segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

.


E uma canção desesperada
(Lívia Natália)

A dor de uma mulher tem infinitas máscaras,
mas permanece dor, sob as cores pintadas.
A dor de uma mulher não dorme cedo,
ela espreita toda sua vida
e seu coração se crispa em segredo.

A dor de uma mulher não tem fantasmas,
não anda no escuro, ela se recolhe nas suas entranhas
como quem costura o imenso véu
que lhe cobrirá as feridas.

A dor de uma mulher tem que ser das mais fortes,
tem que ferir este bicho de morte,
este animal que sangra e sobrevive
às suas dobras vincadas de dor e medo.
Neste bicho estranho que se pinta de vermelho,
dentro e fora têm a mesma face estranha e calma.

A dor de uma mulher é violenta,
e ladra bestializada de seus próprios precipícios.
Crava seus dentes no tempo,
chora silente pra dentro
e se cura das feridas nos dias.

NATÁLIA, Lívia. Água Negra e outras águas. 2 ed. Salvador: Caramurê Publicações, 2016. p. 97

domingo, 25 de dezembro de 2016

Sorteio da virada



Nada melhor do que começar o ano com um ótimo livro, certo? 

Para participar do sorteio de um exemplar de "História de quem foge e de quem fica", de Elena Ferrante, é só preencher o formulário abaixo com seu nome e email, e responder a pergunta desafio. As inscrições podem ser feitas até o dia 31/12/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 01/01/2017, às 10h. Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. 

O resultado será divulgado aqui no blog. Boa sorte e que 2017 seja repleto de livros incríveis! :)

Para participar do sorteio, clique aqui.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Os melhores de 2016


Para quem gosta de listas, este é o momento de pegar um caderninho fofo e relembrar as melhores leituras de 2016 (e também de arrumar a estante e ir separando as leituras para o ano que vem). A seguir, a minha lista com o que li de mais legal em 2016:


Dias de abandono - Elena Ferrante
A filha perdida - Elena Ferrante
Butcher's crossing - John Williams
Quando o imperador era divino - Julie Otsuka
Ana de Amsterdam - Ana Cássia Rebelo
O pomar das almas perdidas - Nadifa Mohamed
Tirza - Arnon Grunberg
A vida invisível de Eurídice Gusmão - Martha Batalha
Meu nome é Lucy Barton - Elizabeth Strout
Sinfonia em Branco - Adriana Lisboa
Poesia completa - Orides Fontela 
Correntezas e outros estudos marinhos (Poesia) - Lívia Natália
Liturgia do fim - Marília Arnaud

E vocês, o que leram de bom esse ano? Quais os planos para 2017? Compartilhem comigo aí nos comentários, vou gostar de saber as melhores leituras de vocês :)

beijos e feliz natal!
Pipa

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Leituras de férias

O ano está acabando, o blog anda mais do que abandonado, e li pouco nos últimos tempos. Nessa semana de mini férias, tive a sorte de escolher livros deliciosos, que ajudaram bastante a passar o tempo no avião e a descansar um pouco a cabeça dos estudos, pelo menos por alguns dias. É sobre eles que vou escrever hoje, num post bem diferente do que costumo fazer (viva a preguiça!):


Pílulas Azuis, de Frederik Peeters

Uma história em quadrinhos super fofa e autobiográfica, na qual o autor conta como se apaixonou por Cati, uma mulher soropositiva. Sem ser sentimental demais, é uma história de amor bem real, com inseguranças e dramas, mas que encanta por ser tão humana e por trazer uma perspectiva pouco ou nada explorada que é a vida (normal) que as pessoas soropositivas podem ter. Foi a primeira coisa que li nas minhas mini férias e deu aquele calorzinho no coração. É bom ler sobre amores possíveis. Sou novata nas histórias em quadrinhos, mas gostei bastante dessa aqui.



A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha

Fiquei super curiosa pelo título e por esta capa incrível, e não me decepcionei. Daqueles livros que a gente lê de uma sentada só. Fiquei encantada com a escrita tão leve e cativante dessa escritora de Recife. O romance narra a história de Eurídice e também de sua irmã, Guida, duas mulheres que, como a maioria das mulheres da época, foram criadas para abdicar de seus talentos para serem boas esposas. Mas nenhuma delas está feliz com isso e o livro, ambientando no Rio de Janeiro no começo do século XX, questiona bastante esse papel de submissão atribuído às mulheres, que não tinham direito a ter sua própria voz e a desenvolver seus talentos, pois suas famílias viam o casamento e os filhos como único destino possível e aceitável.

É impossível não se encantar pelas personagens criadas por Martha Batalha, todas tão reais que eu tenho certeza que você, assim como eu, já encontrou alguma (ou muitas) delas ao longo de sua vida. E gostei particularmente do tom leve do livro, que consegue questionar papéis importantes atribuídos às mulheres em nossa sociedade fazendo a gente se encantar por cada uma delas. Impossível não pensar em Um teto todo seu, de Virginia Woolf quando chegamos na última página (leia e você entenderá o que quero dizer. E se ainda não leu Um teto todo seu, não deixe o ano terminar sem fazer isso, por favor). Um livro que eu adorei ter lido nesse finalzinho de ano e que recomendo muito como uma excelente leitura de férias.

Leituras em andamento (porque a esperança de ler mais um pouquinho é sempre a última que morre...)


A room with a view, de E. M. Forster (Um quarto com vista)

Estava na minha lista TBR há milênios, sei que já foi adaptado para o cinema, mas confesso que não vi o filme ainda e estou me encantando com a escrita de Forster. Livro que faz você esquecer de olhar o relógio no avião é uma coisa abençoada. Vou tentar escrever mais sobre ele quando acabar a leitura, estou lendo sem a menor pressa e gostando muito.



Ainda pretendo ler Homens imprudentemente poéticos, de Valter Hugo Mãe e História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante, antes do ano acabar. Guarde o melhor para o final, é o que dizem por aí. (E eu acredito que para lidar com todo esse espírito natalino a gente precisa mesmo dos nossos escritores preferidos.)

Bom natal para vocês, muita força para aguentar as perguntas indelicadas dos tios e tias sobre os namorados ou seu peso🙀🙈e lembrem-se: vale mais manter a sua paz interior e comer seu panetone em paz. \o/




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)


Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Thiago de Mello

Santiago do Chile, abril de 1964

sábado, 5 de novembro de 2016

Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero

Um documentário importante e que vale a pena ver (50 minutos de duração, então reserve um tempinho aí). Uma produção da ONU Mulheres.

"#ElesPorElas é um movimento para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, cujo objetivo é engajar homens e meninos para novas relações de gênero sem atitudes e comportamentos machistas.
No âmbito do movimento #ElesPorElas (HeForShe), o documentário "Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero" procurará aproximar os homens desse tema tão importante. O objetivo é mostrar que a igualdade de gênero é uma questão que afeta a todos e todas e que, portanto, é benéfica a homens e mulheres. Nele investigamos como se formam, se sustentam e de que modo podemos desconstruir os estereótipos de gênero nocivos, que perpetuam o nosso cenário atual. O documentário é resultado de uma pesquisa qualitativa que rodou o Brasil e será complementado pela pesquisa quantitativa online ainda em curso.
A desigualdade de gênero é uma das violações mais persistentes de direitos humanos do nosso tempo. Ainda que estejamos caminhando para uma realidade mais igualitária entre homens e mulheres, ainda há muito a se construir. " (Texto de apresentação extraído do site da ONU Mulheres)




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Exames de empatia


"Empatia não é apenas escutar, é fazer as perguntas cujas respostas precisam ser escutadas. Empatia requer investigação tanto quanto imaginação, Empatia significa reconhecer um horizonte de contexto que se estende perpetuamente além do que você pode ver"

"Empatia significa dar-se conta de que não existe trauma com bordas discretas. O trauma sangra. Para fora das feridas e através dos limites. A tristeza se torna uma convulsão. Empatia requer outro tipo de porosidade na resposta."

"Empatia vem do grego empatheia - em (para dentro) e páthos (sentimento) - uma penetração, uma espécie de viagem. Sugere que se entre na dor de outra pessoa, assim como se entraria num outro país, através da imigração e da alfândega, cruzando a fronteira por meio de perguntas: O que cresce na terra em que você vive? Quais são as leis? Que animais pastam lá?"

***

Nos diversos ensaios que compõem o livro Exames de empatia, a estadunidense Leslie Jamison discorre sobre diferentes situações, algumas relacionadas à sua própria vida, outras sobre histórias e relatos que coletou de outras pessoas, mas sempre incluindo a sua perspectiva em cada um deles. Os exames de empatia, primeiro ensaio e que também dá título ao livro, revela a própria experiência da escritora quando trabalhou como ator-médico, representando algumas doenças para avaliar os estudantes de medicina quanto à sua capacidade de expressar empatia pela dor dos pacientes. A partir dessa experiência, Jamison reflete sobre esse tema tão fundamental nos dias de hoje, que é a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e imaginar sua dor. 

Susan Sontag, em Diante da dor dos outros, livro apaixonante para quem se interessa por fotografia - e também por literatura -  já levantava questionamentos até mais elaborados e que certamente serviram de inspiração para Jamison em Exames de Empatia: como falar e representar a dor do outro sem banalizar seu sofrimento? De que forma a arte e a fotografia tem feito isso? Que direito temos de representar essa dor? São perguntas que ressurgiram durante a leitura dos ensaios de Jamison, principalmente no primeiro ensaio sobre sua experiência como ator-médico e as implicações dessa representação da dor e do sentimento do outro.

O tema da dor, tanto física quanto emocional, reaparece em diferentes cenários: quando Jamison relata sua própria experiência como ator médico,  e traça um paralelo com outra vivência pessoal: ao passar por um aborto, e de como se sentiu diante da frieza da médica que, naquele momento, banalizou o que ela eventualmente sentia, sem demonstrar empatia.

A temática ressurge no ensaio A isca do diabo, que relata a visita de Jamison a uma conferência de pacientes com a doença de Morgellons, uma doença estranha e que muitos, inclusive médicos, desacreditaram por muito tempo, mas que atinge milhares de pessoas que sentem estranhas fibras emergindo de dentro da pele, ainda que nenhum exame clínico comprove essa sensação. Diante do sofrimento e da angústia vividas por essas pessoas, não só pelo que sentem e que causa imenso desconforto, mas pelo desamparo de não ser levado a sério em seu sofrimento, Jamison observa que se colocar no lugar do outro não é passar a sentir a sua dor, como a própria autora passou a imaginar durante a conferência, mas é estar verdadeiramente disposto a ouvir com empatia, o que aflige o outro. Fazer com que, de alguma forma, ele ou ela se sinta acolhido, confortado em seu sofrimento.

Para Roman Krznaric, em O poder radical da empatia, livro que também aborda esse tema e no qual ele defende a ideia de que empatia não é apenas um ideal utópico, mas uma forma de transformar nossas vidas e promover mudanças sociais, a empatia é definida como "a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações". Para Krznaric, a literatura, a arte, o cinema têm um importante papel nesse sentido, como instrumento para se desenvolver a capacidade humana de sentir empatia. Assim como Leslie Jamison nos faz refletir ao longo dos seus ensaios, a partir de vivências comuns observadas com olhar atento, fica claro que o tema é mais que relevante e que pode, sim, despertar importantes mudanças no tecido social, desde que isso ocorra primeiro em nós.

JAMISON, Leslie. Exames de empatia. São Paulo: Globo Livros, 2016.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

sábado, 22 de outubro de 2016

Sorteio: O acorde secreto

Resultado do sorteio de um exemplar de O acorde secreto, de Geraldine Brooks:

A vencedora é ELISANGELA MEDEIROS DE OLIVEIRA. Vou entrar em contato por email, e se a pessoa não responder, realizarei novo sorteio na próxima sexta feira.

Obrigada a todos e a todas que participaram e até a próxima!


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Um poema de Adília Lopes


Body Art
(Adília Lopes)

Com os remédios
engordo 30 Kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre

Emagreço 21 kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina

No metro
um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar

Detesto
o sofrimento

***
Adília Lopes, pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poetisa, cronista e tradutora portuguesa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Sorteio: O acorde secreto


Lançado uma década após a autora vencer o Prêmio Pulitzer, O acorde secreto reinterpreta os episódios mais marcantes da vida do rei Davi. Em uma análise detalhada do Antigo Testamento e de descobertas arqueológicas, Geraldine traz à tona um dos mais polêmicos personagens bíblicos, de quando era um soldado destemido que ascende ao trono até seus últimos dias como um tirano dominado pelo remorso. Narrado pelo profeta Natã, amigo, conselheiro e muitas vezes a própria consciência de Davi, o livro é uma saga épica sobre fé, sangue, desejo, família e ambição.

Para participar do sorteio de um exemplar de "O acorde secreto", de Geraldine Brooks, é só preencher o formulário abaixo com seu nome e email, e responder a pergunta desafio. As inscrições podem ser feitas até o dia 21/10/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 22/10/2016, às 10h. Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. 

O resultado será divulgado aqui no blog. Boa sorte! :)

Para participar do sorteio, clique aqui.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

As memórias do livro


Publicado em 2008, As memórias do livro é o terceiro romance da australiana Geraldine Brooks e ganha nova edição pela Globo Livros em 2016. O livro é um romance histórico que narra a vida de uma conservadora de livros, Hannah Heath, contratada para restaurar e analisar a Hagadá de Sarajevo, um importante livro judaico, com mais de 600 anos e famoso por ser um dos primeiros manuscritos judaicos a conter ilustrações. Em muitos momentos, o livro correu o risco de ser destruído, mas foi salvo por pessoas que acreditam na importância dos livros, independente de etnia, nacionalidade ou religião. Paralelamente à história pessoal de Hannah, que é apaixonada pelo seu trabalho, mas tem grandes conflitos familiares, a autora intercala diferentes momentos, no tempo e no espaço, em que conhecemos um pouco da história imaginada da Hagadá e das pessoas arriscaram suas vidas para protegê-la. 

Geraldine Brooks era correspondente de um jornal estadunidense em Sarajevo e se inspirou na história real de dois muçulmanos, um bibliotecário e um pesquisador, que em diferentes momentos arriscaram suas vidas para salvar a Hagadá da destruição: uma durante um incêndio durante a Guerra da Bósnia, outra durante a Segunda Guerra, quando foi levada para a biblioteca de uma mesquita para evitar que fosse destruída pelos nazistas. Essas duas histórias inspiraram a autora a pesquisar mais sobre a Hagadá, ainda que se tenha poucos registros sobre sua real trajetória, sobre o trabalho de conservadores de livros raros e o importante papel que esse trabalho, quase sempre invisível, têm na manutenção e preservação da história e da cultura, e decidiu ficcionalizar uma possível história para o livro e todas as pessoas que poderiam tê-lo salvado ao longo desses anos.

É um romance que vai agradar principalmente quem gosta de romances históricos, pois é muito rico em detalhes e essa parte sobre o passado da Hagadá foi o que eu pessoalmente mais gostei no livro. É como uma viagem no tempo que nos transporta para períodos tão sombrios da história da humanidade, tudo a partir de vestígios encontrados no livro, mas onde vemos que, mesmo nessa época de grandes tragédias e sofrimento, havia os que lutavam pela justiça e pela liberdade. O livro é dedicado aos bibliotecários e isso já diz muito sobre esse amor pelos livros e o reconhecimento do seu valor que sentimos ao ler esta história.

Geraldine Brooks, vencedora do Prêmio Pulitzer de ficção em 2006 pelo livro O Senhor March, é autora de quatro romances e de dois títulos de não ficção. Nascida e criada na Austrália, ela vive em Martha’s Vineyard, nos Estados Unidos, com o marido, o também escritor Tony Horwitz, e os dois filhos.

*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros.

domingo, 9 de outubro de 2016

Dias de abandono




Sempre que me perguntam para que serve a literatura, a primeira coisa em que penso é que a literatura nos permite vivenciar outras experiências, uma vez que nos coloca no lugar do outro, cria em nós empatia pelo que ele ou ela vivencia ou sofre. É uma possibilidade de sempre acrescentar conhecimentos ou nos fazer questionar nossas verdades, tornando-nos, assim, pessoas melhores. 

Começo falando de empatia, porque esta palavra esteve muito presente durante a minha leitura de Dias de abandono, da Elena Ferrante. Nesse romance, Ferrante retrata a situação de luto vivenciada pela protagonista, Olga, uma mulher que foi abandonada pelo marido e se sente absolutamente perdida com seus dois filhos e a sensação de vazio que a acompanha por algum tempo. 

Se para muitos o tema do abandono pode ser considerado um clichê, na narrativa de Ferrante uma história aparentemente comum se engrandece pela sutileza com que ela se aproxima dessa personagem e de seus sentimentos. O choque de ter sido deixada pelo marido, a quem se dedicou durante toda a sua vida, é o ponto de partida para várias reflexões feitas pela personagem sobre a condição da mulher em um mundo que ainda valoriza o casamento como atestado de sucesso (ou fracasso, no caso da personagem). 

A imagem da infância que assombra a protagonista é a de uma mulher linda, mãe de duas crianças, que um dia é abandonada pelo marido e passa a ser alvo de todos os tipos de comentários pelas demais mulheres do bairro, inclusive sua própria mãe. É dessa imagem de "pobre coitada" que a personagem busca se afastar a todo custo, mas quando é deixada pelo marido, percebe que ela está na mesma situação. Quando se trata da dor que sentimos, acredito que nem tanto por ter perdido um amor, mas pelo status de mulher casada e bem sucedida que se perde, há uma grande semelhança em todas nós. É essa tomada de consciência da personagem, que passa a perceber o quanto se anulou no casamento, o quanto viveu em função do marido e para ele, que parece desencadear esse processo de luto, tão bem descrito por Ferrante em todas as suas etapas. 

Se no início temos vontade de sacudir a personagem e aconselhá-la a se desapegar desse homem que não a respeita enquanto ela vive a etapa da negação, logo em seguida sentimos vontade de consolá-la, pois como diz Leslie Jamison em Exames de empatia: "dor representada também é dor". E são os detalhes de algumas cenas em que podemos ver o quanto a protagonista está em pedaços que nos toca e causa empatia. Não pelo marido que a trocou por uma mulher bem mais jovem, mas por ela, por todos os dias em que ela deixou de ser prioridade em sua própria vida, pelo muito que ela terá que reconstruir. E gostei imenso do fato de que a possibilidade de se reconstruir e recomeçar exista, por ela.

Um livro que exercita a nossa empatia, na medida em que só consegue ser apreciado plenamente se nos distanciamos de tantos pré-julgamentos que às vezes reproduzimos sem pensar, mas que faz todo sentido se nos colocamos no lugar do outro, com empatia por sua dor, por seu sofrimento. Elena Ferrante mais uma vez brilha ao escrever um texto seco, frio, com a mesma qualidade estética dos livros anteriores, e que nos leva por todo o processo de angústia e luto da personagem durante a leitura, como se nós também buscássemos ar para fazer essa travessia. Apesar de ser um romance relativamente curto, é um livro que incomoda, que nos inquieta e que, assim como a personagem parece sentir, provoca o mesmo sentimento de termos, enfim, conseguido atravessar essas linhas. Uma das melhores leituras do ano.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O ódio

O ódio                              

(Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien)
                                                                                    
Vejam como ainda é eficiente,
como se mantém em forma
o ódio no nosso século.
Com que leveza transpõe altos obstáculos.
Como lhe é fácil – saltar, ultrapassar.

Não é como os outros sentimentos
a um tempo mais velhos e mais novos que ele.
Ele próprio gera as causas
que lhe dão vida.
Se adormece, nunca é um sono eterno.
A insônia não lhe tira as forças; aumenta.

Religião, não religião –
contanto que não se ajoelhe para a largada.
Pátria, não pátria –
contanto que se ponha a correr.
A justiça também não se sai mal no começo.
Depois ele já corre sozinho.
O ódio. O ódio.
Seu rosto num esgar
de êxtase amoroso.

Ah, estes outros sentimentos –
fracotes e molengas.
Desde quando a fraternidade
pode contar com a multidão?

Alguma vez a compaixão
chegou primeiro à meta?
Quantos a dúvida arrasta consigo?
Só ele, que sabe o que faz, arrasta.

Capaz, esperto, muito trabalhador.
Será preciso dizer quantas canções compôs?
Quantas páginas da história numerou?
Quantos tapetes humanos estendeu
Em quantas praças, estádios?

Não nos enganemos:
ele sabe criar a beleza.
São esplêndidos seus clarões na noite escura.
Fantásticos os novelos das explosões na aurora rosada.
Difícil negar o phátos das ruínas
e o humor tosco
da coluna que sobressai vigorosamente sobre elas.

É um mestre do contraste
entre o estrondo e o silêncio,
entre o sangue vermelho e a neve branca.
E acima de tudo nunca o enfada
o tema do torturador impecável
sobre a vítima conspurcada.

Pronto para novas tarefas a cada instante.
Se tem que esperar, espera.
Dizem que é cego. Cego?
Tem a vista aguda de um atirador
e afoito olha o futuro

- só ele.

SZYMBORSKA, Wislawa. Um amor feliz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

Meus segredos com Capitu



Meus segredos com Capitu: livros, leituras e outros paraísos, de Ana Elisa Ribeiro, reúne as crônicas escritas por Ana Elisa no Digestivo Cultural e que abordam a temática da leitura e dos livros. É um daqueles livros que tem o que todo bom leitor gosta: a paixão pela leitura e pelos livros em cada página. Ler livros nos quais consigo sentir essa paixão no texto é sempre algo prazeroso e que me anima a convidar mais leitores para, juntos, reafirmar essa paixão que nos move pelas palavras e por sua capacidade de melhorar o mundo. Pois é, acredito que os livros tem esse papel de nos fazer pensar, de nos tornar pessoas melhores, se estivermos dispostos a isso.

Discutindo questões que envolvem o nosso dia a dia, como a nossa relação com as bibliotecas, um simples passeio em uma livraria, aquele primeiro livro comprado com nosso dinheiro, ou um café que sempre nos convida a sentar e aproveitar a leitura de um romance ou um poema, Ana Elisa narra com uma linguagem muito fluida e da fácil acesso questões presentes na vida de qualquer leitor ou leitora. Ela também aborda questões que volta e meia reaparecem nas manchetes, sobre as novas mídias e o formato digital dos livros e como isso afeta nossa relação com os livros impressos – além de falar um pouco sobre seu primeiro contato com grandes nomes da literatura e como surgiu seu encanto por eles, e também sobre a sua relação com a escrita e a publicação de seus textos, entre outras coisas.


São crônicas ótimas para  novos e antigos leitores, podendo ser trabalhadas na escola, ainda que a autora chame a nossa atenção para o fato de que muitas vezes as leituras obrigatórias da escola acabam por tirar toda a nossa vontade de ler – mas, por ser um livro que deixa transparecer esse amor pelos livros, acho difícil não conseguir com ele chamar a atenção dos alunos para o encanto dos livros e as infinitas possibilidades que a leitura pode representar. No entanto, concordo com Ana Elisa e lembro-me do escritor francês Daniel Pennac que lança o desafio: “E se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?” (Daniel Pennac, 2008, p. 73). Durante a leitura, foi impossível não resgatar da memória o texto apaixonado de Como um romance”, no qual DanielPennac nos contagia com seu amor pelos livros e argumenta que esse é o caminho para se ensinar literatura, compartilhando nossa paixão pelos livros e deixando que a curiosidade desperte o desejo de ler de novos leitores, afinal “Não se força uma curiosidade, desperta-se”. E acho que Ana Elisa Ribeiro faz isso muito bem. Terminamos a leitura com aquela vontade gostosa de ir até ali na estante buscar um livro favorito para reler um trecho e sentir novamente aquele afago no coração, ou então nos aventurarmos permitindo que uma nova história nos escolha.

(Em tempos tão sombrios, quando golpistas querem destruir nosso sistema educacional e retirar do currículo das escolas disciplinas tão fundamentais para a formação de nossos jovens, além de acabar com os cursos de licenciatura, uma vez que, de acordo com a medida provisória decretada essa semana não é mais necessário ter diploma para ensinar no Brasil (atentem para o fato de que essa decisão foi tomada por medida provisória, sem nenhuma consulta a especialistas no assunto ou à população), quis compartilhar esse livro que fala sobre o poder da leitura - a paixão pelos livros, que nos ensinam a ter empatia pelos outros, que nos sensibilizam para questões importantes dos seres humanos. Não se esqueçam da importância dessa liberdade de pensar criticamente sobre o mundo, que está sendo destruída diante de nossos olhos nos últimos meses. Por favor, lutem para defendê-la, por nós e pelas próximas gerações.)

RIBEIRO, Ana Elisa. Meus segredos com Capitu: livros, leituras e outros paraísos. 2ª ed. Natal: Jovens Escribas, 2015.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Tempo - Orides Fontela



TEMPO

O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.

O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.

O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.

O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.

- Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo

cavalga o fluxo num milagre
de vida.


FONTELA, Orides. Poesia Completa. São Paulo: Hedra, 2015.

Orides Fontela (1940-1998) é uma das mais importantes poetas brasileiras da segunda metade do século XX. Da mesma geração de Paulo Leminski, Hilda Hilst, Roberto Piva e Adélia Prado, sua pequena e densa obra se sobressai pela radical modernidade e pela cortante lucidez de sua linguagem. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sorteio 2 - A máquina de fazer espanhóis



Quem ganhou o sorteio foi Marina Vitale. Entrarei em contato por email com a vencedora, que tem o prazo de 7 dias para me passar o endereço para envio do livro. Caso não responda aos emails, farei novo sorteio.
Obrigada a todos que participaram.




segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Resultado do sorteio - A máquina de fazer espanhóis

Oi, gente!

Quem ganhou o sorteio foi:



Parabéns, Cleiry! Hoje à noite o Valter Hugo Mãe autografará seu livro no evento que acontece hoje em Salvador, Fronteiras do Pensamento. Entrarei em contato com você por email para pegar o endereço, logo logo seu livro autografado chega por aí :)
E obrigada aos 513 inscritos que participaram do sorteio. Até o próximo! ;)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Liturgia do fim



Em tempos em que buscamos dar mais visibilidade ao trabalho de escritoras, é sempre uma alegria quando encontro um romance de uma escritora brasileira que me encanta tanto pelo trabalho com a linguagem, quanto pelo conteúdo que apresenta. Foi assim com Liturgia do fim, segundo romance da paraibana Marília Arnaud, que acaba de ser publicado pela editora Tordesilhas.

Narrado por Inácio, um homem de cerca de trinta anos, o romance discute as raízes e as consequências de um sistema sexista e patriarcal ao retratar o retorno de Inácio a sua cidade natal, chamada Perdição, muitos anos depois do dia em que foi obrigado a deixar a cidade e sua família para trás. Esse dia é o ponto de partida do romance, e seguimos acompanhando as lembranças de Inácio de como foi sua vida depois de ter deixado a cidade, seu casamento, o trabalho como professor e escritor, sua paixão pelos livros. Mas as lembranças de infância continuam a assombrar Inácio que, assim como os demais membros da família, foi marcado pela convivência com um pai autoritário e opressor em um ambiente austero e violento. Mesmo tentando lutar contra essas lembranças, as consequências dessas vivências deixam marcas profundas em Inácio, que tem dificuldades em se relacionar com os outros e se torna um pai e marido ausentes. Essa viagem de retorno à cidade de Perdição é uma viagem de busca por redenção, uma tentativa de se apaziguar com as lembranças do passado e com o pai, que já está bem velho quando Inácio o reencontra.

Nesse sentido, o romance possibilita refletir sobre a construção dos papéis de gênero no ambiente familiar, uma vez que temos uma figura paterna autoritária, que pune frequentemente Inácio por sua personalidade mais sensível e interessada nos livros, o que nos faz refletir sobre como também é violenta a construção da masculinidade nas sociedades patriarcais. As personagens femininas são muito interessantes no romance, apesar de termos um narrador protagonista masculino, pois podemos ver como as mulheres são as maiores vítimas de um sistema patriarcal: ou são totalmente submissas e silenciadas como a mãe de Inácio, ou contestam e se rebelam contra o autoritarismo do pai, como é o caso da irmã de Inácio, ou enlouquecem como a tia louca de Inácio, que habita o sótão da casa - uma imagem também de resistência por não aceitar o sistema vigente e se recusar a fazer parte dele (e também uma referência a um importante texto feminista).

Em Liturgia do fim encontramos um texto trabalhado com grande cuidado, o que torna a leitura muito prazerosa. E as reflexões que ele incita ao retratar uma realidade ainda muito comum é o que torna a leitura desse texto ainda mais interessante.

***

"O que farei ao final deste relato? Subirei ao topo de Perdição, um mundo velado pelos guizos frios do vento, onde se ergue e se espraia um cenário de alturas, larguezas e ondulações, paisagem de uma quietude espessa, onírica, de uma imponência que meus olhos mal conseguem sustentar, e que contrasta com o espaço estiado e sem saída, com a terra de cercas e desalento que me habita, e do seu parapeito secreto jogarei para o alto o manuscrito que tenho aqui em minhas mãos, folha por folha, numa espécie de liturgia do fim, afugentando com meu gesto os pássaros de sonho, os deuses emplumados que mergulharão no milagre azul dos meus voos, e minhas palavras dançarão ao ritmo da ventania, valsa triste sob um céu de nenhuma sombra"

***

Marília Arnaud nasceu em Campina Grande, Paraíba. Escreveu quatro livros de contos, entre eles, O livro dos afetos (publicado pela editora 7letras em 2005), e participou de várias coletâneas de contos publicadas por importantes editoras do país. Em 2012 publicou seu primeiro romance, Suíte de silêncios, pela editora Rocco.

*Recebi este livro como cortesia da Editora Tordesilhas

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sorteio: A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe



Em parceria com a Biblioteca Azul, em setembro teremos um sorteio mais que especial: um exemplar da nova edição de A Máquina de Fazer Espanhóis autografada pelo Valter Hugo Mãe =]

Para participar do sorteio é só preencher o formulário (clique aqui) com seu nome e email e responder a pergunta desafio. As inscrições podem ser feitas até o dia 04/09/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 05/09/2016, às 10h. 

Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. 

O resultado será informado aqui no blog. Boa sorte! :)


sábado, 13 de agosto de 2016

Sobre livros perdidos e achados



Ontem passei pela biblioteca central da universidade. Precisava de um livro para um texto que estou escrevendo, mas como às vezes demoro muito para localizar as coisas que eu preciso na biblioteca (aquele sistema de organização é algo que ainda me engana muitas vezes), acabo sempre passeando por outras estantes, olhando os livros com calma, vez ou outra algum me chama a atenção e ontem não foi diferente. Peguei alguns da estante, sentei em uma das mesas de estudo e fiquei por lá esperando o horário em que iria buscar minha irmã. 

Adoro bibliotecas. Sempre gostei de ficar passeando pelos corredores, olhando as lombadas dos livros, encontrando títulos interessantes; é um lugar cheio de possibilidades. Já pararam para pensar que há livros ali que talvez não tenham sido lidos por ninguém há anos? Acho triste como ocorre nas universidades estadunidenses, que descartam alguns livros depois de muito tempo sem que tenham sido emprestados. Por conta disso, já consegui comprar livros descartados por universidades, em ótimo estado, verdadeiras preciosidades, em sebos. Mesmo achando triste que eles deixassem de ter um lugarzinho para eles, fico sempre feliz quando esses livros me encontram, ainda mais vindo de tão longe.

Depois de mais de uma hora por lá, fui para o balcão de empréstimos. Qual não foi minha surpresa quando a bibliotecária me olha e diz:
- O livro desaparecido!

Sem entender o que era, apenas disse que o livro estava na prateleira, oras. Como assim desaparecido? E então ela me mostra que no sistema da biblioteca aquele livro constava, desde 2011, como desaparecido. Acho que alguém, por descuido, acabou colocando o livro em uma prateleira diferente, e com isso ele não era mais encontrado. Vejam só como é importante respeitarmos essas regras e deixar os livros consultados naquelas mesas específicas, para que os bibliotecários possam colocá-los nos lugares certos. Esse sistema de organização é mesmo algo importante e uma coisa que eu pretendo aprender bem ainda (já tô bem melhor do que nas primeiras vezes na biblioteca central).

Outra bibliotecária foi chamada para orientar a primeira sobre como proceder, pois dada a surpresa da moça, não se encontram livros desaparecidos com muita frequência, ela não sabia o que fazer. Após verificarem que o livro estava em bom estado e em condições de ser emprestado, pude efetuar o empréstimo. Ele voltou comigo para casa, para seu primeiro passeio depois de cinco anos na estante da biblioteca.

Foi uma coisa bonita no meu dia, isso de saber que salvei um livro do esquecimento. São sempre os livros que me salvam, foi bom ter a chance de fazer isso também, ainda mais de um livro feminista, mesmo que tenha sido por acaso. (Mas como acho que são os livros que nos escolhem, talvez nem tenha sido tanto acaso assim).

E vocês, já encontraram algum livro perdido? =]

domingo, 7 de agosto de 2016

Vidas Partidas


Felizinhas

Lembro de minha mãe com algodão nas narinas e 
sete furos abaixo do seio esquerdo. Ornamentais. 
E também lembro da minha avó roxinha, 
roxa que nem repolho, com uns ornamentos no pescoço. 
E me ensinaram que elas eram felizes. 
(Ana Elisa Ribeiro, Beijo, boa sorte, 2015, p. 17)


No dia em que a Lei Maria da Penha* completa 10 anos, decidi escrever sobre o filme Vidas Partidas, do diretor Marcos Schechtman, que estreou essa semana nos cinemas brasileiros. Inspirado nas muitas histórias de violência contra as mulheres que ainda hoje infelizmente são uma realidade, o filme conta a história de Graça, interpretada pela atriz Naura Schneider, uma bióloga de sucesso, casada e mãe de duas filhas. Graça é apaixonada pelo marido, Raul, interpretado pelo ator Domingos Montagner, e os dois vivem um relacionamento passional e abusivo. 

Ambientado no nordeste do Brasil nos anos 1980, o filme coloca em pauta uma questão essencial nos nossos dias: a violência doméstica que destrói a vida de mulheres no mundo inteiro e os problemas que as mulheres ainda enfrentam ao buscar ajuda em situações de violência, uma vez que a burocracia e a falta de preparo dos profissionais que prestam atendimento às vítimas, e também por parte da polícia, dificulta bastante as denúncias. 

A relação entre o casal é intensa e desde o início já percebemos os sinais de que é uma relação abusiva. Autoritário, ciumento, Raul age de forma a controlar tudo na rotina familiar, monitorando todo e qualquer contato que a esposa tenha, mesmo que seja com colegas de trabalho ou outros membros da família. Apresenta reações exageradas com as filhas e com a esposa e depois se arrepende, pedindo desculpas e trazendo presentes, algo comum nesses casos de violência e comportamento que ajuda a manter as mulheres presas aos ciclos de violência.

Os problemas vão aumentando quando Raul fica desempregado e Graça avança em sua carreira, recebendo prêmios pelo seu trabalho. No patriarcado, o sucesso e a independência das mulheres não é visto com bons olhos e a violência surge muitas vezes como forma de mantê-las "sob controle", em situação de inferioridade. 

Tentando ajudar Raul, Graça pede um favor a um ex-namorado, que consegue um emprego como professor na universidade para Raul. Quando começa a lecionar, Raul logo se envolve com as alunas e mantém trancadas em um quarto da casa todas as cartas que recebe de suas amantes. Ao mesmo tempo, Raul passa a agir com mais e mais violência, fazendo cenas de ciúmes no ambiente profissional de Graça, o que a prejudica bastante. A violência psicológica que já existia se intensifica e as agressões físicas começam. 

O mais interessante do filme é que ele mostra bem como os ciclos de violência ocorrem e como as mudanças de comportamento do agressor, que logo após ter agredido de forma violenta a esposa pede perdão e dá presentes e flores, ou age de forma amorosa com as filhas, mostrando ser um bom pai, são formas de manter a mulher presa ao ciclo de violência por pensar na manutenção da família. O que eu mais gostei, no entanto, foi o fato de Graça ter ido até o fim no processo judicial contra o agressor. Só lamentei que isso tenha demorado tanto para acontecer, pois cada dia de espera significa mais riscos para a mulher em situação violenta. É importante pensar também o impacto dessa violência para as crianças que vivem presenciando essa violência cometida pelo pai, o que muitas vezes também as transforma em vítimas.

É sem dúvida um filme que vale a pena ser visto pela discussão importante que ele traz nos dias de hoje e que pode ser muito informativo. Acho que é também um alerta para as mulheres que muitas vezes não sabem reconhecer que vivem em uma situação de violência porque somos ensinadas desde criança que o casamento significa posse (para os homens), sacrifício (por parte da mulher) e que é responsabilidade da mulher mantê-lo para preservar a família. Precisamos desconstruir essa ideia hoje e pelo futuro das próximas gerações. E precisamos conversar para reconhecer que violência dói e não é direito e que há formas de resistir e de lutar para que os agressores sejam punidos.

Recomendo a leitura:



Para assistir ao trailer:




*Lei diminuiu em 10% os assassinatos contra mulheres

Segundo dados de 2015 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a lei Maria da Penha contribuiu para uma diminuição de cerca de 10% na taxa de homicídios contra mulheres praticados dentro das residência das vítimas.

* E se vocês conhecerem outros filmes (e também livros, músicas) que falem sobre violência doméstica, compartilhem aqui nos comentários =]

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Butcher's Crossing


"Esses moços", disse McDonald com desdém. 
"Sempre acham que existe alguma coisa mais para descobrir" 


Estados Unidos, 1870. O jovem Will Andrews, estudante de Direito na Universidade de Harvard, decide largar tudo em busca de uma vida mais autêntica. Está em busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é e chega a Butcher's Crossing, uma cidadezinha do Kansas, dessas bem típicas dos filmes de faroeste, com um pouco de dinheiro e uma vontade de ver o mundo que até então ele só conheceu nos livros.

Ao chegar em Butcher's Crossing, ele procura um velho conhecido de seu pai, McDonald, dono de uma charquearia e o maior negociante de peles de búfalos da região. Enquanto caminha até lá, Will passa por grupos de caçadores que saem em busca dos búfalos, cujas peles são vendidas para McDonald, um negócio lucrativo na época. Nessa cidadezinha isolada, pacata, onde o tempo parece ter parado, as pessoas vivem na esperança da chegada da ferrovia, que mudaria para melhor as condições de vida e de trabalho de todos. 


No saloon da cidade, Will conhece Miller, um caçador experiente indicado por McDonald, e seu fiel escudeiro, Charley Hoge. Assim, ele fica sabendo dos sonhos de Miller de conseguir ir em busca da maior manada de búfalos que ele já viu, anos antes, em uma região mais afastada e que aparentemente se mantém intocada. Will vê nessa expedição a aventura que busca e decide partir com Miller, Charley e o rabugento Schneider, o esfolador contratado para tirar as peles dos búfalos, nessa jornada que o aproximará da natureza de forma intensa e transformadora.

Segundo romance do escritor estadunidense John Williams que chega ao público brasileiro pela Rádio Londres, Butcher's Crossing é um livro surpreendente, ao estilo de um bom faroeste americano, mas indo muito além disso. Um enredo aparentemente simples, mas que adquire grande profundidade em determinados momentos, como parece ser a marca de John Williams. Somos completamente envolvidos nessa história, cujas descrições tão ricas nos transportam de uma pequena cidadezinha no Kansas até as montanhas do Colorado. Quase dá para sentir a poeira, o vento, os cheiros.

Juntos, os quatro personagens enfrentam a exaustão física, a fome, a sede, o calor e o frio intenso do inverno. A caçada acaba por se tornar uma experiência existencial para eles, mas principalmente para Andrews, que passa por um processo de amadurecimento diante da vida durante essa jornada que acaba por durar muito mais tempo do que eles imaginavam. Nesse sentido, o romance pode ser lido como um romance de formação. Com seu jeito mais quieto e observador, e o contato com homens tão diferentes quanto Miller, Charley e Schneider por tanto tempo possibilitam um grande aprendizado e equilibram as diferentes perspectivas presentes durante a viagem.

Apesar do enredo simples, o que parece conquistar os leitores é a forma como John Williams consegue narrar a história de modo a nos envolver completamente nesse cenário de intenso contato com a natureza, com descrições ricas e sensoriais, tão perfeito que nos imaginamos mesmo dentro de um filme de faroeste (não é a toa que já existe um filme baseado nesse livro). O deslumbramento de Will diante da natureza - ao mesmo tempo tão assustadora - permite refletir sobre o papel da natureza na vida do homem, sua força, sua capacidade de transformação. Nenhum deles permanece o mesmo depois dessa jornada, ainda que o que movia cada um deles fosse algo diferente. Essa transformação é visível nas personagens, nas quais é possível perceber até mesmo certa animalização diante da experiência de isolamento em meio à natureza.
"Não conseguia imaginar sequer imaginar como seria. Com um leve choque, ele se deu conta de que o mundo, além daquela região cercada por encostas de montanhas por todos os lados, havia se apagado em sua memória. Não conseguia sequer se lembrar da montanha que haviam subido, sem mesmo da vasta planície onde haviam suado e sentido sede, tampouco de Butcher's Crossing, aonde chegara e que deixara apenas uma semana antes. Aquele mundo só lhe voltava aos surtos e de forma confusa, como que escondido num sonho. Havia passado naquele vale o período mais importante de sua vida, e quando olhou de cima - plano, verde-amarelado, as altas muralhas da montanha, amadeirada de pinheiros verdes escuros onde flamejava o ouro rubro dos álamos trêmulos, as rochas ressaltadas e as encostas, tudo toldado pelo azul intenso do céu de ar rarefeito -, parecia-lhe que os próprios contornos do lugar eram fluidos sob seus olhos, que seu próprio olhar modalva o que ele via e que, em troca, lhe dava à própria existência forma e lugar. Não conseguia mais pensar em si mesmo fora de onde se encontrava" (p. 194-195).
Butcher's Crossing é um livro sobre a necessidade de dar sentido à vida e à existência, a necessidade intensa de descobrir o mundo e desbravá-lo, procurando por algo que nem sabemos o que seja, sentimento tão comum na juventude (e às vezes também além dela). É um livro sobre as paixões e as ambições idealizadas, muitas das quais nos movem durante boa parte da vida, até percebermos que o tempo passou, que no final não fazia tanto sentido como imaginávamos. Talvez seja esse elemento existencial o que nos aproxima tanto do livro, mesmo que não tenhamos jamais imaginado gostar de uma narrativa que tratasse de caçadas de búfalos e homens em território selvagem. Mas se pensarmos que essa caçada é a vida, e que a busca desenfreada por trabalho, aventuras e descobertas, e também paixões, seja um sentimento tão comum entre nós, a ser trabalhado com o tempo e o amadurecimento (sábias palavras do velho McDonald), tudo faz mais sentido. E nos deixa com um sentimento, misto de melancolia e nostalgia, quando a jornada das personagens (e a leitura do livro) chega ao fim. Uma das melhores leituras do ano.

"Depois de um instante de euforia diante do anúncio de Miller, Andrews se sentiu tomado por uma tristeza estranha, como um pressentimento de nostalgia. Olhou para a pequena fogueira ardendo alegremente contra a escuridão e, mais além, ele viu a escuridão. Lá estava o vale que ele acabara conhecendo tão bem quanto a palma da própria mão. Ele não conseguia enxergá-lo, mas sabia que estava ali; e lá estavam os cadáveres putrefatos dos búfalos por cujas peles eles haviam trocado seu suor, seu tempo e boa parte de suas energias. Os fardos de peles também estavam por ali no escuro. Pela manhã, eles os carregariam na carroça e iriam embora daquele lugar; e ele teve a sensação de que jamais retornaria ali, embora soubesse que precisaria voltar com os outros para buscar as peles que não conseguissem levar. Sentia vagamente que estava deixando alguma coisa para trás, algo que talvez pudesse ser precioso para ele, se soubesse do que se tratava. Naquela noite, depois que a fogueira apagou, ele se deitou no escuro, sozinho, fora do abrigo, e deixou que o frio atravessasse suas roupas e sua carne. Enfim, adormeceu, mas acordou à noite várias vezes, e forçou a vista diante da escuridão da noite sem estrelas" (p. 254).
***

John Edward Williams (1922-1994) nasceu em Clarksville, no Texas, Estados Unidos. Serviu na aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1954, recebeu o título de doutor em Literatura Inglesa na Universidade do Missouri. Trabalhou como professor assistente de Literatura Inglesa na Universidade de Denver até sua aposentadoria, em 1985. Em Denver, também foi o editor fundador de uma revista literária,The Denver Quarterly. Publicou quatro livros: 
"Nothing but the Night" (1948), "Butcher's Crossing" (1960),  "Stoner" (1965) e Augustus (1972), que ganhou o National Book Award. Também publicou dois livros de poesia: "The Broken Landscape: Poems" (1949) e "The Necessary Lie" (1965).


*Recebi este livro como cortesia da Editora Rádio Londres.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O americano tranquilo



Publicado originalmente em 1955, O americano tranquilo, de Graham Greene, acaba de ganhar uma nova edição pela Biblioteca Azul, com tradução de Cássio de Arantes Leite. O romance, ambientado na Indochina no período de 1946 a 1954, já foi adaptado para o cinema e tem como tema central um triângulo amoroso nesse cenário de conflito.

Dividido em quatro partes, o romance retrata os conflitos morais de Thomas Fowler, um correspondente britânico em Saigon, durante a Guerra da Indochina, e um jovem americano idealista, Alden Pyle, enviado em uma missão secreta para o local. Os dois se conhecem por acaso e desenvolvem uma relação de amizade um tanto desequilibrada e movida em grande parte pela solidão que vivenciam nesse cenário de guerra. O jovem Pyle, idealista e romântico, vê em Thomas um amigo a quem deve lealdade, mas as coisas se complicam quando ele se encanta pela jovem Phuong, a amante vietnamita de Fowler, o que causará uma discórdia velada entre os dois.

O idealismo de Pyle incomoda Thomas, que passa a refletir sobre suas atitudes e posicionamentos a partir da convivência com Pyle, afinal, é através dos outros que passamos a conhecer melhor nós mesmos. 
A disputa entre os dois reverbera a disputa ideológica que passam a ter. Pyle representa um idealismo, por vezes cego, que pode causar destruição, ao passo que Fowler traz um olhar mais cético e crítico à toda violência da guerra. A princípio, ele tenta se isentar de qualquer participação em tudo que vê e deve retratar aos jornais ingleses, até se dar conta de que estar ali já o torna cúmplice de tudo o que vê e critica. Greene de certa forma antecipou nesse romance o papel que os Estados Unidos assumiria na Guerra do Vietnã (1959-1973), após a derrota da França e isso se vê principalmente no papel maior que Pyle começa a desenvolver no local. Os questionamentos morais que Thomas Fowler faz em relação à guerra, retratando como os soldados se sentiam naquele cenário de destruição, proporciona uma reflexão sobre o mal e a forma banal como ele prevalece, e os soldados se questionando sobre as mortes que estão causando e a mando (e em nome) de quem (e de quais ideais) são um contraponto interessante. Essa é sem dúvida a parte mais rica do romance, na crítica que faz ao modo como as ideologias podem corromper as pessoas e destruir as relações que estabelecem. 

Algo que merece ser comentado é a forma objetificada com que a personagem feminina é retratada. A jovem Phuong é um mero objeto de disputa entre os dois homens, destituída de opinião e sentimentos, que não compreende o inglês e fala pouco francês, ou seja, uma personagem que praticamente não tem voz. A preocupação da irmã de Phuong é casá-la com um estrangeiro que tenha dinheiro e que possa lhe dar alguma condição de vida. Thomas Fowler, que trata Phuong como alguém subserviente e sempre disposto a fazer e dizer o que ele quer, de repente se vê amaçado por esse jovem idealista que quer se casar com Phuong, mostrando que tem dinheiro e que pode assegurar o seu futuro. Apesar de demonstrar uma preocupação em relação ao possível destino de Phuong na prostituição se ali permanecer sozinha, a oferta de casamento de Pyle é mais um acordo do que uma relação movida por amor. Em determinado momento Fowler diz a Phuong: "Não tenho dinheiro algum guardado. Não posso cobrir o lance de Pyle". É quase um leilão.

"Beije-me, Phuong." Ela não fazia charme. Fez imediatamente o que pedi e continuou a contar o filme. Do mesmo modo, teria feito amor comigo na mesma hora se eu houvesse lhe pedido, tirando a calça sem perguntar nada, para, depois, retomar o fio da história de madame Bompierre e as desventuras do chefe do correio" (Greene, pág. 141)
"Observei-a atentamente conforme ela perguntava como eu estava e tocava a tala em minha perna, oferecendo o ombro para que me apoiasse, como se alguém pudesse se apoiar com segurança em uma planta tão jovem. Eu disse: "Estou feliz de estar em casa".
Ela disse que sentira minha falta, o que, é claro, era o que eu queria escutar: sempre me dizia o que eu queria escutar, como um cule respondendo perguntas, exceto por acidente. Agora eu esperava o acidente." (Greene, pág. 139-140)


Mesmo movido por um aparente sentimento de nobreza, que o próprio Thomas reconhece como sendo muito maior que ele próprio, Pyle é capaz de organizar um dos ataques ao centro da cidade, causando a morte de diversas mulheres e crianças. Ao mesmo tempo, assim que se encanta por Phuong, busca contar a verdade ao amigo para apaziguar-se de qualquer sentimento de traição. Procura manter-se firme em seus ideais, chegando até mesmo a salvar Thomas da morte durante uma explosão, o que gera em Thomas um conflito moral ainda maior, uma vez que mesmo assim ele não consegue deixar de se irritar com Pyle por querer tirar dele a garantia de não enfrentar uma velhice sozinho que Phuong representa.

É interessante a forma como Graham Greene narra essa história de modo a prender o leitor interessado em descobrir como tudo vai acabar, em um clima de suspense com ares de investigação policial. Mas é importante ter em mente que temos aqui a perspectiva social do homem branco e heterossexual, o que explica em grande parte a superficialidade das personagens femininas e o sexismo que ainda permeia muitas narrativas de guerra.

GREENE, Graham. O americano tranquilo. Trad. Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

***
O inglês Graham Greene teve uma formação ortodoxa em colégios no interior da Inglaterra, sempre se arriscando na vida literária – em poemas, artigos e contos. Como jornalista, viajou para vários lugares distantes de seu país – separados tanto pela geografia quanto pela cultura. Com passagens por países do oriente e da África, entre os anos 1950 e 1960, introduziu em seus romances um forte teor político. Recebeu inúmeros prêmios e hoje é considerado um dos autores mais importantes do romance moderno inglês.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.