sexta-feira, 1 de junho de 2018

Um verso e Mei


EIXO

tinha um Eixo atravessando o meu peito,
tão grande que cortava minha alma em L2
Sul e Norte.

uma W3 entalada na garganta virou nó.
eles têm o Parque da Cidade.
nós, o Três Meninas.
eles, a Catedral.
nós, Santa Luzia.
eles, as Super Quadras.
nós, a Rocinha.
eles, Fonte Luminosa.
nós, Chafariz.
eles, Noroeste.
nós, Santuário.
eles, Sudoeste.
nós, Sol Nascente.
eles, o Lago Paranoá.
nós, Águas Lindas.

sou filha da Maria, que não é santa e nem puta.
nasci e me criei num Paraíso que chamam de Val
e me formei na Universidade Estrutural.

não troco o meu Recanto de Riachos Fundos
e Samambaias Verdes
pelas tuas tesourinhas.
essa Bras(ilha) não é minha.

porque eu não sou Planalto,
eu sou periferia!
eu não sou concreto,
eu sou quebrada!

BASTOS, Meimei. Um verso e Mei. Rio de Janeiro: Malê Edições, 2017.

Meimei Bastos é atriz, escritora, slammer, arte-educadora e estudante de Artes Cênicas na Universidade de Brasília. Nasceu em 1991, em Ceilândia, Distrito Federal.  Desde 2015, atua em batalhas de poesia falada (Slam), como poeta e organizadora. Atualmente coordena e produz nas periferias o Slam Q'BRADA.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Álbum, de Ana Elisa Ribeiro

PRENHEZ                   

estava grávida
naquela foto

o filho
não chegou
a nascer

a foto
nos mantém
à sua espera



POEMA IMPRESSO NA HORA

escrever um poema
não é como
pegar peixe com as mãos; caçar com flecha;
riscar fósforo; rezar o terço; alcançar a graça;
dizer adeus; ou capturar borboleta.

Também não é como
a dor do parto; fotografar pessoas paisagens
ambos; ver estrela cadente; catar feijão;
descrever sentimento.

Escrever o poema
se parece com
carregar água na peneira
e dar nó em pingo d'água:
lugares muito mais comuns.

***
Ana Elisa Ribeiro, 1975, é mineira de Belo Horizonte. Além de vários livros de poesia publicados, tem outros de crônica, conto e infantojuvenis publicados por diversas editoras brasileiras. Participou de antologias, revistas e jornais no Brasil, em Portugal, na França, no México, na Colômbia e nos Estados Unidos. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, professora e pesquisadora de Edição no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais.

RIBEIRO, Ana Elisa. Álbum. Belo Horizonte: Relicário, 2018.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Sobre escrever

"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome.
Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever."
Gloria  E. Anzaldúa

Para ler o texto completo da autora, clique aqui.

sábado, 14 de abril de 2018

O que o sol faz com as flores

Não era palavrão na minha casa
não era motivo de surra
apagaram do nosso dicionário
arrancaram das nossas costas aos tapas
até virarmos crianças comportadas
que diziam sim com obediência para qualquer coisa
quando ele subiu em cima de mim
todas as partes do meu corpo queriam rejeitá-lo
mas não consegui dizer não e salvar minha vida
quando tentei dar um grito
tudo que saiu de mim foi silêncio
ouvi o não batendo com força
no céu da minha boca
implorando para escapar
mas não pendurei a placa de saída
nunca construí a escada de emergência
para o não escapar não existia porta
quero fazer uma pergunta
a todos os pais e tutores
de que serviu a obediência naquela hora
quando dentro de mim havia mãos
que não eram as minhas

- como vou verbalizar o consentimento na vida adulta
se não me ensinaram na infância

KAUR, Rupi. O que o sol faz com as flores. Tradução Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2018.

domingo, 4 de março de 2018

A origem das coisas

A origem das coisas 


Explicou o filósofo grego
que todas as coisas
originam-se umas das outras
e desaparecem em outras
de acordo com a necessidade

tudo que há
movimento

tudo que é
contingência:

o assalto dos erros
o acaso pendular de um dia
de uma vida
de um poema.

Adriana Lisboa. Pequena Música. São Paulo: Iluminuras, 2018.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Coração e alma



A vida é um sopro (Clarice Lispector)

A frase de Clarice Lispector, “a vida é um sopro” passou muitas vezes pela minha cabeça enquanto lia Coração e alma, da escritora francesa Maylis de Kerangal. Em grande parte, isso se deve ao tema do livro, que narra todo o processo de um transplante cardíaco em um grande hospital da França, o que nos faz, inevitavelmente, pensar na efemeridade da vida e, consequentemente, no que fazemos da vida que temos. Falar da morte e da possibilidade de vida nos lembra da nossa humilde condição de mortais.

A temática do livro pode, a princípio, parecer estranha e acho que é pouco comum (pelo menos eu não me lembro de nenhum outro livro que fale do assunto), mas a forma com que a autora conseguiu escrever essa história surpreende pelo ritmo dado à narrativa, que tem uma velocidade e uma intensidade que conseguem transmitir essa ideia de efêmero (somos instantes) e também da agilidade com que esse processo de doação de órgãos precisa ser feito, literalmente correndo contra o tempo.

Outro ponto positivo do livro é, a meu ver, essa miríade de personagens, pessoas comuns em seu dia a dia que autora consegue retratar, em sua dimensão humana, complexa, cada uma vivendo seus dilemas, seus medos, sua solidão. Ao nos apresentar a perspectiva de cada personagem, conseguimos nos colocar no lugar do outro, pensar no que sente a família do futuro doador de órgãos, na tristeza da perda e do luto que vivenciam e a dor de ter que lidar com essa decisão tão imediata à morte; conseguimos também nos colocar no lugar dessas pessoas que trabalham nos hospitais, dos médicos às enfermeiras, que trabalham um número imenso de horas sob grande pressão para salvar vidas, ao mesmo tempo em que lidam com a morte; e nos imaginamos no papel desses pacientes que precisam de um transplante para seguir vivendo e tem uma vida repleta de angústia e espera até encontrar (e se tiverem a sorte de encontrar) um doador compatível.

Coração e alma é um livro bem diferente, que despertou em mim reações diferentes e por vezes, contraditórias. É uma leitura intensa, para quem gosta de livros para serem lidos de uma só vez e que desperta muitas reflexões. Repensei o tempo todo a minha decisão sobre doação de órgãos – e para quem nunca parou para pensar isso, esse romance é bem interessante para começar. Só por isso, acho que já vale a leitura.


Por fim, mas não menos importante, este é o primeiro livro escrito por uma autora publicado pela Rádio Londres, editora independente de ficção internacional fundada em 2015 e que tem publicado muitos autores inéditos no Brasil. Esperamos que mais obras escritas por mulheres sejam publicadas pela editora.

KERANGAL, Maylis de. Coração e alma. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2017. Trad. Maria de Fátima Oliva do Couto.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Minhas melhores leituras de 2017



Mais um ano chega ao fim e chega também o momento de toda leitora/leitor que se preze fazer o balanço das melhores leituras. Quem não gosta de uma lista, não é mesmo?
Não li tanto quanto gostaria em 2017, e em grande parte foi poesia, sempre meu maior consolo, mas segue a minha listinha do que li de melhor esse ano:

Como se fosse a casa (uma correspondência) (Ana Martins Marques e Eduardo Jorge)

O Martelo (Adelaide Ivánova)

Da poesia (Hilda Hilst)

Poemas da recordação e outros movimentos (Conceição Evaristo)

Dia bonito pra chover (Lívia Natália)

Os bons amigos (Hannah Kent)

Dois (Oscar Nakasato)

Amora (Natália Borges Bolesso)

Aqui, no coração do inferno (Micheliny Verunschk)

A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana Aleksiévich)



E que 2018 seja um ano mais leve, de muitas realizações e leituras incríveis para nós!


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Dia bonito pra chover



Insurreição

Seria mais fácil não amar os pessegueiros macios
e nada sorver do seu perfume,
mas os meus dentes querem a carne do seu corpo,
minha língua deseja lamber do seu sumo.

O certo seria plantar a semente e esperar,
dos laços e nós dos caules finos,
aspergir-se o perfume da fruta vindoura.
Mas meu corpo tem pressa
e não respeita os relógios que inventam o tempo.

Minha natureza é temporã.
Eu sou das fêmeas que vão!
ficar é para quem tem raízes,
ceder é para quem deseja morada: eu sou o desabrigo.
Quero a fruta furtada do pé.
comer seu gosto ainda verde,
morder suas entranhas ainda duras.

Não sou das que esperam,
sou das que não querem nem chegar,
sou de partir e, no precipício, ainda ser silenciosa,
inteira.
Sou uma destas mulheres que vão.
ficar é raiz.
partir é imensidão.


Lívia Natália. Dia bonito pra chover. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2017.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Os bons amigos




Ambientado na Irlanda do século XIX, Os bons amigos, da escritora australiana Hannah Kent, retrata a vida da época, seus costumes, superstições e tradições, em uma pequena vila no interior do país. O romance é baseado em fatos reais e a narrativa nos transporta para os anos 1825 e 1826, uma época em que as crenças e superstições tinham um grande poder no dia a dia das pequenas comunidades, que viviam em condições insalubres e sem muita informação. A medicina da época não era muito avançada e a figura de mulheres parteiras e conhecedoras do poder medicinal das ervas era muito presente na própria sobrevivência dessas comunidades. Nesse sentido, esse romance fala de crenças e  das ligações ancestrais das mulheres com a natureza. Mas nada é tão simples assim.

Três personagens são centrais nessa narrativa: Nóra, uma mulher que acabou de ficar viúva e que recentemente também havia perdido a filha para uma doença misteriosa, ficando sozinha a cargo de cuidar de sua pequena fazenda e do neto, um menino de 4 anos que também estava muito doente, sem conseguir andar ou falar. A segunda personagem é Mary, uma menina de um vilarejo próximo e de família muito pobre, contratada por Nóra para ajudar nas tarefas da casa e nos cuidados com o neto doente. A terceira é Nance, uma senhora idosa que há anos chegara ao vilarejo e que vivia de doações em troca dos seus conhecimentos de ervas mediciais e outras superstições locais, quase sempre associadas à cura. Com a chegada do novo padre ao vilarejo, a vida de Nance fica cada vez mais difícil, uma vez que, buscando livrar a comunidade do paganismo dessas superstições e de aproximar os moradores um pouco mais da Igreja, ele passa a pregar contra os hábitos, associados à bruxaria, praticados por Nance.

A vida dessas três mulheres de idades diferentes se une em torno do pequeno Michaél, que retorna ao lar da avó após a morte da filha de Nóra. Para tristeza da avó, o menino está muito diferente do garoto saudável que era, com os membros deformados e sem conseguir falar ou andar. O médico consultado diz que não há mais nada a fazer em relação ao menino, a não ser se conformar com a sua nova condição de saúde. Mas Nóra, estimulada pelas conversas e lendas locais sobre os seres encantados que habitam a região e roubam as pessoas para outros mundos, deixando substitutos no lugar, procura Nance para resgatar o verdadeiro neto do mundo encantado. 

Mantendo um clima de suspense ao longo de todo o romance, Hannah Kent consegue narrar com brilhantismo uma história que, como se sabe por pesquisas históricas feitas pela autora, relata um caso real ocorrido na Irlanda, e propõe com isso uma reflexão muito interessante e mais do que atual sobre o poder da crença e das superstições no trato das diferenças. Fiquei absolutamente encantada com a escrita da autora, tão cheia de lirismo e que manteve esta leitora aqui presa ao livro do início ao fim, tanto que Os bons amigos entrou para a minha singela lista de melhores leituras de 2017. Recomendadíssimo.

***

Hannah Kent. Os bons amigos. São Paulo: Globo Livros, 2017. Trad. Celina Portocarrero.

*Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Sorteio: FOME


Um exemplar de "FOME: Uma autobiografia do (meu) corpo", de Roxane Gay;
3 canetinhas + 3 marcadores de livro fofos

Para participar do sorteio é só preencher o formulário abaixo com seu nome e email, seguir o instagram do blog @pipanaosabevoar e marcar três amigos na postagem oficial do sorteio no instagram.

As inscrições podem ser feitas até o dia 20/12/2017, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 21/12/2017, às 10h. Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. Boa sorte! :)

Link para o Instagram: http://instagram.com/pipanaosabevoar
Link do sorteio https://goo.gl/forms/vG6oMjCEhWeBWhyt1

O resultado será informado no blog:
http://pipanaosabevoar.blogspot.com.br/

RESULTADO DO SORTEIO:  a vencedora é Estela Pereira dos Santos =] Estela, vou entrar em contato por email com você. Obrigada a todas por terem participado! Até o próximo!