
Maria Firmina foi uma professora e escritora Maranhense, negra e filha ilegítima, ela não conheceu seu pai. Mudou-se de São Luís para Guimarães, no Maranhão, aos cinco anos de idade, quando passou a morar com a avó. Firmina conheceu obras literárias do romantismo brasileiro e francês, mas como não há registros que indiquem sua inclusão na educação formal, acredita-se que foi autodidata. Aos 25 anos foi aprovada em concurso público para a cadeira de instrução primária na vila de Guimarães, tornando-se a primeira mulher e conquistar o cargo em toda a província.
Em 1859, publicou Úrsula, o único romance abolicionista de autoria feminina em todo o mundo lusófono no período. Em 1880, aos 58 anos, fundou a primeira escola mista do Maranhão, o que provocou escândalo à época e resultou no fechamento da instituição após dois anos e meio. Sua obra, esquecida por mais de um século, inclui ainda contos, poemas e músicas.
[informações extraídas da edição de Úrsula das Edições Câmara].
Úrsula narra a história de um triângulo amoroso, afinal, estávamos em pleno romantismo. Com descrições bem elaboradas, esta história não poderia deixar de ter uma mocinha, Úrsula, mulher branca, e também um mocinho, o jovem branco Tancredo, filho de uma família abastada da região. Os dois se apaixonam bem ao estilo Romeu e Julieta - com apenas um primeiro olhar. Há também um vilão, o tio de Úrsula, o Comendador, um homem que é capaz de tudo para ter o que quer. Mas Maria Firmina dos Reis apresenta muito mais: com personagens como Túlio, Susana e Antero, ela apresenta pela primeira vez na nossa literatura a perspectiva do negro escravizado, humanizando-os, dando a eles o espaço de refletirem e discorrerem sobre a própria escravidão, revelando que os brancos é que foram os verdadeiros bárbaros ao cometerem tantas violências contra o povo negro. Ao salvar o jovem Tancredo no início do romance, surge uma amizade leal entre Túlio e Tancredo, que concede ao seu salvador a liberdade. Personagens como Túlio, que apesar de todas as violências de sua condição de escravizado continua sendo um dos exemplos de grande sensibilidade e humanidade do romance, demonstram o quanto este livro é relevante ao quebrar o paradigma de representação dos negros até então presente na literatura. O que dizer então da negra Susana, que relata como foi sequestrada do seu país e dos horrores que passou no navio negreiro e desde que chegou ao Brasil na condição de escravizada. Apesar de serem personagens secundários, não se deixe enganar, caro leitor/ cara leitora, são os personagens negros que realmente dão brilho à história.

Acho importante destacar, já que falamos de apagamento histórico desde o início desta resenha, que o romance permaneceu esquecido por muito tempo, apesar de ter feito sucesso em sua época, quando foi publicado em folhetim. Uma cópia muito antiga foi encontrada por um pesquisador em um sebo e então ele passou a ser pesquisado por críticas feministas que fizeram um impressionante trabalho para levantar mais informações sobre esta autora e publicar sua obra. A última imagem desse post é a capa da edição de Úrsula publicada pela Editora Mulheres. Como a obra, esgotada há tempos, passou a ser cobrada em alguns vestibulares do Brasil, várias edições foram publicadas esse ano, por diferentes editoras. Agora resta a nós, leitores e leitoras, o nosso papel de ler e comentar este livro, de escrever resenhas sobre ele, de presenteá-lo sempre que possível. É nosso papel contribuir para que as vozes de mulheres incríveis como Maria Firmina dos Reis não sejam silenciadas outra vez.
Sabendo do preconceito que as mulheres enfrentavam e enfrentam também no mundo literário, Maria Firmina dos Reis começou o seu romance com um prólogo cheio de ironia e inteligência, pois nele, sob o véu da humildade, ela enfatiza a importância da escrita das mulheres e convoca muitas outras escritoras a terem a coragem de ousar e escrever, apesar das dificuldades sociais de seu tempo. Um clamor que, ainda nos dias de hoje, se faz necessário.
"Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de outros, e ainda assim o dou a lume. [...]
Deixai que a minha Úrsula, tímida e acanhada, sem dotes da natureza, nem enfeites e louçanias de arte, caminhe entre vós.
Não a desprezeis, antes amparai-a nos seus incertos e titubeantes passos para assim dar alento à autora de seus dias, que talvez com essa proteção cultive mais o seu engenho, e venha a produzir coisa melhor, ou, quando menos, sirva esse bom acolhimento de incentivo para outras, que com imaginação mais brilhante, com educação mais acurada, com instrução mais vasta e liberal, tenham mais timidez do que nós". (trecho do prólogo de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis)
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