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sábado, 4 de fevereiro de 2017

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Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES (Gótica Ed., 2001), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A linguagem dos pássaros


Pequena novela de estrutura linear, A linguagem dos pássaros narra a história de Miguel e Marisa, duas crianças que se encontram quando tem 11 e 9 anos, respectivamente. Marisa acaba de se mudar com a mãe para a casa ao lado onde Miguel mora com o pai, um professor de filosofia que quer que o filho siga os seus passos. O universo da infância onde esta história de amor se inicia é permeado de histórias, sendo muito ligado à natureza e ao fantástico. Na solidão em que vive com a mãe na casa ao lado, Marisa acaba por encontrar na casa de Miguel, próxima ao mar, um lugar de acolhimento. 

Na adolescência, descobrem-se apaixonados, mas quando Miguel vai para a faculdade as separações constituem um período de grande sofrimento para Marisa, que não consegue nem mesmo escrever cartas para Miguel, como uma forma de protestar pelo abandono. Miguel, no entanto, conta nas cartas que frequentemente escreve para Marisa sobre suas novas vivências. Entre a faculdade e as viagens por diversos lugares do mundo que decide conhecer, há sempre um retorno, e Marisa é sempre aquela que espera a sua volta, certa de que o amor que sente por Miguel é capaz de unir os dois e apaziguar todos os problemas.

Quando retorna dessas muitas viagens que fez na tentativa de se encontrar, de descobrir quem é de verdade, Miguel decide se casar com Marisa. Mas mesmo o amor e o desejo que sentem um pelo outro não são capazes de apaziguar o coração de Miguel, que procura encontrar algo que nem mesmo ele sabe o que é. Miguel encarna o anjo atormentado, a sombra, aquele que busca a linguagem universal, a linguagem dos pássaros, nas diversas línguas que se dedica a aprender. Traduz textos clássicos, escreve poesia, estuda filosofia, mas a vida simples ao lado de Marisa já não lhe basta. Marisa não consegue entender "porque é que ele continuava a procurar... depois de ter encontrado" (p. 40). A obsessão pela unidade, pela alma gêmea, por esse outro eu que completa e ao mesmo tempo é sombra, se aproxima do sobrenatural no final do romance.

Ambientado no presente, mas sem nenhuma marcação de tempo, o livro é rico em referências literárias e artísticas, dialogando com outras artes como a pintura, a música e o cinema e tem como tema a fragilidade do amor e a impossibilidade humana de eternizar a paixão. A linguagem dos pássaros é um livro de grande força narrativa, leitura de um só fôlego, apesar da história aparentemente simples – mas isso é só aparência, pois há outros desdobramentos, como a questão do duplo, que podem ser mais explorados a partir dessa leitura.

"Não disseram mais nada. A escuridão rodeava-os, as sombras, o rumor das vagas, ao longe surgiram as primeiras estrelas, depois o céu ficou coberto delas, começaram a distinguir as constelações, eram as mesmas, eram sempre as mesmas, como eles eram os mesmos, tinham sido tudo desde o primeiro momento, pelo menos desde o primeiro momento em que se tinham encontrado, tudo o que lhes ia acontecer a seguir já existia então, e tudo o que aconteceria depois, e sempre, com eles tudo acontecia ao mesmo tempo. Ela fechou os olhos e deixou-se adormecer, tranquila, plena, no corpo dele, no mundo negro semeado de estrelas e pássaros" (p. 62)

PEREIRA, Ana Teresa. A linguagem dos pássaros. Lisboa: Relógio D'água Editores, 2001.

Ana Teresa Pereira nasceu em 1958 no Funchal, onde vive. Publicou o seu primeiro romance em 1989, intitulado Matar a Imagem, com o qual ganhou o Prêmio Caminho Policial. Publica regularmente desde o seu primeiro romance. Em 2012 conquistou o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com o romance O Lago.

domingo, 8 de março de 2015

O desgoverno dos sonhos

o desgoverno dos sonhos
(um poema de Valter Hugo Mãe)

já não te aguardo,
adio-me

sobre o veludo da tua
morte o atrito do
corpo é a dolente barca onde
o dia quase não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar

se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono

o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer

existe uma arritmia tênue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração tênue que se sobrepõe ao que
já se tem

eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que recua

e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro

a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir

e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecânica

critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão

por isso persigo o pôr do sol,
janelas abertas, e
vacilo

lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto

já tu me esperas,
abrevias-me


MÃE, Valter Hugo. Contabilidade. Portugal: Editora Objectiva, 2010. pp. 268-270

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Tudo são histórias de amor



“Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada” – é a primeira frase de um dos contos deste livro e resume um pouco a sensação que temos ao navegar por essas páginas: somos guiados pelas palavras precisas e poéticas de Dulce Maria Cardoso. Palavras que formam um conjunto de histórias que retratam a alma humana, o que há de obscuro, cruel e complexo em seus sentimentos. São histórias de amor, mas não aquelas triviais e com final feliz. São aquelas histórias que doem, inquietam, incomodam. A respiração fica suspensa por alguns instantes depois de cada um dos 12 contos aqui presentes, e precisamos de um tempo para recuperar o fôlego e absorver o muito que estava ali, em poucas páginas.

O primeiro conto, um dos meus preferidos e o que tem um dos títulos mais bonitos – Este azul que nos cerca – fala sobre a inveja, a cobiça, e o desejo de ter o que o outro tem. Quando se consegue isso, o que sempre provoca muito sofrimento, já não é a mesma coisa, já não tem mais o mesmo sentido. É um conto que consegue ser ao mesmo tempo doce e amargo.

Em A biblioteca, os leitores certamente vão se identificar com o texto, pois o amor pelos livros está bem ali, em cada palavra. “Os livros salvaram-me”, diz Dulce Maria Cardoso, e são livros assim que nos salvam também.
"Estes livros, mais do que testemunhas, são meus cúmplices. Sabem tudo de mim. E eu sei tão pouco deles. Ainda que lhes conheça segredos escondidos e erros cândidos. Ainda que lhes saiba da ambição e lhes confirme o fracasso. Sei pouco deles. Os livros conhecem-nos, mas não é da sua natureza deixarem-se conhecer completamente. O mistério destes pequenos deuses."
Em Não esquecerás, vemos que a literatura é também uma forma de nos lembrarmos de tantas vidas que se vão de forma trágica, por pura negligência; é também o que nos incita a questionar os acontecimentos do mundo, a olhar criticamente para os fatos que nos cercam.

O conto Iguais narra a história de dois irmãos, gêmeos idênticos, que queriam ser iguais em tudo, mas que logo descobrem que são nossas vivências que nos tornam únicos.
“Identificar os acasos que nos trouxeram ao que somos só nos torna mais frágeis. Fazemo-lo na esperança de percebermos como nos aconteceu tornarmo-nos o que somos. Em vão.”
Em Coisas que acarinho e me morrem entre os dedos somos convidados a refletir sobre os nossos medos, principalmente o medo de perder, que quase sempre nos impede de tentar.
"Não quero amar o que não pode, para sempre, aceitar-me de regresso"
Desaparecida, ou a Justiça é um conto que se inspira livremente em fatos reais (no caso, o desaparecimento de uma criança, cujo corpo nunca foi encontrado, e a condenação de sua mãe pelo homicídio), o que mostra o olhar atento e sensível da autora diante da realidade que é, sim, objeto da literatura e serve para nos fazer refletir sobre os julgamentos que fazemos em nome do nosso desejo de “justiça”. Há muita violência e crueldade aqui e tem um final que nos assombra.

Os anjos por dentro conta a história de uma família, do amor de uma mãe pelos seus dois filhos e da violência do amor, que determina certas escolhas.

O conto Pânico consegue passar uma angústia imensa em poucas páginas; Humal nos deixa abismados com a crueldade humana. É um conto que certamente não é fácil de esquecer.

Retrato de um jovem poeta fala de decrepitude, de solidão, da lembrança e do esquecimento, e dos afetos aos quais nos agarramos, a todo custo, para sobreviver. É um soco no peito, como quase todos os contos desse livro.

Autobiografia é um dos meus favoritos e parte da ideia de que matamos - com o tempo, com as palavras, com as decisões - muito do que somos e talvez um dia tenhamos que lidar com todos os outros “nós” que deixamos morrer junto com os nossos sonhos.

É difícil escrever sobre contos sem dizer mais do que devemos dizer. Mas os contos de Dulce Maria Cardoso encantam mesmo aqueles que dizem não gostar muito de contos, como eu costumava dizer. Já entrou para a minha lista de melhores leituras de 2015. Recomendo e aviso: são histórias que fazem o coração doer.


 CARDOSO, Dulce Maria. Tudo são histórias de amor. Lisboa: Tinta da China, 2014. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A alma trocada



Em A alma trocada (2007), Rosa Lobato de Faria aborda um tema pouco explorado na Literatura Portuguesa: a homossexualidade masculina. O enredo conta a história de Teófilo, um rapaz de tradicional família burguesa, noivo de uma jovem moça por quem nada sente, mas com quem pretende se casar por conta da pressão da família, que quer que o filho assuma "o papel esperado".

"Um rasgão no peito, uma saudade de mim" e uma sensação de não pertencer ao mundo em que habitava, é como Teófilo constantemente descreve, desde o início, o processo de descoberta de sua sexualidade. Quando conhece Hugo e decide afirmar publicamente sua homossexualidade, a família não aceita bem o novo relacionamento do filho e os pais rompem relações com Teófilo, que sai de casa para viver com Hugo. Essa ruptura, ao mesmo tempo que causa grande sofrimento a Teófilo, também lhe traz grande alívio, uma vez que agora pode ser o quem realmente é, sem sentir vergonha por não se encaixar nos tradicionais papéis de gênero ou julgar que seus sentimentos são um erro. Só a avó de Teófilo lhe oferece apoio e carinho, demonstrando ter consciência de que a homossexualidade é uma orientação e não uma opção e que deseja ver o neto feliz.

O preconceito, ainda muito presente em nossos dias, é abordado por Lobato Faria neste romance que tem um tom bem folhetinesco. A experiência da autora escrevendo para a TV está presente nesta narrativa que apesar de simples tem todos os elementos de uma novela, com romances, traições, uma grande vilã, e um final feliz. Outros assuntos também são abordados, como a incidência e o preconceito em relação à AIDS entre os homossexuais, a possibilidade de uma configuração de família diferente da tradicional e também a formação desse jovem escritor.
Um romance simples, sem grande complexidade, que achei interessante ler apenas por tratar dessa temática pouco abordada e por ser uma autora de quem eu ainda não havia lido nada.

FARIA, Rosa Lobato. A alma trocada. Portugal: Leya Bis, 2013. 1ª edição: 2007.

Rosa Lobato de Faria foi uma atriz, escritora e autora de canções, nasceu em 20 de abril de 1932, em Lisboa, mas ficou com muitas ligações ao Alentejo devido a laços familiares. Fez sucesso como atriz de teatro, cinema e televisão e como autora de canções. Já com uma longa carreira em outras áreas culturais, em 1995 estreou na escrita de romances com O Pranto de Lúcifer, seguindo-se, sucessivamente, Os Pássaros de Seda (1996), Os Três Casamentos de Camilla S. (1997), Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999), A Trança de Inês (2001), O Sétimo Véu (2003), Os Linhos da Avó (2004), A Flor do Sal (2005), A Alma Trocada (2007), A Estrela de Gonçalo Enes (2008) e As Esquinas do Tempo (2008). Faleceu em 2 de fevereiro de 2010, aos 77 anos.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Provavelmente alegria


[pág. 48]

Na ilha por vezes habitada do que somos, há                                        
noites, manhãs e madrugadas em que não
precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente
e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la
nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável:
o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com
a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável, porque
mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem
milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago. Provavelmente alegria. Porto: Porto Editora, 2014.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Todos os dias




Uma casa habitada por uma família, suas dores, saudades, silêncios, ausências e também por um segredo. O cotidiano simples de acordar, sair para o trabalho, cuidar da casa, voltar no final do dia, sentar-se junto para o jantar, é narrado através da prosa lírica e delicada de Jorge Reis-Sá transformando esse livro em uma pequena obra prima. O cotidiano de um casal já aposentado, seus dois filhos, a avó já em idade avançada, e um neto que preenche essa casa com alguma alegria constituem essa casa, que é ela própria o centro de toda a história. É nela que os melhores dias, e também as piores dores ocorreram nessa família.

Justina e Antônio trabalharam durante a vida toda, cuidaram dos filhos, desejaram para eles o melhor futuro. Augusto, o mais velho, acabou com o sonho do pai de ter um filho doutor e bem sucedido quando decidiu deixar a faculdade porque queria ser escritor. Passou a viver em casa com a mãe, distante do restante da família porque à noite escrevia seu livro de forma obsessiva, livro que viria a ser publicado depois, dando orgulho aos pais que não o compreendiam direito. O filho mais novo, Fernando, tentava sempre fazer o que achava que os pais esperavam dele, tirar notas boas, trabalhar, casar, ter um filho, mas viveu sempre sob a sombra do irmão, a quem ao mesmo tempo admirava e amava, mas que também invejava.

Havia ainda a mãe de Antônio, que morava com eles e cuidava da cozinha, e que aceitava Justina como filha. E houve também uma tragédia, que marcou essa família para sempre, assim como um segredo, que só ficamos sabendo no final. A família nunca se recuperou da morte tão prematura de Augusto, cuja ausência afetou a vida de todos. Jorge Reis-Sá escreve com tal intensidade que sentimos a dor desses pais ao perderem seu filho:

"Mas não foi pelas vezes que ouvi o sino, enquanto o meu filho jazia na cama com a sua pele já fria, que o senti mais alto. Foi pela dor lancinante quando tocou para mim. Não era sicrano ou beltrano quem morrera, como dizia minha mãe. Era o meu filho. E, se para as outras pessoas era apenas uma morte a mais, para mim era a única. A única morte que me poderia um dia fazer entender o sino como se fosse uma fala antiga que me entrou quando nasci". [pág.119]

A morte da avó, logo em seguida, traz a dor da perda materna para a história, um vazio que nunca mais é preenchido e com o qual os personagens, que poderiam ser nós mesmos, tem que aprender a conviver e lidar, por mais doloroso que seja. Há o passar do tempo, inevitável, deixando marcas na pele e no coração dos homens. E há a capacidade de ver, através das rugas e do corpo cansado, a beleza verdadeira que construiu o relacionamento entre o casal, em uma das descrições de um olhar apaixonado mais singelas que já vi.

Em Todos os dias, a narrativa é composta por muitas vozes, que se entrelaçam todo o tempo, todos os dias, recriando a convivência em família. A cada momento o autor nos apresenta a perspectiva de um dos membros da família, no passado e no presente, recompondo sua trajetória única, e ao mesmo tempo também nossa. Este livro é daqueles que encontram na simplicidade da história uma forma muito especial de comover o leitor, pois nos identificamos com os sentimentos de cada personagem, e as relações familiares sempre foram (e sempre serão) palco rico e fértil para a literatura. Mas o que mais me encantou foi a forma verdadeira com que esses personagens foram apresentados, tão humanos em suas dores e suas falhas que conseguimos deles nos aproximar e partilhar dessas memórias, desse cotidiano simples em que a mãe acorda cedo todos os dias para alimentar as galinhas no quintal, em que o pai sai para trabalhar e só retorna no final do dia, sofrendo muito quando é convidado a se aposentar;  e também mais tarde, quando o pai tenta se fazer útil novamente naquela casa vazia e ao mesmo tempo cheia de silêncios e ausências, difíceis de aceitar. A rotina desse casal que envelheceu juntos e que consegue reviver as lembranças de seus próprios filhos no sorriso e na alegria do neto, numa tentativa constante de lembrar e esquecer alcança fundo nosso coração.

Poderia dizer que este livro é sobre o tempo que passa e que a ninguém perdoa; poderia dizer que é um livro sobre a morte e como lidamos com as ausências, com a culpa que carregamos do que foi ou não feito ou dito. Mas prefiro dizer que este é um livro sobre a vida, sobre os rituais cotidianos que compõem a vida, a família. "Porque é de gestos iguais que se fazem os dias"  e "porque somos, na passagem das horas, no olhar de quem amamos, todas as resignações, todos os dias que já fomos". [pág.188]


Jorge Reis-Sá. Todos os dias. São Paulo: Record, 2007. 224 páginas.