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domingo, 8 de março de 2015

O desgoverno dos sonhos

o desgoverno dos sonhos
(um poema de Valter Hugo Mãe)

já não te aguardo,
adio-me

sobre o veludo da tua
morte o atrito do
corpo é a dolente barca onde
o dia quase não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar

se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono

o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer

existe uma arritmia tênue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração tênue que se sobrepõe ao que
já se tem

eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que recua

e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro

a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir

e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecânica

critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão

por isso persigo o pôr do sol,
janelas abertas, e
vacilo

lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto

já tu me esperas,
abrevias-me


MÃE, Valter Hugo. Contabilidade. Portugal: Editora Objectiva, 2010. pp. 268-270

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Tudo são histórias de amor



“Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada” – é a primeira frase de um dos contos deste livro e resume um pouco a sensação que temos ao navegar por essas páginas: somos guiados pelas palavras precisas e poéticas de Dulce Maria Cardoso. Palavras que formam um conjunto de histórias que retratam a alma humana, o que há de obscuro, cruel e complexo em seus sentimentos. São histórias de amor, mas não aquelas triviais e com final feliz. São aquelas histórias que doem, inquietam, incomodam. A respiração fica suspensa por alguns instantes depois de cada um dos 12 contos aqui presentes, e precisamos de um tempo para recuperar o fôlego e absorver o muito que estava ali, em poucas páginas.

O primeiro conto, um dos meus preferidos e o que tem um dos títulos mais bonitos – Este azul que nos cerca – fala sobre a inveja, a cobiça, e o desejo de ter o que o outro tem. Quando se consegue isso, o que sempre provoca muito sofrimento, já não é a mesma coisa, já não tem mais o mesmo sentido. É um conto que consegue ser ao mesmo tempo doce e amargo.

Em A biblioteca, os leitores certamente vão se identificar com o texto, pois o amor pelos livros está bem ali, em cada palavra. “Os livros salvaram-me”, diz Dulce Maria Cardoso, e são livros assim que nos salvam também.
"Estes livros, mais do que testemunhas, são meus cúmplices. Sabem tudo de mim. E eu sei tão pouco deles. Ainda que lhes conheça segredos escondidos e erros cândidos. Ainda que lhes saiba da ambição e lhes confirme o fracasso. Sei pouco deles. Os livros conhecem-nos, mas não é da sua natureza deixarem-se conhecer completamente. O mistério destes pequenos deuses."
Em Não esquecerás, vemos que a literatura é também uma forma de nos lembrarmos de tantas vidas que se vão de forma trágica, por pura negligência; é também o que nos incita a questionar os acontecimentos do mundo, a olhar criticamente para os fatos que nos cercam.

O conto Iguais narra a história de dois irmãos, gêmeos idênticos, que queriam ser iguais em tudo, mas que logo descobrem que são nossas vivências que nos tornam únicos.
“Identificar os acasos que nos trouxeram ao que somos só nos torna mais frágeis. Fazemo-lo na esperança de percebermos como nos aconteceu tornarmo-nos o que somos. Em vão.”
Em Coisas que acarinho e me morrem entre os dedos somos convidados a refletir sobre os nossos medos, principalmente o medo de perder, que quase sempre nos impede de tentar.
"Não quero amar o que não pode, para sempre, aceitar-me de regresso"
Desaparecida, ou a Justiça é um conto que se inspira livremente em fatos reais (no caso, o desaparecimento de uma criança, cujo corpo nunca foi encontrado, e a condenação de sua mãe pelo homicídio), o que mostra o olhar atento e sensível da autora diante da realidade que é, sim, objeto da literatura e serve para nos fazer refletir sobre os julgamentos que fazemos em nome do nosso desejo de “justiça”. Há muita violência e crueldade aqui e tem um final que nos assombra.

Os anjos por dentro conta a história de uma família, do amor de uma mãe pelos seus dois filhos e da violência do amor, que determina certas escolhas.

O conto Pânico consegue passar uma angústia imensa em poucas páginas; Humal nos deixa abismados com a crueldade humana. É um conto que certamente não é fácil de esquecer.

Retrato de um jovem poeta fala de decrepitude, de solidão, da lembrança e do esquecimento, e dos afetos aos quais nos agarramos, a todo custo, para sobreviver. É um soco no peito, como quase todos os contos desse livro.

Autobiografia é um dos meus favoritos e parte da ideia de que matamos - com o tempo, com as palavras, com as decisões - muito do que somos e talvez um dia tenhamos que lidar com todos os outros “nós” que deixamos morrer junto com os nossos sonhos.

É difícil escrever sobre contos sem dizer mais do que devemos dizer. Mas os contos de Dulce Maria Cardoso encantam mesmo aqueles que dizem não gostar muito de contos, como eu costumava dizer. Já entrou para a minha lista de melhores leituras de 2015. Recomendo e aviso: são histórias que fazem o coração doer.


 CARDOSO, Dulce Maria. Tudo são histórias de amor. Lisboa: Tinta da China, 2014. 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A máquina de Joseph Walser


O segundo livro da tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares, narra a história de Joseph Walser, um homem introvertido, calado e apático. Joseph é casado com Margha e trabalha em uma fábrica operando uma máquina perigosa, pois ao mesmo tempo que lhe fornece o trabalho que o sustenta, também pode, com um único descuido, tirar a sua vida. Apesar do baixo salário que recebe, Joseph se reúne aos sábados com outros colegas de trabalho para jogar dados fazendo apostas. Tendo uma vida bastante regrada, onde cada ação precisa ser executada de forma controlada, o jogo de dados é um dos poucos momentos em que sente ter controle sobre seu destino, já que só há dois caminhos possíveis ao jogar os dados: a sorte ou o azar.

Assim como ocorre no primeiro livro da tetralogia, a história se passa em um tempo de guerra. Por não entender a guerra, Joseph decide nela não interferir: não tece comentários a respeito como se nada estivesse acontecendo. Se não posso ver e se não me afeta, não existe - é esse o pensamento de Joseph. Uma atitude de negação e apatia que pode representar aqui a atitude humana diante não apenas da guerra, mas da violência e da pobreza que afetam tantas pessoas em nossa sociedade. Essa indiferença é a marca de Joseph Walser, que certo dia vê sua esposa saindo da casa do encarregado da fábrica onde trabalha. O que era uma suspeita se confirma quando o próprio Klober, encarregado da fábrica, conta a Joseph que é amante de sua esposa. Ainda assim, Joseph continua indiferente a Margha, como se nada estivesse acontecendo, sem esboçar nenhuma reação.

A guerra parece movimentar toda a vida das pessoas na cidade, alguns até estão formando grupos secretos contra a guerra, mas Joseph Walser não é convidado a participar. As pessoas não confiam nele, que segue normalmente com a sua vida e sua rotina, mantendo a apatia diante da vida. Joseph tem uma coleção, que parece ser a única coisa com a qual ele se importa. Uma coleção secreta, onde arquiva objetos únicos, encontrados em condições únicas, que fazem dele, portanto, um ser único. É um exemplo bem vivo da valorização do material em detrimento de sentimentos mais nobres e pelas pessoas que o cercam.

Um dia, por um deslize, acontece um acidente na fábrica e Joseph tem o dedo indicador da mão direita amputado. Esse fato interferirá em vários aspectos de sua vida: ele não poderá mais operar a máquina com a qual trabalhava, passando a ter uma função administrativa e sem riscos. Seu salário será diminuído (já não há mais o extra pela função de risco que exercia). Toda a sua rotina muda, já não encontra mais os mesmos colegas de trabalho. No jogo de dados, porém, sua sorte muda e a ausência do dedo parece o favorecer.

Joseph Walser é um homem preparado para não amar ninguém, um homem que "desde cedo ficara evidente que não desejava ser protagonista, mas apenas uma testemunha" (p. 123) de tudo que o cerca. Ele passa a se encontrar com a viúva de um de seus colegas de jogo, morto em uma armadilha sobre a qual Walser foi informado e de forma covarde nada fez. Ainda me incomoda muito a forma como as mulheres são representadas na história, o que considero o ponto fraco do livro, além de algo perigoso, uma vez que reforça estereótipos extremamente negativos. 

A reflexão sempre muito filosófica presente na obra de Gonçalo Tavares, que escreve com uma concisão impressionante, em que a frase mais simples nos faz pensar sobre muitas coisas, é sem dúvida um dos pontos fortes do romance. A máquina de Joseph Walser, que ao mesmo tempo em que lhe garante o sustento pode a qualquer momento o destruir, nos faz pensar sobre todo o aparato tecnológico de que hoje dispomos e que pode também a qualquer momento ser usado contra a própria humanidade. É o maquinário que é usado nas guerras para provocar o mal. Há também a reflexão sobre o próprio comportamento de Walser, que tenta se isentar da vida e das decisões necessárias, o que enfatiza a ideia de que não podemos passar pela vida sem fazer escolhas, sem nos posicionarmos. No fim, como ocorre com Walser, que tem a decisão sobre viver ou morrer em um simples jogo de dados proposto pelo encarregado, chega o momento em que a decisão é inevitável ou que alguém decidirá por nós, mas nem sempre da forma mais favorável.

TAVARES, Gonçalo M. A máquina de Joseph Walser. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A alma trocada



Em A alma trocada (2007), Rosa Lobato de Faria aborda um tema pouco explorado na Literatura Portuguesa: a homossexualidade masculina. O enredo conta a história de Teófilo, um rapaz de tradicional família burguesa, noivo de uma jovem moça por quem nada sente, mas com quem pretende se casar por conta da pressão da família, que quer que o filho assuma "o papel esperado".

"Um rasgão no peito, uma saudade de mim" e uma sensação de não pertencer ao mundo em que habitava, é como Teófilo constantemente descreve, desde o início, o processo de descoberta de sua sexualidade. Quando conhece Hugo e decide afirmar publicamente sua homossexualidade, a família não aceita bem o novo relacionamento do filho e os pais rompem relações com Teófilo, que sai de casa para viver com Hugo. Essa ruptura, ao mesmo tempo que causa grande sofrimento a Teófilo, também lhe traz grande alívio, uma vez que agora pode ser o quem realmente é, sem sentir vergonha por não se encaixar nos tradicionais papéis de gênero ou julgar que seus sentimentos são um erro. Só a avó de Teófilo lhe oferece apoio e carinho, demonstrando ter consciência de que a homossexualidade é uma orientação e não uma opção e que deseja ver o neto feliz.

O preconceito, ainda muito presente em nossos dias, é abordado por Lobato Faria neste romance que tem um tom bem folhetinesco. A experiência da autora escrevendo para a TV está presente nesta narrativa que apesar de simples tem todos os elementos de uma novela, com romances, traições, uma grande vilã, e um final feliz. Outros assuntos também são abordados, como a incidência e o preconceito em relação à AIDS entre os homossexuais, a possibilidade de uma configuração de família diferente da tradicional e também a formação desse jovem escritor.
Um romance simples, sem grande complexidade, que achei interessante ler apenas por tratar dessa temática pouco abordada e por ser uma autora de quem eu ainda não havia lido nada.

FARIA, Rosa Lobato. A alma trocada. Portugal: Leya Bis, 2013. 1ª edição: 2007.

Rosa Lobato de Faria foi uma atriz, escritora e autora de canções, nasceu em 20 de abril de 1932, em Lisboa, mas ficou com muitas ligações ao Alentejo devido a laços familiares. Fez sucesso como atriz de teatro, cinema e televisão e como autora de canções. Já com uma longa carreira em outras áreas culturais, em 1995 estreou na escrita de romances com O Pranto de Lúcifer, seguindo-se, sucessivamente, Os Pássaros de Seda (1996), Os Três Casamentos de Camilla S. (1997), Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999), A Trança de Inês (2001), O Sétimo Véu (2003), Os Linhos da Avó (2004), A Flor do Sal (2005), A Alma Trocada (2007), A Estrela de Gonçalo Enes (2008) e As Esquinas do Tempo (2008). Faleceu em 2 de fevereiro de 2010, aos 77 anos.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Provavelmente alegria


[pág. 48]

Na ilha por vezes habitada do que somos, há                                        
noites, manhãs e madrugadas em que não
precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente
e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la
nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável:
o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com
a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável, porque
mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem
milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago. Provavelmente alegria. Porto: Porto Editora, 2014.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O meu amante de domingo


E a noite roda foi uma das boas surpresas de 2013 e eu estava ansiosa para ler o tão aclamado O meu amante de domingo. Foi bem diferente do que eu esperava, mas gostei bastante da leitura. A escrita da Alexandra Lucas Coelho tem vida, intensidade, desejo. Muitas vezes é como uma conversa que nos envolve e faz o tempo passar sem nos darmos conta. É uma escrita ousada e irreverente, sem papas na língua. Sim, há muitos palavrões que podem assustar os leitores mais sensíveis. Mas a leitura flui e ficamos quase sempre com um sorriso nos lábios. Gosto da força do texto de Alexandra, tem personalidade e coragem.
O meu amante de domingo é cheio de referências a outros livros e outros autores, algo que eu aprecio e que demonstra que, antes de ser uma grande escritora, ela é uma grande leitora. Terminei de ler com vontade de ler Nelson Rodrigues (claro que atenta ao sexismo do seu texto), Balzac e até, quem sabe, finalmente encarar o Ulysses de Joyce.
A protagonista da história, tão humana, tão mulher em suas dúvidas e pensamentos, que durante a narrativa planeja assassinar um dos seus amantes, aquele que a enganou, nos fala muito sobre o universo feminino dos dias atuais, sobre relacionamentos, traição, vingança, desejo, sexo, amor. E também sobre a escrita. E no fim a melhor vingança é aquela com que Alexandra nos presenteia: a literatura.
Infelizmente o livro ainda não foi publicado no Brasil, mas esperamos que muito em breve a Tinta da China Brasil, com essas edições lindas em capa dura, disponibilize mais livros da Alexandra para os leitores brasileiros. Por enquanto é possível importar a edição portuguesa pelo site da editora (arcando com os custos do frete).

COELHO, Alexandra Lucas. O meu amante de domingo. Lisboa: Tinta da China, 2014.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Nas tuas mãos

"Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo" (Vergílio Ferreira)

Nas tuas mãos é um romance sobre três vidas, três gerações diferentes de mulheres cuja intimidade e solidão são descritas por Inês Pedrosa com a delicadeza de uma escrita bem elaborada que comove o leitor e o aproxima dessas personagens, imensamente humanas em suas dores, sentimentos e ilusões. Jenny, Camila e Natália revelam, cada uma de uma forma, aspectos da época em que vivem ao contar a sua própria história; suas vidas também são marcadas pela passagem do tempo e pelas mudanças da sociedade, da mesma forma que foram marcadas por amores e perdas, vivências comuns a todos nós. Assim, o romance é dividido em três partes: o diário de Jenny, o álbum de Camila e as cartas de Natália.

O diário de Jenny começa a ser narrado a partir de 1935. Em uma época em que o único destino para as mulheres era o casamento e a criação dos filhos, Jenny aceita se casar com Antonio nutrindo todas as expectativas que a sociedade da época nela depositava. Mas o casamento acaba por ser um casamento de fachada: Antonio amava Pedro, seu grande amigo, e mesmo sabendo desse amor, pela vergonha de se separar e ter que enfrentar todos os julgamentos que uma mulher divorciada enfrentaria, Jenny aceita em silêncio a solidão que seu casamento de fachada lhe destinava. Conviviam os três em sua grande casa, sem que ninguém jamais desconfiasse que nunca havia se tornado verdadeiramente mulher de Antonio. O tom confessional do diário de Jenny nos comove e aproxima dessa mulher que viveu toda a sua vida em solidão, nutrindo um amor platônico por Antônio. Logo sabemos que Pedro, em uma de suas brigas com Antonio, se relaciona com uma judia francesa e a engravida. Fugindo dos nazistas durante a guerra, Danielle deixa sua filha, Camila, aos cuidados de Jenny e, pouco depois de ser presa, morre no campo de concentração de Dachau. Camila é cuidada por Jenny como uma filha verdadeira e só muito depois passa a saber a história de sua mãe biológica e seu pai. Jenny, vivendo sem ser amada, agarra-se à maternidade como uma forma de não enlouquecer em sua solidão. É para Camila que ela escreve o seu diário, para que a sua filha compreenda melhor as circunstâncias de sua vida.

"Não procures explicação para a minha vida, nem a tomes com pena ou escândalo; quando eu ficar tão velha que pareça louca, lê nestes cadernos que eu fui feliz. Não te preocupes como ou quanto, nem caias na tentação de distinguir amor e paixão: a pouco e pouco, fui vendo que essas divisões são armadilhas que se montam para que o pano caia sobre os nossos olhos e a imortalidade desapareça do nosso horizonte. O amor, Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele" (pp.24-25)

A segunda parte do livro é o álbum de Camila, que gostava de fotografias talvez porque a única coisa que sabia de sua mãe biológica constava em uma fotografia deixada para ela antes de partir. Camila, que foi presa e torturada durante a ditadura, e deixou de sorrir durante muito tempo. As influências do feminismo permeiam todas as ações de Camila, desde a sua postura, sua forma de se vestir, a sua resistência à ditadura da beleza às leituras que fazia (O segundo sexo, da Simone de Beauvoir, e Virginia Woolf, por exemplo). 

Algum tempo depois, Camila conhece Eduardo e eles se apaixonam perdidamente. Mas o destino dessas mulheres parece mesmo ser a solidão, e Camila perde Eduardo de forma trágica. Depois disso, Camila vai trabalhar como correspondente em Moçambique, mais na tentativa de buscar para si mesma a morte do que para recomeçar uma nova vida. Em África conhece Xavier, um militante da Frente de Libertação de Moçambique, um homem que também mudará o seu destino.

"Com Xavier, deixei pura e simplesmente de pensar. Concentrei-me em escutar o sangue do meu corpo até que a sua voz fosse mais poderosa do que o silêncio dos mortos que o secavam. Foi assim que gerei Natália. A milha filha de África, mais do que de Xavier. Desta forma ele a desejaria: herdeira da imensidão mais do que da história trágica de um homem. Para o Xavier, a tragédia era apenas uma prova da veemência da vida." (p. 110)

O romance, de forma geral, é muito rico para pensarmos questões pertinentes ao feminismo, afinal é um livro narrado a partir da perspectiva feminina e fala da vida de três mulheres distintas em épocas diferentes. Em um ano em que mais uma vez a questão do espaço e da igualdade de oportunidades no mundo literário foi bastante discutida, é interessante observar a personagem Josefa Nascimento, uma escritora amiga de Jenny que "publicava romances policiais sob o pseudónimo de Joseph Birth. "Pus meu nome em inglês macho para vender bem", explicava ela, aos poucos a que confiara a sua existência paralela" (p. 33). Josefa, assim como Virginia Woolf, havia sido impedida pelo pai de frequentar a Universidade e só conseguia publicar a sua escrita, bastante feminista, usando um nome masculino.

A solidão de Camila, seu relacionamento com Jenny durante a velhice, a morte de Antonio, a partida de Pedro e a relação mãe e filha com Natália, de quem era muito diferente, são abordados no álbum de Camila, com grande melancolia.

"Pensei que as imagens me poderiam curar, que poderia colar os instantâneos do mundo sobre o sangue do meu coração e fazê-lo parar. Pensei que o amor podia ser domesticado e o lado negro do instinto maternal racionalizado. Pensei demais. Tudo está escrito nos espaços brancos que ficam entre uma palavra e a seguinte. O resto não importa." (pp.140-141)

A terceira e última parte são as cartas de Natália para Jenny, sua avó, de quem era bem mais próxima. Tentando reencontrar seu verdadeiro amor, Natália segue escrevendo para Jenny, mesmo depois da morte da avó. A filha mulata de Camila, que não conheceu o pai e que sofria preconceito por sua cor em Portugal, viaja para África em busca de suas origens. O racismo e o amor entre mulheres também são temas abordados nesse romance tão fascinante e apaixonado de Inês Pedrosa que, principalmente na última parte, observa com o olhar atento a vida das mulheres em Moçambique e a opressão que de formas diferentes as atingem. Um livro sobre mulheres e para (mas não apenas) mulheres, que nos faz pensar sobre feminismo, casamento, maternidade, sexualidade, relações familiares etc e nas histórias que carregamos conosco e que sempre serão parte de nós. E essa (re)leitura, seis anos depois de ter me apaixonado por essa história pela primeira vez, comprovou que Nas tuas mãos continua sendo um dos meus livros preferidos da Inês.


PEDROSA, Inês. Nas tuas mãos. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2005. 222 páginas.

domingo, 14 de setembro de 2014

Este é o meu corpo


O corpo de uma mulher é encontrado após um telefonema anônimo para a delegacia. Está desfigurado na beira de uma estrada, com os pés amarrados e sinais de violência. O médico legista é chamado para descobrir o que aconteceu e ajudar a polícia a desvendar o caso. É esse médico legista, cujo nome desconhecemos, que contará a história, que é a história desse corpo e o que ele revela, e também a história de outras pessoas, do médico inclusive, e suas vidas envoltas em solidão. Intercalando as vozes narrativas do médico durante a autópsia e dos demais personagens que, aos poucos, vão se entrelaçando, Filipa Melo constrói uma história incrível para nos falar de solidão, de violência e também da morte, destino inevitável de todos nós. O silêncio dos personagens, que não sabem expressar seus sentimentos e sofrem e vivem em solidão e em silêncio, é algo fundamental nessa narrativa. Foi mesmo brilhante a ideia da autora de ter um corpo, já sem vida, a contar esse enredo, a desvendar esses silêncios. É o silêncio do pai de Eduarda, que sem saber como lidar com a perda da mulher, por quem nunca expressou o seu amor, que afasta cada vez mais a filha com a sua dificuldade de afeto e contato físico. É Alda, a mulher de Jacinto, o assassino, que sofre em silêncio a opressão de um casamento frustrado e sem amor, onde o diálogo nunca existiu. Jacinto, que a abandona por alguns meses, movido por uma paixão avassaladora por Eduarda, retorna ao lar depois de tudo, e é aceito sem questionamentos. Miguel, colega de trabalho de Eduarda, que há anos nutre seu amor por ela em silêncio, e o sofrimento que sente ao saber que a perdeu, sem nunca ter lhe confessado seu amor. Mais uma vez são os silêncios que falam mais que os personagens. O médico legista, com toda a descrição dos passos da autópsia que faz no corpo de Eduarda, estabelece uma relação quase poética com esses corpos, com os quais lida diariamente, refletindo sobre a vida mais do que sobre a morte, como se com eles pudesse dialogar. 
A força do texto de Filipa impressiona, tanto nas descrições tão precisas da necropsia, quanto na paixão que coloca no trabalho desse médico que, em sua vida pessoal, também sofre de imensa solidão, sem conseguir estabelecer com os outros nenhuma relação. À medida que conhecemos a história de Eduarda, a mulher que foi assassinada poucos dias após dar à luz a um menino em um dos hospitais da cidade, pelo próprio amante e pai da criança, por estar inconformado com o fim do relacionamento, vamos nos envolvendo mais e mais na história. Sim, senhoras e senhores, é desses livros que lemos de uma sentada só. Acho que pode ser considerado um romance policial, porque ficamos grudados no livro até o fim querendo saber a história dessa mulher que perdeu a vida, mas mais importante que o desfecho de uma história policial, onde tudo se resolve e o assassino é preso, aqui o que prevalece é a história de cada uma dessas vidas, seus silêncios e sua solidão.
Gostaria de ver outro livro da Filipa Melo por aí, vamos torcer para que a autora publique mais. Por esse livro de estreia só podemos esperar coisas boas.

MELO, Filipa. Este é o meu corpo. São Paulo: Planeta, 2004.

Filipa Melo nasceu em 1972 na cidade de Silva Porto (atual Cuito), em Angola. Jornalista e escritora, o seu romance "Este é o Meu Corpo" foi acolhido com grande entusiasmo pelos leitores e pela crítica, unânime em considerá-lo uma das revelações literárias da ficção portuguesa no ano de 2001.

sábado, 30 de agosto de 2014

O Chão dos Pardais

O chão dos pardais é um livro sobre o poder e como ele determina as relações humanas. Para Dulce Maria Cardoso, esse chão dos pardais, pássaros rasteiros que podiam buscar o céu, mas que ficam sempre pelo chão ou pelas árvores, é uma metáfora da humanidade. E são esses sentimentos mundanos que são trabalhados por Dulce Maria Cardoso em uma narrativa envolvente na qual as vidas dos personagens se entrelaçam, mostrando-nos que nem sempre é possível se libertar tão facilmente dessas relações de poder.

Afonso é um homem de quase sessenta anos, rico e poderoso, casado com Alice, pai de dois filhos, Clara e Manuel, já adultos. O casamento de Afonso e Alice é um casamento de aparências, pois os dois praticamente não dialogam e fingem simplesmente aceitar a rotina e esse pacto social, como um grande teatro a ser representado diariamente, ainda que todos saibam, inclusive Alice, das muitas amantes mais jovens de Afonso. Em uma das muitas viagens de negócios que ele usa como pretexto para viajar com amantes, na verdade mulheres  bonitas e jovens que se prostituem em troca de presentes caros e hotéis e restaurantes de luxo, conhecemos Sofia, a mais recente "amante" contratada por Afonso. Sofia está noiva de Júlio, um homem bom que a ama verdadeiramente e de quem ela também gosta, mas ninguém sabe muito bem sobre o trabalho de Sofia e o que ela faz (e também ao que se submete)  durante as viagens de negócios. Sofia está noiva de Júlio e sabe que precisa contar a verdade para ele, para que ele saiba quem ela é e para que possa amá-la por completo. Mas Sofia não imagina a tragédia que a verdade desencadeará.

Alice é uma dessas personagens que despertam nossa compaixão, pois está mais preocupada com as aparências do que com o próprio relacionamento com o marido ou com os filhos, dos quais ela pouco sabe. Consegue ser muito cruel com Eugênia, uma mulher que nasceu no mesmo dia que ela, mas que teve um destino bem diferente por ser filha dos empregados da família. Eugênia trabalhou a vida inteira para a família de Alice e já aprendeu a tolerar em silêncio a sua crueldade, sabendo que os filhos de Alice, Clara e Manuel, tem mais amor por Eugênia do que pela própria mãe. Alice tem uma vida solitária e vazia, e no decorrer da história está mais preocupada em organizar uma grande festa de aniversário para comemorar os sessenta anos de Afonso e causar inveja em todos da alta sociedade. Alice decide contratar Gustavo, um professor de história que escreve biografias para que ele escreva a biografia de Afonso como seu presente de aniversário para o marido. Enquanto isso, Elisaveta, que enfrentou a fome e o frio em seu país (um país imaginário do Leste), do qual conseguiu fugir (e para isso teve que passar por um grande sofrimento) começa a trabalhar na casa de Alice auxiliando Eugênia nas tarefas domésticas. Apesar de quase não falar a nova língua, Elisaveta se esforça ao máximo para agradar e fazer tudo certo, pois finalmente tem um lugar quente para dormir e algo para comer todos os dias, o paraíso para quem, como ela, já sofreu muito. Alice sempre tentou negar ou fingir não saber que Clara é lésbica, mas Clara encontrou o apoio materno de que precisava na figura de Eugênia. Quando Clara conhece Elisaveta, ela se apaixona perdidamente pela nova empregada  e passa a frequentar muito mais a casa da mãe para poder conversar, dentro das limitações do idioma, e conhecer um pouco mais Elisaveta, que acaba por também se questionar pelo que sente por Clara, algo novo que ela nunca tinha imaginado poder sentir. É muito delicada a forma com que a Dulce Maria Cardoso descreve a descoberta e a aceitação do sentimento entre as personagens.

Já Manuel, o filho médico de Alice e Afonso, está sendo processado por negligência e, por conta das influências e do poder financeiro do pai, há grandes chances de ser inocentado. Manuel tem um relacionamento online com Lily, uma mulher divorciada, mãe de um filho, que mora do outro lado do mundo. Os dois mantêm uma comunicação intensa pela internet e julgam estarem apaixonados, até o dia em que se conhecem pessoalmente e percebem que as expectativas e o que imaginaram são muito diferentes da realidade. Com esse casal, a autora nos permite refletir sobre a fragilidade dos relacionamentos modernos, nesse mundo líquido e virtual, porém também efêmero.

O chão dos pardais é um livro intenso, por vezes doído, com personagens que nos fazem refletir sobre pequenos eventos cotidianos, pequenos, porém cheios de importância e significado, e que poderiam passar despercebidos não fosse o olhar atento de Dulce Maria Cardoso que, com uma escrita encantatória, fala dos silêncios e segredos que entrelaçam as vidas, e também do poder das histórias (e de acreditarmos nelas).

Cardoso, Dulce Maria. O chão dos pardais.  Porto: Edições Asa, 2009. 


Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964, na mesma cama onde haviam nascido a mãe e a avó. Tem pena de não se lembrar da viagem no Vera Cruz para Angola. Da infância guarda a sombra generosa de uma mangueira que existia no quintal, o mar e o espaço que lhe moldou a alma. Regressou a Portugal na ponte aérea de 1975.  Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu argumentos para cinema, gastou tempo em inutilidades. Também escreveu contos. Tem fé, uma família, um punhado de amigos, o Blui e o Clude. Continua a escrever e a prezar inutilidades. Vive em Lisboa.
Publicou em 2001 o seu romance de estreia, Campo de Sangue, Grande Prêmio Acontece, escrito na sequência de uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura. Desde então publicou os romances Os Meus Sentimentos (2005), prêmio da União Europeia para a Literatura, O Chão dos Pardais (2009), prêmio Pen Club, e O Retorno (2011). É autora de duas antologias de contos: Até Nós (2008) e Tudo São Histórias de Amor (2014). Os seus primeiros dois livros infantis, na coleção A Bíblia de Lôá, foram publicados em 2014. Em 2012, foi condecorada com as insígnias de Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras da França. A sua obra está publicada em quinze países e é estudada em diversas universidades. Alguns dos seus contos e romances foram adaptados ou encontram-se em fase de adaptação para cinema e teatro. (Dados biográficos extraídos do site da Wook).
Entrevista da autora sobre o livro O Chão dos Pardais: Aqui

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Um homem: Klaus Klump

"Um homem: Klaus Klump" é o primeiro livro da tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares. É certamente um livro sobre muitas coisas, mas a narrativa perturbadora deste romance fala sobre a vida em tempo de guerra e de paz, uma alegoria da condição humana e das relações de domínio e submissão que os homens desenvolvem para sobreviver.
O enredo conta a história de um homem, Klaus Klump, que edita livros perversos. Ele não demonstra muito apreço por sua pátria ou pelas pessoas que o cercam, mas seria capaz de morrer pelos seus livros. Klaus é casado com Johana, uma mulher bonita que ama Klaus, apesar de não o compreender. A mãe de Johana é doente, enlouqueceu. É Johana quem cuida dela, todos os dias. Enquanto Klaus procura não se envolver com os problemas da pátria, porque "Não ver nada é ficar oculto", a cidade onde moram é ocupada por militares. Johana e muitas outras mulheres são violentadas pelos soldados, como sempre, as primeiras vítimas de uma guerra que transforma os homens em seres primitivos. Klaus é preso e passa anos na prisão longe da mulher. E a partir daí o que vemos é uma luta de forças, dos fortes e dos fracos que se tornam fortes, tentando a todo custo sobreviver.
O que mais chamou minha atenção neste romance foi a forma como as mulheres são retratadas na história, objetificadas, submissas, sem ter sua própria voz. A única exceção é Herthe, a jovem bonita que mantém um bom relacionamento com os soldados durante a guerra sendo amante de muitos dos líderes e que dessa forma consegue sobreviver e proteger sua família, mesmo que para isso tenha denunciado várias pessoas para os inimigos. Com isso, Herthe, a única mulher descrita como sendo forte, é também descrita como a mais vil. A violência contra as mulheres é gritante e choca o leitor até o final. Não é à toa que essa tetralogia é também chamada "os livros do mal". Mas o que Gonçalo Tavares consegue com brilhantismo nesta narrativa perturbadora é nos fazer refletir sobre o ser humano em sua essência, destacando os sentimentos mais obscuros que carregam dentro de si,  e sobre o que ele é capaz de fazer (ou de tolerar) para sobreviver. 
Um livro mais do que recomendado, mas aviso aos corações sensíveis: contém cenas fortes.

"Os tanques passam nas ruas. As ruas têm o nome dos nossos heróis. Eles não conhecem a língua: não sabem dizer o nome. Tropeçam na pronúncia, não conseguem acentuar as sílabas. E os tanques não têm tempo para aprender línguas.
Klaus deixou o seu ofício, mas apenas hoje. Trabalha numa tipografia, mais: é editor, quer fazer livros que perturbem os tanques em definitivo.
Isso não é um livro, é uma pequena bomba.
Queres perturbar tanques com prosa?"
(TAVARES, 2007, p.10-11)

TAVARES, Gonçalo. Um homem: Klaus Klump. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 115 páginas.


Gonçalo Tavares nasceu em Luanda, em 1970, tendo ido logo a seguir para Portugal. É escritor e professor universitário português. Premiado e elogiado pela crítica, estreou em 2001 com Livro da dança, e vem se firmando como uma das maiores vozes do romance português contemporâneo. De sua autoria, já foram publicados no Brasil O homem ou é tonto ou é mulher, 1, O senhor Valéry, A máquina de Joseph Walser, Aprender a rezar na era da técnica e Jerusalém (prêmio José Saramago 2005), Uma viagem à Índia, entre outros.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Inês Pedrosa

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"Os livros contraem-se assim irremediavelmente, tragicamente. Não importa por onde comece a contaminação; há um cheiro, um restolhar de papel, e depois a gulodice alastra. Começa-se a ler muito antes de se saber localizar literaturas, nomes, géneros, e há nesse estrebuchar inicial qualquer coisa de sublime que definitivamente se perde quando crescemos e aprendemos a seleccionar o bom e o mau. Lembro-me de vaguear inebriada pelas pratelerias das livrarias, folheando as prateleiras de baixo à procura do livro que eu queria e não sabia qual era, revoltada com a ideia de que talvez o tal livro estivesse nas prateleiras de cima. Lembro-me dos dias em que um título, uma frase, me faziam trazer para casa ratoeiras onde os dedos se entalavam e os olhos esmoreciam.
Lembro-me de contar os dias que faltavam para a próxima mesada, jurando a mim mesma que desta vez não me precipitaria. Lembro-me, sobretudo, daquela rapariga de dezoito anos que nunca mais  voltei a ver".

Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, pág. 102-103.
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sábado, 26 de julho de 2014

Os livros que devoraram meu pai

Ah, os livros que falam do amor aos livros! Será que é possível lê-los sem se apaixonar? A resposta é não se ele for escrito com a ternura que encontramos nas palavras de Afonso Cruz. Os livros que devoraram meu pai é um livro infanto-juvenil, mas os adultos que se permitem a liberdade de ler o que o coração sente vontade de ler e mergulharem nessas páginas, certamente terão que disfarçar um pouco no final da leitura por conta dos olhos marejados. É um livro doce que fala com encantamento sobre a leitura e as infinitas viagens que os livros nos proporcionam. É um livro excelente para ensinar aos pequenos (e também aos não tão pequenos assim) que a paixão pela leitura pode ser aprendida em casa, com os pais, com os avós, com quem gosta de ler. E esta é provavelmente a melhor herança que podemos deixar.

O enredo conta a história de Elias Bonfim, um menino que perdeu o pai muito cedo e, segundo lhe contaram, vítima de um enfarte. Vivaldo Bonfim, pai de Elias, era um homem apaixonado por livros, que gostava muito de ler. Vivaldo trabalhava em uma repartição pública  e fazia todo o possível para aproveitar cada minuto do dia e ler, mesmo que para isso deixasse o trabalho um pouco de lado. Vivaldo tinha no sótão da sua casa uma biblioteca com muitos livros. Desde sua morte que o sótão ficou fechado, à espera do dia em que Elias estivesse preparado para se aventurar pelas muitas páginas de viagens e de sonho, e também de aproximação com o pai, que o esperavam. A avó de Elias lhe dá a chave do sótão quando sente que chegou o momento e Elias se encanta pela leitura, mas começa a desconfiar que seu pai não morreu como haviam lhe dito, e sim que ele havia desaparecido em um daqueles livros. Elias começa então a ler um livro atrás do outro, na tentativa de reencontrar seu pai. E a cada livro que Elias tira da estante para dar mais um passo em busca de encontrá-lo, mais a gente fica com vontade de ler os livros que o Afonso Cruz sabiamente colocou ali na história, despertando o nosso desejo de ler. Porque um bom livro sempre nos leva a muitos outros. São grandes clássicos da literatura universal que nos levam a outro e a mais outro, com a mesma simplicidade com que nós, leitores, geralmente falamos dos livros de que gostamos para um amigo, tornando-os acessíveis. E assim despertando nele o desejo de ler.
Estou certa de que muitos vão se reconhecer nessa história, independente da idade. "Porque um homem é feito de histórias". E que bom que são de histórias bonitas assim.

Afonso Cruz. Os livros que devoraram meu pai: a estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim. São Paulo: Leya, 2011. 112 páginas.

domingo, 20 de julho de 2014

Para onde vão os guarda-chuvas

Desde A solidão dos números primos que eu não encontro um livro com um título tão lindo. Já comentei aqui sobre o talento de Afonso Cruz para dar título aos livros quando falei de outro livro do autor que acaba de ser lançado pela Alfaguara no Brasil: Jesus Cristo bebia cerveja. Comecei a ler as 620 páginas de Para onde vão os guarda-chuvas guiada pela curiosidade que o título despertou em mim, e me mantive presa ao livro até a última página.
O enredo conta a história de um homem, Fazal Elahi, que era muito bom e que gostaria de ser invisível e passar pela vida e pelas pessoas sem ser visto. Ele se casa com uma mulher que era o seu oposto, Bibi, uma muçulmana que gostava de andar pelas ruas com os cabelos soltos e de música estadunidense. Os dois tem um filho, Salim, pelo qual Fazal Elahi é apaixonado. Seu filho, contudo, é muito diferente de Fazal e em muitos momentos demonstra desde cedo certa dose de crueldade.

“Fazal Elahi olhava para o filho, maravilhado: nunca tinha visto nada tão grande aparentar ser tão pequenino”. (pág. 56)

O amor de um pai por um filho é retratado com muita ternura na escrita de Afonso Cruz, assim como nas imagens e ilustrações, também do autor, que intercalam e complementam o texto fazendo com que o livro em si seja um objeto de arte. Essa edição é tão linda e feita com tanto cuidado, que durante a leitura eu só imaginava duas possibilidades: ser publicada também pela Alfaguara no Brasil sem mudar absolutamente nada ou ver o que a Cosac Naify faria para deixar ainda mais linda uma edição diferente desse livro. A triste notícia é que ainda não há previsão de publicação de Para onde vão os guarda-chuvas aqui no Brasil (o que me faz seguir perguntando: o que essas editoras estão esperando para publicar mais livros do Afonso Cruz?)

Ainda sobre o enredo, Bibi, tempos depois, abandona seu filho e seu marido aos cuidados de sua cunhada, Aminah, e foge com seu amante em busca de liberdade. A tristeza de Fazal só aumenta quando, em um trágico incidente, seu filho Salim é morto por soldados norte-americanos. Diante de tão profunda dor, Fazal busca encontrar algum consolo, algo que atenuasse de alguma forma a dor que sentia por perder seu filho. Entre os muitos conselhos que recebe está o de adotar uma criança americana. Em entrevista, o Afonso Cruz afirmou que usou como inspiração para o livro uma história que ouviu sobre Gandhi, na qual um homem hindu procura o sábio em busca de orientação, pois não sabe o que fazer para continuar vivendo depois que seu filho foi morto por um muçulmano. A orientação que o homem recebe de Gandhi é a de adotar uma criança muçulmana pois para ele o único consolo possível é verdadeiramente perdoar através do amor.

No romance, Fazal Elahi encontra um órfão americano, Isa, com uma história já cheia de muitas tristezas, e que vivendo nas ruas aprendeu ou acostumou-se a ser invisível aos olhos de todos. Isa, o menino adotado por Fazal, é uma criança sensível e sozinha, que mais do que tudo quer ser amada. É esse desejo de Isa que dilacera nosso coração quando terminamos de ler essa história. Torcemos por ele até o fim, carentes que estamos de finais felizes.
São muitos os assuntos abordados nesse livro, como o trabalho infantil, a violência contra a mulher, como as nossas crenças nem sempre nos permitem ver as coisas como elas realmente são. A violência está muito presente nessa história. Este é um livro que fala basicamente sobre a perda e nossa capacidade de reencontrar na vida e nos outros as pessoas e as coisas que perdemos. É um livro que nos mostra que a vida é feita de bons e de maus momentos, como um tabuleiro de xadrez. E nesse tabuleiro, as relações entre as personagens, e as muitos outras personagens que não citei aqui, são tecidas como uma rica tapeçaria em cujos fios o leitor fica envolvido até o último momento.

Muitos leitores reclamaram do final do livro em alguns comentários que li na internet. Mas acho que nenhum outro final seria possível nesse livro, que é nada menos que brilhante. E como todo grande livro, tem o dever de nos fazer pensar, de nos fazer sofrer, de nos incomodar para depois, com sorte, nos transformar em algo melhor.

Achei bonito chegar ao final dessa história e encontrar no livro este recado do autor (imagem ao lado), pois assim como ele acredito que não apenas a escrita, mas a leitura, pode sempre nos ajudar a atenuar as dificuldades da vida, a diminuir a nossa dor. 

"A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem, pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
- E já sabe? - perguntou Fazal Elahi.
- Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta".

Cruz, Afonso. Para onde vão os guarda-chuvas. Lisboa: Alfaguara, 2013. 620 páginas.

Além de escrever, Afonso Cruz é ilustrador, realizador de filmes de animação e compõe para a banda de blues/roots The Soaked Lamb (onde canta, toca guitarra, harmónica e banjo). Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e haveria, anos mais tarde, de viajar por mais de sessenta países. Vive com a sua família num monte alentejano onde, além de manter uma horta e um pequeno olival, fabrica a cerveja que bebe. Em 2008, publicou o seu primeiro romance,A Carne de Deus – Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites e, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco – APE/Câmara Municipal de Famalicão. Escreveu, ainda, Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A Contradição Humana (Prémio Autores 2011 SPA/RTP; seleção White Ravens 2011; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011) e A Boneca de Kokoschka.

domingo, 8 de junho de 2014

Poesia domingueira

Der Spaziergang, by Marc Chagall

Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira

sábado, 7 de junho de 2014

No Silêncio de Deus


 Sara é uma jornalista de 30 anos, de uma família judia, mas ela não tem formação religiosa. O silêncio, para ela, é uma forma de confrontar-se consigo mesma, com sua solidão, com a frustração de não ser feliz com a própria vida. Por isso, Sara foge desse silêncio, que pesa sobre seus ombros, junto com a saudade que sente da mãe.
Manuel Guerra é um escritor de sucesso, bastante premiado, que precisa do silêncio para escrever. Durante sua vida, sempre se escondeu dos sentimentos e experiências verdadeiras com as quais não sabia lidar atrás de sua escrita, e da solidão que lhe era sempre tão necessária ao seu ofício. Foi um marido e um pai ausente, que agora sofre com as lembranças de sua esposa, que faleceu de câncer, e do seu filho, que se afastou por completo do pai quando a mãe fica doente, culpando-o por isso.

Dois personagens unidos e separados pelo silêncio, que se encontram para uma entrevista em um restaurante durante o almoço, e cujo encontro afetará bastante a vida dos dois, como se houvessem se reconhecido em sua solidão e na tristeza que tentam, a todo custo, ocultar.

Depois da entrevista, Sara decide ir a Israel com o pretexto de resolver um negócio de família, mas o que ela busca mesmo são suas raízes, sua origem, para quem sabe finalmente se encontrar. É chegado o momento de enfrentar o silêncio. Percorremos as ruas de Israel através da narrativa de Patrícia Reis, que nos conduz pelo passado e pelas tradições com a delicadeza de quem sabe pisar em território sagrado e cheio de emoções.

Manuel Guerra, logo depois da entrevista descobre que está com câncer e tem pouco tempo de vida, decide então ir para Amsterdam, sem data marcada para o regresso. Lá, aluga um apartamento em uma rua de prostituição, tem uma faxineira do Senegal e, certo de que já não há o que escrever, passa os dias em um café da rua, observando o acontecimento do lugar. É lá que conhece um garçom e uma prostituta, Martina, de quem se torna amigo. É com Martina que, pela primeira vez, Manuel consegue falar sobre o que sente, sobre a sua vida, sobre a dor de ter perdido a esposa, sobre a tristeza de estar longe do filho, sobre a proximidade da morte. São esses novos amigos, no lugar menos provável, que ensinarão a Manuel sobre a bondade, essa nova forma de ver a vida. 

Para os dois personagens, a viagem aparece como essa possibilidade de autoconhecimento e aprendizado, como se só em movimento, longe de nossa zona de conforto, pudéssemos chegar ao melhor de nós. No caso do escritor, outro aspecto interessante é essa possibilidade de renascer em outro idioma, pois em Amsterdã ele passa a se comunicar em inglês e isso acaba por ser uma forma de ser outro, talvez alguém melhor.

Esta é certamente uma história de redenção, que nos faz pensar sobre a vida, na bondade que podemos encontrar onde menos esperamos, no tempo que faz planos diferentes dos nossos e, às vezes, passa rápido demais. Há um tom melancólico que nos aproxima dos personagens, bem construídos através de diálogos simples, mas cheios de profundidade. Um texto que emociona.

Patrícia Reis é jornalista, escritora e editora da Revista Egoísta em Portugal. Já publicou diversos livros, entre eles Morder-te o coração (Língua Geral, 2007 ), Amor em segunda mão (Língua Geral, 2006), Contracorpo (Dom Quixote) Antes de ser feliz (Dom Quixote, 2009) e Por este mundo acima (Leya, 2012). 

REIS, Patrícia. No Silêncio de Deus. Lisboa: Dom Quixote, 2008.

E para quem se interessou pelo livro e quiser ouvir a própria autora falando um pouco sobre ele, clique aqui.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Entrevista com Valter Hugo Mãe

No Programa Roda Viva da TV Cultura, exibido em 06/01/2014.




quarta-feira, 5 de março de 2014

Jesus Cristo bebia cerveja

A expectativa em relação a este livro não podia ser maior. Foram muitos os comentários que ouvi sobre o escritor nos últimos meses e estava ansiosa para lê-lo, ainda mais depois de ler a enfática recomendação do Valter Hugo Mãe, um dos meus escritores preferidos, sobre o Afonso Cruz. Minha irmã trouxe este livro de presente para mim lá de Portugal, porque, infelizmente, muitos dos livros do Afonso Cruz ainda não foram publicados no Brasil (e eu não sei o que as editoras estão esperando, com tanta gente ansiosa para ler este escritor). Ontem finalmente aproveitei o feriado carnavalesco para conhecer sua escrita.
A primeira coisa que chama a atenção no Afonso Cruz é certamente os títulos dos livros, que são sempre inusitados e deixam os leitores curiosos e cheios de expectativas. Afonso Cruz definitivamente sabe dar título aos livros. E ficamos ainda mais encantados com ele depois que mergulhamos na leitura e vemos que tudo se encaixa e faz sentido.


A história de Jesus Cristo bebia cerveja se passa em uma pequena aldeia alentejana e conta a vida de Rosa, uma menina que foi abandonada pela mãe ainda criança e cujo pai, desiludido com o abandono da esposa e deprimido por ter perdido a perna em um acidente no trabalho "pegou numa corda e pendurou-se numa figueira. Foi o mais estranho fruto daquela árvore". Sozinha, Rosa passa a morar com a avó, já bem envelhecida e doente, em uma casa pequena na aldeia. Vivem uma vida difícil e sem muitas condições, porque são pobres, e, com a doença da avó, já não tem como cultivar a terra para ganhar algum dinheiro. Rosa é uma menina melancólica e sonhadora, que adora ler histórias de cowboys. A leitura é uma de suas poucas distrações e seu livro favorito é "A morte não ouve o pianista".

"Rosa costuma ler um pouco antes de dormir, até os olhos se apagarem. Lê westerns na maior parte das vezes, lê policiais nas restantes. [...] Para Rosa, o cansaço é o livro mais eficaz, mas quando não consegue dormir um bom western faz o efeito". [pág. 70]

O pastor Ari é o único amigo de Rosa, são amigos desde que eram crianças. Seu sonho sempre foi trabalhar no teatro como ator, e o mais próximo que chegou de realizá-lo foi trabalhar aos sábados na sala de teatro da aldeia como lanterninha durante a projeção de filmes, algo de que muito se orgulha. Com o tempo, eles começam a namorar. Ari se apaixonou completamente por Rosa, mas era um homem simples, do campo, que não sabia muito o que dizer para declarar seu amor, exceto tocá-la. 

"Lembra-te de que quando Deus fecha uma porta abre-nos um livro" - dedicatória do autor para a esposa, contida em um livro de western que o pastor Ari dá de presente a Rosa

Para ganhar dinheiro, Rosa vai trabalhar na casa de um senhor rico da cidade durante a semana e deixa a avó aos cuidados da vizinha. Mas, com o passar do tempo, se sentindo infeliz nesse ambiente, e vendo que a avó não está sendo bem cuidada, deixa o trabalho e volta a morar em casa com a avó, Antónia, que está cada dia mais doente, já não enxerga nem escuta direito, e tem lapsos de memória. A avó sempre teve o sonho de conhecer a Terra Santa, Jerusalém, e Rosa se entristece por saber que Antónia nunca será capaz de realizar esse sonho. Até o dia em que conhece o Professor Borja, um homem das ciências, que "pena a solidão da razão - o último lugar deserto da Terra" [pág. 27]. O professor, um senhor de setenta e sete anos, teve um casamento sem amor, mas que lhe deu uma filha, a quem muito amava. No entanto, sua filha morre aos cinco anos em um acidente doméstico e a esposa, sofrendo com a perda, escolhe ter o mesmo fim e se suicida. O professor Borja sente um grande vazio e, assim como Rosa e outros personagens dessa história, sofre de uma grande solidão.

"De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficamos condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é morte. O momento final é apenas isso, um momento". [pág 89]

Quando conhece Rosa e sua avó, o professor Borja se apaixona perdidamente por Rosa, apesar desta ser muito mais jovem. E ao ver a tristeza de Rosa por não poder realizar o sonho da avó, o professor sugere que transformem a Aldeia em Jerusalém, numa espécie de teatro, apenas para realizar esse sonho de Antónia. Vários outros personagens contribuirão para essa encenação, alguns tocados pelo gesto da neta de tentar dar alguma alegria para a avó doente, outros tentando desmascarar a farsa de Rosa e do Professor. Farsa esta que inclui uma encenação da última ceia, mas nela, segundo o professor e suas teorias, Jesus Cristo bebia cerveja.

"Borja está entusiasmado e nem sente a mentira. Na verdade, acha que todas as geografias se sobrepõem. O sagrado está em todo o lado. Não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo valor que lhe damos. Se uma aldeia do Alentejo pode ser Jerusalém, é porque é Jerusalém". [pág. 206]

Esta é uma história sobre o amor, sobre a solidão, sobre a capacidade de transformação do ser humano. Os personagens são bem construídos e tudo se encaixa nessa narrativa elaborada por um poeta-artesão, que está atento a cada detalhe na construção dessa história que é, em si mesma, um objeto a ser contemplado. Os capítulos são curtos, e fluem muito bem durante a leitura, que tem um tom por vezes melancólico, por vezes irônico. Há uma certa dose de humor que diverte, mas não sem deixar de nos emocionar. Foi uma surpresa encontrar no fundo do livro, como um daqueles encartes de publicidade que contém o primeiro capítulo, o livro que tantas vezes Rosa menciona na história: "A morte não ouve o pianista", também de autoria de Afonso Cruz. Foi muito interessante, original e criativa essa abordagem, e diria até homenagem ao poder de contar histórias, a possibilidade de conhecer a história dentro da história que acabamos de ler. Afonso Cruz é, sem sombra de dúvidas, um autor original que vale a pena conhecer e de quem eu pretendo ler outros livros.

"Rosa recorda os tempos em que ouvia muitas histórias, contadas pelo avô, pelo pai, pela avó. Sempre com a lareira acesa, pois uma lareira queima duas coisas: lenha e histórias". [pág.72]

Afonso Cruz. Jesus Cristo bebia cerveja. Portugal: Editora Objectiva, 2012. 248 páginas.

Afonso Cruz nasceu em 1971, em Figueira da Foz, Portugal, e estudou nas Belas Artes de Lisboa, no Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e na António Arroio. É escritor, músico, cineasta e ilustrador. Escreveu oito livros: A Carne de Deus (Bertrand), Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal - Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010), Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho - Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A Contradição Humana (Caminho - Prémio Autores 2011 SPA/RTP), A Boneca de Kokoschka (Quetzal - Prémio da União Europeia para a Literatura), O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Caminho), Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria (Alfaguara) e Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara - Prémio Time Out 2012 - Melhor Livro do Ano). Ilustrou, desde 2007, cerca de trinta livros para crianças, trabalhando com autores como José Jorge Letria, António Torrado, Alice Vieira. Também tem publicado ilustrações em revistas, capas de livros e publicidade. (Informações retiradas do blog do Afonso Cruz)