segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Maus



Maus é uma história em quadrinhos que conta a vida de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O pai do ilustrador Art Spiegelman, Vladek, foi levado para Auschwitz junto com a sua esposa, Anja. Durante o tempo em que permaneceram nos campos, vivendo todo o terror sobre o qual já ouvimos falar diversas vezes, eles ficaram separados, reunindo-se novamente apenas quando a guerra chega ao fim. Praticamente toda a família de Vladek e Anja é morta nas câmaras de gás ou tentando fugir delas, inclusive o filho pequeno do casal, que morre aos 5 anos.

Anos depois, já vivendo nos Estados Unidos, onde recomeçaram a vida depois de serem libertados dos campos,Vladek se casa novamente com uma mulher que também sobreviveu aos campos de concentração, mas é completamente diferente dele. Os conflitos entre os dois revelam os diferentes tipos de trauma daqueles que sobrevivem a uma guerra, e também que certas atitudes de Vladek são características dele mesmo, e não uma consequência do trauma. Apesar de ter casado com Mala, ele ainda não se recuperou da morte da esposa, Anja, que se suicida quando Art ainda é adolescente.

O filho então quer escrever uma história em quadrinhos contando a vida dos pais e passa a gravar as conversas que tem com o pai para não esquecer nenhum detalhe, afinal ele é hoje a sua única fonte de informações, aquele que pode contar a história da família, destacando a importância desses relatos de sobreviventes como forma de preservar a história daqueles que morreram. Os diários da mãe, que poderiam ser mais uma fonte de informações preciosa para Art, foram destruídos pelo pai, que não consegue lidar com o suicídio da esposa, principalmente depois de tudo o que enfrentaram na guerra. Mas ser uma sobrevivente de Auschwitz não é um fardo fácil de carregar, não apenas pelo trauma e pelas lembranças de tudo o que vivenciaram, mas também pelo sentimento de culpa que muitos carregam de ter sobrevivido enquanto tantos outros morreram.

Essas conversas entre pai e filho, apesar de tão diferentes um do outro, não apenas pela personalidade diferente, mas pelas marcas da guerra que o pai carrega, são uma oportunidade valiosa que Art e Vladek tem de se reaproximar. O filho passa a compreender um pouco mais o jeito de ser do pai ao ouvir o seu relato e tomar conhecimento do sofrimento que eles vivenciaram.

Falar sobre o Holocausto é sempre difícil, que nos entristece e que me deixa nauseada quase sempre, mas achei que por ser em quadrinhos, contando com o apoio visual dos desenhos de Art que representam as personagens como animais, o autor conseguiu retratar com ternura a história de seus pais, que é também a história de muitos outros, sobreviventes ou não, de um dos eventos mais sombrios da história da humanidade. Para quem quer começar a ler sobre o assunto, Maus é uma ótima maneira de começar - e uma excelente aula de história - acredito que bem interessante de ser trabalhado nas escolas também, por ser um pouco mais leve (se é que possível ser leve com esse tema...) do que outros relatos, escritos pelos próprios sobreviventes do Holocausto, como É isto um homem? e A trégua de Primo Levi, ou Noite, de Elie Wiesel, por exemplo.

O que mais gostei em Maus é a sinceridade do texto, já que Art Spiegelman não idealiza sua relação com o pai, retratando com honestidade tanto as suas próprias falhas como os defeitos do pai. Por exemplo, algo que nos choca bastante é quando o pai dele, mesmo depois de tudo o que passou nos campos de concentração por conta da intolerância, do preconceito e da ideia absurda de superioridade dos alemães em relação aos judeus, demonstra que é um homem racista, julgando um homem negro a quem o filho oferece uma carona como um ladrão, como alguém inferior por sua cor. E, quando questionado pelo filho, ainda afirma "que os negros não são como os judeus", algo surreal de se imaginar por parte de alguém que viu sua própria família ser dizimada pelos alemães, que agiam com base em uma ideia semelhante. A honestidade desse relato pode servir como excelente ponto de reflexão sobre como certas visões que temos fundamentam a exclusão, o desrespeito e, principalmente, a violência.

Um comentário:

Deborah Jager disse...


indiquei teu blog ao Prêmio Dardos, porque gosto de incentivar os blogs que são bons. =)
https://projetosnopapel.wordpress.com/2016/02/16/incentivo-virtual/
Um abraço, Deborah