sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Persépolis

Persépolis pode ser considerado um romance de formação em quadrinhos no qual a ilustradora iraniana Marjane Satrapi conta a sua própria história e também um pouco da história de seu país. Radicada na França, a ilustradora criou Persépolis para contar a sua história e a história de seu povo para seus amigos europeus que, assim como nós, desconhecemos a complexidade da história iraniana, seus costumes e tradições. Durante a leitura vamos nos dando conta de que muito do pouco que sabemos é uma grande simplificação, estereótipos que reduzem as pessoas e suas histórias a muito pouco. 

O livro começa com Marjane ainda pequena, aos dez anos, na escola em Teerã, narrando em primeira pessoa como foi que com a Revolução Islâmica houve uma retomada bastante conservadora aos costumes antigos, por exemplo, tornando-se obrigatório novamente o uso do véu pelas mulheres, a separação entre meninas e meninos na escola, entre outros.

Marjane, filha de pais modernos e intelectuais, teve a chance de ter acesso a muitos livros, e a ter uma visão contrária ao regime extremista em vigor, por conta do respaldo que tinha da família e da boa situação financeira de que dispunham. Por conta disso, Marjane teve a chance de manifestar sua rebeldia dentro dos limites possíveis em Teerã. A leitura aparece como ponto de apoio e possibilidade de crescimento no decorrer de toda a história.

As figuras femininas como a mãe a avó de Marjane tem grande importância na narrativa e é através da perspectiva social das mulheres que podemos refletir sobre a condição social da mulher não apenas nos países islâmicos. Por trás dos véus, passamos a conhecer essas mulheres reais, suas histórias, seus sonhos, suas crenças e questionamentos, e também seu sofrimento diante da opressão, em suas variadas formas.

A dualidade espaço público x espaço privado pode ser pensada ao longo da narrativa, pois vemos que as limitações e a opressão religiosa existente predominava nos espaços públicos, ao passo que havia uma liberdade maior entre as personagens nos espaços privados. Em suas casas, os iranianos faziam festas frequentemente, consumiam bebidas alcoólicas e tinham mais liberdade para falar e agir, algo oposto à repressão exterior, o que certamente os ajudou a sobreviver em circunstâncias tão difíceis.

Com a guerra, os pais de Marjane decidem que, para protegê-la, é melhor que ela se mude para a França, para poder continuar estudando. É assim que Marjane, uma adolescente de 14 anos, passa a conhecer uma outra realidade, muito diferente do seu país de origem. Na França, a liberdade que ela encontra nos espaços públicos ela perde nos espaços privados. Longe da família e de sua cultura, Marjane enfrenta uma nova realidade: a de ser estrangeira, muitas vezes sofrendo o preconceito e a discriminação que a simplificação resultante de estereótipos e do acesso a uma história única provocam, algo que constantemente é compartilhado pela mídia e tomado como verdade.

Nesse período na França, Marjane está em busca de si mesma, tentando não se perder diante do novo e aprendendo a lidar com as transformações de seu corpo adolescente. O desenvolvimento do corpo das mulheres no decorrer da história nos ajuda a pensar nas diferentes exigências em relação ao corpo, principalmente o corpo feminino, pela sociedade. Nos quadrinhos de Marjane vemos que esse corpo não se reduz ao corpo biológico, mas ao corpo cultural, definido por sua situação social.

Marjane passa por muitas dificuldades durante os anos em que mora na França e, no final, sem ter onde morar, fica vagando pelas ruas em pleno inverno e acaba por adoecer. Depois de ser tratada em um hospital francês, decide voltar para casa, mas esse período traumático que passa nas ruas é silenciado pela dificuldade que sente em o narrar, principalmente para os pais. De volta à Teerã, Marjane não consegue contar muito sobre a sua vida na França, mesmo com a recepção calorosa da família, e acaba por ficar deprimida. Agora ela também se sente uma estrangeira em seu próprio país, pois as experiências que a transformaram e as vivências que teve no exterior são muito diferentes da realidade da guerra daqueles que ficaram no Irã.

Todo o processo de readaptação dessa adolescente, agora uma mulher, ao voltar para casa e se confrontar novamente com as tradições nos possibilita novas reflexões. As discussões sobre o casamento, por exemplo, retomam a dualidade espaço público x espaço privado, pois os casais não podiam andar juntos pelas ruas se não fossem casados, e mesmo os casados tinham que apresentar sua certidão de casamento para isso. É a impossibilidade de viver publicamente seu namoro com o jovem Reza que leva Marjane a aceitar o casamento, para tempo depois se divorciar. Apesar do apoio da família, que aceita sem problemas o divórcio, uma mulher divorciada não é vista com bons olhos pela sociedade iraniana, pois já não são mais virgens e passam a ser abordadas constantemente, pois são consideradas disponíveis para qualquer homem. Após o divórcio, e por orientação dos pais, Marjane retorna à França em definitivo, onde reside até hoje.

Persépolis é um romance em quadrinhos que traz ótimas reflexões e aprendizado sobre um outro universo, que a maioria de nós desconhece, nos faz pensar sobre os perigos de se acreditar em uma história única e simplificada sobre os outros e que, além de tudo, é uma leitura deliciosa.

SATRAPI, Marjane. Persépolis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 352 páginas.

Um comentário:

Marcia Matos disse...

''iraniana, pois já não são mais virgens e passam a ser abordadas constantemente, pois são consideradas disponíveis para qualquer homem.''
Interessante uma reflexão sobre está frase, vejo que o mesmo acontece com as mulheres ocidentais, porém, forjado em uma falsa liberdade sexual. Nesse frenesi de pegação ou relacionamentos sem compromisso o que se quer mesmo é encontrar amor e respeito!