domingo, 19 de fevereiro de 2017

O livro é um poema

Edição comemorativa 30 anos de Companhia das Letras


Orelhas (Eucanaã Ferraz)


Amo a margem esquerda onde irrompe o poema
onde principia esse espaço que semelha um pátio
onde o vazio recua para que a voz gráfica se faça.

Diante do ovo das nuvens do ermo da seda
do mar aberto do céu incerto a margem esquerda
induz ao gesto e força a mola que salta para

além do branco. Amo a margem esquerda a escarpa
contra a qual o mundo se espedaça e o mundo
recomeça para morrer algumas águas adiante.

Amo a margem esquerda o zero da régua projetando-se
para a praça onde em linhas que unem paisagens
distintas o tempo dança ainda sua infância.

Mas antes que o poema exista a margem esquerda
é apenas um ramo invisível - galho provável
na árvore que imaginamos e que só vive

quando um verso exausto de também não ser
se apoia na parede reta nas encostas ásperas
da página que espera.

...

[tão bonita a apresentação do Luiz Schwarz nessa edição comemorativa dos 30 anos da Companhia das Letras! Os poemas reunidos aqui falam sobre livros e poesia - um livro presente, livro poema. Quem tem amigos queridos dos livros ganha essas coisas lindas :) Obrigada, Kalebe! ]

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Clarice, para todos

Clarice Lispector

Minhas primeiras lembranças como leitora de Clarice são da época da escola, quando tivemos que ler "O primeiro beijo e outros contos" nas aulas de literatura e português. Diferente da Juliana, não tenho uma história bonita para contar sobre como uma bibliotecária querida me fez ler o livro, assim como não tive uma impressão tão ruim da capa. Mas lembro-me de ter ficado curiosa com o título do livro (será que vai falar de primeiro beijo mesmo? Aquela curiosidade da época). A lembrança que tenho é de ter lido e gostado dos textos, porque já gostava de ler nessa época, mas o livro não era nada do que eu estava esperando.

Anos mais tarde, também na escola, um 'temível' professor de redação, famoso por dar zero nas provas de uma turma inteira, adotava os contos de Laços de família, na época cobrado também no vestibular, como fonte de temas sobre os quais teríamos que construir um texto dissertativo para avaliação. Pânico geral em todas as turmas, acho que ninguém era maduro o suficiente para ler Clarice. E agora, como faremos para decifrar o tema nos contos dessa escritora tão difícil e enigmática? Essa matéria provavelmente contribuiu bastante para que muita gente ficasse traumatizado com a autora, afinal, de um trecho de um conto para nós muito enigmático, tínhamos que escrever em poucas horas uma redação, e para isso era necessário identificar um tema.

Eu adorava as aulas de literatura, sempre era a melhor parte da semana, e nunca tive medo de redação. Tantos colegas simplesmente travavam diante da folha em branco, enquanto era uma das minhas melhores provas sempre (saudades desse tempo em que não ficava bloqueada diante da folha em branco...). Acho que isso acontecia porque não sentia medo, só queria escrever. E mesmo que hoje tenha plena consciência de que não tinha tanta maturidade para ler Clarice (será que sempre estamos preparados para as nossas leituras ou é assim que um dia a gente se prepara para estar?), nessa época algo já me fascinava nos contos que lia, certa de que tinha muito mais ali que eu ainda não compreendia, mas queria compreender. Foi um ano de muitos zeros nas provas de redação, eu tive que me conformar com a nota cinco, que para mim era uma tristeza, mas nessa conjuntura equivalia a um dez e, por isso, despertava olhares de espanto de meus colegas que me perguntavam "como você consegue identificar o tema?", e eu não sabia explicar o que eu fazia para entender. Os textos me tocavam, me diziam algo e eu escrevia sobre isso. 

Tempos depois, já na universidade, Clarice volta a ser o mito enigmático e misterioso para o qual era necessário ter um dom supremo para se compreender e eu odiava cada vez que ouvia colegas se gabando de ter acesso a esse conhecimento que nós, pobres mortais, não éramos capazes de ter. Sempre me perguntava por que muita gente que estuda literatura gosta de colocar os autores nesses pedestais inatingíveis, quando na verdade (pelo menos ao meu ver), nossa função enquanto professores de literatura deveria ser justamente o contrário, a de aproximar as pessoas dos livros e dos autores que tanto amamos. A fazer com que as pessoas não tenham medo de pegar um livro e simplesmente se aventurar por suas páginas, sabendo que cada um fará uma viagem única e particular, de acordo com as suas próprias leituras e vivências, seu ritmo, seu tempo.

Felizmente, já em um dos meus últimos semestres na faculdade, tive a sorte de ter aulas com uma professora que falava dos livros de Clarice com tanta paixão que os olhos da turma inteira (ou pelo menos, os meus) ficavam brilhando durante as aulas, desejando ler Clarice e sentir o mesmo encantamento. Nessas aulas, Clarice se tornou possível. Eu saía das aulas correndo para ler Perto do coração selvagemÁgua Viva e fiquei de ler A maçã no escuro, o preferido da professora Antônia, a quem devo muito por ter tornado essas leituras possíveis, possibilidades apaixonantes de ser, eu também, leitora de Clarice.

Hoje, relendo os contos de Clarice para o projeto de leitura criado pela Juliana para 2017, é gostoso ver que mudamos nossa compreensão e relação com esses textos, e como em cada leitura o encantamento (e, às vezes, estranhamento) continua lá. De forma diferente. E, honestamente, acho que isso não acaba nunca. Não só com Clarice, mas com qualquer texto literário. Porque mudamos nosso olhar de leitores com o tempo, e cada vez que um texto é lido ou relido, algo de diferente sobre ele nos toca. E é isso que é mágico na literatura.

E vocês, qual a sua história de leitura/de leitor com os textos de Clarice Lispector?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

[Os óculos]



"De nosso pai, em minhas posses, restou um par de óculos quadrados, armação pesada, antigos. Esse par de óculos fica comigo quando escrevo, a eles me apego e com eles mesmo converso, pedindo menos transcendência do que lucidez. Peço, Pai, me ajuda, e o pai me ajuda através dos óculos, dos óculos que ficam junto a mim, que ficarão junto a mim, um manancial quente e bom destrava a mão, foca meus sentidos naquilo que há de mais sagrado, o amor no qual confiava e me fazia forte, força de andar em frente e não precisar de perdão para coisa alguma. Sentindo nas mãos o metal e o vidro espicaçando a pele de frio, parece que escuto a risada e o choro de papai, que vi apenas uma vez na vida, mas que se fincou dentro de mim como a lembrança de que a dor existe e que no entanto pode ser contornada, e que tudo não é um oceano de lágrimas, como a senhora diz, mas um deserto de se atravessar com alegria."


MOSCOVICH, Cíntia. Por que sou gorda, mamãe? Rio de Janeiro: Record, 2006. p.249

sábado, 4 de fevereiro de 2017

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Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES (Gótica Ed., 2001), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O ano da estrela (The Year of The Star)


Projeto de leitura para 2017, criado pela Juliana, do blog The Blank Garden: ler dois contos de Clarice Lispector por semana, a partir de fevereiro, na ordem em que estão publicados no livro Todos os contos (publicado pela editora Rocco). Vamos ler Clarice Lispector? Confira a programação de leitura (criada pela Ju e originalmente publicada aqui):
  • Semana 01
  • [6 de fevereiro a 12 de fevereiro, 2017]
  • Contos: O triunfo & Obsessão
  • Semana 02
  • [13 de fevereiro a 19 de fevereiro, 2017]
  • O delírio & Eu e Jimmy 
  • Semana 03
  • [20 de fevereiro a 26 de fevereiro, 2017]
  • História interrompida & A fuga
  • Semana 04
  • [27 de fevereiro a 5 de março, 2017]
  • Trecho & Cartas a Hermengardo
  • Semana 05
  • [6 de março a 12 de março, 2017]
  • Gertrudes pede um conselho & Mais dois bêbados
  • Semana 06
  • [13 de março a 19 de março, 2017]
  • Devaneio e embriaguez duma rapariga & Amor
  • Semana 07
  • [20 de março a 26 de março, 2017]
  • Uma galinha & A imitação da rosa
  • Semana 08
  • [27 de março a 2 de abril, 2017]
  • Feliz aniversário & A menor mulher do mundo
  • Semana 09
  • [3 de abril a 9 de abril, 2017]
  • O jantar & Preciosidade
  • Semana 10
  • [10 de abril a 16 de abril, 2017]
  • Os laços de família & Começos de uma fortuna
  • Semana 11
  • [17 de abril a 23 de abril, 2017]
  • Mistério em São Cristóvão & O crime do professor de matemática
  • Semana 12
  • [24 de abril a 30 de abril, 2017]
  • O búfalo & Os desastres de Sofia
  • Semana 13
  • [1 de maio a 7 de maio, 2017]
  • A repartição dos pães & A mensagem
  • Semana 14
  • [8 de maio a 14 de maio, 2017]
  • Macacos & O ovo e a galinha
  • Semana 15
  • [15 de maio a 21 de maio, 2017]
  • Tentação & Viagem a Petrópolis
  • Semana 16
  • [22 de maio a 28 de maio, 2017]
  • A solução & Evolução de uma miopia
  • Semana 17
  • [29 de maio a 4 de junho, 2017]
  • A quinta história & Uma amizade sincera
  • Semana 18
  • [5 de junho a 11 de junho, 2017]
  • Os obedientes & A legião estrangeira
  • Semana 19
  • [12 de junho a 18 de junho, 2017]
  • Fundo de gaveta & A pecadora queimada e os anjos harmoniosos
  • Semana 20
  • [19 de junho a 25 de junho, 2017]
  • Perfil de seres eleitos & Discurso de inauguração
  • Semana 21
  • [26 de junho a 2 de julho, 2017]
  • Mineirinho & Felicidade Clandestina
  • Semana 22
  • [3 de julho a 9 de julho, 2017]
  • Restos do carnaval & Come, meu filho
  • Semana 23
  • [10 de julho a 16 de julho, 2017]
  • Perdoando Deus & Cem anos de perdão
  • Semana 24
  • [17 de julho a 23 de julho, 2017]
  • Uma esperança & A criada
  • Semana 25
  • [24 de julho a 30 de julho, 2017]
  • Menino a bico de pena & Uma história de tanto amor
  • Semana 26
  • [31 de julho a 6 de agosto, 2017]
  • As águas do mundo & Encarnação involuntária
  • Semana 27
  • [7 de agosto a 13 de agosto, 2017]
  • Duas histórias a meu modo & O primeiro beijo
  • Semana 28
  • [14 de agosto a 20 de agosto, 2017]
  • A procura de uma dignidade &A partida do trem
  • Semana 29
  • [21 de agosto a 27 de agosto, 2017]
  • Seco estudo de cavalos & Onde estivestes de noite
  • Semana 30
  • [28 de agosto a 3 de setembro, 2017]
  • O relatório da coisa & O manifesto da cidade
  • Semana 31
  • [4 de setembro a 10 de setembro, 2017]
  • As manigâncias dona Frozina & É para lá que eu vou
  • Semana 32
  • [11 de setembro a 17 de setembro, 2017]
  • O morto no mar da Urca & Silêncio
  • Semana 33
  • [18 de setembro a 24 de setembro, 2017]
  • Uma tarde plena & Tanta mansidão
  • Semana 34
  • [25 de setembro a 1 de outubro, 2017]
  • Tempestade de almas & Vida ao natural
  • Semana 35
  • [2 de outubro a 8 de outubro, 2017]
  • Explicação & Miss Algrave
  • Semana 36
  • [9 de outubro a 15 de outubro, 2017]
  • O corpo & Via Crucis
  • Semana 37
  • [16 de outubro a 22 de outubro, 2017]
  • O homem que apareceu & Ele me bebeu
  • Semana 38
  • [23 de outubro a 29 de outubro, 2017]
  • Por enquanto & Dia após dia
  • Semana 39
  • [30 de outubro a 5 de novembro, 2017]
  • Ruído de passos & Antes da ponte Rio-Niterói
  • Semana 40
  • [6 de novembro a 12 de novembro, 2017]
  • Praça Mauá & A letra do "p"
  • Semana 41
  • [13 de novembro a 19 de novembro, 2017]
  • Melhor do que arder & Mas vai chover
  • Semana 42
  • [20 de novembro a 26 de novembro, 2017]
  • Brasília & A bela e a fera ou A ferida grande demais
  • Semana 43
  • [27 de novembro a 3 de dezembro, 2017]
  • Um dia a menos & A explicação inútil
  • Semana 44
  • [4 de dezembro a 10 de dezembro, 2017]
  • catching up week
  • Semana 45
  • [11 de dezembro a 17 de dezembro, 2017]
  • catching up week
  • Semana 46
  • [18 de dezembro a 24 de dezembro, 2017]
  • wrap-up

domingo, 8 de janeiro de 2017

Aqui estão os sonhadores



Em uma época em que a questão dos imigrantes está tão presente nas discussões políticas em todo o mundo, principalmente nos EUA (e nem sempre pela perspectiva mais positiva do acolhimento), um livro escrito por uma imigrante camaronesa que retrata com sensibilidade a situação dos imigrantes nos EUA e as dificuldades que enfrentam em busca de permanência parece ser mais do que necessário.

É por ter como protagonistas um casal de imigrantes camaroneses que sonha em conquistar o green card e permanecer nos Estados Unidos que o romance de Imbolo Mbue chama a atenção. Apesar de saberem dos problemas existentes nos Estados Unidos pelos muitos filmes que viram ainda em seu país - e nesse ponto fica claro o papel do cinema e da mídia na manutenção desse "sonho americano" -para o casal Jonga, os Estados Unidos  significavam felicidade. O casal estava disposto a trabalhar duro para conseguir permanecer na América e dar um futuro melhor para os filhos. As dificuldades, no entanto, são muitas: a dificuldade de oportunidades, com o idioma, o preconceito, mas principalmente financeiras, o que se agravou ainda mais por conta da recessão.

O choque entre as culturas se faz presente desde as primeiras páginas quando Jende precisa elaborar um currículo que impressione e se vestir de acordo com o esperado no país para conseguir um emprego. Depois de algum tempo vivendo em condições precárias e trabalhando em diversos serviços, ele finalmente consegue juntar dinheiro para que a esposa e o filho possam finalmente se juntar a ele em Nova York.

Mas a vida de Jende muda mesmo quando ele começa a trabalhar como motorista para Clark Edwards, um executivo rico de Wall Street. Acompanhando o dia a dia da família Edwards, ouvindo as conversas que travavam dentro do carro enquanto os levava para os lugares, Jende passa a conhecer não apenas seus segredos, mas também seus problemas e dores. Nesse ponto, as duas famílias, a princípio tão diferentes pelas condições de vida que possuem, se aproximam nas relações familiares e em problemas que podem ser comuns a muitos de nós. A nossa humanidade está além das fronteiras, ou pelo menos, deveria ser sempre assim.

Além de tratar da situação dos imigrantes em busca de asilo, o romance aborda as questões familiares, a relação entre pais e filhos, traição, perdas e lealdade. Ao focar na vida desses trabalhadores imigrantes, a autora consegue tecer importantes críticas à sociedade estadunidense, e principalmente à essa busca desenfreada por mais e mais dinheiro que gera tanta infelicidade nas sociedades capitalistas. Ela demonstra como uma vida de aparências pode ser feita de solidão e como a felicidade pode estar nas pequenas coisas. Isso tudo com um tom leve, uma vez que todos os personagens são retratados sem idealizações, mostrando seus pontos positivos e negativos.

Em Aqui estão os sonhadores, eu diria que não há um herói, mas diversos heróis - homens e mulheres tentando se encontrar na vida, o que nem sempre acontece através do caminho mais curto ou mais fácil. E apesar de ser um retrato bastante fiel de uma sociedade que tem tratado muito mal o outro, há algo de terno nessa história que nos mantém presos ao livro até chegar a última página.

Além disso, chama a atenção a violência contra as mulheres que ocorre em todas as classes sociais e independe de cor, raça, classe ou etnia. Tanto as imigrantes camaronesas que levam surras de seus maridos por serem consideradas por eles como "propriedade", em uma demonstração de como é absurda a naturalização dessa violência, disfarçada muitas vezes de "cultura" -  quanto o sofrimento da esposa de Clark Edwards, que carrega as marcas dessa violência em segredo, revelam as dimensões sociais desse problema, que deveria ser uma preocupação de todos nós.

A maternidade é outro ponto que podemos observar no romance, uma vez que vemos um retrato de mães imperfeitas, que amam seus filhos e são capazes de fazer tudo por eles - mas também há registros de relações que fracassaram por que mães tiveram filhos que não foram desejados ou foram fruto de violência.

Em resumo, talvez o grande mérito dessa autora estreante seja este: construir personagens que aprendemos a amar e a odiar durante a leitura, mostrando que tanto na ficção quanto na vida real, viver é esse eterno aprender. E tudo isso por meio de uma narrativa extremamente envolvente que revela uma grande contadora de histórias, sensível ao que se passa no mundo ao seu redor.


Imbolo Mbue nasceu em Limbe, Camarões. Ela estudou nas Universidades Rutgers e Columbia. Imbolo mora nos Estados Unidos há mais de uma década e vive na cidade de Nova York. Aqui estão os sonhadores é seu primeiro romance.
*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A guerra não tem rosto de mulher


"A vila de minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. 
Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: 
quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram."

Em A guerra não tem rosto de mulher, a ucraniana Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, reúne depoimentos de diversas mulheres que participaram como soldados na Rússia durante a Segunda Guerra. Neste ensaio jornalístico e de múltiplas vozes, surpreende e emociona encontrar histórias tão verdadeiras e sofridas de mulheres, relatos quase sempre silenciados até mesmo pela história. Afinal, como constata Svetlana sobre a história da guerra:

"Foi escrito por homens e sobre homens, isso ficou claro na hora. Tudo o que sabemos da guerra conhecemos por uma “voz masculina”. Somos todos prisioneiros de representações e sensações “masculinas” da guerra. Das palavras “masculinas”. Já as mulheres estão caladas."

Assim como ocorre na literatura, as vozes femininas são também silenciadas em suas experiências pessoais e relatos, ainda que sua participação ativa e corajosa durante a guerra tenha sido indispensável. Milhares de mulheres lutaram nos campos de batalha e nesse registro tomamos conhecimento das dificuldades que enfrentaram para conseguir se afirmar entre os batalhões de homens que julgavam que elas fossem frágeis e incapazes de lutar. O mais doloroso, entre as muitas histórias dolorosas que este livro nos conta, é ver que, diferente dos homens, consagrados como heróis depois da guerra, essas mulheres enfrentaram o preconceito de suas famílias e da sociedade sexista, sempre acostumada a punir aquelas que desafiam os papéis de gênero tradicionais. Ao voltar para casa depois da guerra, tiveram que esconder suas medalhas e suas histórias por medo de que sua participação as impedissem de obter um bom casamento e constituir uma família. 

O sofrimento das mães que perderam seus filhos e até mesmo que tiveram que abandoná-los durante a guerra; a violência sexual sofrida pelas mulheres de todas as nacionalidades e que quase sempre não é comentada; a preocupação que as mulheres tinham de se ferirem ou ficarem com marcas enquanto estavam na frente de batalha, preocupadas com a imagem e o corpo que precisavam ter para conseguir se casar depois que a guerra acabasse; os amores e as perdas durante os muitos anos de guerra; o envelhecimento precoce de meninas que foram corajosas o suficiente para ir lutar pela sua pátria quando já não havia homens onde moravam que pudessem se alistar; esses são alguns dos muitos temas, surpreendentemente atuais, que Svetlana resgata nessas histórias. Histórias de mulheres silenciadas há tanto tempo que faz-se urgente ouvi-las. E cada livro que dá voz a tantas vozes silenciadas merece, e muito, ser lido e compartilhado. Principalmente se ele nos mostra novas perspectivas que contestem essa história única e masculina.

"E a história? Ela está na rua. Na multidão. Acredito que em cada um de nós há um pedacinho da história. Um tem meia paginazinha, outro tem duas ou três. Juntos, estamos escrevendo o livro do tempo. Cada um grita sua verdade. O pesadelo das nuances. E é preciso ouvir tudo isso separadamente, dissolver-se em tudo isso e transformar-se em tudo isso. E, ao mesmo tempo, não perder a si mesmo. Unir o discurso da rua e da literatura. "

Svetlana Aleksiévitch. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Resultado: sorteio da virada



E quem ganhou um exemplar de História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante, para começar 2017 com uma ótima leitura foi a Vanessa Rodrigues Barcelos.

Obrigada a todos e todas que participaram! Feliz 2017!



segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

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E uma canção desesperada
(Lívia Natália)

A dor de uma mulher tem infinitas máscaras,
mas permanece dor, sob as cores pintadas.
A dor de uma mulher não dorme cedo,
ela espreita toda sua vida
e seu coração se crispa em segredo.

A dor de uma mulher não tem fantasmas,
não anda no escuro, ela se recolhe nas suas entranhas
como quem costura o imenso véu
que lhe cobrirá as feridas.

A dor de uma mulher tem que ser das mais fortes,
tem que ferir este bicho de morte,
este animal que sangra e sobrevive
às suas dobras vincadas de dor e medo.
Neste bicho estranho que se pinta de vermelho,
dentro e fora têm a mesma face estranha e calma.

A dor de uma mulher é violenta,
e ladra bestializada de seus próprios precipícios.
Crava seus dentes no tempo,
chora silente pra dentro
e se cura das feridas nos dias.

NATÁLIA, Lívia. Água Negra e outras águas. 2 ed. Salvador: Caramurê Publicações, 2016. p. 97

domingo, 25 de dezembro de 2016

Sorteio da virada



Nada melhor do que começar o ano com um ótimo livro, certo? 

Para participar do sorteio de um exemplar de "História de quem foge e de quem fica", de Elena Ferrante, é só preencher o formulário abaixo com seu nome e email, e responder a pergunta desafio. As inscrições podem ser feitas até o dia 31/12/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 01/01/2017, às 10h. Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. 

O resultado será divulgado aqui no blog. Boa sorte e que 2017 seja repleto de livros incríveis! :)

Para participar do sorteio, clique aqui.