quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mr. Gwyn

“A ousadia de Baricco é ter escrito um livro sobre a possibilidade de desaparecer, com o objetivo de se reencontrar.” – Corriere della Sera

Publicado originalmente em 2011, Mr. Gwyn, do escritor italiano Alessandro Baricco, finalmente chega ao público brasileiro (lançamento previsto para março de 2014 nas livrarias), em edição da Alfaguara com tradução de Joana Angélica d'Avila Melo.

Cada livro de Alessandro Baricco que leio é uma surpresa, um segredo que aos poucos ele vai revelando ao leitor, mantendo-o sempre intrigado, até a última página. Nenhuma palavra parece sobrar nesse texto que é sempre muito poético. Com capítulos curtos e uma aparente simplicidade (digo aparente por que não há nada de simples na narrativa de Baricco, uma narrativa riquíssima na construção de imagens poéticas), ele continua inovando a cada livro, mas mantendo seu estilo elegante e delicado que me encanta sempre. E a cada página ficamos com a sensação de que a literatura para ele é um divertimento, algo encantatório e mágico com o qual ele brinca de enfeitiçar os leitores, mas não sem fazer parte do jogo.

Em Mr. Gwyn, a literatura e sua construção são parte da trama. Jasper Gwyn é um escritor famoso, que um dia se dá conta de que nada do que tem feito para ganhar a vida até então faz sentido. Ele decide escrever um artigo para um bem conceituado jornal inglês listando 52 coisas que ele não pretende mais fazer, sendo a última delas publicar e escrever livros. Seu artigo causa grande rebuliço na imprensa e deixa seu agente literário em desespero. Tom, o agente, acredita que isso é comum entre os escritores, que é algo passageiro, pois já ouviu de vários que não iriam mais escrever, e afirma que para um escritor "não é possível viver sem a escrita". Mas Jasper é esse sujeito peculiar, que tem hábitos esquisitos, como frequentar diariamente lavanderias por toda cidade, que não quer ter filhos e tende ao isolamento (e aqui Baricco brinca um pouco com esse estereótipo que existe acerca dos escritores). Seu agente é seu único amigo, a única pessoa com quem ele conversa e que sabe dos seus segredos. Algum tempo depois da publicação do artigo, Jasper encontra uma senhora que procura abrigo por conta da chuva na sala de espera de um consultório médico onde ele aguarda para fazer alguns exames. Sem escrever, Jasper passou a ter problemas de saúde, desmaios, e sem saber o que fazer, já que não pode mais escrever porque publicou isso na imprensa, recorre aos exames para encontrar o que lhe inquieta. É por conta dessa conversa com a senhora, que é também a única pessoa com quem ele quer conversar, que Jasper começa a procurar outra forma de realizar sua escrita, que nem ele mesmo sabe como isso será. Um passeio a uma galeria de arte, onde vê quadros que são retratos de pessoas, e ele decide que fará retratos escritos, algo totalmente diferente de uma simples descrição. E a história se desenvolve nessa busca de como fazer esse retratos, uma metáfora da própria atividade de escrita, que é essa busca de uma história, sem nem sempre saber onde chegará ou qual a fórmula para fazê-lo. A melhor definição que encontrei é de que é a história de um escritor que precisa desaparecer para poder se reencontrar. Uma descoberta que nos surpreende como só os livros de Baricco podem fazer, mas que não deixa de ser uma fábula sobre a amizade, sobre o processo criativo, uma viagem poética e inquietante como é a própria literatura e os mundos que ela nos faz descobrir.

Alessandro Baricco. Mr. Gwyn. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. 224 páginas. Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo

"Do que somos capazes, pensou. Crescer, amar, fazer filhos, envelhecer - e tudo isso enquanto estamos também em outro lugar, no tempo longo de uma resposta que não veio, ou de um gesto não concluído. Quantos caminhos, e com que passo diferente os percorremos, naquilo que parece uma única viagem."

"Jasper Gwyn me ensinou que não somos personagens, somos histórias.[...] Jasper Gwyn dizia que todos somos alguma página de um livro, mas de um livro que ninguém jamais escreveu e que procuramos em vão nas prateleiras de nossa mente. Ele me disse que aquilo que tentava fazer era escrever esse livro para as pessoas que o procuravam. As páginas certas. [...] Olhava essas pessoas. Por muito tempo. Até ver nelas a história que eram.[...] Nós somos um monte de coisas, e todas juntas".

Alessandro Baricco nasceu em 1958, em Turim. É autor de livros de ensaios, de peças teatrais e dos romances Mundos de vidro, Oceano mar, City, Seda (adaptado para o cinema em 2007), Sem sangue, Esta história e A paixão de A. Recebeu, entre outros prêmios, o Prix Médicis Étranger, na França, e o Selezione Campiello, na Itália. Vive atualmente em Roma.

Para ler o primeiro capítulo de Mr. Gwyn, clique aqui.


3 comentários:

Patrícia Di Carlo disse...

Que resenha linda, Pipa!!! E concordo um bocado com o que disse acerca de o escritor sumir, ao menos por um tempo, para se reencontrar... Vivo meio que isso há alguns anos...
E nunca li nada do Barrico, ao menos não me lembro de ter lido, e a força do seu bem querer por ele, o teu texto, a capa e tudo o mais me deixaram completamente ansiosa por ele. rs Já está no Penélope!! rs

Xerinhos!
Paty

Melissa Padilha disse...

Adorei o texto Paula, aliás o mote do livro, mas adorei mais ainda a citação que vc colocou no final da resenha, que coisa mais linda.
Não conhecia o autor, mas já foi pro caderninho.
bjos!!

Pipa disse...

Patty, pelos livros que temos em comum e pelos autores que sei que você também gosta, tenho certeza de que você vai se apaixonar pelo Baricco! E essa capa realmente ficou linda, concordo!

Melissa, que bom que te apresentei ao Baricco, espero que você goste, porque eu simplesmente amo!

beijo,
Pipa