quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Medo

"Marcelo adormecia logo a seguir a fazer amor. Dobrava a almofada entre as pernas e tombava no sono. Eu ficava só, desperta, ruminando o tempo. No início via na atitude de Marcelo um sinal de insuportável egoísmo. Depois, já muito tarde, entendi. Os homens não olham as mulheres que acabaram de amar porque têm medo. Têm medo do que podem encontrar no fundo dos olhos delas."

Mia Couto. Antes de nascer o mundo. Companhia das letras, 2009. pág. 142

2 comentários:

Santiago Naliato Garcia disse...

Preciso dizer, Pipa, velho que sou, que de minhas todas vezes algumas agi assim, tombando de sono, mas não sem antes olhar bem aqueles olhinhos. Jamais foi medo, todo olhar dessa hora me reconforma, dá pra sentir os sentimentos da outra parte. Mas, sobre o sono, tive problemas tb; como a Mia, me tiraram conclusões sem jamais me perguntarem como havia sido meu dia, ou semana. E lhe conto aqui, entre um gole e outro do meu novo capuccinno de Alpino, que eu tombava pois me completava daquilo que me faltou todo o tempo anterior imediato, o de curto prazo. Todas as broncas, as encrencas, as faltas e o insuportável que a gente aprende a tentar ignorar me são tiradas do ombro depois de tal carinho, no instante imediato. Claro que imagino ser mais pela companhia, pela bela e cheirosa companhia. E mesmo ouvindo que seja egoísmo, por mais lugar comum que tal afirmação tenha se tornado, talvez seja mesmo: egoísmo por se guardar à pessoa amada e por ter tal unidade com o outro a ponto dela, apenas ela, ter condições de me apagar todos os problemas do mundo que não consigo ignorar. Saudade dessa rabiola colorida. Que risque nosso céu também nas noites, estou sempre a te olhar daqui!

Pipa disse...

Gostei muito dessa resposta sincera, achei bonito esse outro olhar. Acho que o Mia Couto chamou minha atenção pelo fato de ser homem e de escrever um sentimento tão feminino. Mas diante de sua resposta, vejo que o que falta mesmo são palavras para comunicar esses dois mundos que se completam. Não deixe de contar isso pra sua mulher, garanto que estará perdoado por todo o sono futuro.
Qualquer hora apareço mais por esse céu azul. Tem faltado inspiração.
beijo!

Pipa