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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Tudo são histórias de amor



“Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada” – é a primeira frase de um dos contos deste livro e resume um pouco a sensação que temos ao navegar por essas páginas: somos guiados pelas palavras precisas e poéticas de Dulce Maria Cardoso. Palavras que formam um conjunto de histórias que retratam a alma humana, o que há de obscuro, cruel e complexo em seus sentimentos. São histórias de amor, mas não aquelas triviais e com final feliz. São aquelas histórias que doem, inquietam, incomodam. A respiração fica suspensa por alguns instantes depois de cada um dos 12 contos aqui presentes, e precisamos de um tempo para recuperar o fôlego e absorver o muito que estava ali, em poucas páginas.

O primeiro conto, um dos meus preferidos e o que tem um dos títulos mais bonitos – Este azul que nos cerca – fala sobre a inveja, a cobiça, e o desejo de ter o que o outro tem. Quando se consegue isso, o que sempre provoca muito sofrimento, já não é a mesma coisa, já não tem mais o mesmo sentido. É um conto que consegue ser ao mesmo tempo doce e amargo.

Em A biblioteca, os leitores certamente vão se identificar com o texto, pois o amor pelos livros está bem ali, em cada palavra. “Os livros salvaram-me”, diz Dulce Maria Cardoso, e são livros assim que nos salvam também.
"Estes livros, mais do que testemunhas, são meus cúmplices. Sabem tudo de mim. E eu sei tão pouco deles. Ainda que lhes conheça segredos escondidos e erros cândidos. Ainda que lhes saiba da ambição e lhes confirme o fracasso. Sei pouco deles. Os livros conhecem-nos, mas não é da sua natureza deixarem-se conhecer completamente. O mistério destes pequenos deuses."
Em Não esquecerás, vemos que a literatura é também uma forma de nos lembrarmos de tantas vidas que se vão de forma trágica, por pura negligência; é também o que nos incita a questionar os acontecimentos do mundo, a olhar criticamente para os fatos que nos cercam.

O conto Iguais narra a história de dois irmãos, gêmeos idênticos, que queriam ser iguais em tudo, mas que logo descobrem que são nossas vivências que nos tornam únicos.
“Identificar os acasos que nos trouxeram ao que somos só nos torna mais frágeis. Fazemo-lo na esperança de percebermos como nos aconteceu tornarmo-nos o que somos. Em vão.”
Em Coisas que acarinho e me morrem entre os dedos somos convidados a refletir sobre os nossos medos, principalmente o medo de perder, que quase sempre nos impede de tentar.
"Não quero amar o que não pode, para sempre, aceitar-me de regresso"
Desaparecida, ou a Justiça é um conto que se inspira livremente em fatos reais (no caso, o desaparecimento de uma criança, cujo corpo nunca foi encontrado, e a condenação de sua mãe pelo homicídio), o que mostra o olhar atento e sensível da autora diante da realidade que é, sim, objeto da literatura e serve para nos fazer refletir sobre os julgamentos que fazemos em nome do nosso desejo de “justiça”. Há muita violência e crueldade aqui e tem um final que nos assombra.

Os anjos por dentro conta a história de uma família, do amor de uma mãe pelos seus dois filhos e da violência do amor, que determina certas escolhas.

O conto Pânico consegue passar uma angústia imensa em poucas páginas; Humal nos deixa abismados com a crueldade humana. É um conto que certamente não é fácil de esquecer.

Retrato de um jovem poeta fala de decrepitude, de solidão, da lembrança e do esquecimento, e dos afetos aos quais nos agarramos, a todo custo, para sobreviver. É um soco no peito, como quase todos os contos desse livro.

Autobiografia é um dos meus favoritos e parte da ideia de que matamos - com o tempo, com as palavras, com as decisões - muito do que somos e talvez um dia tenhamos que lidar com todos os outros “nós” que deixamos morrer junto com os nossos sonhos.

É difícil escrever sobre contos sem dizer mais do que devemos dizer. Mas os contos de Dulce Maria Cardoso encantam mesmo aqueles que dizem não gostar muito de contos, como eu costumava dizer. Já entrou para a minha lista de melhores leituras de 2015. Recomendo e aviso: são histórias que fazem o coração doer.


 CARDOSO, Dulce Maria. Tudo são histórias de amor. Lisboa: Tinta da China, 2014. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O meu amante de domingo


E a noite roda foi uma das boas surpresas de 2013 e eu estava ansiosa para ler o tão aclamado O meu amante de domingo. Foi bem diferente do que eu esperava, mas gostei bastante da leitura. A escrita da Alexandra Lucas Coelho tem vida, intensidade, desejo. Muitas vezes é como uma conversa que nos envolve e faz o tempo passar sem nos darmos conta. É uma escrita ousada e irreverente, sem papas na língua. Sim, há muitos palavrões que podem assustar os leitores mais sensíveis. Mas a leitura flui e ficamos quase sempre com um sorriso nos lábios. Gosto da força do texto de Alexandra, tem personalidade e coragem.
O meu amante de domingo é cheio de referências a outros livros e outros autores, algo que eu aprecio e que demonstra que, antes de ser uma grande escritora, ela é uma grande leitora. Terminei de ler com vontade de ler Nelson Rodrigues (claro que atenta ao sexismo do seu texto), Balzac e até, quem sabe, finalmente encarar o Ulysses de Joyce.
A protagonista da história, tão humana, tão mulher em suas dúvidas e pensamentos, que durante a narrativa planeja assassinar um dos seus amantes, aquele que a enganou, nos fala muito sobre o universo feminino dos dias atuais, sobre relacionamentos, traição, vingança, desejo, sexo, amor. E também sobre a escrita. E no fim a melhor vingança é aquela com que Alexandra nos presenteia: a literatura.
Infelizmente o livro ainda não foi publicado no Brasil, mas esperamos que muito em breve a Tinta da China Brasil, com essas edições lindas em capa dura, disponibilize mais livros da Alexandra para os leitores brasileiros. Por enquanto é possível importar a edição portuguesa pelo site da editora (arcando com os custos do frete).

COELHO, Alexandra Lucas. O meu amante de domingo. Lisboa: Tinta da China, 2014.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

E a noite roda


"Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. 
Esquece a morte e segue-me".

E a Noite Roda é o primeiro romance da jornalista Alexandra Lucas Coelho, que já publicou narrativas de viagem e que por esta primeira aventura pelos campos da ficção recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) relativo a 2012, prêmio já concedido a grandes autores como José Saramago e Antonio Lobo Antunes. 

E a Noite Roda é a história de amor entre uma jornalista catalã (Ana Blau, a narradora) e um jornalista belga (Léon) que se conhecem em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat. Essa história de amor atravessa várias cidades e paisagens diferentes, levando o leitor a viajar junto com os personagens por esses espaços, seus cheiros, imagens e climas tão diversos. Em meio às descrições de lugares e cenários políticos, muitos dos quais são zonas de conflito, passamos a conhecer mais sobre Ana e Léon e o que os une, enquanto a narradora reconta os capítulos dessa relação. Um amor que desde o início está fadado ao fracasso, mas é daquelas paixões arrebatadoras, nas quais mergulhamos de olhos fechados, mesmo sabendo que, cedo ou tarde, chegará ao fim.

"Não posso dizer que não sei: eu vejo. Mas é para a frente que caminho. 
Se for amor, deixará de ser crime." [pág.66]

As referências literárias e musicais permeiam o texto e acabamos por terminar de ler com uma lista interessante de coisas novas a serem lidas ou descobertas. De Proust a Amós Oz, de Victor Hugo a Alejandra Pizarnik, de Wislawa Szymborska a Sigur Rós, entre tantos outros. São os livros e poemas que os personagens trocaram, como acontece em qualquer história de amor; são as músicas que ouviram juntos ou recomendaram e gravaram um para o outro, e que passam a ser a memória afetiva dessa saudade, dessa paixão.

"Um amor é sempre a sua circunstância.[...] Cada um saberá o que 
vê no outro e sobre isso mais ninguém sabe nada". [pág. 59]

As descrições de Alexandra Lucas Coelho são líricas e poéticas, há diversas frases que sozinhas já são tão belas que merecem destaque. É com essa narrativa cheia de lirismo que a autora cativa o leitor, que termina por se apaixonar e sofrer junto com Ana e Léon, torcendo por um final feliz. A experiência da autora com as narrativas de viagem contribui para que o texto flua com muita suavidade permitindo que nós, leitores, possamos também viajar pelos lugares citados, sem que a viagem seja cansativa: passeamos por Jerusalém, Gaza, Roma, Barcelona, entre outros.

A cor azul da capa (que por sinal é muito bonita) é também simbólica no texto já desde a sua epígrafe: "Se azuis são os seus olhos, azul será a minha lança" (Ibn Al Qaysaran). Foi interessante encontrar detalhes significativos na história que possuem essa cor: os olhos de Léon, a cor da permissão para entrar em Jerusalém, o vestido que ela usa quando se encontraram, e o próprio sobrenome da narradora, Ana Blau. 

Viajar nas palavras de Alexandra Lucas Coelho foi uma experiência muito prazerosa, ainda que meu coração sempre sofra um pouco com histórias de amor assim. Inesquecíveis, porém reais e bem possíveis de acontecer. Recomendo.

"Noite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé." [pág. 82]

Alexandra Lucas Coelho. E a noite roda. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2012. 247 páginas.