sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Flores


"De tarde, senti cheiro a fumo. Fui à janela e percebi que a biblioteca estava a arder, o fogo cuspia chamas pelas janelas. Os bombeiros ainda não tinham chegado, mas havia muita gente na rua. As sereias já se ouviam ao longe e não tardou a chegar um carro. Acendi um cigarro enquanto bebia um café. Reparei que o senhor Ulme se encontrava entre a multidão, a cabeça inclinada, a passar repetidamente as mãos pela cabeça. Afastou-se um pouco e, sem que ninguém notasse, entrou pela porta lateral do edifício em chamas. Fiquei perplexo e cheguei a gritar, mas ninguém me deu atenção. Os bombeiros chegaram enquanto eu corri para a rua. Da porta lateral da biblioteca surgiu o senhor Ulme com um livro na mão. Os bombeiros já regavam o edifício. O senhor Ulme dirigiu-se para o nosso prédio, interpelei-o, criticando a insensatez da sua atitude. Encolheu os ombros e disse:
- É o meu livro favorito."

CRUZ, Afonso. Flores. Lisboa: Companhia das Letras, 2015. p. 99

3 comentários:

lulunettes disse...

Até o momento só li dois livros do Afonso Cruz e adorei ambos (^_^) Ainda falta checar os romances. A capa de Flores é linda! E parece ser um romance interesse. Beijão, Pipa!

Marta Skoober disse...

Que trecho lindo! Esse foi publicado no Brasil?

Tamiris Dias disse...

Adorei as indicações do blog!