domingo, 20 de agosto de 2017

O castelo de vidro



O castelo de vidro é um romance biográfico no qual a jornalista e escritora estadunidense Jeannette Walls narra suas memórias de infância e as memórias de sua família bem peculiar. Boêmios, errantes, sem vínculo a nenhum lugar e sem nenhum apego aos valores tradicionais, essa família atípica vive na verdade em condições insalubres, de muita pobreza e privações, fugindo de credores - mas tudo isso é mascarado e romantizado no discurso dos pais, que tentam convencer seus filhos e a si mesmos de que a vida que levam é por opção.

O pai de Jeannette era alcoólatra e não permanecia nos empregos por muito tempo. Quando bebia, sempre voltava para casa agressivo, principalmente com a esposa. Apesar de ser carinhoso com os filhos e ter um carinho especial pela filha Jeannette, que sempre acreditava em suas histórias mais mirabolantes, os problemas em família eram muitos: as crianças não frequentavam a escola, ficavam com frio e com fome porque ele gastava todo o dinheiro que recebia em bebidas e apostas, com roupas rasgadas e morando em casas em condições precárias ou mesmo dormindo ao relento enquanto a família inteira se mudava de cidade em cidade, carregando seus poucos pertences em um carro velho, que quase sempre os deixavam no meio do caminho.

Muito dessa negligência é narrada pela autora com certo romantismo. De certa forma, é de se imaginar que apesar de todos os problemas que ela descreve no livro, de tudo que os pais aprontaram com ela e os irmãos (e que a maioria das pessoas com bom senso considerariam negligência e irresponsabilidade) ela ainda sente por eles amor, talvez até mais compaixão. Há sempre uma passagem mais terna depois de um incidente bem problemático que faz com que o problema se suavize em uma leitura mais rápida. Ou talvez seja simplesmente o desejo da autora de não querer condenar os pais pelos seus erros, na tentativa de mostrar que também houve pontos positivos em sua criação.

Desde a infância que Jeannette ouvia do pai que ele construiria um castelo de vidro para a família: uma casa com telhado de vidro para que eles pudessem observar as estrelas e com tudo o que cada um deles sonhava em ter em uma casa, o que na época eles não tinham. Jeannette era a única que parecia ainda acreditar nessa promessa do pai, de que ele encontraria ouro ou ganharia muito dinheiro para construir o castelo de vidro. A irmã mais velha de Jeannette e a mãe já conseguiam perceber que isso era só mais uma das histórias do pai. Essa relação mais próxima entre Jeannette e o pai é narrada com sentimento pela autora, que ainda assim não deixa de registrar os momentos (muitos, na verdade) em que o pai a decepcionou. 

Foram muitas as questões que chamaram a minha atenção no livro. A primeira é como esse casal com cinco filhos conseguiu fugir das instituições responsáveis por proteger os menores de idade. Uma única tentativa de visita do oficial de justiça na casa dessa família é narrada pela autora e mesmo assim, depois disso ninguém mais aparece. O que nos faz pensar na fragilidade desse sistema de proteção que, mesmo com denúncias, provavelmente dos vizinhos, nada é feito pelas crianças.

A segunda questão são as inúmeras violências que as meninas e mulheres sofrem. Desde a mãe de Jeannette, que derruba a narrativa romântica do pai de como eles se casaram para revelar que ele não aceitava um não como resposta, às agressões verbais e físicas que a mãe sofria quando o pai voltava bêbado para casa. O impacto dessa violência na formação das crianças, que presenciavam tudo isso e “fingiam não ver” como uma forma de sobrevivência, é algo terrível de se imaginar. Nesse sentido o livro também mostra o impacto desses problemas na vida das crianças quando toda a família precisa voltar para a cidade natal do pai e morar na casa da avó paterna, também alcoólatra, e esse período é suficiente para que as crianças também compreendam o que o pai deles havia sofrido.

A própria Jeannette é atacada por um dos meninos do bairro que quer namorar com ela (ela nem tinha doze anos na época) e esse acontecimento é silenciado porque ela conseguia pressentir, desde aquele momento, que isso traria muitos problemas para ela, ou seja, as mulheres dessa família já crescem aprendendo que o silêncio é o caminho que a mulher deve tomar nessa sociedade. Pouco tempo depois, ela é assediada dentro de casa por um tio e quando relata o ocorrido para a mãe esta é a resposta (que me deixou bastante inconformada, para usar um eufemismo, tamanho foi o absurdo do argumento e a negligência da mãe):

“Está tudo certo – disse, e explicou que agressão sexual era um crime de percepção. – Se você não acha que foi agredida, não foi. Muitas mulheres fazem escândalo demais com essas coisas. Mas você é mais forte que isso – falou, e voltou às palavras cruzadas” (WALLS, p. 215).

Além disso, uma das colegas de escola de Jeannette, quando mais tarde eles retornam para a cidade natal do pai e voltam a frequentar a escola, tem uma significativa mudança de comportamento, que chama a atenção de Jeannette e que ela explica como sendo pela mudança do namorado da mãe para casa onde ela morava. Pouco tempo depois a menina diz estar grávida, não aparece mais na escola e quando Jeannette vai até a casa dela saber o que está acontecendo o namorado da mãe não permite que ela fale com a amiga. E essa violência, tão evidente para quem lê, é só mais uma das muitas violências descritas no livro que ficaram por isso mesmo.

O ponto alto do livro talvez seja mostrar a determinação dessas crianças em lutar pelo sonho de sair dali, de ter uma vida melhor e fazer tudo para conseguir isso. Certamente foi uma infância bastante prejudicada pela preocupação que tinham com a comida, com o frio, com as roupas, às vezes agindo com mais maturidade que os próprios pais. De tão surreal, por vezes queremos acreditar que essa história é ficção, mas infelizmente não é. Talvez por isso nós sentimos (ou a autora mesmo) o desejo de extrair dessa história algo positivo.

Vejo o livro como uma forma de a autora exorcizar esse passado e talvez ficar em paz com suas próprias lembranças. Sem dúvida é uma história que nos inquieta e faz pensar em quão complexas são as relações familiares - nunca perfeitas, é certo – mas em alguns casos bastante problemáticas. É importante ter em mente isso durante a leitura, e reconhecer e nomear essas violências que acabam por ser naturalizadas ao se transformarem em apenas mais uma história.


*Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

2 comentários:

Pedro Luso disse...

Pelo que li nesta tua excelente resenha de "O castelo de vidro", editado pela Globo, de autoria de Jeannette Walls, o livro convida mesmo à leitura. É o que pretendo fazer. Parabéns pela resenha.
Um abraço.
Pedro

Pipa disse...

Obrigada, Pedro. O livro é realmente bem interessante, vale a leitura.

um abraço,

Pipa