quinta-feira, 14 de maio de 2020

traduzindo poesia



Gansos assobiando
Mary Oliver (Tradução: Paula Dutra)

Você abaixa a cabeça para rezar ou
olha para o céu azul?
Faça sua escolha, as preces voam em
todas as direções.
Não se preocupe com a língua que você usa,
Deus certamente entende todas elas.

Até mesmo quando os gansos voam para o norte
fazendo um tumulto de tanto barulho,
Deus está ouvindo e entende.

Rumi dizia, Não há prova da existência da alma.
Mas não seria o retorno da primavera, e como
ela floresce em nossos corações, uma grande dica?

Sim, eu sei, o silêncio de Deus nunca é quebrado,
mas isso é mesmo um problema?
Há milhares de vozes, afinal.

Além disso, você não imagina (eu apenas sugiro isso)
que os gansos sabem tanto quanto nós disso tudo?
Então os escute e observe-os, assobiando enquanto voam.
Leve disso o que puder.

Mary Oliver. Devotions. New York: Penguin Press, 2019.


....
Whistling Swans
(Mary Oliver)

Do you bow your head when you pray or
do you look
up into that blue space?
Take your choice, prayers fly from all directions.
And don't worry about what language
you use,
God no doubt unterstands them all.

Even when the swans are flying north
and making
such a ruckus of noise, God is surely listening
and understanding.
Rumi said, There is no proof of the soul.
But isn't the return of spring and how it
springs up in our hearts a pretty good hint?
Yes, I know, God's silence never breaks, 
but is 
that really a problem?
There are thousands of voices, after all.
And furthermore, don't you imagine 
(I just suggest it)
that the swans know about as much as
we do about
the whole business?
So listen to them and watch them, 
singing as they fly.
Take from it what you can.

Mary Oliver. Devotions. New York: Penguin Press, 2019.

sábado, 18 de abril de 2020

Poema na quarentena

NADA DUAS VEZES (WISLAWA SZYMBORSKA)

tradução Regina Przybycien


Nada acontece duas vezes
nem acontecerá. Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morremos sem rotina.

Mesmo sendo os piores alunos
na escola deste mundão,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.

Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tais quais.

Ontem quando alguém falou
o teu nome junto a mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.

Hoje que estamos juntos,
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?

Por que você tem, má hora,
que trazer consigo a incerteza?

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Oração para Iemanjá



Por Cristiane Lisboa, escritora

"Rainha do mar, dona das águas, amiga da lua, senhora do meu cais, permita. Que meu processo evolutivo aconteça através da alegria. Em caso de dor inevitável, que exista colo e cafuné em abundância. Que minhas palavras sejam condutoras do teu afeto e meu trabalho seja ventilar o peito de toda gente. Que eu aprenda a ouvir. E não derrame verdades sobre ninguém. Que meu saber esteja a favor da leveza e da luz. Que eu possa oferecer sortilégios aos que amo. E tua proteção se estenda até onde eles estiverem. Que eu saiba navegar, Rainha. Em água mansa e revolta. Que meus escorpiões se transformem em pirilampos. E tuas flores me perfumem e me abriguem. Que em noite de lua eu seja tua sereia. E dance com o amor. Que eu seja boa amiga, boa filha, boa parceira. E tenha tempo para os afetos. Que a abundância entre em minha vida de maneiras surpreendentes e milagrosas. E a sincronicidade me visite. Diariamente. Que a cada passo, eu lembre: laço é mais importante que pódio. Liberdade é lei. Gargalhada é sagrada. No mais, gracias, Rainha. Por curvar meu orgulho diante da doçura, lavar meus medos, me ensinar o baile das estrelas. E permitir que dentro deste meu coração tão seu, seja possível ouvir teu mar. Amém. Odoyá."


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Ethan Frome



Ethan Frome é um clássico da literatura estadunidense ainda pouco lido por aqui. Foi com alegria que encontrei esta edição da Editora Penalux possibilitando, enfim, o acesso aos leitores brasileiros a esse texto que é belíssimo.

Na orelha do livro, a escritora Maria Valéria Rezende o compara ao romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos que, assim como em Ethan Frome, a natureza e toda a atmosfera ao redor dos personagens tem uma grande importância no livro, expressando muitas vezes os sentimentos que seus personagens não são capazes de dizer. Assim como em Vidas Secas, este é um romance com personagens de poucas palavras, mas cujos sentimentos são sentidos por nós, leitores, com tal universalidade que talvez seja esse o motivo de provocar em nós tanto encantamento.

Ao contrário de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que se passa no calor do sertão brasileiro, Ethan Frome é ambientado no rigoroso inverno do norte dos Estados Unidos. Um lugar de onde a maioria das pessoas foge por conta do difícil e tempestuoso, para não dizer longo e cruel, inverno. Os poucos que ali residem nesse pequeno vilarejo inventado por Wharton tem suas próprias dores e dificuldades e, ao que tudo indica, ficam ali por não ter outra opção. 

Como em toda cidadezinha do interior, as histórias correm com bastante rapidez e é através dessas histórias, ouvidas aqui e ali, que a história central do personagem Ethan Frome vai se formando aos poucos. Ethan, esse personagem tão duro e silencioso, carrega em seu peito muitas marcas pelo sofrimento de uma vida com muitos problemas, que acabaram por o impedir de sair dali e de mantê-lo em uma vida de muito trabalho na fazenda tentando sobreviver. Seus sonhos e ambições foram podados por condições outras, causando frustração e tristeza, assim como uma grande melancolia. É um personagem triste que nos comove e, o que é mais interessante de ver no romance, que pouco a pouco vai revelando ser dotado de uma grande humanidade. É fácil se encantar por Ethan Frome, e seguimos torcendo até o fim para que ele encontre alguma felicidade em sua vida.

É um desses livrinhos curtos mas que carregam uma grande história. Vale muito a leitura.
Para quem quiser ler um pouquinho da história para ter certeza de que é um livro apaixonante, tem uma amostra AQUI.

WHARTON, Edith. Ethan Frome. Trad. Chico Lopes. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2017.

***


Edith Wharton foi uma importante escritora estadunidense, com uma vasta produção e participação na cena literária. Nascida em 1862 em Nova York, Wharton se destaca como a primeira mulher a receber o título de Doctor Honoris pela Universidade de Yale, a primeira mulher a receber a medalha de ouro do Instituto Nacional de Artes e Letras pelo governo americano e a primeira mulher a receber o Prêmio Pulitzer de ficção em 1921. Mais informações: https://www.edithwharton.org/

A canção de Roland


O ano por aqui começou sem muita concentração para ler, então recorri a esta HQ que foi indicada por uma amiga querida como sendo um daqueles livros que são como um abraço. Só posso dizer que A canção de Roland foi realmente um abraço neste início de ano e me ajudou a sair de uma super ressaca literária. Aliás, os quadrinhos são sempre uma ótima opção para superar aqueles momentos em que empacamos nas leituras e precisamos voltar ao nosso ritmo.

Este é um quadrinho canadense e tem como temas principais a velhice, as relações familiares, o luto e o processo difícil que é perder alguém mais velho de nossa família. Mas só essas palavras não conseguem dar conta de todas as sutilezas que este quadrinho aborda, com bastante delicadeza. Acho que é nesse ponto que ele mais ganha: por falar de uma coisa simples que é o dia a dia de uma família, sua história, suas lembranças. É impossível que você, leitor, não vá se lembrar de alguma história de sua própria família ao ler este livro.

Apesar de narrar o processo de adoecimento do avô Roland por conta de um câncer até sua morte, e isso ser o responsável por muitos momentos em que nossos olhos ficam marejados durante a leitura, é também um livro com momentos engraçados dessa família, tão real e simples quanto a nossa.
E embora seja um livro que tem como tema central a morte de um ente querido, A canção de Roland nos faz pensar muito sobre a vida e as coisas que realmente importam quando nossa jornada por aqui termina (ou recomeça). Fiquei muito comovida com esta HQ, que me fez lembrar muito do meu avô e valorizar cada minutinho que eu tenho ao lado das pessoas que mais amo no mundo. É uma leitura que realmente vale a pena.

To the New Year

“To the New Year

– by W. S. Merwin


With what stillness at last
you appear in the valley
your first sunlight reaching down
to touch the tips of a few
high leaves that do not stir
as though they had not noticed
and did not know you at all
then the voice of a dove calls
from far away in itself
to the hush of the morning
so this is the sound of you
here and now whether or not
anyone hears it this is
where we have come with our age
our knowledge such as it is
and our hopes such as they are
invisible before us
untouched and still possible”

(Source: Present Company, 2005)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Cem: o que aprendemos na vida


Os dias aqui no Brasil não andam muito fáceis e os livros são sempre um bom abrigo para recuperar as forças e a fé na humanidade. Cem: o que aprendemos na vida chegou para mim como um abraço, desses que trazem verdadeiro acalanto, por meio da indicação de uma grande amiga. Um livro ilustrado e bem curtinho que você lê em minutos, mas que você vai querer ter por perto para ler sempre que for necessário lembrar de coisas importantes, é assim que definiria esse livro, que pode passar despercebido por ser ilustrado (por que esse preconceito com os livros ilustrados, né?), mas não cometa esse erro: vale muito a pena. Basta dizer que tive vontade de ter muitas cópias dele para dar de presente para quem eu amo.


Em Cem: o que aprendemos na vida, cada página traz uma reflexão sobre o que aprendemos em cada idade, do momento que nascemos até completar cem anos e refletir sobre essa jornada, que por vezes nos passa batido, é uma daquelas formas gostosas de olhar para o nosso presente e vivê-lo com mais atenção, sem sofrer tanto pelo que passou ou pelo que virá, porque o que importa nisso tudo é mesmo nossa jornada nessa vida, as coisas que vivemos e aprendemos diariamente, por menores que sejam, as pessoas que amamos e que nos amaram também.

Se só puder ler um livro nesse final de ano, que seja esta bela reflexão sobre a vida. Garanto que vai valer a pena.

E aí, o que você aprendeu hoje?

A vida pela frente



Vencedor do Prêmio Goncourt em 1975, A vida pela frente é um dos livros mais vendidos do século XX. Alguns anos depois, quando o autor faleceu, descobriram, em virtude de um documento deixado por ele, que Émile Ajar era na verdade um pseudônimo do já premiado autor Romain Gary, nascido na Lituânia e muito popular na França. O Prêmio Goncourt, que não pode ser concedido duas vezes ao mesmo escritor, nesse caso foi. Se os prêmios comprovam alguns talentos, pelo visto não podemos ter dúvidas sobre o talento de Romain Gary.

Apesar da fascinante história sobre sua autoria, o que mais nos cativa no livro é talvez a atualidade do seu enredo: a narração a partir da perspectiva de uma criança abandonada pelos pais, descobrindo o mundo ao seu redor nem sempre da forma mais suave; personagens que vivem à margem da sociedade como os imigrantes, as prostitutas, travestis, os pobres, os órfãos, os judeus e árabes na França da época; a humanidade das relações que surgem entre aqueles que são desprovidos de muitas coisas, sejam elas materiais ou não, e que se agarram a esses laços como uma forma de se conectarem à vida. 

O narrador, Momo, é um garoto de dez anos de idade que vive sob os cuidados de uma senhora judia, Madame Rosa. Sobrevivente de Auschwitz, e mais tarde prostituta em Paris, agora por conta da idade avançada ela está aposentada e cuida de crianças diversas, em grande parte filhos de prostitutas e órfãos em seu apartamento, num bairro habitado por imigrantes ilegais, árabes, judeus e negros. Os tormentos do passado ainda assombram Madame Rosa, que vive num medo constante e mantendo uma espécie de abrigo no porão do prédio para alguma emergência. É nesse abrigo, chamado por Momo de buraco judeu, que às vezes ela encontra alguma paz durante a noite quando tem pesadelos.

O cuidado com as crianças acaba sendo também responsabilidade de Momo, a criança mais velha do grupo, que acaba por amadurecer cedo demais ao perceber a fragilidade da condição física, mental e emocional de Madame Rosa, por quem nutre verdadeiro afeto. Apesar da maturidade e da ternura que tem com todas as pessoas que conhece no bairro e que acabam por constituir sua família, Momo se sente sozinho e ainda sonha em um dia reencontrar a mãe, sobre quem nada sabe. É a ternura de Momo com os mais velhos a responsável pelas cenas mais bonitas deste romance. 

Romain Gary consegue captar em A vida pela frente a nossa fragilidade diante da vida, ao mesmo tempo em que nos faz perceber que é impossível viver sem amor. São as relações humanas os laços que nos fazem continuar vivendo, apesar das dores e das perdas. Senti vontade de abraçar Momo diversas vezes nesse livro, que vejo um pouco como um romance de aprendizagem, no qual um garotinho nos ensina a olhar a vida de frente e viver, apesar de.

Espero que mais livros deste autor sejam publicados em breve por aqui. 

AJAR, Émile (Romain Gary). A vida pela frente. Trad. André Telles. São Paulo: Todavia, 2019. 192 páginas.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O peso do pássaro morto



Romance de estreia da escritora paulista Aline Bei, O peso do pássaro morto (2017) foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autor estreante com menos de quarenta anos. O romance - assim classificado pela autora -  é um poema narrativo que apresenta uma forma fragmentada, por vezes usando os recursos da poesia, como as rimas, a sonoridade das palavras e a construção de imagens poética, narra a vida de uma menina, uma protagonista cujo nome não sabemos, da infância à idade adulta, constituindo-se portanto em uma narrativa de formação.

Cada capítulo é nomeado de acordo com a idade da personagem e cada idade é marcada por uma perda que transforma a personagem pela violência com que acontecem. Segundo explicado pela autora em uma entrevista, a ideia do livro surge a partir de uma cena que acontece ainda na infância da personagem, quando ela segura um pássaro e este morre em suas mãos. Assim, este é um romance sobre perdas e a sensação de desamparo que elas acarretam na vida de qualquer um de nós. É um romance narrado pela perspectiva social feminina, registrando também as diversas violências que uma mulher sofre ao longo da vida, problematizando o impacto que o silêncio sobre a violência vivida tem na vida das sobreviventes. É também um romance que nos faz pensar sobre a maternidade, e os mitos que a cercam, levando muitas vezes as mães ao sofrimento psíquico.

O peso do pássaro morto é um belíssimo romance de estreia, e que consegue falar de temas muito importantes com grande leveza.

BEI, Aline. O peso do pássaro morto. São Paulo: Editora Nós, 2017.

O homem que plantava árvores



Em tempos de tantas tragédias ambientais, esta fábula de Jean Giono surgiu como um consolo. A edição linda e ilustrada da Editora 34 foi um presente à parte.
A história é muito simples, e talvez mesmo por isso, seja uma dessas leituras que são como um abraço e alimentam em nós um tantinho de esperança. Ao passar por um pequeno vilarejo, o narrador avista um homem que caminhava e plantava árvores. Era isso que fazia dos seus dias, apesar da sua idade, ainda encontrava-se em forma. O lugar já estava bem deserto e sem árvores, não havia mais trabalho por ali e as pessoas saíam em busca de outras opções. Mas o homem continuava caminhando todos os dias, retirando as bolotas de carvalho do bolso e plantando fileiras e mais fileiras do que um dia seriam árvores, se vingassem.
A presença daquele homem ali chama a atenção do narrador, que dele se aproxima e com quem conversa. A história daquele homem que plantava árvores apesar da devastação ao redor despertava mesmo a curiosidade do narrador. Anos depois, ao retornar ao vilarejo, o narrador não pode deixar de notar a mudança na paisagem. A vegetação ali havia se transformado. E o homem continuava por ali, caminhando todos os dias e plantando suas árvores, em sua persistente determinação em fazer sua parte, apesar de.
Na última vez que o narrador ali regressa, anos depois, depois da grande guerra, encontra o cenário transformado. Ali havia uma floresta, que ninguém sabia como havia brotado ali e era digna de investigação. O narrador então sabe que o velho, agora com a idade bem mais avançada, se não tivesse morrido, era o responsável por tudo aquilo. 
Uma história que poderia ter sido totalmente inventada, não fossem as histórias tão inspiradas nas vidas que nos rodeiam, como os leitores poderão ver no prólogo do livro, sobre o qual não comentarei, que é para não tirar o encanto e a surpresa. Apenas digo que vale a pena.


GIONO, Jean. O homem que plantava árvores. Trad. Cecília Ciscato e Samuel Titan Jr. São Paulo: Editora 34, 2018.