quarta-feira, 9 de março de 2016

Os pescadores


“Hoje, quando olho para trás, como tenho feito com mais frequência agora que tenho meus filhos, percebo que foi durante uma dessas idas ao rio que nossas vidas e nosso mundo mudaram. Pois foi nele que o tempo começou a ter importância, foi naquele rio que nos tornamos pescadores”. (p.18)
Os pescadores é o livro de estreia de Chigozie Obioma, um jovem autor nigeriano de apenas 28 anos que em 2015 esteve entre os finalistas do Man Booker Prize e ganhou destaque na imprensa como uma das grandes promessas da literatura africana contemporânea. O romance chega agora aos leitores brasileiros pela Globo Livros, com tradução de Claudio Carina.

O livro pode ser lido como um romance de formação, pois retrata o amadurecimento dos personagens, da infância até a idade adulta, e em face das situações distintas que passam a ocorrer em sua família, o que gera profundas transformações em cada um deles. Os pescadores é um romance sobre a infância de quatro irmãos de classe média, que vivem em uma pequena cidade da Nigéria com os pais e uma irmã ainda bebê e que, de um dia para o outro, passam a ter mais liberdade quando o pai é transferido para uma cidade maior, onde poderá ter melhores oportunidades profissionais e garantir melhor futuro aos filhos. Até então levando uma vida bem regrada, pois o pai era severo com os meninos e sempre enfatizava que eles seriam professores, médicos, advogados e teriam um futuro diferente do que a maioria das pessoas da cidade, os garotos passam a curtir a liberdade de não ter mais um pai rígido tão presente. A mãe cuida dos dois filhos menores e trabalha em uma loja da região vendendo produtos. Apesar de gostarem muito da mãe, que se desdobra entre o trabalho e as tarefas domésticas para cuidar dos cinco filhos, sem a figura paterna cobrando uma postura mais responsável, logo os meninos veem uma oportunidade de driblar as regras estipuladas pelo pai, mesmo com todas as ameaças. Assim, começam a deixar de estudar depois da escola para jogar futebol, brincar e também para pescar no rio. Um rio que está abandonado e condenado no imaginário popular a ser um local assombrado e perigoso, visto que alguns crimes ocorreram por lá.
"tudo o que fizemos pelo resto daquela tarde foi cantar, com o sol morrendo num canto do céu". (p. 214)
Mas Ikenna, o irmão mais velho (15 anos), Boja, Obembe e Benjamin (9 anos) estão empolgados com a ideia de serem pescadores e fazem isso por algumas semanas sem nada contar para a mãe. Até que um dia uma das figuras errantes da cidade, às vezes considerado um louco, outras vezes considerado um profeta, mas com um passado cheio de histórias terríveis e de muita violência, encontra os garotos no rio e diz uma de suas profecias diabólicas. A partir daí diversas coisas mudarão para os garotos, que terão que aprender a lidar com uma das coisas mais poderosas que existem: aquilo em que acreditamos.

Narrado por Benjamin, o filho mais novo, a partir do presente, acompanhamos os sonhos e as angústias de uma criança que precisa aprender a lidar com as mudanças que afetarão sua família para sempre. O romance mistura alguns traços da tradição oral africana ao romance moderno, encenando o conflito entre o tradicional e o moderno na própria narrativa.

Cada capítulo se constrói a partir de animais e outros elementos da natureza, uma simbologia interessante para criar imagens e construir metáforas, guiando o leitor diante das mudanças pelas quais cada um dos personagens passará. Além disso, as descrições por vezes são belas ecoando todo um imaginário de inocência e ternura ligado à infância.
“Fiquei olhando para ele discretamente, atormentado pelo medo de um futuro que pensei estar mais próximo do que podia imaginar, um futuro que era o dia seguinte. Comecei a rezar, com a voz mais baixa possível, para que o dia seguinte não chegasse, para que os ossos das pernas do tempo tivessem se quebrado”. (p. 236)
Os pescadores é um romance sobre a infância, sobre os laços familiares que às vezes se tornam frágeis, e em outras inesperadamente se fortalecem; é sobre o poder dos nossos sonhos para nos mantermos vivos em situações pouco favoráveis e também sobre a importância de lutar contra os nossos medos, já que nos tornamos aquilo em que acreditamos. Uma história linda, muito envolvente, que certamente ainda vai conquistar muitos leitores e leitoras. 
“Uma vez me disseram que, quando um homem deseja uma coisa que não tem, não importa quanto seja ilusória, se seus pés não o impedirem de se locomover, ele acaba conseguindo”. (p. 226)
OBIOMA, Chigozie. Os pescadores. trad. Claudio Carina. São Paulo: Globo Livros, 2015. 270 págs.

Sobre o autor

Chigozie Obioma nasceu em 1986 em Akure, Nigéria. Seus contos foram publicados na Virginia Quarterly Review e New Madrid. Já viveu na Nigéria, no Chipre e na Turquia, mas atualmente mora nos Estados Unidos onde concluiu um mestrado em Escrita Criativa na Universidade de Michigan. É professor assistente na Universidade de Nebraska-Lincoln. Seu primeiro romance, Os pescadores, ganhou vários prêmios, foi eleito o melhor livro do ano por diversas instituições e ficou entre os finalistas de um dos principais prêmios literários atuais, o Man Booker Prize.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

3 comentários:

Patrícia Di Carlo disse...

Preciso dizer que já quero? :oD

Michelle disse...

Adoro romances de formação! Vai pra lista! :)

Sandra R. disse...

Já estava desejando, agora com a sua resenha então... Beijocas!