domingo, 22 de dezembro de 2013

Poesia domingueira: Ana Cristina Cesar

Travelling (Ana C. Cesar)

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirmava, "Perder é mais fácil que se pensa".
Rasgo os papéis todos que sobraram.
"Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não", dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. "É perigoso",                                          
ria a Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco
sem notar
como quem procura um fio.
Nunca mais te disse
uma palavra, repito, preciso alto,
tarde da noite,
enquanto desalinho
sem luxo
sede
agulhadas
os pareceres que ouvi num dia interminável:
sem parecer mais com a luz ofuscante desse mesmo
dia interminável.

Ana Cristina Cesar. A teus pés. São Paulo: Ed. Ática/ IMS, 1998. pág. 73-74

2 comentários:

Rosangela Neres disse...

Que bonito! A poesia de Ana Cristina Cesar é sempre um diferencial!

Obrigada, Pipa, por visitar meu blog e comentar! Sempre um prazer receber a visita de uma leitora de tão bom gosto.

Um Bom Natal!

Pipa disse...

Obrigada, Rosangela! :)

beijo,

Pipa