segunda-feira, 8 de junho de 2015

Después del invierno



O mais recente romance da escritora mexicana Guadalupe Nettel, Después del invierno (Depois do inverno - ainda sem tradução em português) narra a história de Claudio, um cubano que vive em Nova York e trabalha em uma editora, e Cecilia, uma mexicana que vive em Paris e é estudante de pós-graduação. Intercalando as vozes masculina e feminina dos dois protagonistas, que contam suas lembranças de infância, seus medos, suas caraterísticas mais pitorescas, Nettel consegue mais uma vez envolver o leitor nessa história que fala de relações amorosas, às vezes de forma irônica e com um humor refinado, e,  em outros momentos, com uma sensibilidade delicada e bastante comovente.

Assim como no romance O corpo em que nasci (Publicado no Brasil pela editora Rocco e único romance de Guadalupe Nettel traduzido para o português até o momento), Nettel mais uma vez nos apresenta personagens que ocupam as margens, que causam estranhamento e fogem do comum. 

Claudio é um homem frio, metódico, que preza mais que tudo o silêncio e o isolamento; um homem egoísta que só pensa em seus sentimentos. Vive em um apartamento pequeno em Nova York, que tem uma única janela, mas sem nenhuma vista pois a única janela fica em frente a um muro. Nesse ambiente asséptico, pois é bem obcecado por limpeza, ele se sente protegido não apenas do caos da cidade grande que o cerca, mas também de se socializar com o mundo, na tentativa de não sofrer. Sem se apegar a ninguém, acaba por se relacionar com Ruth, uma cinquentona divorciada e muito rica que age com total submissão aos desejos mais estranhos de Claudio. Sem falar muito e, com isso, sem perturbar o silêncio que ele tanto preza, Ruth acaba se tornando o par ideal para o jeito esquisito de Claudio: não reclama, não questiona, aceita o distanciamento de Claudio e o recebe bem sempre que ele decide voltar. Nem mesmo o próprio Claudio entende inicialmente como é possível existir uma mulher assim, tão submissa. Mas logo ele descobre o motivo do comportamento de Ruth e tudo começa a mudar.

Enquanto isso, em Paris, Cecília se sente uma estrangeira na cidade, sempre buscando o isolamento quando não está em aulas. Depois dos primeiros meses morando em um quarto na casa de uma amiga, decide alugar um pequeno apartamento e ter mais independência. O local escolhido é um prédio antigo com vista para um dos cemitérios da cidade. Desde pequena, Cecília é obcecada por tumbas, encantamento que começou quando sua mãe a abandonou ainda pequena para fugir com um amante. Na adolescência começou a passear com seus amigos góticos pelos cemitérios de Oaxaca, pois era um lugar que lhe dava conforto e, de alguma forma, resignificava a dor de ter sido abandonada pela mãe aos cuidados do pai e da avó. Muito calada e tímida, sempre com ar sonhador, estudou Letras e depois mudou-se para Paris para cursar a pós-graduação. O que Claudio e Cecília tinham em comum, desde a infância, era a paixão pelos livros que, tanto em Cuba quanto em Oaxaca, eram difíceis de se ter em casa, por isso o grande amor dos dois pelas bibliotecas, pois para ambos a leitura foi uma grande companheira em boa parte de sua infância e adolescência. Nesse sentido, o livro traz muitas referências a outros livros e autores, e também à música, uma das paixões de Claudio, que buscava encontrar alguém que pudesse se entregar à música em silêncio como ele fazia.

A solidão de Cecília é tão grande que ela passa a observar os ruídos e os movimentos das pessoas do seu prédio, reconhecendo-os pelos sons e horários de suas rotinas. Sua vida em Paris, durante as férias e em pleno rigor do inverno parece completamente sem sentido. Até que percebe que no apartamento vizinho ao seu, Tom, o vizinho, também tem uma vida tão solitária quanto a sua e está sofrendo. A amizade entre os dois se dá principalmente quando descobre que Tom também é obcecado por cemitérios, ainda que o motivo de sua obsessão seja o fato de estar doente. É compartilhando os livros lidos e as músicas que gostam, sem falar de passado nem de futuro, que começa o relacionamento entre os dois, o encontro de duas almas que se compreendem e se completam, mas que desde o início está fadado ao fim.

Entre encontros e desencontros, esses personagens desenraizados passeiam pelo mundo e por diversas cidades, e nos fazem refletir sobre o amor, a morte, o abandono, o suicídio, a violência, a solidão, a amizade - enfim, sobre a condição humana, e o que há de feio, estranho e bonito em cada um. Desses livros que não conseguimos largar até chegar ao fim. 

NETTEL, Guadalupe. Después del invierno. Argentina: Editorial Anagrama, 2015.

Para ler o primeiro capítulo (em espanhol), clique aqui.

2 comentários:

Flávia Dias disse...

Eu ainda não li O corpo em que nasci, mas esse me pareceu muito interessante, vou torcer para ser publicado por aqui. Fiquei curiosa para entender como uma pessoa sente conforto no cemitério, porque é um lugar que eu sinto muito mal, não por medo de quem já partiu, mas o ambiente me desperta muitas perturbações de ordem física e emocional. Mas, gosto desses encontros fortuitos, eles parecem nos reservar grandes descobertas.

Beijo!

Eduarda Sampaio disse...

Adorei a resenha! ^_^
Tenho quase certeza que vou gostar desse livro. Tem alguma previsão de chegada aqui no Brasil? Eu leio em espanhol, mas sou preguiçosa, então prefiro ler em português.
Beijo!