sábado, 29 de abril de 2017

O fio da palavra



"Minha memória tem espaço para infinitas paisagens. Tudo que desconheço minha memória inventa. 
Mas hoje acordei sem coceira nos dedos. Despertei vazio de pensamentos. Um grande nada acordou comigo. Não quero jardim, deserto ou mar. Há dias em que a preguiça de pensar me persegue. A memória exige trégua para descansar. O mundo inteiro parece vivido.
A vida se nega a novas notícias. O coração parece bater desafinado - sem corda - e pulsa quase parando sem força para fortes fôlegos. Ter memória é embriagar-se de lucidez."

Bartolomeu Campos de Queirós, O fio da palavra

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro


Feliz Dia Mundial do Livro! =]

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Desumanização


“Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos 
do que representamos entre todos.” 

Poético, intenso, imensamente humano. Essas são as palavras que quase sempre uso para falar dos livros de Valter Hugo Mãe. A nova edição de A Desumanização acaba de ler lançada pela Biblioteca Azul e foi um convite a reler esse livro quatro anos depois da minha primeira leitura.

A linguagem poética de Valter Hugo Mãe parece emergir dessa Islândia onde a natureza é tão forte, onde a solidão é tão grande. Sim, este livro fala de solidão, mas não só sobre isso. Fala de amor, de perdas, de luto, de relações familiares, e muitas outras coisas. E contando a história de uma menina que perde a sua irmã gêmea quando criança, nessa Islândia que passamos a imaginar pelas descrições como um lugar talvez difícil de viver (uma representação do mundo de hoje?), aonde as pessoas vão perdendo a sensibilidade para conseguir continuar vivendo diante de ações e sentimentos cada vez mais desumanos. A decadência da família de Halla é contada, e todo o sofrimento que a perda de sua irmã gêmea vai acarretar na vida das personagens é o fio condutor da história. Temos uma criança perdendo sua inocência e lutando para manter sua individualidade, e é bem chocante a figura materna nessa história, que não se conforma com a dor de perder uma filha, e que acaba por se tornar uma pessoa muito cruel pelo sofrimento. A filha que sobrevive será sempre a lembrança da que morreu. A solidão na dor e na ausência, por parte da mãe, e a solidão imensa da filha que fica "órfã" de mãe em vida e que perde a sua metade, sua irmã. 

“Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho”. Essa frase de Halldór Laxness é a epígrafe do livro e a inspiração para o nome da personagem principal, Halldora, uma menina de 11 anos. É muito interessante ver a capacidade do autor de dar voz a essa personagem, narrando os sentimentos dessa menina, que ao longo do livro vai se tornando mulher, enfrentando todas as mudanças e descobertas que uma menina entrando na adolescência costuma vivenciar.

Em A Desumanização, a figura paterna ganha força na história como ponto de equilíbrio diante da crueldade da figura materna. É o pai de Halla que traz a poesia e a literatura para a vida da filha e, com isso, ambos ganham uma dose extra de força para sobreviver aos desencantos:

"Os poemas, dizia o meu pai, podem ser completos como muito do tempo e do espaço. Podem ser verdadeiramente lugares dentro dos quais passamos a viver".

"O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia".

Continuo achando que Valter Hugo Mãe é um desses escritores contemporâneos que devem ser lidos, porque em todos os seus livros terminamos a leitura refletindo sobre algo relevante. É sempre difícil terminar de ler um livro dele e dizer alguma coisa imediatamente a respeito, pelo menos é assim que eu me sinto. É como se precisássemos de silêncio para que toda essa realidade dolorosa dos temas que ele aborda pudesse ser absorvida. E se essa não é a literatura que verdadeiramente transforma, que nos coloca no lugar do outro, então eu não sei mais o que é. 

Creio que foi em O Filho de Mil Homens que o autor nos deu uma pequena licença de sonhar, pois nos outros livros, e em A Desumanização não é diferente, por mais doloroso que isso nos seja, (por mais doloroso que seja para o autor também, como ele mesmo afirmou em entrevistas) a vida não perdoa as personagens. E nem todo leitor está preparado para esse tipo de leitura. Espero que você, leitora / leitora, aceite o desafio.

A Desumanização é um desses livros que podem ser lidos e relidos a vida inteira, pelo belíssimo trabalho com a linguagem que o autor desenvolve em suas páginas e, principalmente, pelo retrato da vida e das relações humanas que o olhar atento e sensível de Valter Hugo Mãe sempre consegue registrar.

“O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer.” 

MÃE, Valter Hugo. A Desumanização. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017. 

domingo, 12 de março de 2017

As mãos de meu pai

Imagem: Gayle George
As mãos de meu pai 
(Mário Quintana)


As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
— como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da
nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa
beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos
braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
contra o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre
das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos
nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria
vida
... e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Descascando cebolas

Lilly Martin Spencer (1822 –1902) Peeling Onions



Descascando cebolas (Adrienne Rich)

Só para ter um pesar
equivalente a todas essas lágrimas!

Nem um soluço em meu peito.
De coração impávido como Peer Gynt
eu corto tudo, sem heróis,
uma mera cozinheira.

Chorar já foi trabalho, uma vez
quando tive bom motivo.
Caminhando, senti meus olhos como feridas
abertas em minha cabeça.
Por isso os atendentes dos correios, pensei, deviam me encarar.
Um olhar de cachorro, de um gato, fizeram-me sentir dor -
ainda assim tudo permaneceu
preso em meus pulmões feito neblina escura.

Essas velhas lágrimas na tigela de cortar cebolas.

[Traduzido do inglês por Paula D.]


Peeling Onions (Adrienne Rich)

Only to have a grief
equal to all these tears!

There's not a sob in my chest.
Dry-hearted as Peer Gynt
I pare away, no hero,
merely a cook.

Crying was labor, once
when I'd good cause.
Walking, I felt my eyes like wounds
raw in my head,
so postal-clerks, I thought, must stare.
A dog's look, a cat's, burnt to my brain -
yet all that stayed
stuffed in my lungs like smog.

these old tears in the chopping-bowl.

[1961]

RICH, Adrienne. The fact of a doorframe, 1984.

sábado, 4 de março de 2017

Meu poema sem palavras

Starry Night Over the Rhone - Vincent Van Gogh

[por Adrienne Rich]

A noite fala,
você diz.
Meu poema sem palavras.
Meu voo rumo ao desconhecido.

O corpo é leve quando
tomado pelo que é.
Formado por muros e
janelas.
Pronto para entrar em chamas.
Com pequenas bandeiras
tremulando ao centro.

Toco em você com a ajuda
do vazio.
Uma ode à sobrevivência.
Um dicionário de prados selvagens.
Faremos qualquer coisa
por uma cura.

[Traduzido do Inglês por Paula D.]


Night is speaking
you say.
My poem without words.
My flight into wild country.

The body is light when
taken for what it is.
Formed of walls and
windows.
Ready to burn.
With little flags
fluttering in the center.

I touch you with the help
of the void.
An ode to survival.
A dictionary of wild grasses.
We'll do anything
for a cure.

(2004) Adrienne Rich. Telephone ringing in the labyrinth: poemas 2004 - 2006. 
London and New York: W.W. Norton & Company, 2007. p. 33

sexta-feira, 3 de março de 2017

Maré baixa



Maré baixa
[M. Vasalis]

Recuo e espero.
Tempo assim não será perdido.
Cada minuto se transforma em futuro.
Sou um oceano de espera,
envolto em água pelo instante.
Na maré baixa que sinto,
que puxa para si os minutos e,
em suas profundezas, prepara
a maré alta que vem.
Não há tempo. Ou será que
nada há além do tempo?

[Traduzi do inglês a partir da tradução do holandês por Juliana Brina]

quinta-feira, 2 de março de 2017

Outros jeitos de usar a boca



quando minha mãe estava grávida
do segundo filho eu tinha quatro anos
apontei para sua barriga inchada sem saber como
minha mãe tinha ficado tão grande em tão pouco tempo
meu pai me ergueu com braços de tronco de árvore e
disse que nesta terra a coisa mais próxima de deus
é o corpo de uma mulher é de onde a vida vem
e ouvir um homem adulto dizer algo
tão poderoso com tão pouca idade
fez com que eu visse o universo inteiro
repousando aos pés de minha mãe

[Rupi Kaur. in: Outros jeitos de usar a boca. trad. Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2017.]


Rupi Kaur é uma escritora e artista nascida na Índia que vive em Toronto, Canadá. Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência, o amor, o sexo, o abuso, a perda, o trauma, a cura e feminilidade. Publicado inicialmente de forma independente, o livro já vendeu mais de 1 milhão de exemplares impressos e ficou em 1º lugar na lista de mais vendidos do The New York Times.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O livro é um poema

Edição comemorativa 30 anos de Companhia das Letras


Orelhas (Eucanaã Ferraz)


Amo a margem esquerda onde irrompe o poema
onde principia esse espaço que semelha um pátio
onde o vazio recua para que a voz gráfica se faça.

Diante do ovo das nuvens do ermo da seda
do mar aberto do céu incerto a margem esquerda
induz ao gesto e força a mola que salta para

além do branco. Amo a margem esquerda a escarpa
contra a qual o mundo se espedaça e o mundo
recomeça para morrer algumas águas adiante.

Amo a margem esquerda o zero da régua projetando-se
para a praça onde em linhas que unem paisagens
distintas o tempo dança ainda sua infância.

Mas antes que o poema exista a margem esquerda
é apenas um ramo invisível - galho provável
na árvore que imaginamos e que só vive

quando um verso exausto de também não ser
se apoia na parede reta nas encostas ásperas
da página que espera.

...

[tão bonita a apresentação do Luiz Schwarz nessa edição comemorativa dos 30 anos da Companhia das Letras! Os poemas reunidos aqui falam sobre livros e poesia - um livro presente, livro poema. Quem tem amigos queridos dos livros ganha essas coisas lindas :) Obrigada, Kalebe! ]

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Clarice, para todos

Clarice Lispector

Minhas primeiras lembranças como leitora de Clarice são da época da escola, quando tivemos que ler "O primeiro beijo e outros contos" nas aulas de literatura e português. Diferente da Juliana, não tenho uma história bonita para contar sobre como uma bibliotecária querida me fez ler o livro, assim como não tive uma impressão tão ruim da capa. Mas lembro-me de ter ficado curiosa com o título do livro (será que vai falar de primeiro beijo mesmo? Aquela curiosidade da época). A lembrança que tenho é de ter lido e gostado dos textos, porque já gostava de ler nessa época, mas o livro não era nada do que eu estava esperando.

Anos mais tarde, também na escola, um 'temível' professor de redação, famoso por dar zero nas provas de uma turma inteira, adotava os contos de Laços de família, na época cobrado também no vestibular, como fonte de temas sobre os quais teríamos que construir um texto dissertativo para avaliação. Pânico geral em todas as turmas, acho que ninguém era maduro o suficiente para ler Clarice. E agora, como faremos para decifrar o tema nos contos dessa escritora tão difícil e enigmática? Essa matéria provavelmente contribuiu bastante para que muita gente ficasse traumatizado com a autora, afinal, de um trecho de um conto para nós muito enigmático, tínhamos que escrever em poucas horas uma redação, e para isso era necessário identificar um tema.

Eu adorava as aulas de literatura, sempre era a melhor parte da semana, e nunca tive medo de redação. Tantos colegas simplesmente travavam diante da folha em branco, enquanto era uma das minhas melhores provas sempre (saudades desse tempo em que não ficava bloqueada diante da folha em branco...). Acho que isso acontecia porque não sentia medo, só queria escrever. E mesmo que hoje tenha plena consciência de que não tinha tanta maturidade para ler Clarice (será que sempre estamos preparados para as nossas leituras ou é assim que um dia a gente se prepara para estar?), nessa época algo já me fascinava nos contos que lia, certa de que tinha muito mais ali que eu ainda não compreendia, mas queria compreender. Foi um ano de muitos zeros nas provas de redação, eu tive que me conformar com a nota cinco, que para mim era uma tristeza, mas nessa conjuntura equivalia a um dez e, por isso, despertava olhares de espanto de meus colegas que me perguntavam "como você consegue identificar o tema?", e eu não sabia explicar o que eu fazia para entender. Os textos me tocavam, me diziam algo e eu escrevia sobre isso. 

Tempos depois, já na universidade, Clarice volta a ser o mito enigmático e misterioso para o qual era necessário ter um dom supremo para se compreender e eu odiava cada vez que ouvia colegas se gabando de ter acesso a esse conhecimento que nós, pobres mortais, não éramos capazes de ter. Sempre me perguntava por que muita gente que estuda literatura gosta de colocar os autores nesses pedestais inatingíveis, quando na verdade (pelo menos ao meu ver), nossa função enquanto professores de literatura deveria ser justamente o contrário, a de aproximar as pessoas dos livros e dos autores que tanto amamos. A fazer com que as pessoas não tenham medo de pegar um livro e simplesmente se aventurar por suas páginas, sabendo que cada um fará uma viagem única e particular, de acordo com as suas próprias leituras e vivências, seu ritmo, seu tempo.

Felizmente, já em um dos meus últimos semestres na faculdade, tive a sorte de ter aulas com uma professora que falava dos livros de Clarice com tanta paixão que os olhos da turma inteira (ou pelo menos, os meus) ficavam brilhando durante as aulas, desejando ler Clarice e sentir o mesmo encantamento. Nessas aulas, Clarice se tornou possível. Eu saía das aulas correndo para ler Perto do coração selvagemÁgua Viva e fiquei de ler A maçã no escuro, o preferido da professora Antônia, a quem devo muito por ter tornado essas leituras possíveis, possibilidades apaixonantes de ser, eu também, leitora de Clarice.

Hoje, relendo os contos de Clarice para o projeto de leitura criado pela Juliana para 2017, é gostoso ver que mudamos nossa compreensão e relação com esses textos, e como em cada leitura o encantamento (e, às vezes, estranhamento) continua lá. De forma diferente. E, honestamente, acho que isso não acaba nunca. Não só com Clarice, mas com qualquer texto literário. Porque mudamos nosso olhar de leitores com o tempo, e cada vez que um texto é lido ou relido, algo de diferente sobre ele nos toca. E é isso que é mágico na literatura.

E vocês, qual a sua história de leitura/de leitor com os textos de Clarice Lispector?