domingo, 23 de setembro de 2018

Que tempos são estes e outros poemas

Tudo o que escrevemos
será usado contra nós
ou contra aqueles a quem amamos.
São estes os termos,
ame-os ou deixe-os.
Poesia nunca teve a menor chance
de existir fora da história.
Uma linha datilografada vinte anos atrás
pode arder numa parede em tinta spray
para glorificar a arte como distanciamento
ou torturar aqueles que
não amamos mas também
não quisemos matar

Nós passamos          mas nossas palavras ficam
tornam-se responsáveis
por mais do que pretendíamos

e isso é privilégio verbal



VII
Estou pensando nisto em um país
onde palavras são roubadas das bocas
como o pão é roubado das bocas
onde poetas não vão para a cadeia
por serem poetas, mas por serem
de pele escura, mulheres, pobres.
Estou escrevendo isto em um tempo
no qual tudo o que escrevemos
pode ser usado contra aqueles que amamos
onde o contexto nunca está dado
ainda que tentemos explicá-lo exaustivamente
Pelo bem da poesia, ao menos,
eu preciso saber essas coisas

Adrienne Rich. Que tempos são estes e outros poemas. Trad. Marcelo Lotufo. São Paulo: Edições Jabuticaba, 2018.

sábado, 14 de julho de 2018

Ser árvore



"Hoje, o matinho ainda cresce nas rachaduras do cimento. Encontra espaço, finca raiz. Outro dia, o síndico mandou uma circular dizendo que era preciso cortar a árvore que fica na trente do prédio, já que a Prefeitura não faz nada. É um ficus muito grande, as raízes quebraram a calçada. Pediu minha contribuição, minha assinatura, dinheiro.

A árvore já estrangulou o meio-fio e agora avança na direção das grades da portaria. As raízes se infiltraram nas tubulações, o que explica o gosto de terra na água da torneira. Quem plantou? Ninguém lembra. O síndico disse que se não tomarmos providências um idoso pode morrer. A dona Vera do 701 já tropeçou na calçada estufada. Podia ter quebrado o cotovelo!
Não dei minha contribuição.

Acho bonito quando as árvores fazem isso. Durante anos as raízes vão crescendo quietinhas debaixo dos nossos pés, crescem, endurecem, se esparramam - e vão forçando a superíficie da calçada.
Eu queria ter um ouvido aguçado para ouvir o som da raiz desgastando o cimento, empurrando, ganhando espaço. O atrito escuro, os miasmas. E um dia, enfim, a luz.

Queria viver muitos séculos, para que a vitória parecesse ter a rapidez dum murro. Queria ver os garis recolhendo os cacos depois de meses de reclamação no telefone tal, abaixo-assinados, visitas à Secretaria de Parques e Jardins. As autoridades não se mexem nesta cidade!

Eu queria ser a árvore.

"Ir para onde?", foi o que Cosmim me perguntou.
Onde tivesse espaço."


HERINGER, Victor. O amor dos homens avulsos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Um verso e Mei


EIXO

tinha um Eixo atravessando o meu peito,
tão grande que cortava minha alma em L2
Sul e Norte.

uma W3 entalada na garganta virou nó.
eles têm o Parque da Cidade.
nós, o Três Meninas.
eles, a Catedral.
nós, Santa Luzia.
eles, as Super Quadras.
nós, a Rocinha.
eles, Fonte Luminosa.
nós, Chafariz.
eles, Noroeste.
nós, Santuário.
eles, Sudoeste.
nós, Sol Nascente.
eles, o Lago Paranoá.
nós, Águas Lindas.

sou filha da Maria, que não é santa e nem puta.
nasci e me criei num Paraíso que chamam de Val
e me formei na Universidade Estrutural.

não troco o meu Recanto de Riachos Fundos
e Samambaias Verdes
pelas tuas tesourinhas.
essa Bras(ilha) não é minha.

porque eu não sou Planalto,
eu sou periferia!
eu não sou concreto,
eu sou quebrada!

BASTOS, Meimei. Um verso e Mei. Rio de Janeiro: Malê Edições, 2017.

Meimei Bastos é atriz, escritora, slammer, arte-educadora e estudante de Artes Cênicas na Universidade de Brasília. Nasceu em 1991, em Ceilândia, Distrito Federal.  Desde 2015, atua em batalhas de poesia falada (Slam), como poeta e organizadora. Atualmente coordena e produz nas periferias o Slam Q'BRADA.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Álbum, de Ana Elisa Ribeiro

PRENHEZ                   

estava grávida
naquela foto

o filho
não chegou
a nascer

a foto
nos mantém
à sua espera



POEMA IMPRESSO NA HORA

escrever um poema
não é como
pegar peixe com as mãos; caçar com flecha;
riscar fósforo; rezar o terço; alcançar a graça;
dizer adeus; ou capturar borboleta.

Também não é como
a dor do parto; fotografar pessoas paisagens
ambos; ver estrela cadente; catar feijão;
descrever sentimento.

Escrever o poema
se parece com
carregar água na peneira
e dar nó em pingo d'água:
lugares muito mais comuns.

***
Ana Elisa Ribeiro, 1975, é mineira de Belo Horizonte. Além de vários livros de poesia publicados, tem outros de crônica, conto e infantojuvenis publicados por diversas editoras brasileiras. Participou de antologias, revistas e jornais no Brasil, em Portugal, na França, no México, na Colômbia e nos Estados Unidos. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, professora e pesquisadora de Edição no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais.

RIBEIRO, Ana Elisa. Álbum. Belo Horizonte: Relicário, 2018.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Sobre escrever

"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome.
Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever."
Gloria  E. Anzaldúa

Para ler o texto completo da autora, clique aqui.

sábado, 14 de abril de 2018

O que o sol faz com as flores

Não era palavrão na minha casa
não era motivo de surra
apagaram do nosso dicionário
arrancaram das nossas costas aos tapas
até virarmos crianças comportadas
que diziam sim com obediência para qualquer coisa
quando ele subiu em cima de mim
todas as partes do meu corpo queriam rejeitá-lo
mas não consegui dizer não e salvar minha vida
quando tentei dar um grito
tudo que saiu de mim foi silêncio
ouvi o não batendo com força
no céu da minha boca
implorando para escapar
mas não pendurei a placa de saída
nunca construí a escada de emergência
para o não escapar não existia porta
quero fazer uma pergunta
a todos os pais e tutores
de que serviu a obediência naquela hora
quando dentro de mim havia mãos
que não eram as minhas

- como vou verbalizar o consentimento na vida adulta
se não me ensinaram na infância

KAUR, Rupi. O que o sol faz com as flores. Tradução Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2018.

domingo, 4 de março de 2018

A origem das coisas

A origem das coisas 


Explicou o filósofo grego
que todas as coisas
originam-se umas das outras
e desaparecem em outras
de acordo com a necessidade

tudo que há
movimento

tudo que é
contingência:

o assalto dos erros
o acaso pendular de um dia
de uma vida
de um poema.

Adriana Lisboa. Pequena Música. São Paulo: Iluminuras, 2018.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Coração e alma



A vida é um sopro (Clarice Lispector)

A frase de Clarice Lispector, “a vida é um sopro” passou muitas vezes pela minha cabeça enquanto lia Coração e alma, da escritora francesa Maylis de Kerangal. Em grande parte, isso se deve ao tema do livro, que narra todo o processo de um transplante cardíaco em um grande hospital da França, o que nos faz, inevitavelmente, pensar na efemeridade da vida e, consequentemente, no que fazemos da vida que temos. Falar da morte e da possibilidade de vida nos lembra da nossa humilde condição de mortais.

A temática do livro pode, a princípio, parecer estranha e acho que é pouco comum (pelo menos eu não me lembro de nenhum outro livro que fale do assunto), mas a forma com que a autora conseguiu escrever essa história surpreende pelo ritmo dado à narrativa, que tem uma velocidade e uma intensidade que conseguem transmitir essa ideia de efêmero (somos instantes) e também da agilidade com que esse processo de doação de órgãos precisa ser feito, literalmente correndo contra o tempo.

Outro ponto positivo do livro é, a meu ver, essa miríade de personagens, pessoas comuns em seu dia a dia que autora consegue retratar, em sua dimensão humana, complexa, cada uma vivendo seus dilemas, seus medos, sua solidão. Ao nos apresentar a perspectiva de cada personagem, conseguimos nos colocar no lugar do outro, pensar no que sente a família do futuro doador de órgãos, na tristeza da perda e do luto que vivenciam e a dor de ter que lidar com essa decisão tão imediata à morte; conseguimos também nos colocar no lugar dessas pessoas que trabalham nos hospitais, dos médicos às enfermeiras, que trabalham um número imenso de horas sob grande pressão para salvar vidas, ao mesmo tempo em que lidam com a morte; e nos imaginamos no papel desses pacientes que precisam de um transplante para seguir vivendo e tem uma vida repleta de angústia e espera até encontrar (e se tiverem a sorte de encontrar) um doador compatível.

Coração e alma é um livro bem diferente, que despertou em mim reações diferentes e por vezes, contraditórias. É uma leitura intensa, para quem gosta de livros para serem lidos de uma só vez e que desperta muitas reflexões. Repensei o tempo todo a minha decisão sobre doação de órgãos – e para quem nunca parou para pensar isso, esse romance é bem interessante para começar. Só por isso, acho que já vale a leitura.


Por fim, mas não menos importante, este é o primeiro livro escrito por uma autora publicado pela Rádio Londres, editora independente de ficção internacional fundada em 2015 e que tem publicado muitos autores inéditos no Brasil. Esperamos que mais obras escritas por mulheres sejam publicadas pela editora.

KERANGAL, Maylis de. Coração e alma. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2017. Trad. Maria de Fátima Oliva do Couto.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Minhas melhores leituras de 2017



Mais um ano chega ao fim e chega também o momento de toda leitora/leitor que se preze fazer o balanço das melhores leituras. Quem não gosta de uma lista, não é mesmo?
Não li tanto quanto gostaria em 2017, e em grande parte foi poesia, sempre meu maior consolo, mas segue a minha listinha do que li de melhor esse ano:

Como se fosse a casa (uma correspondência) (Ana Martins Marques e Eduardo Jorge)

O Martelo (Adelaide Ivánova)

Da poesia (Hilda Hilst)

Poemas da recordação e outros movimentos (Conceição Evaristo)

Dia bonito pra chover (Lívia Natália)

Os bons amigos (Hannah Kent)

Dois (Oscar Nakasato)

Amora (Natália Borges Bolesso)

Aqui, no coração do inferno (Micheliny Verunschk)

A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana Aleksiévich)



E que 2018 seja um ano mais leve, de muitas realizações e leituras incríveis para nós!


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Dia bonito pra chover



Insurreição

Seria mais fácil não amar os pessegueiros macios
e nada sorver do seu perfume,
mas os meus dentes querem a carne do seu corpo,
minha língua deseja lamber do seu sumo.

O certo seria plantar a semente e esperar,
dos laços e nós dos caules finos,
aspergir-se o perfume da fruta vindoura.
Mas meu corpo tem pressa
e não respeita os relógios que inventam o tempo.

Minha natureza é temporã.
Eu sou das fêmeas que vão!
ficar é para quem tem raízes,
ceder é para quem deseja morada: eu sou o desabrigo.
Quero a fruta furtada do pé.
comer seu gosto ainda verde,
morder suas entranhas ainda duras.

Não sou das que esperam,
sou das que não querem nem chegar,
sou de partir e, no precipício, ainda ser silenciosa,
inteira.
Sou uma destas mulheres que vão.
ficar é raiz.
partir é imensidão.


Lívia Natália. Dia bonito pra chover. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2017.