sábado, 18 de fevereiro de 2017

Clarice, para todos

Clarice Lispector

Minhas primeiras lembranças como leitora de Clarice são da época da escola, quando tivemos que ler "O primeiro beijo e outros contos" nas aulas de literatura e português. Diferente da Juliana, não tenho uma história bonita para contar sobre como uma bibliotecária querida me fez ler o livro, assim como não tive uma impressão tão ruim da capa. Mas lembro-me de ter ficado curiosa com o título do livro (será que vai falar de primeiro beijo mesmo? Aquela curiosidade da época). A lembrança que tenho é de ter lido e gostado dos textos, porque já gostava de ler nessa época, mas o livro não era nada do que eu estava esperando.

Anos mais tarde, também na escola, um 'temível' professor de redação, famoso por dar zero nas provas de uma turma inteira, adotava os contos de Laços de família, na época cobrado também no vestibular, como fonte de temas sobre os quais teríamos que construir um texto dissertativo para avaliação. Pânico geral em todas as turmas, acho que ninguém era maduro o suficiente para ler Clarice. E agora, como faremos para decifrar o tema nos contos dessa escritora tão difícil e enigmática? Essa matéria provavelmente contribuiu bastante para que muita gente ficasse traumatizado com a autora, afinal, de um trecho de um conto para nós muito enigmático, tínhamos que escrever em poucas horas uma redação, e para isso era necessário identificar um tema.

Eu adorava as aulas de literatura, sempre era a melhor parte da semana, e nunca tive medo de redação. Tantos colegas simplesmente travavam diante da folha em branco, enquanto era uma das minhas melhores provas sempre (saudades desse tempo em que não ficava bloqueada diante da folha em branco...). Acho que isso acontecia porque não sentia medo, só queria escrever. E mesmo que hoje tenha plena consciência de que não tinha tanta maturidade para ler Clarice (será que sempre estamos preparados para as nossas leituras ou é assim que um dia a gente se prepara para estar?), nessa época algo já me fascinava nos contos que lia, certa de que tinha muito mais ali que eu ainda não compreendia, mas queria compreender. Foi um ano de muitos zeros nas provas de redação, eu tive que me conformar com a nota cinco, que para mim era uma tristeza, mas nessa conjuntura equivalia a um dez e, por isso, despertava olhares de espanto de meus colegas que me perguntavam "como você consegue identificar o tema?", e eu não sabia explicar o que eu fazia para entender. Os textos me tocavam, me diziam algo e eu escrevia sobre isso. 

Tempos depois, já na universidade, Clarice volta a ser o mito enigmático e misterioso para o qual era necessário ter um dom supremo para se compreender e eu odiava cada vez que ouvia colegas se gabando de ter acesso a esse conhecimento que nós, pobres mortais, não éramos capazes de ter. Sempre me perguntava por que muita gente que estuda literatura gosta de colocar os autores nesses pedestais inatingíveis, quando na verdade (pelo menos ao meu ver), nossa função enquanto professores de literatura deveria ser justamente o contrário, a de aproximar as pessoas dos livros e dos autores que tanto amamos. A fazer com que as pessoas não tenham medo de pegar um livro e simplesmente se aventurar por suas páginas, sabendo que cada um fará uma viagem única e particular, de acordo com as suas próprias leituras e vivências, seu ritmo, seu tempo.

Felizmente, já em um dos meus últimos semestres na faculdade, tive a sorte de ter aulas com uma professora que falava dos livros de Clarice com tanta paixão que os olhos da turma inteira (ou pelo menos, os meus) ficavam brilhando durante as aulas, desejando ler Clarice e sentir o mesmo encantamento. Nessas aulas, Clarice se tornou possível. Eu saía das aulas correndo para ler Perto do coração selvagemÁgua Viva e fiquei de ler A maçã no escuro, o preferido da professora Antônia, a quem devo muito por ter tornado essas leituras possíveis, possibilidades apaixonantes de ser, eu também, leitora de Clarice.

Hoje, relendo os contos de Clarice para o projeto de leitura criado pela Juliana para 2017, é gostoso ver que mudamos nossa compreensão e relação com esses textos, e como em cada leitura o encantamento (e, às vezes, estranhamento) continua lá. De forma diferente. E, honestamente, acho que isso não acaba nunca. Não só com Clarice, mas com qualquer texto literário. Porque mudamos nosso olhar de leitores com o tempo, e cada vez que um texto é lido ou relido, algo de diferente sobre ele nos toca. E é isso que é mágico na literatura.

E vocês, qual a sua história de leitura/de leitor com os textos de Clarice Lispector?

Um comentário:

Juliana Brina disse...

Que texto lindo, Paula! Começamos a ler Clarice pelo mesmo livro <3 Eu me identifiquei muito com o que você falou sobre o estranhamento e o sentimento de querer entender: acho que isso me guiava naquela época, o que me fez procurar livros da Clarice na biblioteca. É engraçado como, com o tempo, o estranhamento se desloca. Mas ainda está lá. :)