Não era palavrão na minha casa
não era motivo de surra
apagaram do nosso dicionário
arrancaram das nossas costas aos tapas
até virarmos crianças comportadas
que diziam sim com obediência para qualquer coisa
quando ele subiu em cima de mim
todas as partes do meu corpo queriam rejeitá-lo
mas não consegui dizer não e salvar minha vida
quando tentei dar um grito
tudo que saiu de mim foi silêncio
ouvi o não batendo com força
no céu da minha boca
implorando para escapar
mas não pendurei a placa de saída
nunca construí a escada de emergência
para o não escapar não existia porta
quero fazer uma pergunta
a todos os pais e tutores
de que serviu a obediência naquela hora
quando dentro de mim havia mãos
que não eram as minhas
- como vou verbalizar o consentimento na vida adulta
se não me ensinaram na infância
KAUR, Rupi. O que o sol faz com as flores. Tradução Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2018.
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sábado, 14 de abril de 2018
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
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E uma canção desesperada
(Lívia Natália)
A dor de uma mulher tem infinitas máscaras,
mas permanece dor, sob as cores pintadas.
A dor de uma mulher não dorme cedo,
ela espreita toda sua vida
e seu coração se crispa em segredo.
A dor de uma mulher não tem fantasmas,
não anda no escuro, ela se recolhe nas suas entranhas
como quem costura o imenso véu
que lhe cobrirá as feridas.
A dor de uma mulher tem que ser das mais fortes,
tem que ferir este bicho de morte,
este animal que sangra e sobrevive
às suas dobras vincadas de dor e medo.
Neste bicho estranho que se pinta de vermelho,
dentro e fora têm a mesma face estranha e calma.
A dor de uma mulher é violenta,
e ladra bestializada de seus próprios precipícios.
Crava seus dentes no tempo,
chora silente pra dentro
e se cura das feridas nos dias.
NATÁLIA, Lívia. Água Negra e outras águas. 2 ed. Salvador: Caramurê Publicações, 2016. p. 97
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Escuta - poemas
Certo
(Eucanaã Ferraz)
Hoje quero te falar de permanecer vivo.
Observa que há árvores velhas e a juventude é
longa;
perde ao menos uma hora restaurando os azulejos
brancos
da tua infância; sobretudo abre as janelas que dão
para o céu
de Nova Friburgo, terra onde as terras são
principados
de toda a gente e à vista nua divisamos planetas
em varandas alvoroçadas por malmequeres só de
luz;
hoje quero te falar de junhos nervosos de tantas
alegrias.
Se tudo te parece frágil é verdade é frágil tudo;
mas venho te dizer que tudo permanecerá vivo
nesta hora em que te digo agora.
FERRAZ, Eucanaã. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Para ler um trecho do livro, clique aqui.
domingo, 8 de março de 2015
O desgoverno dos sonhos
o desgoverno dos sonhos
(um poema de Valter Hugo Mãe)
já não te aguardo,
adio-me
sobre o veludo da tua
morte o atrito do
corpo é a dolente barca onde
o dia quase não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar
se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono
o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer
existe uma arritmia tênue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração tênue que se sobrepõe ao que
já se tem
eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que recua
e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro
a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir
e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecânica
critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão
por isso persigo o pôr do sol,
janelas abertas, e
vacilo
lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto
já tu me esperas,
abrevias-me
MÃE, Valter Hugo. Contabilidade. Portugal: Editora Objectiva, 2010. pp. 268-270
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domingo, 18 de janeiro de 2015
Provavelmente alegria
Na ilha por vezes habitada do que somos, há
precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente
e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la
nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável:
o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com
a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável, porque
mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem
milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago. Provavelmente alegria. Porto: Porto Editora, 2014.
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quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Um poema de Ondjaki
vou escrever na pedra a palavra amor - inventar uma textura na minha estória pessoal. há uma ruga na pedra sulcada pela minha lágrima. se a pedra sorrir vou me esconder no riso dela. se o vento vier vou alisar o tempo perdido e construir memórias.
primeiro vou beijar a mulher, depois a pedra.
se sobrarem beijos, vou atirá-los a favor do vento.
Ondjaki, in "Materiais para a confecção de um espanador de tristezas"
sábado, 26 de julho de 2014
Adélia.
O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.
Adélia Prado. A duração do dia. Rio de Janeiro: Record, 2010. p.37
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