domingo, 20 de julho de 2014

Para onde vão os guarda-chuvas

Desde A solidão dos números primos que eu não encontro um livro com um título tão lindo. Já comentei aqui sobre o talento de Afonso Cruz para dar título aos livros quando falei de outro livro do autor que acaba de ser lançado pela Alfaguara no Brasil: Jesus Cristo bebia cerveja. Comecei a ler as 620 páginas de Para onde vão os guarda-chuvas guiada pela curiosidade que o título despertou em mim, e me mantive presa ao livro até a última página.
O enredo conta a história de um homem, Fazal Elahi, que era muito bom e que gostaria de ser invisível e passar pela vida e pelas pessoas sem ser visto. Ele se casa com uma mulher que era o seu oposto, Bibi, uma muçulmana que gostava de andar pelas ruas com os cabelos soltos e de música estadunidense. Os dois tem um filho, Salim, pelo qual Fazal Elahi é apaixonado. Seu filho, contudo, é muito diferente de Fazal e em muitos momentos demonstra desde cedo certa dose de crueldade.

“Fazal Elahi olhava para o filho, maravilhado: nunca tinha visto nada tão grande aparentar ser tão pequenino”. (pág. 56)

O amor de um pai por um filho é retratado com muita ternura na escrita de Afonso Cruz, assim como nas imagens e ilustrações, também do autor, que intercalam e complementam o texto fazendo com que o livro em si seja um objeto de arte. Essa edição é tão linda e feita com tanto cuidado, que durante a leitura eu só imaginava duas possibilidades: ser publicada também pela Alfaguara no Brasil sem mudar absolutamente nada ou ver o que a Cosac Naify faria para deixar ainda mais linda uma edição diferente desse livro. A triste notícia é que ainda não há previsão de publicação de Para onde vão os guarda-chuvas aqui no Brasil (o que me faz seguir perguntando: o que essas editoras estão esperando para publicar mais livros do Afonso Cruz?)

Ainda sobre o enredo, Bibi, tempos depois, abandona seu filho e seu marido aos cuidados de sua cunhada, Aminah, e foge com seu amante em busca de liberdade. A tristeza de Fazal só aumenta quando, em um trágico incidente, seu filho Salim é morto por soldados norte-americanos. Diante de tão profunda dor, Fazal busca encontrar algum consolo, algo que atenuasse de alguma forma a dor que sentia por perder seu filho. Entre os muitos conselhos que recebe está o de adotar uma criança americana. Em entrevista, o Afonso Cruz afirmou que usou como inspiração para o livro uma história que ouviu sobre Gandhi, na qual um homem hindu procura o sábio em busca de orientação, pois não sabe o que fazer para continuar vivendo depois que seu filho foi morto por um muçulmano. A orientação que o homem recebe de Gandhi é a de adotar uma criança muçulmana pois para ele o único consolo possível é verdadeiramente perdoar através do amor.

No romance, Fazal Elahi encontra um órfão americano, Isa, com uma história já cheia de muitas tristezas, e que vivendo nas ruas aprendeu ou acostumou-se a ser invisível aos olhos de todos. Isa, o menino adotado por Fazal, é uma criança sensível e sozinha, que mais do que tudo quer ser amada. É esse desejo de Isa que dilacera nosso coração quando terminamos de ler essa história. Torcemos por ele até o fim, carentes que estamos de finais felizes.
São muitos os assuntos abordados nesse livro, como o trabalho infantil, a violência contra a mulher, como as nossas crenças nem sempre nos permitem ver as coisas como elas realmente são. A violência está muito presente nessa história. Este é um livro que fala basicamente sobre a perda e nossa capacidade de reencontrar na vida e nos outros as pessoas e as coisas que perdemos. É um livro que nos mostra que a vida é feita de bons e de maus momentos, como um tabuleiro de xadrez. E nesse tabuleiro, as relações entre as personagens, e as muitos outras personagens que não citei aqui, são tecidas como uma rica tapeçaria em cujos fios o leitor fica envolvido até o último momento.

Muitos leitores reclamaram do final do livro em alguns comentários que li na internet. Mas acho que nenhum outro final seria possível nesse livro, que é nada menos que brilhante. E como todo grande livro, tem o dever de nos fazer pensar, de nos fazer sofrer, de nos incomodar para depois, com sorte, nos transformar em algo melhor.

Achei bonito chegar ao final dessa história e encontrar no livro este recado do autor (imagem ao lado), pois assim como ele acredito que não apenas a escrita, mas a leitura, pode sempre nos ajudar a atenuar as dificuldades da vida, a diminuir a nossa dor. 

"A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem, pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
- E já sabe? - perguntou Fazal Elahi.
- Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta".

Cruz, Afonso. Para onde vão os guarda-chuvas. Lisboa: Alfaguara, 2013. 620 páginas.

Além de escrever, Afonso Cruz é ilustrador, realizador de filmes de animação e compõe para a banda de blues/roots The Soaked Lamb (onde canta, toca guitarra, harmónica e banjo). Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e haveria, anos mais tarde, de viajar por mais de sessenta países. Vive com a sua família num monte alentejano onde, além de manter uma horta e um pequeno olival, fabrica a cerveja que bebe. Em 2008, publicou o seu primeiro romance,A Carne de Deus – Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites e, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco – APE/Câmara Municipal de Famalicão. Escreveu, ainda, Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A Contradição Humana (Prémio Autores 2011 SPA/RTP; seleção White Ravens 2011; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011) e A Boneca de Kokoschka.

8 comentários:

Gabs disse...

Fiquei com muita vontade de ler. Adorei a resenha.

Pipa disse...

Obrigada, Gabs! O livro é lindo mesmo, vale a pena ler.
beijo,
Pipa

Eloíza disse...

Sua resenha, perfeita, deixou-me com água na boca. Não resistirei... Obrigada, Paula.

Eloíza disse...

Sua resenha, perfeita, deixou-me com água na boca. Não resistirei... Obrigada, Paula.

Pipa disse...

Oi, Eloíza! Muito obrigada, fico contente! O livro é bom mesmo, eu recomendo!
beijo,
Pipa

Elaine disse...

O Afonso Cruz é um escritor diferenciado. Eu paguei uma fortuna para esse livro vir de Portugal para cá. Valeu a pena. É muito impactante. Sinto os personagens pulsando dentro de mim ainda.

mika maki disse...

Olá! Onde conseguiu comprar o livro?

Pipa disse...

Comprei em Lisboa. Este ainda não foi publicado no Brasil, infelizmente.