quinta-feira, 28 de novembro de 2013

E a noite roda


"Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. 
Esquece a morte e segue-me".

E a Noite Roda é o primeiro romance da jornalista Alexandra Lucas Coelho, que já publicou narrativas de viagem e que por esta primeira aventura pelos campos da ficção recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) relativo a 2012, prêmio já concedido a grandes autores como José Saramago e Antonio Lobo Antunes. 

E a Noite Roda é a história de amor entre uma jornalista catalã (Ana Blau, a narradora) e um jornalista belga (Léon) que se conhecem em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat. Essa história de amor atravessa várias cidades e paisagens diferentes, levando o leitor a viajar junto com os personagens por esses espaços, seus cheiros, imagens e climas tão diversos. Em meio às descrições de lugares e cenários políticos, muitos dos quais são zonas de conflito, passamos a conhecer mais sobre Ana e Léon e o que os une, enquanto a narradora reconta os capítulos dessa relação. Um amor que desde o início está fadado ao fracasso, mas é daquelas paixões arrebatadoras, nas quais mergulhamos de olhos fechados, mesmo sabendo que, cedo ou tarde, chegará ao fim.

"Não posso dizer que não sei: eu vejo. Mas é para a frente que caminho. 
Se for amor, deixará de ser crime." [pág.66]

As referências literárias e musicais permeiam o texto e acabamos por terminar de ler com uma lista interessante de coisas novas a serem lidas ou descobertas. De Proust a Amós Oz, de Victor Hugo a Alejandra Pizarnik, de Wislawa Szymborska a Sigur Rós, entre tantos outros. São os livros e poemas que os personagens trocaram, como acontece em qualquer história de amor; são as músicas que ouviram juntos ou recomendaram e gravaram um para o outro, e que passam a ser a memória afetiva dessa saudade, dessa paixão.

"Um amor é sempre a sua circunstância.[...] Cada um saberá o que 
vê no outro e sobre isso mais ninguém sabe nada". [pág. 59]

As descrições de Alexandra Lucas Coelho são líricas e poéticas, há diversas frases que sozinhas já são tão belas que merecem destaque. É com essa narrativa cheia de lirismo que a autora cativa o leitor, que termina por se apaixonar e sofrer junto com Ana e Léon, torcendo por um final feliz. A experiência da autora com as narrativas de viagem contribui para que o texto flua com muita suavidade permitindo que nós, leitores, possamos também viajar pelos lugares citados, sem que a viagem seja cansativa: passeamos por Jerusalém, Gaza, Roma, Barcelona, entre outros.

A cor azul da capa (que por sinal é muito bonita) é também simbólica no texto já desde a sua epígrafe: "Se azuis são os seus olhos, azul será a minha lança" (Ibn Al Qaysaran). Foi interessante encontrar detalhes significativos na história que possuem essa cor: os olhos de Léon, a cor da permissão para entrar em Jerusalém, o vestido que ela usa quando se encontraram, e o próprio sobrenome da narradora, Ana Blau. 

Viajar nas palavras de Alexandra Lucas Coelho foi uma experiência muito prazerosa, ainda que meu coração sempre sofra um pouco com histórias de amor assim. Inesquecíveis, porém reais e bem possíveis de acontecer. Recomendo.

"Noite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé." [pág. 82]

Alexandra Lucas Coelho. E a noite roda. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2012. 247 páginas.


5 comentários:

Flávia disse...

Primeiro quero dizer que adorei o nome do seu blog. Super criativo.
Quanto ao livro fiquei super a fim de ler. Parece uma história bem contada apesar do final.

Abraços.

(Eu ia participar da discussão do livro O Som e a Fúria com você e a Ju Brina, mas sabe quando o livro agarra?! Então ... Assim mesmo vou continuar tentando)

Pipa disse...

Oi, Flávia! Muito obrigada pelo comentário! Fico contente que tenha se interessado pelo livro, eu gostei bastante.
Então, minha leitura de O Som e a Fúria também está atrasada, aliás, eu diria "empacada", mas agora estou tentando ler pelo menos um pouco por dia pra ver se acabo antes do ano terminar rsrs Bom saber que não foi só eu que senti isso em relação ao livro.

beijo!
Pipa

Gabs disse...

Encontrei seu blog por acaso e gostei muito dele :) Acompanharei suas resenhas para descobrir novos autores!

Pipa disse...

Oi, Gabs!

Muito obrigada! :)

beijo,

Pipa

Maura C. Parvatis disse...

Me encantei pelo livro ao ler sua resenha!

Se meu interesse havia sido despertado pela cor da capa, ao saber que ela possui tantos significados passei a achá-la mais bonita!
Já anotei no bloquinho de desejados :)

Beigos!