segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Lucy, de Jamaica Kincaid




Elaine Potter Richardson nasceu em 1949 em  St. John, Antígua e Barbuda. Filha única, ela mantinha uma forte ligação com a sua mãe até completar nove anos, quando o primeiro dos seus três irmãos nasceu e toda a atenção da mãe e da família se voltaram para os filhos varões. O senso de isolamento, a pobreza, o colonialismo e esse sentimento ambíguo em relação à mãe, que passou a preterir a filha por ser mulher, marcam a escrita forte de Elaine Potter Richardson (Jamaica Kincaid). Sua escrita denuncia a opressão do colonialismo e da sociedade patriarcal e possui uma raiva latente, inspirada nas tensões de sua adolescência. Aos 17 anos, a autora mudou para os Estados Unidos para fugir da pobreza e do destino de submissão e opressão destinado às mulheres em sua terra natal e começou a trabalhar como au pair. Trabalho que realizou por cerca de três anos, enquanto estudava em uma escola comunitária. Depois de estudar para ser enfermeira por um tempo, ela abandona os estudos e começa a trabalhar escrevendo entrevistas para uma revista voltada para o público adolescente. É então que muda seu nome para Jamaica Kincaid, com o objetivo de conseguir escrever com mais liberdade, como uma forma de fazer as coisas sem ser a mesma pessoa que não podia fazê-las - a mesma pessoa que carregava todo esse peso". Destituída desse "peso" que seu nome carregava, ela começa a escrever.

"a way for [her] to do things without being the same person who couldn't do them -- the same person who had all these weights". (Kincaid)

"If I hadn't become a writer I don't know what would have happened to me; that was a kind of self rescuing." Jamaica Kincaid
Lucy é o terceiro romance dessa escritora caribenha e não podemos deixar de falar de sua própria vida antes de entrar propriamente no enredo do romance, uma vez que há fortes traços autobiográficos em sua escrita. Uma escrita que pode ser imaginada e sentida, em toda sua simplicidade e lirismo, como uma escrita do entre-lugar, pois a personagem Lucy, protagonista do romance, deixa sua terra natal, uma ilha colonizada pelos ingleses, para fugir do passado, de suas raízes tão presas a uma sociedade patriarcal e colonial que oprime as mulheres e não lhes oferece melhor destino que viver trabalhando para a família e para ter filhos. Porém, ao mesmo tempo em que quer fugir de suas raízes, Lucy também não se reconhece em seu novo lugar, um lugar tão diferente de tudo o que sempre conheceu. As diferenças, desde o clima, aos objetos, à forma de se relacionar em família, e à forma de perceber o mundo e se expressar, estão constantemente causando estranhamento em Lucy, que contesta e questiona tudo o que lhe incomoda.  Lucy se permite sentir o que a situação lhe causa. A família aparentemente perfeita onde trabalha como au pair cuidando das crianças logo começa a se destroçar, assim como a aparente adaptação de Lucy ao novo país, onde é sempre vista como "a pobre visitante", "aquela que veio para servir", e sua indiferença em relação à sua família. É interessante perceber a imagem já estabelecida que pessoas como Lucy carregam ao chegar em países colonizadores. Por narrar a trajetória dessa personagem desde a adolescência até a idade adulta, retratando seu amadurecimento e a descoberta da sexualidade, Lucy é considerado um romance de formação. 

A escrita de Jamaica Kincaid é muito envolvente e aborda emoções e questões complexas, apesar do seu estilo ser considerado simples. É um livro importante na literatura pós-colonial e nos faz questionar visões pré-estabelecidas. É um livro que cutuca o leitor com sua prosa lúcida e provocativa, com questionamentos muito interessantes sobre gênero, e principalmente, sobre essa visão eurocêntrica que ainda prevalece no mundo contemporâneo. É compartilhando as emoções, por vezes conflitantes, da personagem que percebemos a importância de ter acesso a esse outro olhar, e a essas novas perspectivas na literatura.

Para ilustrar, transcrevo um trecho do romance, quando a patroa de Lucy, Mariah, contempla encantada um campo de flores (Daffodils = narcisos amarelos) que não são encontradas na terra natal de Lucy e que demonstra essa diferença de perspectiva: Mariah compreende a emoção de Lucy diante das flores como emoção e contentamento diante de tanta beleza. Mas o que Lucy está sentindo, e o que Kincaid apresenta ao leitor, é o desconforto de Lucy, sua raiva diante de flores que ela nunca havia visto na vida, mas sobre a qual teve que aprender na escola, decorando poemas imensos, porque faziam parte da vida do colonizador, mas não da sua. Essa "admiração" imposta de uma cultura sobre a outra, por meio da força e de relações de poder. Mariah tenta abraçar Lucy, que se afasta recusando o abraço, e com isso recupera a sua voz. Ela diz a Mariah o que sente ao ver os daffodils (narcisos amarelos). E lamenta que a mesma coisa provoque lágrimas por motivos diferentes nelas duas:

"Mariah, mistaking what was happening to me for joy at seeing daffodils for the first time, reached out to hug me, but I moved away, and in doing that I seemed to get my voice back. I said, "Mariah, do you realize that at ten years of age I had to learn by heart a long poem about some flowers I would not see in real life until I was nineteen?"

As soon as I said this, I felt sorry that I had cast her beloved daffodils in a scene she had never considered, a scene of conquered and conquests; a scene of brutes masquerading as angels and angels portrayed as brutes. This woman who hardly knew me loved me, and she wanted me to love this thing - a grove brimming over with daffodils in bloom - that she loved also. Her eyes sank back in her head as if they were protecting themselves, as if they were taking a rest after some unexpected work. It wasn't her fault. It wasn't my fault. But nothing could change the fact that where she saw beautiful flowers I saw sorrow and bitterness. The same thing could cause us to shed tears, but those tears would not taste the same. We walked home in silence. I was glad to have at last seen what a wretched daffodil looked like." (KINCAID, 1990, p.23)
Jamaica Kincaid atualmente vive nos Estados Unidos, entre Vermont e Califórnia, e tem dois filhos. É professora de escrita criativa na Universidade da Califórnia. Já publicou diversos romances, entre eles The Autobiography of My Mother (1996), My Brother (1997), A Small Place (1988), Annie John (1983), My Garden (Book) (1999), Talk Stories (2001), Seed Gathering Atop the World (2002), See Now Then (2013). Infelizmente, nenhum deles foi traduzido para o português AINDA. Vamos torcer para que isso ocorra em breve.

KINCAID, Jamaica. Lucy. New York: Farrar, Straus, and Giroux, 1990.

6 comentários:

Mel Panteliou disse...

Oi Pipa,

Que legal que você leu Jaimaca Kincaid! É impressionante como ela ainda muito desconhecida aqui no Brasil, né?
Eu tive muitas impressões iguais às suas quando li Lucy. E concordo: apesar da escrita e do enredo aparentemente simples, o livro discute questões muito complexas, como identidade e feminismo - e esse trabalho sutil foi o aspecto que mais me encantou. E adorei o fato de em vários momentos nos sentirmos repelidos pela protagonista (uma amiga minha descreveu ela como mal humorada e extremista haha).
Amei a leitura e amei sua resenha. :)

Beijos

Pipa disse...

Obrigada, Mel! :)
Bom saber que você leu e gostou também! Essa autora já está na minha lista há algum tempo, e estou com outros aqui para ler, gostei bastante!
Espero que as editoras acordem para a vida e traduzam logo os livros dela para que mais gente possa ler também!
um beijo,
Pipa

Maura C. Parvatis disse...

Oi, Pipa.
Tenho bastante vontade de conhecer a escrita da Jamaica. Acho que a conheci esse ano enquanto pesquisava algo (que não lembro), fiquei fascinada pelos artigos que li a respeito de sua vida e obra.

Beijos

Estudante da UESC disse...

Olá querida, uma boa noite.

Eu pude ler esse livro (traduzido) esse ano de 2016,
eu tive contato com ela ao ler o texto "On seeing england for the first time",
um texto marcado por uma inconformidade e uma certa raiva (justificada) da colonização e dos referenciais eurocêntricos que Jamaica contesta.

Saiba que existe uma tradução sim! É de Lia wyler e de 1994, você não compra esse livro novo, acha ele apenas em sebos físicos ou virtuais.

Segue a referência e o link para a compra:

KINCAID, Jamaica. Lucy. Trad, Lia Wyler. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1994.

https://www.estantevirtual.com.br/b/jamaica-kincaid/lucy/823456142?q=jamaica+kincaid.

Em contrapartida estou a precisar bastante de uma versão em Inglês dele, você teria em PDF?

Deixo meu email e aguardo contato! TCLZANS@GMAIL.COM

Att Tiago Simões, estudante de Letras da UESC - Ihéus-Bahia.

Estudante da UESC disse...

show

Pipa disse...

Oi, Tiago!
Agradeço a informação sobre o livro, é uma pena que não esteja mais em catálogo, não é?

Você encontra ele em inglês em ebook tanto na Amazon quanto na livraria cultura:

https://www.amazon.com.br/Lucy-Novel-Jamaica-Kincaid-ebook/dp/B009WVJSKQ/ref=sr_1_3?ie=UTF8&qid=1483103742&sr=8-3&keywords=lucy+jamaica+kincaid

um grande abraço e feliz 2017!

Pipa