaixa nessa categoria). O olhar crítico, no entanto, me faz questionar por que outros nomes indispensáveis de nossa literatura não fazem parte dessa seleção. Mas, como já mencionei, toda seleção é o olhar de uma pessoa e é quase impossível agradar a todos, não é mesmo?

Em tempos de Leia Mulheres, no entanto, a antologia Elas por Elas é uma ótima opção para quem quer ampliar suas leituras de textos escritos por mulheres. O livro traz textos (contos, crônicas e poemas) de importantes escritoras brasileiras que, mesmo que você já tenha lido algum texto delas na escola, ainda há muito mais por ler. Para quem já tem alguma leitura dessas autoras, como foi meu caso, o livro pode perder um pouco o encanto, mas, mesmo assim, ainda me encantei com o conto de Maria Valéria Rezende e o de Nélida Piñon, de quem ainda não havia lido nada e fiquei mesmo com vontade de ler tudo. Destaco também o conto de Lígia Fagundes Telles, de Clarice Lispector e Cintia Moscovich que estão entre os cinco melhores pra mim.

Se você conhece alguma outra antologia bacana, escreve pra mim nos comentários, vou adorar receber sua indicação =]

                                                                                        

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Contemporâneo



Que te devolvam a alma
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida,
Uiva se quiseres,
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa,
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida
Escancara a tua boca
Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA.


Hilda Hilst. Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

sábado, 29 de abril de 2017

O fio da palavra



"Minha memória tem espaço para infinitas paisagens. Tudo que desconheço minha memória inventa. 
Mas hoje acordei sem coceira nos dedos. Despertei vazio de pensamentos. Um grande nada acordou comigo. Não quero jardim, deserto ou mar. Há dias em que a preguiça de pensar me persegue. A memória exige trégua para descansar. O mundo inteiro parece vivido.
A vida se nega a novas notícias. O coração parece bater desafinado - sem corda - e pulsa quase parando sem força para fortes fôlegos. Ter memória é embriagar-se de lucidez."

Bartolomeu Campos de Queirós, O fio da palavra

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro


Feliz Dia Mundial do Livro! =]

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Desumanização


“Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos 
do que representamos entre todos.” 

Poético, intenso, imensamente humano. Essas são as palavras que quase sempre uso para falar dos livros de Valter Hugo Mãe. A nova edição de A Desumanização acaba de ler lançada pela Biblioteca Azul e foi um convite a reler esse livro quatro anos depois da minha primeira leitura.

A linguagem poética de Valter Hugo Mãe parece emergir dessa Islândia onde a natureza é tão forte, onde a solidão é tão grande. Sim, este livro fala de solidão, mas não só sobre isso. Fala de amor, de perdas, de luto, de relações familiares, e muitas outras coisas. E contando a história de uma menina que perde a sua irmã gêmea quando criança, nessa Islândia que passamos a imaginar pelas descrições como um lugar talvez difícil de viver (uma representação do mundo de hoje?), aonde as pessoas vão perdendo a sensibilidade para conseguir continuar vivendo diante de ações e sentimentos cada vez mais desumanos. A decadência da família de Halla é contada, e todo o sofrimento que a perda de sua irmã gêmea vai acarretar na vida das personagens é o fio condutor da história. Temos uma criança perdendo sua inocência e lutando para manter sua individualidade, e é bem chocante a figura materna nessa história, que não se conforma com a dor de perder uma filha, e que acaba por se tornar uma pessoa muito cruel pelo sofrimento. A filha que sobrevive será sempre a lembrança da que morreu. A solidão na dor e na ausência, por parte da mãe, e a solidão imensa da filha que fica "órfã" de mãe em vida e que perde a sua metade, sua irmã. 

“Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho”. Essa frase de Halldór Laxness é a epígrafe do livro e a inspiração para o nome da personagem principal, Halldora, uma menina de 11 anos. É muito interessante ver a capacidade do autor de dar voz a essa personagem, narrando os sentimentos dessa menina, que ao longo do livro vai se tornando mulher, enfrentando todas as mudanças e descobertas que uma menina entrando na adolescência costuma vivenciar.

Em A Desumanização, a figura paterna ganha força na história como ponto de equilíbrio diante da crueldade da figura materna. É o pai de Halla que traz a poesia e a literatura para a vida da filha e, com isso, ambos ganham uma dose extra de força para sobreviver aos desencantos:

"Os poemas, dizia o meu pai, podem ser completos como muito do tempo e do espaço. Podem ser verdadeiramente lugares dentro dos quais passamos a viver".

"O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia".

Continuo achando que Valter Hugo Mãe é um desses escritores contemporâneos que devem ser lidos, porque em todos os seus livros terminamos a leitura refletindo sobre algo relevante. É sempre difícil terminar de ler um livro dele e dizer alguma coisa imediatamente a respeito, pelo menos é assim que eu me sinto. É como se precisássemos de silêncio para que toda essa realidade dolorosa dos temas que ele aborda pudesse ser absorvida. E se essa não é a literatura que verdadeiramente transforma, que nos coloca no lugar do outro, então eu não sei mais o que é. 

Creio que foi em O Filho de Mil Homens que o autor nos deu uma pequena licença de sonhar, pois nos outros livros, e em A Desumanização não é diferente, por mais doloroso que isso nos seja, (por mais doloroso que seja para o autor também, como ele mesmo afirmou em entrevistas) a vida não perdoa as personagens. E nem todo leitor está preparado para esse tipo de leitura. Espero que você, leitora / leitora, aceite o desafio.

A Desumanização é um desses livros que podem ser lidos e relidos a vida inteira, pelo belíssimo trabalho com a linguagem que o autor desenvolve em suas páginas e, principalmente, pelo retrato da vida e das relações humanas que o olhar atento e sensível de Valter Hugo Mãe sempre consegue registrar.

“O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer.” 

MÃE, Valter Hugo. A Desumanização. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017. 

domingo, 12 de março de 2017

As mãos de meu pai

Imagem: Gayle George
As mãos de meu pai 
(Mário Quintana)


As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
— como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da
nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa
beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos
braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
contra o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre
das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos
nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria
vida
... e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Descascando cebolas

Lilly Martin Spencer (1822 –1902) Peeling Onions



Descascando cebolas (Adrienne Rich)

Só para ter um pesar
equivalente a todas essas lágrimas!

Nem um soluço em meu peito.
De coração impávido como Peer Gynt
eu corto tudo, sem heróis,
uma mera cozinheira.

Chorar já foi trabalho, uma vez
quando tive bom motivo.
Caminhando, senti meus olhos como feridas
abertas em minha cabeça.
Por isso os atendentes dos correios, pensei, deviam me encarar.
Um olhar de cachorro, de um gato, fizeram-me sentir dor -
ainda assim tudo permaneceu
preso em meus pulmões feito neblina escura.

Essas velhas lágrimas na tigela de cortar cebolas.

[Traduzido do inglês por Paula D.]


Peeling Onions (Adrienne Rich)

Only to have a grief
equal to all these tears!

There's not a sob in my chest.
Dry-hearted as Peer Gynt
I pare away, no hero,
merely a cook.

Crying was labor, once
when I'd good cause.
Walking, I felt my eyes like wounds
raw in my head,
so postal-clerks, I thought, must stare.
A dog's look, a cat's, burnt to my brain -
yet all that stayed
stuffed in my lungs like smog.

these old tears in the chopping-bowl.

[1961]

RICH, Adrienne. The fact of a doorframe, 1984.

sábado, 4 de março de 2017

Meu poema sem palavras

Starry Night Over the Rhone - Vincent Van Gogh

[por Adrienne Rich]

A noite fala,
você diz.
Meu poema sem palavras.
Meu voo rumo ao desconhecido.

O corpo é leve quando
tomado pelo que é.
Formado por muros e
janelas.
Pronto para entrar em chamas.
Com pequenas bandeiras
tremulando ao centro.

Toco em você com a ajuda
do vazio.
Uma ode à sobrevivência.
Um dicionário de prados selvagens.
Faremos qualquer coisa
por uma cura.

[Traduzido do Inglês por Paula D.]


Night is speaking
you say.
My poem without words.
My flight into wild country.

The body is light when
taken for what it is.
Formed of walls and
windows.
Ready to burn.
With little flags
fluttering in the center.

I touch you with the help
of the void.
An ode to survival.
A dictionary of wild grasses.
We'll do anything
for a cure.

(2004) Adrienne Rich. Telephone ringing in the labyrinth: poemas 2004 - 2006. 
London and New York: W.W. Norton & Company, 2007. p. 33

sexta-feira, 3 de março de 2017

Maré baixa



Maré baixa
[M. Vasalis]

Recuo e espero.
Tempo assim não será perdido.
Cada minuto se transforma em futuro.
Sou um oceano de espera,
envolto em água pelo instante.
Na maré baixa que sinto,
que puxa para si os minutos e,
em suas profundezas, prepara
a maré alta que vem.
Não há tempo. Ou será que
nada há além do tempo?

[Traduzi do inglês a partir da tradução do holandês por Juliana Brina]

quinta-feira, 2 de março de 2017

Outros jeitos de usar a boca



quando minha mãe estava grávida
do segundo filho eu tinha quatro anos
apontei para sua barriga inchada sem saber como
minha mãe tinha ficado tão grande em tão pouco tempo
meu pai me ergueu com braços de tronco de árvore e
disse que nesta terra a coisa mais próxima de deus
é o corpo de uma mulher é de onde a vida vem
e ouvir um homem adulto dizer algo
tão poderoso com tão pouca idade
fez com que eu visse o universo inteiro
repousando aos pés de minha mãe

[Rupi Kaur. in: Outros jeitos de usar a boca. trad. Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2017.]


Rupi Kaur é uma escritora e artista nascida na Índia que vive em Toronto, Canadá. Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência, o amor, o sexo, o abuso, a perda, o trauma, a cura e feminilidade. Publicado inicialmente de forma independente, o livro já vendeu mais de 1 milhão de exemplares impressos e ficou em 1º lugar na lista de mais vendidos do The New York Times.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O livro é um poema

Edição comemorativa 30 anos de Companhia das Letras


Orelhas (Eucanaã Ferraz)


Amo a margem esquerda onde irrompe o poema
onde principia esse espaço que semelha um pátio
onde o vazio recua para que a voz gráfica se faça.

Diante do ovo das nuvens do ermo da seda
do mar aberto do céu incerto a margem esquerda
induz ao gesto e força a mola que salta para

além do branco. Amo a margem esquerda a escarpa
contra a qual o mundo se espedaça e o mundo
recomeça para morrer algumas águas adiante.

Amo a margem esquerda o zero da régua projetando-se
para a praça onde em linhas que unem paisagens
distintas o tempo dança ainda sua infância.

Mas antes que o poema exista a margem esquerda
é apenas um ramo invisível - galho provável
na árvore que imaginamos e que só vive

quando um verso exausto de também não ser
se apoia na parede reta nas encostas ásperas
da página que espera.

...

[tão bonita a apresentação do Luiz Schwarz nessa edição comemorativa dos 30 anos da Companhia das Letras! Os poemas reunidos aqui falam sobre livros e poesia - um livro presente, livro poema. Quem tem amigos queridos dos livros ganha essas coisas lindas :) Obrigada, Kalebe! ]

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Clarice, para todos

Clarice Lispector

Minhas primeiras lembranças como leitora de Clarice são da época da escola, quando tivemos que ler "O primeiro beijo e outros contos" nas aulas de literatura e português. Diferente da Juliana, não tenho uma história bonita para contar sobre como uma bibliotecária querida me fez ler o livro, assim como não tive uma impressão tão ruim da capa. Mas lembro-me de ter ficado curiosa com o título do livro (será que vai falar de primeiro beijo mesmo? Aquela curiosidade da época). A lembrança que tenho é de ter lido e gostado dos textos, porque já gostava de ler nessa época, mas o livro não era nada do que eu estava esperando.

Anos mais tarde, também na escola, um 'temível' professor de redação, famoso por dar zero nas provas de uma turma inteira, adotava os contos de Laços de família, na época cobrado também no vestibular, como fonte de temas sobre os quais teríamos que construir um texto dissertativo para avaliação. Pânico geral em todas as turmas, acho que ninguém era maduro o suficiente para ler Clarice. E agora, como faremos para decifrar o tema nos contos dessa escritora tão difícil e enigmática? Essa matéria provavelmente contribuiu bastante para que muita gente ficasse traumatizado com a autora, afinal, de um trecho de um conto para nós muito enigmático, tínhamos que escrever em poucas horas uma redação, e para isso era necessário identificar um tema.

Eu adorava as aulas de literatura, sempre era a melhor parte da semana, e nunca tive medo de redação. Tantos colegas simplesmente travavam diante da folha em branco, enquanto era uma das minhas melhores provas sempre (saudades desse tempo em que não ficava bloqueada diante da folha em branco...). Acho que isso acontecia porque não sentia medo, só queria escrever. E mesmo que hoje tenha plena consciência de que não tinha tanta maturidade para ler Clarice (será que sempre estamos preparados para as nossas leituras ou é assim que um dia a gente se prepara para estar?), nessa época algo já me fascinava nos contos que lia, certa de que tinha muito mais ali que eu ainda não compreendia, mas queria compreender. Foi um ano de muitos zeros nas provas de redação, eu tive que me conformar com a nota cinco, que para mim era uma tristeza, mas nessa conjuntura equivalia a um dez e, por isso, despertava olhares de espanto de meus colegas que me perguntavam "como você consegue identificar o tema?", e eu não sabia explicar o que eu fazia para entender. Os textos me tocavam, me diziam algo e eu escrevia sobre isso. 

Tempos depois, já na universidade, Clarice volta a ser o mito enigmático e misterioso para o qual era necessário ter um dom supremo para se compreender e eu odiava cada vez que ouvia colegas se gabando de ter acesso a esse conhecimento que nós, pobres mortais, não éramos capazes de ter. Sempre me perguntava por que muita gente que estuda literatura gosta de colocar os autores nesses pedestais inatingíveis, quando na verdade (pelo menos ao meu ver), nossa função enquanto professores de literatura deveria ser justamente o contrário, a de aproximar as pessoas dos livros e dos autores que tanto amamos. A fazer com que as pessoas não tenham medo de pegar um livro e simplesmente se aventurar por suas páginas, sabendo que cada um fará uma viagem única e particular, de acordo com as suas próprias leituras e vivências, seu ritmo, seu tempo.

Felizmente, já em um dos meus últimos semestres na faculdade, tive a sorte de ter aulas com uma professora que falava dos livros de Clarice com tanta paixão que os olhos da turma inteira (ou pelo menos, os meus) ficavam brilhando durante as aulas, desejando ler Clarice e sentir o mesmo encantamento. Nessas aulas, Clarice se tornou possível. Eu saía das aulas correndo para ler Perto do coração selvagemÁgua Viva e fiquei de ler A maçã no escuro, o preferido da professora Antônia, a quem devo muito por ter tornado essas leituras possíveis, possibilidades apaixonantes de ser, eu também, leitora de Clarice.

Hoje, relendo os contos de Clarice para o projeto de leitura criado pela Juliana para 2017, é gostoso ver que mudamos nossa compreensão e relação com esses textos, e como em cada leitura o encantamento (e, às vezes, estranhamento) continua lá. De forma diferente. E, honestamente, acho que isso não acaba nunca. Não só com Clarice, mas com qualquer texto literário. Porque mudamos nosso olhar de leitores com o tempo, e cada vez que um texto é lido ou relido, algo de diferente sobre ele nos toca. E é isso que é mágico na literatura.

E vocês, qual a sua história de leitura/de leitor com os textos de Clarice Lispector?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

[Os óculos]



"De nosso pai, em minhas posses, restou um par de óculos quadrados, armação pesada, antigos. Esse par de óculos fica comigo quando escrevo, a eles me apego e com eles mesmo converso, pedindo menos transcendência do que lucidez. Peço, Pai, me ajuda, e o pai me ajuda através dos óculos, dos óculos que ficam junto a mim, que ficarão junto a mim, um manancial quente e bom destrava a mão, foca meus sentidos naquilo que há de mais sagrado, o amor no qual confiava e me fazia forte, força de andar em frente e não precisar de perdão para coisa alguma. Sentindo nas mãos o metal e o vidro espicaçando a pele de frio, parece que escuto a risada e o choro de papai, que vi apenas uma vez na vida, mas que se fincou dentro de mim como a lembrança de que a dor existe e que no entanto pode ser contornada, e que tudo não é um oceano de lágrimas, como a senhora diz, mas um deserto de se atravessar com alegria."


MOSCOVICH, Cíntia. Por que sou gorda, mamãe? Rio de Janeiro: Record, 2006. p.249

sábado, 4 de fevereiro de 2017

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Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES (Gótica Ed., 2001), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O ano da estrela (The Year of The Star)


Projeto de leitura para 2017, criado pela Juliana, do blog The Blank Garden: ler dois contos de Clarice Lispector por semana, a partir de fevereiro, na ordem em que estão publicados no livro Todos os contos (publicado pela editora Rocco). Vamos ler Clarice Lispector? Confira a programação de leitura (criada pela Ju e originalmente publicada aqui):
  • Semana 01
  • [6 de fevereiro a 12 de fevereiro, 2017]
  • Contos: O triunfo & Obsessão
  • Semana 02
  • [13 de fevereiro a 19 de fevereiro, 2017]
  • O delírio & Eu e Jimmy 
  • Semana 03
  • [20 de fevereiro a 26 de fevereiro, 2017]
  • História interrompida & A fuga
  • Semana 04
  • [27 de fevereiro a 5 de março, 2017]
  • Trecho & Cartas a Hermengardo
  • Semana 05
  • [6 de março a 12 de março, 2017]
  • Gertrudes pede um conselho & Mais dois bêbados
  • Semana 06
  • [13 de março a 19 de março, 2017]
  • Devaneio e embriaguez duma rapariga & Amor
  • Semana 07
  • [20 de março a 26 de março, 2017]
  • Uma galinha & A imitação da rosa
  • Semana 08
  • [27 de março a 2 de abril, 2017]
  • Feliz aniversário & A menor mulher do mundo
  • Semana 09
  • [3 de abril a 9 de abril, 2017]
  • O jantar & Preciosidade
  • Semana 10
  • [10 de abril a 16 de abril, 2017]
  • Os laços de família & Começos de uma fortuna
  • Semana 11
  • [17 de abril a 23 de abril, 2017]
  • Mistério em São Cristóvão & O crime do professor de matemática
  • Semana 12
  • [24 de abril a 30 de abril, 2017]
  • O búfalo & Os desastres de Sofia
  • Semana 13
  • [1 de maio a 7 de maio, 2017]
  • A repartição dos pães & A mensagem
  • Semana 14
  • [8 de maio a 14 de maio, 2017]
  • Macacos & O ovo e a galinha
  • Semana 15
  • [15 de maio a 21 de maio, 2017]
  • Tentação & Viagem a Petrópolis
  • Semana 16
  • [22 de maio a 28 de maio, 2017]
  • A solução & Evolução de uma miopia
  • Semana 17
  • [29 de maio a 4 de junho, 2017]
  • A quinta história & Uma amizade sincera
  • Semana 18
  • [5 de junho a 11 de junho, 2017]
  • Os obedientes & A legião estrangeira
  • Semana 19
  • [12 de junho a 18 de junho, 2017]
  • Fundo de gaveta & A pecadora queimada e os anjos harmoniosos
  • Semana 20
  • [19 de junho a 25 de junho, 2017]
  • Perfil de seres eleitos & Discurso de inauguração
  • Semana 21
  • [26 de junho a 2 de julho, 2017]
  • Mineirinho & Felicidade Clandestina
  • Semana 22
  • [3 de julho a 9 de julho, 2017]
  • Restos do carnaval & Come, meu filho
  • Semana 23
  • [10 de julho a 16 de julho, 2017]
  • Perdoando Deus & Cem anos de perdão
  • Semana 24
  • [17 de julho a 23 de julho, 2017]
  • Uma esperança & A criada
  • Semana 25
  • [24 de julho a 30 de julho, 2017]
  • Menino a bico de pena & Uma história de tanto amor
  • Semana 26
  • [31 de julho a 6 de agosto, 2017]
  • As águas do mundo & Encarnação involuntária
  • Semana 27
  • [7 de agosto a 13 de agosto, 2017]
  • Duas histórias a meu modo & O primeiro beijo
  • Semana 28
  • [14 de agosto a 20 de agosto, 2017]
  • A procura de uma dignidade &A partida do trem
  • Semana 29
  • [21 de agosto a 27 de agosto, 2017]
  • Seco estudo de cavalos & Onde estivestes de noite
  • Semana 30
  • [28 de agosto a 3 de setembro, 2017]
  • O relatório da coisa & O manifesto da cidade
  • Semana 31
  • [4 de setembro a 10 de setembro, 2017]
  • As manigâncias dona Frozina & É para lá que eu vou
  • Semana 32
  • [11 de setembro a 17 de setembro, 2017]
  • O morto no mar da Urca & Silêncio
  • Semana 33
  • [18 de setembro a 24 de setembro, 2017]
  • Uma tarde plena & Tanta mansidão
  • Semana 34
  • [25 de setembro a 1 de outubro, 2017]
  • Tempestade de almas & Vida ao natural
  • Semana 35
  • [2 de outubro a 8 de outubro, 2017]
  • Explicação & Miss Algrave
  • Semana 36
  • [9 de outubro a 15 de outubro, 2017]
  • O corpo & Via Crucis
  • Semana 37
  • [16 de outubro a 22 de outubro, 2017]
  • O homem que apareceu & Ele me bebeu
  • Semana 38
  • [23 de outubro a 29 de outubro, 2017]
  • Por enquanto & Dia após dia
  • Semana 39
  • [30 de outubro a 5 de novembro, 2017]
  • Ruído de passos & Antes da ponte Rio-Niterói
  • Semana 40
  • [6 de novembro a 12 de novembro, 2017]
  • Praça Mauá & A letra do "p"
  • Semana 41
  • [13 de novembro a 19 de novembro, 2017]
  • Melhor do que arder & Mas vai chover
  • Semana 42
  • [20 de novembro a 26 de novembro, 2017]
  • Brasília & A bela e a fera ou A ferida grande demais
  • Semana 43
  • [27 de novembro a 3 de dezembro, 2017]
  • Um dia a menos & A explicação inútil
  • Semana 44
  • [4 de dezembro a 10 de dezembro, 2017]
  • catching up week
  • Semana 45
  • [11 de dezembro a 17 de dezembro, 2017]
  • catching up week
  • Semana 46
  • [18 de dezembro a 24 de dezembro, 2017]
  • wrap-up

domingo, 8 de janeiro de 2017

Aqui estão os sonhadores



Em uma época em que a questão dos imigrantes está tão presente nas discussões políticas em todo o mundo, principalmente nos EUA (e nem sempre pela perspectiva mais positiva do acolhimento), um livro escrito por uma imigrante camaronesa que retrata com sensibilidade a situação dos imigrantes nos EUA e as dificuldades que enfrentam em busca de permanência parece ser mais do que necessário.

É por ter como protagonistas um casal de imigrantes camaroneses que sonha em conquistar o green card e permanecer nos Estados Unidos que o romance de Imbolo Mbue chama a atenção. Apesar de saberem dos problemas existentes nos Estados Unidos pelos muitos filmes que viram ainda em seu país - e nesse ponto fica claro o papel do cinema e da mídia na manutenção desse "sonho americano" -para o casal Jonga, os Estados Unidos  significavam felicidade. O casal estava disposto a trabalhar duro para conseguir permanecer na América e dar um futuro melhor para os filhos. As dificuldades, no entanto, são muitas: a dificuldade de oportunidades, com o idioma, o preconceito, mas principalmente financeiras, o que se agravou ainda mais por conta da recessão.

O choque entre as culturas se faz presente desde as primeiras páginas quando Jende precisa elaborar um currículo que impressione e se vestir de acordo com o esperado no país para conseguir um emprego. Depois de algum tempo vivendo em condições precárias e trabalhando em diversos serviços, ele finalmente consegue juntar dinheiro para que a esposa e o filho possam finalmente se juntar a ele em Nova York.

Mas a vida de Jende muda mesmo quando ele começa a trabalhar como motorista para Clark Edwards, um executivo rico de Wall Street. Acompanhando o dia a dia da família Edwards, ouvindo as conversas que travavam dentro do carro enquanto os levava para os lugares, Jende passa a conhecer não apenas seus segredos, mas também seus problemas e dores. Nesse ponto, as duas famílias, a princípio tão diferentes pelas condições de vida que possuem, se aproximam nas relações familiares e em problemas que podem ser comuns a muitos de nós. A nossa humanidade está além das fronteiras, ou pelo menos, deveria ser sempre assim.

Além de tratar da situação dos imigrantes em busca de asilo, o romance aborda as questões familiares, a relação entre pais e filhos, traição, perdas e lealdade. Ao focar na vida desses trabalhadores imigrantes, a autora consegue tecer importantes críticas à sociedade estadunidense, e principalmente à essa busca desenfreada por mais e mais dinheiro que gera tanta infelicidade nas sociedades capitalistas. Ela demonstra como uma vida de aparências pode ser feita de solidão e como a felicidade pode estar nas pequenas coisas. Isso tudo com um tom leve, uma vez que todos os personagens são retratados sem idealizações, mostrando seus pontos positivos e negativos.

Em Aqui estão os sonhadores, eu diria que não há um herói, mas diversos heróis - homens e mulheres tentando se encontrar na vida, o que nem sempre acontece através do caminho mais curto ou mais fácil. E apesar de ser um retrato bastante fiel de uma sociedade que tem tratado muito mal o outro, há algo de terno nessa história que nos mantém presos ao livro até chegar a última página.

Além disso, chama a atenção a violência contra as mulheres que ocorre em todas as classes sociais e independe de cor, raça, classe ou etnia. Tanto as imigrantes camaronesas que levam surras de seus maridos por serem consideradas por eles como "propriedade", em uma demonstração de como é absurda a naturalização dessa violência, disfarçada muitas vezes de "cultura" -  quanto o sofrimento da esposa de Clark Edwards, que carrega as marcas dessa violência em segredo, revelam as dimensões sociais desse problema, que deveria ser uma preocupação de todos nós.

A maternidade é outro ponto que podemos observar no romance, uma vez que vemos um retrato de mães imperfeitas, que amam seus filhos e são capazes de fazer tudo por eles - mas também há registros de relações que fracassaram por que mães tiveram filhos que não foram desejados ou foram fruto de violência.

Em resumo, talvez o grande mérito dessa autora estreante seja este: construir personagens que aprendemos a amar e a odiar durante a leitura, mostrando que tanto na ficção quanto na vida real, viver é esse eterno aprender. E tudo isso por meio de uma narrativa extremamente envolvente que revela uma grande contadora de histórias, sensível ao que se passa no mundo ao seu redor.


Imbolo Mbue nasceu em Limbe, Camarões. Ela estudou nas Universidades Rutgers e Columbia. Imbolo mora nos Estados Unidos há mais de uma década e vive na cidade de Nova York. Aqui estão os sonhadores é seu primeiro romance.
*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A guerra não tem rosto de mulher


"A vila de minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. 
Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: 
quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram."

Em A guerra não tem rosto de mulher, a ucraniana Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, reúne depoimentos de diversas mulheres que participaram como soldados na Rússia durante a Segunda Guerra. Neste ensaio jornalístico e de múltiplas vozes, surpreende e emociona encontrar histórias tão verdadeiras e sofridas de mulheres, relatos quase sempre silenciados até mesmo pela história. Afinal, como constata Svetlana sobre a história da guerra:

"Foi escrito por homens e sobre homens, isso ficou claro na hora. Tudo o que sabemos da guerra conhecemos por uma “voz masculina”. Somos todos prisioneiros de representações e sensações “masculinas” da guerra. Das palavras “masculinas”. Já as mulheres estão caladas."

Assim como ocorre na literatura, as vozes femininas são também silenciadas em suas experiências pessoais e relatos, ainda que sua participação ativa e corajosa durante a guerra tenha sido indispensável. Milhares de mulheres lutaram nos campos de batalha e nesse registro tomamos conhecimento das dificuldades que enfrentaram para conseguir se afirmar entre os batalhões de homens que julgavam que elas fossem frágeis e incapazes de lutar. O mais doloroso, entre as muitas histórias dolorosas que este livro nos conta, é ver que, diferente dos homens, consagrados como heróis depois da guerra, essas mulheres enfrentaram o preconceito de suas famílias e da sociedade sexista, sempre acostumada a punir aquelas que desafiam os papéis de gênero tradicionais. Ao voltar para casa depois da guerra, tiveram que esconder suas medalhas e suas histórias por medo de que sua participação as impedissem de obter um bom casamento e constituir uma família. 

O sofrimento das mães que perderam seus filhos e até mesmo que tiveram que abandoná-los durante a guerra; a violência sexual sofrida pelas mulheres de todas as nacionalidades e que quase sempre não é comentada; a preocupação que as mulheres tinham de se ferirem ou ficarem com marcas enquanto estavam na frente de batalha, preocupadas com a imagem e o corpo que precisavam ter para conseguir se casar depois que a guerra acabasse; os amores e as perdas durante os muitos anos de guerra; o envelhecimento precoce de meninas que foram corajosas o suficiente para ir lutar pela sua pátria quando já não havia homens onde moravam que pudessem se alistar; esses são alguns dos muitos temas, surpreendentemente atuais, que Svetlana resgata nessas histórias. Histórias de mulheres silenciadas há tanto tempo que faz-se urgente ouvi-las. E cada livro que dá voz a tantas vozes silenciadas merece, e muito, ser lido e compartilhado. Principalmente se ele nos mostra novas perspectivas que contestem essa história única e masculina.

"E a história? Ela está na rua. Na multidão. Acredito que em cada um de nós há um pedacinho da história. Um tem meia paginazinha, outro tem duas ou três. Juntos, estamos escrevendo o livro do tempo. Cada um grita sua verdade. O pesadelo das nuances. E é preciso ouvir tudo isso separadamente, dissolver-se em tudo isso e transformar-se em tudo isso. E, ao mesmo tempo, não perder a si mesmo. Unir o discurso da rua e da literatura. "

Svetlana Aleksiévitch. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Resultado: sorteio da virada



E quem ganhou um exemplar de História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante, para começar 2017 com uma ótima leitura foi a Vanessa Rodrigues Barcelos.

Obrigada a todos e todas que participaram! Feliz 2017!