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domingo, 8 de janeiro de 2017

Aqui estão os sonhadores



Em uma época em que a questão dos imigrantes está tão presente nas discussões políticas em todo o mundo, principalmente nos EUA (e nem sempre pela perspectiva mais positiva do acolhimento), um livro escrito por uma imigrante camaronesa que retrata com sensibilidade a situação dos imigrantes nos EUA e as dificuldades que enfrentam em busca de permanência parece ser mais do que necessário.

É por ter como protagonistas um casal de imigrantes camaroneses que sonha em conquistar o green card e permanecer nos Estados Unidos que o romance de Imbolo Mbue chama a atenção. Apesar de saberem dos problemas existentes nos Estados Unidos pelos muitos filmes que viram ainda em seu país - e nesse ponto fica claro o papel do cinema e da mídia na manutenção desse "sonho americano" -para o casal Jonga, os Estados Unidos  significavam felicidade. O casal estava disposto a trabalhar duro para conseguir permanecer na América e dar um futuro melhor para os filhos. As dificuldades, no entanto, são muitas: a dificuldade de oportunidades, com o idioma, o preconceito, mas principalmente financeiras, o que se agravou ainda mais por conta da recessão.

O choque entre as culturas se faz presente desde as primeiras páginas quando Jende precisa elaborar um currículo que impressione e se vestir de acordo com o esperado no país para conseguir um emprego. Depois de algum tempo vivendo em condições precárias e trabalhando em diversos serviços, ele finalmente consegue juntar dinheiro para que a esposa e o filho possam finalmente se juntar a ele em Nova York.

Mas a vida de Jende muda mesmo quando ele começa a trabalhar como motorista para Clark Edwards, um executivo rico de Wall Street. Acompanhando o dia a dia da família Edwards, ouvindo as conversas que travavam dentro do carro enquanto os levava para os lugares, Jende passa a conhecer não apenas seus segredos, mas também seus problemas e dores. Nesse ponto, as duas famílias, a princípio tão diferentes pelas condições de vida que possuem, se aproximam nas relações familiares e em problemas que podem ser comuns a muitos de nós. A nossa humanidade está além das fronteiras, ou pelo menos, deveria ser sempre assim.

Além de tratar da situação dos imigrantes em busca de asilo, o romance aborda as questões familiares, a relação entre pais e filhos, traição, perdas e lealdade. Ao focar na vida desses trabalhadores imigrantes, a autora consegue tecer importantes críticas à sociedade estadunidense, e principalmente à essa busca desenfreada por mais e mais dinheiro que gera tanta infelicidade nas sociedades capitalistas. Ela demonstra como uma vida de aparências pode ser feita de solidão e como a felicidade pode estar nas pequenas coisas. Isso tudo com um tom leve, uma vez que todos os personagens são retratados sem idealizações, mostrando seus pontos positivos e negativos.

Em Aqui estão os sonhadores, eu diria que não há um herói, mas diversos heróis - homens e mulheres tentando se encontrar na vida, o que nem sempre acontece através do caminho mais curto ou mais fácil. E apesar de ser um retrato bastante fiel de uma sociedade que tem tratado muito mal o outro, há algo de terno nessa história que nos mantém presos ao livro até chegar a última página.

Além disso, chama a atenção a violência contra as mulheres que ocorre em todas as classes sociais e independe de cor, raça, classe ou etnia. Tanto as imigrantes camaronesas que levam surras de seus maridos por serem consideradas por eles como "propriedade", em uma demonstração de como é absurda a naturalização dessa violência, disfarçada muitas vezes de "cultura" -  quanto o sofrimento da esposa de Clark Edwards, que carrega as marcas dessa violência em segredo, revelam as dimensões sociais desse problema, que deveria ser uma preocupação de todos nós.

A maternidade é outro ponto que podemos observar no romance, uma vez que vemos um retrato de mães imperfeitas, que amam seus filhos e são capazes de fazer tudo por eles - mas também há registros de relações que fracassaram por que mães tiveram filhos que não foram desejados ou foram fruto de violência.

Em resumo, talvez o grande mérito dessa autora estreante seja este: construir personagens que aprendemos a amar e a odiar durante a leitura, mostrando que tanto na ficção quanto na vida real, viver é esse eterno aprender. E tudo isso por meio de uma narrativa extremamente envolvente que revela uma grande contadora de histórias, sensível ao que se passa no mundo ao seu redor.


Imbolo Mbue nasceu em Limbe, Camarões. Ela estudou nas Universidades Rutgers e Columbia. Imbolo mora nos Estados Unidos há mais de uma década e vive na cidade de Nova York. Aqui estão os sonhadores é seu primeiro romance.
*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Exames de empatia


"Empatia não é apenas escutar, é fazer as perguntas cujas respostas precisam ser escutadas. Empatia requer investigação tanto quanto imaginação, Empatia significa reconhecer um horizonte de contexto que se estende perpetuamente além do que você pode ver"

"Empatia significa dar-se conta de que não existe trauma com bordas discretas. O trauma sangra. Para fora das feridas e através dos limites. A tristeza se torna uma convulsão. Empatia requer outro tipo de porosidade na resposta."

"Empatia vem do grego empatheia - em (para dentro) e páthos (sentimento) - uma penetração, uma espécie de viagem. Sugere que se entre na dor de outra pessoa, assim como se entraria num outro país, através da imigração e da alfândega, cruzando a fronteira por meio de perguntas: O que cresce na terra em que você vive? Quais são as leis? Que animais pastam lá?"

***

Nos diversos ensaios que compõem o livro Exames de empatia, a estadunidense Leslie Jamison discorre sobre diferentes situações, algumas relacionadas à sua própria vida, outras sobre histórias e relatos que coletou de outras pessoas, mas sempre incluindo a sua perspectiva em cada um deles. Os exames de empatia, primeiro ensaio e que também dá título ao livro, revela a própria experiência da escritora quando trabalhou como ator-médico, representando algumas doenças para avaliar os estudantes de medicina quanto à sua capacidade de expressar empatia pela dor dos pacientes. A partir dessa experiência, Jamison reflete sobre esse tema tão fundamental nos dias de hoje, que é a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e imaginar sua dor. 

Susan Sontag, em Diante da dor dos outros, livro apaixonante para quem se interessa por fotografia - e também por literatura -  já levantava questionamentos até mais elaborados e que certamente serviram de inspiração para Jamison em Exames de Empatia: como falar e representar a dor do outro sem banalizar seu sofrimento? De que forma a arte e a fotografia tem feito isso? Que direito temos de representar essa dor? São perguntas que ressurgiram durante a leitura dos ensaios de Jamison, principalmente no primeiro ensaio sobre sua experiência como ator-médico e as implicações dessa representação da dor e do sentimento do outro.

O tema da dor, tanto física quanto emocional, reaparece em diferentes cenários: quando Jamison relata sua própria experiência como ator médico,  e traça um paralelo com outra vivência pessoal: ao passar por um aborto, e de como se sentiu diante da frieza da médica que, naquele momento, banalizou o que ela eventualmente sentia, sem demonstrar empatia.

A temática ressurge no ensaio A isca do diabo, que relata a visita de Jamison a uma conferência de pacientes com a doença de Morgellons, uma doença estranha e que muitos, inclusive médicos, desacreditaram por muito tempo, mas que atinge milhares de pessoas que sentem estranhas fibras emergindo de dentro da pele, ainda que nenhum exame clínico comprove essa sensação. Diante do sofrimento e da angústia vividas por essas pessoas, não só pelo que sentem e que causa imenso desconforto, mas pelo desamparo de não ser levado a sério em seu sofrimento, Jamison observa que se colocar no lugar do outro não é passar a sentir a sua dor, como a própria autora passou a imaginar durante a conferência, mas é estar verdadeiramente disposto a ouvir com empatia, o que aflige o outro. Fazer com que, de alguma forma, ele ou ela se sinta acolhido, confortado em seu sofrimento.

Para Roman Krznaric, em O poder radical da empatia, livro que também aborda esse tema e no qual ele defende a ideia de que empatia não é apenas um ideal utópico, mas uma forma de transformar nossas vidas e promover mudanças sociais, a empatia é definida como "a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações". Para Krznaric, a literatura, a arte, o cinema têm um importante papel nesse sentido, como instrumento para se desenvolver a capacidade humana de sentir empatia. Assim como Leslie Jamison nos faz refletir ao longo dos seus ensaios, a partir de vivências comuns observadas com olhar atento, fica claro que o tema é mais que relevante e que pode, sim, despertar importantes mudanças no tecido social, desde que isso ocorra primeiro em nós.

JAMISON, Leslie. Exames de empatia. São Paulo: Globo Livros, 2016.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

As memórias do livro


Publicado em 2008, As memórias do livro é o terceiro romance da australiana Geraldine Brooks e ganha nova edição pela Globo Livros em 2016. O livro é um romance histórico que narra a vida de uma conservadora de livros, Hannah Heath, contratada para restaurar e analisar a Hagadá de Sarajevo, um importante livro judaico, com mais de 600 anos e famoso por ser um dos primeiros manuscritos judaicos a conter ilustrações. Em muitos momentos, o livro correu o risco de ser destruído, mas foi salvo por pessoas que acreditam na importância dos livros, independente de etnia, nacionalidade ou religião. Paralelamente à história pessoal de Hannah, que é apaixonada pelo seu trabalho, mas tem grandes conflitos familiares, a autora intercala diferentes momentos, no tempo e no espaço, em que conhecemos um pouco da história imaginada da Hagadá e das pessoas arriscaram suas vidas para protegê-la. 

Geraldine Brooks era correspondente de um jornal estadunidense em Sarajevo e se inspirou na história real de dois muçulmanos, um bibliotecário e um pesquisador, que em diferentes momentos arriscaram suas vidas para salvar a Hagadá da destruição: uma durante um incêndio durante a Guerra da Bósnia, outra durante a Segunda Guerra, quando foi levada para a biblioteca de uma mesquita para evitar que fosse destruída pelos nazistas. Essas duas histórias inspiraram a autora a pesquisar mais sobre a Hagadá, ainda que se tenha poucos registros sobre sua real trajetória, sobre o trabalho de conservadores de livros raros e o importante papel que esse trabalho, quase sempre invisível, têm na manutenção e preservação da história e da cultura, e decidiu ficcionalizar uma possível história para o livro e todas as pessoas que poderiam tê-lo salvado ao longo desses anos.

É um romance que vai agradar principalmente quem gosta de romances históricos, pois é muito rico em detalhes e essa parte sobre o passado da Hagadá foi o que eu pessoalmente mais gostei no livro. É como uma viagem no tempo que nos transporta para períodos tão sombrios da história da humanidade, tudo a partir de vestígios encontrados no livro, mas onde vemos que, mesmo nessa época de grandes tragédias e sofrimento, havia os que lutavam pela justiça e pela liberdade. O livro é dedicado aos bibliotecários e isso já diz muito sobre esse amor pelos livros e o reconhecimento do seu valor que sentimos ao ler esta história.

Geraldine Brooks, vencedora do Prêmio Pulitzer de ficção em 2006 pelo livro O Senhor March, é autora de quatro romances e de dois títulos de não ficção. Nascida e criada na Austrália, ela vive em Martha’s Vineyard, nos Estados Unidos, com o marido, o também escritor Tony Horwitz, e os dois filhos.

*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros.

domingo, 9 de outubro de 2016

Dias de abandono




Sempre que me perguntam para que serve a literatura, a primeira coisa em que penso é que a literatura nos permite vivenciar outras experiências, uma vez que nos coloca no lugar do outro, cria em nós empatia pelo que ele ou ela vivencia ou sofre. É uma possibilidade de sempre acrescentar conhecimentos ou nos fazer questionar nossas verdades, tornando-nos, assim, pessoas melhores. 

Começo falando de empatia, porque esta palavra esteve muito presente durante a minha leitura de Dias de abandono, da Elena Ferrante. Nesse romance, Ferrante retrata a situação de luto vivenciada pela protagonista, Olga, uma mulher que foi abandonada pelo marido e se sente absolutamente perdida com seus dois filhos e a sensação de vazio que a acompanha por algum tempo. 

Se para muitos o tema do abandono pode ser considerado um clichê, na narrativa de Ferrante uma história aparentemente comum se engrandece pela sutileza com que ela se aproxima dessa personagem e de seus sentimentos. O choque de ter sido deixada pelo marido, a quem se dedicou durante toda a sua vida, é o ponto de partida para várias reflexões feitas pela personagem sobre a condição da mulher em um mundo que ainda valoriza o casamento como atestado de sucesso (ou fracasso, no caso da personagem). 

A imagem da infância que assombra a protagonista é a de uma mulher linda, mãe de duas crianças, que um dia é abandonada pelo marido e passa a ser alvo de todos os tipos de comentários pelas demais mulheres do bairro, inclusive sua própria mãe. É dessa imagem de "pobre coitada" que a personagem busca se afastar a todo custo, mas quando é deixada pelo marido, percebe que ela está na mesma situação. Quando se trata da dor que sentimos, acredito que nem tanto por ter perdido um amor, mas pelo status de mulher casada e bem sucedida que se perde, há uma grande semelhança em todas nós. É essa tomada de consciência da personagem, que passa a perceber o quanto se anulou no casamento, o quanto viveu em função do marido e para ele, que parece desencadear esse processo de luto, tão bem descrito por Ferrante em todas as suas etapas. 

Se no início temos vontade de sacudir a personagem e aconselhá-la a se desapegar desse homem que não a respeita enquanto ela vive a etapa da negação, logo em seguida sentimos vontade de consolá-la, pois como diz Leslie Jamison em Exames de empatia: "dor representada também é dor". E são os detalhes de algumas cenas em que podemos ver o quanto a protagonista está em pedaços que nos toca e causa empatia. Não pelo marido que a trocou por uma mulher bem mais jovem, mas por ela, por todos os dias em que ela deixou de ser prioridade em sua própria vida, pelo muito que ela terá que reconstruir. E gostei imenso do fato de que a possibilidade de se reconstruir e recomeçar exista, por ela.

Um livro que exercita a nossa empatia, na medida em que só consegue ser apreciado plenamente se nos distanciamos de tantos pré-julgamentos que às vezes reproduzimos sem pensar, mas que faz todo sentido se nos colocamos no lugar do outro, com empatia por sua dor, por seu sofrimento. Elena Ferrante mais uma vez brilha ao escrever um texto seco, frio, com a mesma qualidade estética dos livros anteriores, e que nos leva por todo o processo de angústia e luto da personagem durante a leitura, como se nós também buscássemos ar para fazer essa travessia. Apesar de ser um romance relativamente curto, é um livro que incomoda, que nos inquieta e que, assim como a personagem parece sentir, provoca o mesmo sentimento de termos, enfim, conseguido atravessar essas linhas. Uma das melhores leituras do ano.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O ódio

O ódio                              

(Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien)
                                                                                    
Vejam como ainda é eficiente,
como se mantém em forma
o ódio no nosso século.
Com que leveza transpõe altos obstáculos.
Como lhe é fácil – saltar, ultrapassar.

Não é como os outros sentimentos
a um tempo mais velhos e mais novos que ele.
Ele próprio gera as causas
que lhe dão vida.
Se adormece, nunca é um sono eterno.
A insônia não lhe tira as forças; aumenta.

Religião, não religião –
contanto que não se ajoelhe para a largada.
Pátria, não pátria –
contanto que se ponha a correr.
A justiça também não se sai mal no começo.
Depois ele já corre sozinho.
O ódio. O ódio.
Seu rosto num esgar
de êxtase amoroso.

Ah, estes outros sentimentos –
fracotes e molengas.
Desde quando a fraternidade
pode contar com a multidão?

Alguma vez a compaixão
chegou primeiro à meta?
Quantos a dúvida arrasta consigo?
Só ele, que sabe o que faz, arrasta.

Capaz, esperto, muito trabalhador.
Será preciso dizer quantas canções compôs?
Quantas páginas da história numerou?
Quantos tapetes humanos estendeu
Em quantas praças, estádios?

Não nos enganemos:
ele sabe criar a beleza.
São esplêndidos seus clarões na noite escura.
Fantásticos os novelos das explosões na aurora rosada.
Difícil negar o phátos das ruínas
e o humor tosco
da coluna que sobressai vigorosamente sobre elas.

É um mestre do contraste
entre o estrondo e o silêncio,
entre o sangue vermelho e a neve branca.
E acima de tudo nunca o enfada
o tema do torturador impecável
sobre a vítima conspurcada.

Pronto para novas tarefas a cada instante.
Se tem que esperar, espera.
Dizem que é cego. Cego?
Tem a vista aguda de um atirador
e afoito olha o futuro

- só ele.

SZYMBORSKA, Wislawa. Um amor feliz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sorteio: A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe



Em parceria com a Biblioteca Azul, em setembro teremos um sorteio mais que especial: um exemplar da nova edição de A Máquina de Fazer Espanhóis autografada pelo Valter Hugo Mãe =]

Para participar do sorteio é só preencher o formulário (clique aqui) com seu nome e email e responder a pergunta desafio. As inscrições podem ser feitas até o dia 04/09/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 05/09/2016, às 10h. 

Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. 

O resultado será informado aqui no blog. Boa sorte! :)


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Butcher's Crossing


"Esses moços", disse McDonald com desdém. 
"Sempre acham que existe alguma coisa mais para descobrir" 


Estados Unidos, 1870. O jovem Will Andrews, estudante de Direito na Universidade de Harvard, decide largar tudo em busca de uma vida mais autêntica. Está em busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é e chega a Butcher's Crossing, uma cidadezinha do Kansas, dessas bem típicas dos filmes de faroeste, com um pouco de dinheiro e uma vontade de ver o mundo que até então ele só conheceu nos livros.

Ao chegar em Butcher's Crossing, ele procura um velho conhecido de seu pai, McDonald, dono de uma charquearia e o maior negociante de peles de búfalos da região. Enquanto caminha até lá, Will passa por grupos de caçadores que saem em busca dos búfalos, cujas peles são vendidas para McDonald, um negócio lucrativo na época. Nessa cidadezinha isolada, pacata, onde o tempo parece ter parado, as pessoas vivem na esperança da chegada da ferrovia, que mudaria para melhor as condições de vida e de trabalho de todos. 


No saloon da cidade, Will conhece Miller, um caçador experiente indicado por McDonald, e seu fiel escudeiro, Charley Hoge. Assim, ele fica sabendo dos sonhos de Miller de conseguir ir em busca da maior manada de búfalos que ele já viu, anos antes, em uma região mais afastada e que aparentemente se mantém intocada. Will vê nessa expedição a aventura que busca e decide partir com Miller, Charley e o rabugento Schneider, o esfolador contratado para tirar as peles dos búfalos, nessa jornada que o aproximará da natureza de forma intensa e transformadora.

Segundo romance do escritor estadunidense John Williams que chega ao público brasileiro pela Rádio Londres, Butcher's Crossing é um livro surpreendente, ao estilo de um bom faroeste americano, mas indo muito além disso. Um enredo aparentemente simples, mas que adquire grande profundidade em determinados momentos, como parece ser a marca de John Williams. Somos completamente envolvidos nessa história, cujas descrições tão ricas nos transportam de uma pequena cidadezinha no Kansas até as montanhas do Colorado. Quase dá para sentir a poeira, o vento, os cheiros.

Juntos, os quatro personagens enfrentam a exaustão física, a fome, a sede, o calor e o frio intenso do inverno. A caçada acaba por se tornar uma experiência existencial para eles, mas principalmente para Andrews, que passa por um processo de amadurecimento diante da vida durante essa jornada que acaba por durar muito mais tempo do que eles imaginavam. Nesse sentido, o romance pode ser lido como um romance de formação. Com seu jeito mais quieto e observador, e o contato com homens tão diferentes quanto Miller, Charley e Schneider por tanto tempo possibilitam um grande aprendizado e equilibram as diferentes perspectivas presentes durante a viagem.

Apesar do enredo simples, o que parece conquistar os leitores é a forma como John Williams consegue narrar a história de modo a nos envolver completamente nesse cenário de intenso contato com a natureza, com descrições ricas e sensoriais, tão perfeito que nos imaginamos mesmo dentro de um filme de faroeste (não é a toa que já existe um filme baseado nesse livro). O deslumbramento de Will diante da natureza - ao mesmo tempo tão assustadora - permite refletir sobre o papel da natureza na vida do homem, sua força, sua capacidade de transformação. Nenhum deles permanece o mesmo depois dessa jornada, ainda que o que movia cada um deles fosse algo diferente. Essa transformação é visível nas personagens, nas quais é possível perceber até mesmo certa animalização diante da experiência de isolamento em meio à natureza.
"Não conseguia imaginar sequer imaginar como seria. Com um leve choque, ele se deu conta de que o mundo, além daquela região cercada por encostas de montanhas por todos os lados, havia se apagado em sua memória. Não conseguia sequer se lembrar da montanha que haviam subido, sem mesmo da vasta planície onde haviam suado e sentido sede, tampouco de Butcher's Crossing, aonde chegara e que deixara apenas uma semana antes. Aquele mundo só lhe voltava aos surtos e de forma confusa, como que escondido num sonho. Havia passado naquele vale o período mais importante de sua vida, e quando olhou de cima - plano, verde-amarelado, as altas muralhas da montanha, amadeirada de pinheiros verdes escuros onde flamejava o ouro rubro dos álamos trêmulos, as rochas ressaltadas e as encostas, tudo toldado pelo azul intenso do céu de ar rarefeito -, parecia-lhe que os próprios contornos do lugar eram fluidos sob seus olhos, que seu próprio olhar modalva o que ele via e que, em troca, lhe dava à própria existência forma e lugar. Não conseguia mais pensar em si mesmo fora de onde se encontrava" (p. 194-195).
Butcher's Crossing é um livro sobre a necessidade de dar sentido à vida e à existência, a necessidade intensa de descobrir o mundo e desbravá-lo, procurando por algo que nem sabemos o que seja, sentimento tão comum na juventude (e às vezes também além dela). É um livro sobre as paixões e as ambições idealizadas, muitas das quais nos movem durante boa parte da vida, até percebermos que o tempo passou, que no final não fazia tanto sentido como imaginávamos. Talvez seja esse elemento existencial o que nos aproxima tanto do livro, mesmo que não tenhamos jamais imaginado gostar de uma narrativa que tratasse de caçadas de búfalos e homens em território selvagem. Mas se pensarmos que essa caçada é a vida, e que a busca desenfreada por trabalho, aventuras e descobertas, e também paixões, seja um sentimento tão comum entre nós, a ser trabalhado com o tempo e o amadurecimento (sábias palavras do velho McDonald), tudo faz mais sentido. E nos deixa com um sentimento, misto de melancolia e nostalgia, quando a jornada das personagens (e a leitura do livro) chega ao fim. Uma das melhores leituras do ano.

"Depois de um instante de euforia diante do anúncio de Miller, Andrews se sentiu tomado por uma tristeza estranha, como um pressentimento de nostalgia. Olhou para a pequena fogueira ardendo alegremente contra a escuridão e, mais além, ele viu a escuridão. Lá estava o vale que ele acabara conhecendo tão bem quanto a palma da própria mão. Ele não conseguia enxergá-lo, mas sabia que estava ali; e lá estavam os cadáveres putrefatos dos búfalos por cujas peles eles haviam trocado seu suor, seu tempo e boa parte de suas energias. Os fardos de peles também estavam por ali no escuro. Pela manhã, eles os carregariam na carroça e iriam embora daquele lugar; e ele teve a sensação de que jamais retornaria ali, embora soubesse que precisaria voltar com os outros para buscar as peles que não conseguissem levar. Sentia vagamente que estava deixando alguma coisa para trás, algo que talvez pudesse ser precioso para ele, se soubesse do que se tratava. Naquela noite, depois que a fogueira apagou, ele se deitou no escuro, sozinho, fora do abrigo, e deixou que o frio atravessasse suas roupas e sua carne. Enfim, adormeceu, mas acordou à noite várias vezes, e forçou a vista diante da escuridão da noite sem estrelas" (p. 254).
***

John Edward Williams (1922-1994) nasceu em Clarksville, no Texas, Estados Unidos. Serviu na aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1954, recebeu o título de doutor em Literatura Inglesa na Universidade do Missouri. Trabalhou como professor assistente de Literatura Inglesa na Universidade de Denver até sua aposentadoria, em 1985. Em Denver, também foi o editor fundador de uma revista literária,The Denver Quarterly. Publicou quatro livros: 
"Nothing but the Night" (1948), "Butcher's Crossing" (1960),  "Stoner" (1965) e Augustus (1972), que ganhou o National Book Award. Também publicou dois livros de poesia: "The Broken Landscape: Poems" (1949) e "The Necessary Lie" (1965).


*Recebi este livro como cortesia da Editora Rádio Londres.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O americano tranquilo



Publicado originalmente em 1955, O americano tranquilo, de Graham Greene, acaba de ganhar uma nova edição pela Biblioteca Azul, com tradução de Cássio de Arantes Leite. O romance, ambientado na Indochina no período de 1946 a 1954, já foi adaptado para o cinema e tem como tema central um triângulo amoroso nesse cenário de conflito.

Dividido em quatro partes, o romance retrata os conflitos morais de Thomas Fowler, um correspondente britânico em Saigon, durante a Guerra da Indochina, e um jovem americano idealista, Alden Pyle, enviado em uma missão secreta para o local. Os dois se conhecem por acaso e desenvolvem uma relação de amizade um tanto desequilibrada e movida em grande parte pela solidão que vivenciam nesse cenário de guerra. O jovem Pyle, idealista e romântico, vê em Thomas um amigo a quem deve lealdade, mas as coisas se complicam quando ele se encanta pela jovem Phuong, a amante vietnamita de Fowler, o que causará uma discórdia velada entre os dois.

O idealismo de Pyle incomoda Thomas, que passa a refletir sobre suas atitudes e posicionamentos a partir da convivência com Pyle, afinal, é através dos outros que passamos a conhecer melhor nós mesmos. 
A disputa entre os dois reverbera a disputa ideológica que passam a ter. Pyle representa um idealismo, por vezes cego, que pode causar destruição, ao passo que Fowler traz um olhar mais cético e crítico à toda violência da guerra. A princípio, ele tenta se isentar de qualquer participação em tudo que vê e deve retratar aos jornais ingleses, até se dar conta de que estar ali já o torna cúmplice de tudo o que vê e critica. Greene de certa forma antecipou nesse romance o papel que os Estados Unidos assumiria na Guerra do Vietnã (1959-1973), após a derrota da França e isso se vê principalmente no papel maior que Pyle começa a desenvolver no local. Os questionamentos morais que Thomas Fowler faz em relação à guerra, retratando como os soldados se sentiam naquele cenário de destruição, proporciona uma reflexão sobre o mal e a forma banal como ele prevalece, e os soldados se questionando sobre as mortes que estão causando e a mando (e em nome) de quem (e de quais ideais) são um contraponto interessante. Essa é sem dúvida a parte mais rica do romance, na crítica que faz ao modo como as ideologias podem corromper as pessoas e destruir as relações que estabelecem. 

Algo que merece ser comentado é a forma objetificada com que a personagem feminina é retratada. A jovem Phuong é um mero objeto de disputa entre os dois homens, destituída de opinião e sentimentos, que não compreende o inglês e fala pouco francês, ou seja, uma personagem que praticamente não tem voz. A preocupação da irmã de Phuong é casá-la com um estrangeiro que tenha dinheiro e que possa lhe dar alguma condição de vida. Thomas Fowler, que trata Phuong como alguém subserviente e sempre disposto a fazer e dizer o que ele quer, de repente se vê amaçado por esse jovem idealista que quer se casar com Phuong, mostrando que tem dinheiro e que pode assegurar o seu futuro. Apesar de demonstrar uma preocupação em relação ao possível destino de Phuong na prostituição se ali permanecer sozinha, a oferta de casamento de Pyle é mais um acordo do que uma relação movida por amor. Em determinado momento Fowler diz a Phuong: "Não tenho dinheiro algum guardado. Não posso cobrir o lance de Pyle". É quase um leilão.

"Beije-me, Phuong." Ela não fazia charme. Fez imediatamente o que pedi e continuou a contar o filme. Do mesmo modo, teria feito amor comigo na mesma hora se eu houvesse lhe pedido, tirando a calça sem perguntar nada, para, depois, retomar o fio da história de madame Bompierre e as desventuras do chefe do correio" (Greene, pág. 141)
"Observei-a atentamente conforme ela perguntava como eu estava e tocava a tala em minha perna, oferecendo o ombro para que me apoiasse, como se alguém pudesse se apoiar com segurança em uma planta tão jovem. Eu disse: "Estou feliz de estar em casa".
Ela disse que sentira minha falta, o que, é claro, era o que eu queria escutar: sempre me dizia o que eu queria escutar, como um cule respondendo perguntas, exceto por acidente. Agora eu esperava o acidente." (Greene, pág. 139-140)


Mesmo movido por um aparente sentimento de nobreza, que o próprio Thomas reconhece como sendo muito maior que ele próprio, Pyle é capaz de organizar um dos ataques ao centro da cidade, causando a morte de diversas mulheres e crianças. Ao mesmo tempo, assim que se encanta por Phuong, busca contar a verdade ao amigo para apaziguar-se de qualquer sentimento de traição. Procura manter-se firme em seus ideais, chegando até mesmo a salvar Thomas da morte durante uma explosão, o que gera em Thomas um conflito moral ainda maior, uma vez que mesmo assim ele não consegue deixar de se irritar com Pyle por querer tirar dele a garantia de não enfrentar uma velhice sozinho que Phuong representa.

É interessante a forma como Graham Greene narra essa história de modo a prender o leitor interessado em descobrir como tudo vai acabar, em um clima de suspense com ares de investigação policial. Mas é importante ter em mente que temos aqui a perspectiva social do homem branco e heterossexual, o que explica em grande parte a superficialidade das personagens femininas e o sexismo que ainda permeia muitas narrativas de guerra.

GREENE, Graham. O americano tranquilo. Trad. Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

***
O inglês Graham Greene teve uma formação ortodoxa em colégios no interior da Inglaterra, sempre se arriscando na vida literária – em poemas, artigos e contos. Como jornalista, viajou para vários lugares distantes de seu país – separados tanto pela geografia quanto pela cultura. Com passagens por países do oriente e da África, entre os anos 1950 e 1960, introduziu em seus romances um forte teor político. Recebeu inúmeros prêmios e hoje é considerado um dos autores mais importantes do romance moderno inglês.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

sábado, 25 de junho de 2016

Havia


Havia um livro que merecia encontrar mais leitores, de tão gostoso de ler que é. Havia uma leitora que queria fazer uma resenha, mas desistiu pelo adiantado da hora e pelo muito que ainda há para ler por hoje. Mas em cada um desses contos tão diferentes criados por Joana Bértholo, todos começando com a palavra "Havia" que tá título ao livro, a autora nos mostra as infinitas possibilidades da literatura de uma forma leve e divertida. Recomendo a leitura e deixo aqui o conto que mais gostei no livro, para aguçar o desejo de ler de vocês.

"Havia uma rapariga que todas as manhãs saía para tomar um café com um poema. Tinha-o visto num filme de cinema. Era menina e havia apenas uma sala de cinema na região. Nesse filme, uma mulher lindíssima que acordava perfeitamente penteada e maquilhada sentava-se numa esplanada, numa praça cheia de pombos que não sujavam o chão. Ficava simplesmente ali, lindíssima, a observar as pessoas que passavam e passeavam. Sobre elas escrevia doces e cândidos poemas. Todas as manhãs, justamente ao terminar o seu poema mais inspirado, aparecia um homem alto e bem-parecido. Tinha ar de galã e bebia galão.Foi a partir deste filme que a rapariga ganhou o hábito de ir para a esplanada do fundo da rua, que não tinha arcadas monumentais, mas tinha pombos. Estes, ao contrário dos outros, sujavam tudo e tornavam a rua praticamente intransitável. Pelo que as pessoas evitavam passar por ali. Mesmo assim, a rapariga que todas as manhãs saía para tomar café, e aguardava o seu galã. Para sua enorme estranheza, nunca um galã se sentou à sua mesa para tomar um galão. Ou lhe elogiar a métrica. Muitos anos assim se passaram. Muitos poemas assim se escreveram.Ao contrário do que se possa julgar, nunca desta espera se gerou um espírito desiludido ou amargo. A rapariga que todas as manhãs saía para tomar café com um poema nunca deixou que a escuridão do cinema turvasse a (sua) realidade. Todas as manhãs a rapariga saía para tomar café com um poema, todas as manhãs com a mesma fé e o mesmo ânimo.Para ela, havia suficiente beleza cinematográfica simplesmente naquele ritual, na teimosia dos pombos contra a brancura do mármore, no modo improvável e simpático como a cadeira de ferro se tinha ajustado às suas formas redondas, na atenção turística que os poucos transeuntes – e sempre os mesmos – lhe entregavam num sorriso, ao vê-la sempre ali, estátua e marco daquela rua. Mais embelezadora que qualquer arcada.
Muitos anos assim se passaram. Muitos poemas assim se escreveram.”


Joana Bértholo. Havia. Lisboa: Editorial Caminho, 2012.

Joana Bértholo nasceu em Lisboa em 1982. Frequentou o Curso Geral de Artes na Escola Secundária António Arroio, e depois a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, onde se licenciou em Design de Comunicação. É doutora em Estudos culturais pela European University Viadrina Frankfurt (Oder), na Alemanha. Publicou os livros Diálogos Para o Fim do Mundo (2009)- Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho (2009); Havia - histórias de coisas que havia e de outras que vai havendo (2012); O Lago Avesso - uma hipótese biográfica (2013); e Inventário do Pó (2015).

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A definição do amor



Se o o título do livro pode parecer pretensioso à primeira vista, logo somos levados pela prosa cheia de lirismo de Jorge Reis-Sá a pensar diferente. Não porque o livro nos dê qualquer tipo de resposta, ou tente definir o amor, mas por levantar tantas perguntas e reflexões sobre as muitas ideias de amor apresentadas, tanto na trama central quanto nas histórias que a intercalam e são intituladas de "vésperas" pelo autor.

No centro da trama temos a história de Susana, uma mulher de quarenta e pouco anos que tem um AVC durante um dia de trabalho e é levada para o hospital onde, após o diagnóstico de morte cerebral, também se sabe que ela está grávida de poucos meses. Mantida sob cuidados apenas para que termine de gestar o bebê, é um daqueles casos difíceis da medicina, mas nada impossível: basta vermos a notícia recente de caso semelhante em que uma mulher com morte cerebral consegue concluir a gestação sob cuidados médicos, dando à luz um bebê em Portugal.

Quem narra os acontecimentos é Francisco, marido de Susana, que passa a escrever como forma de sobreviver à espera e ao difícil processo de luto que vivencia, ao mesmo tempo em que tenta aceitar que a nova vida que surge (de sua filha Matilde) levará embora a vida que pouco a pouco se esvai de sua adorada esposa. O texto é uma espécie de diário de luto, no qual sentimos o sofrimento de quem perde alguém que se ama e se vê lutando para continuar vivendo pelos filhos. 

Entre lembranças dos momentos felizes de seu casamento, e relatos do dia a dia no hospital ao lado da esposa ausente, Francisco se vê incapaz de qualquer demonstração de alegria e esperança até mesmo com o filho pequeno. Em silêncio, observa o mundo ao redor, as pessoas da família e os amigos, analisando suas reações diante da morte de Susana. Jorge Reis-Sá constrói um texto sobre a morte para nos fazer pensar no amor. Em um tipo de amor que faz sofrer, quando deixa de existir, mas também no amor que renasce na vida de um filho gerado pela mãe, em seus últimos dias de vida; no amor que renasce entre dois vizinhos já idosos e viúvos que se encontram em sua solidão e voltam a viver com alegria quando ninguém mais espera que o façam.

Apesar do sentimento que perpassa os pequenos fragmentos do diário de Francisco, onde há uma tristeza e um desamparo diante dos quais é difícil permanecer sem se emocionar, o que mais me surpreendeu na narrativa de Reis-Sá foram as "vésperas", os capítulos que intercalam esse diário de luto e que nos contam outras histórias de pessoas da família. Nessas partes onde "o amor" por vezes é maldito, há violência e dor, abusos e violações, entre outros atos destrutivos que muitas vezes são realizados em nome de uma "definição de amor" distorcida. Há também espaço nelas para outras formas de amor, que nossa sociedade homofóbica teima em não aceitar. São essas possibilidades das vésperas que engradecem o texto de Reis-Sá e abrem espaço para reflexões importantes, principalmente nesses tempos em que atitudes de ódio são realizadas em nome de um discurso deturpado de amor. Mais do que o amor de um homem por uma mulher, acredito que o livro extrapola os limites de uma definição simples desse sentimento, fazendo-nos pensar sobre as muitas formas de amor existentes em nossas relações e que, mais do que nunca, talvez estejamos mesmo precisando tentar redefinir.

REIS-SÁ, Jorge. A definição do amor. São Paulo: Tordesilhas, 2016.

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Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão, uma pequena cidade no norte de Portugal, em 1977. Entre 1999 e 2009, fundou e dirigiu as Quasi Edições e foi diretor editorial da Babel de 2010 a 2013. Sua extensa obra de poesia está reunida no volume "Instituto de Antropologia – Todos os poemas" (Glaciar, 2013). Publicou também os livros de contos "Por ser preciso" (Cosmorama, 2004) e "Terra" (Sextante Editora, 2007), além de volumes de crônicas e dois romances "Todos os dias" (Record, 2007) e "O Dom" (Record, 2009). Este ano lança "A definição do amor" pelo selo Tordesilhas.

*Recebi este livro como cortesia da Editora Alaúde.

*Se gostou da resenha, você também pode se interessar por Todos os dias, de Jorge Reis-Sá.

domingo, 29 de maio de 2016

A caderneta vermelha



O que os objetos que carregamos em nosso dia a dia contam sobre nós? 

Qualquer história que nos transporta pelas ruas de Paris já vale a pena. Acrescente a isso o charme de se ter um personagem livreiro e algumas referências literárias pelo caminho. O enredo simples de A caderneta vermelha é despretensioso e se desenvolve de forma leve. A sensação durante a leitura é a de que passeamos pelas ruas de Paris à medida que vamos conhecendo um pouco mais dos dois protagonistas da história, Laurent e Laure. Dois personagens que, por um acaso do destino, tem seus caminhos entrelaçados sem nunca terem se encontrado pessoalmente.

Laurent Letellier é um livreiro divorciado, pai de uma adolescente rebelde e que vive uma rotina tranquila em sua pequena livraria nos arredores de Paris. Sem muito êxito nos relacionamentos amorosos, divide seu tempo entre os encontros semanais com a filha, o trabalho na livraria e os livros. Um dia durante sua caminhada matinal, Laurent encontra uma bolsa de mulher na rua, ainda com vários objetos dentro, mas sem nenhum documento de identificação ou celular, que haviam sido levados pelo ladrão durante um assalto. Os objetos contidos na bolsa, no entanto, começam a dar pistas sobre sua proprietária que, aos olhos de Laurent, parece cada vez mais ser uma mulher interessante, que ele gostaria de conhecer. A caderneta vermelha que dá título ao livro é o objeto onde Laure anota pensamentos e sonhos no seu dia a dia e revela uma mulher com interesses muito próximos ao do livreiro, alguém que ele nunca teve a chance de encontrar, mas que gostaria muito de conhecer.

Incentivado pela filha, que há muito não via o pai tão interessado em alguém, Laurent começa uma busca pela moça misteriosa que perdeu uma bolsa cheia de objetos que contam histórias. A investigação de Laurent o leva por pequenas aventuras, até mesmo um encontro inesperado com o escritor Patrick Modiano. Uma história leve e despretensiosa que nos faz pensar sobre esses acasos que às vezes nos levam aos caminhos certos.

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Antoine Laurain nasceu em Paris nos anos 1970. Formado em cinema, atua como roteirista e diretor. É também jornalista e colecionador de antiguidades. Escreveu cinco romances, entre eles Le Chapeu de Mitterrand, que recebeu o prêmio Landerneau Découvertes e foi adaptado para a TV na França. A caderneta vermelha é seu primeiro livro publicado no Brasil.

LAURAIN, Antoine. A caderneta vermelha. Trad. Joana Angélica d'Ávila Melo. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.

terça-feira, 29 de março de 2016

História do novo sobrenome (carta para Elena)



Querida Elena,

Terminei de ler A amiga genial encantada com a sua escrita e muito ansiosa para ler a continuação da história de Lila e Lenu. Você sabe mesmo como prender a atenção do leitor e atiçar a nossa curiosidade. Sinto a mesma coisa agora que terminei de ler a História do novo sobrenome, o segundo volume de sua tetralogia napolitana, que foi devorado com o mesmo interesse, apesar de ter achado que em algumas partes a narrativa ficou um pouco mais lenta e descritiva, mas nada que desagrade. A história dessa amizade foi sem dúvida uma das melhores coisas que li nos últimos tempos. 

Acho engraçado, para usar um bom eufemismo, quando escuto alguém dizer que você é um homem. Tolinhos. Só uma mulher seria capaz de escrever esta história, e fico feliz que você tenha feito isso. E mais ainda, que seus livros estejam sendo traduzidos aqui no Brasil. Já fico imaginado como vai ser quando chegar ao último volume de sua tetralogia e tiver que me despedir de Lila e Lenu. Mas até lá outros livros seus já estarão por aqui também (espero).

Mais do que um livro sobre a vida de duas jovens italianas, seu romance é sobre as mulheres, tão forte é a perspectiva feminina em seus livros. Suas angústias, seus dilemas, e todos os contratempos que somos obrigadas ainda a enfrentar estão ali, tipo A vida como ela é. Mesmo retratando uma outra época, já que o livro se passa no pós-guerra, às vezes é assustador perceber o quanto disso tudo ainda está presente nos dias de hoje. São muitas as mulheres que, como Lila, só veem diante de si a possibilidade do casamento, quase como uma obrigação. Sem falar na pressão de todos para ter filhos, ainda que esse não seja o seu desejo. Essa parte cortou um pouco meu coração durante a leitura, porque tinha imaginado para Lila tantas outras aventuras e possibilidades, ela que é tão inteligente. Mas mesmo diante de todos os problemas, gosto da força de suas protagonistas: quando achamos que elas se perderam, de repente elas se recuperam e surgem cheias de vida e coragem, como tantas outras mulheres fazem diariamente.

Foi muito interessante o que você fez no segundo livro quase que invertendo as nossas expectativas, pelo menos as expectativas que eu cultivei para Lila e Lenu durante a leitura do primeiro volume. Os dois caminhos traçados por elas, do casamento e dos estudos, sempre mostrando o que eles tem de bom e de ruim, são um bom contraponto para a tradicional história da vida de uma protagonista nos romances que costumamos ler. Quando menos percebemos já estamos envolvidos com as vidas tão intensas e cheias de reviravoltas dessas duas italianas. E é incrível como você as construiu, da forma complexa como elas são, que passamos do amor ao ódio em diversos momentos e é por isso que você é genial.

Algo que me inquieta nos seus livros é a violência contra a mulher que está presente em cada página, do início ao fim. Certamente uma denúncia de algo que ainda persiste nos dias de hoje, enraizado em nossa sociedade e nas instituições, seja no Brasil, na Itália ou em muitos outros lugares. A violência no casamento, que ainda permanece como um assunto privado, quando não é. Tão comum que passa muitas vezes como algo banal, naturalizado, o que jamais deve acontecer. Ainda fico esperando uma reviravolta nesse sentido, mas talvez isso seja mais um desejo meu, algo que talvez não vá acontecer ainda em sua história. Mas mesmo que isso não aconteça, o mérito dos seus livros se mantém: chama a atenção para uma questão muito importante e que não pode, nem deve, continuar sendo silenciada, ou tratada como algo menor. Obrigada por falar dessa dor.

Já espero ansiosamente o terceiro livro, porque você, cara Elena, sabe como ninguém terminar um capítulo e nos deixar de cabelo em pé de tanta curiosidade sobre o que vai acontecer depois. 

Continue escrevendo. Para os bons entendedores a sua literatura realmente diz tudo o que precisa ser dito.

Com carinho,

Pipa

*Como é muito difícil falar do segundo volume de uma tetralogia sem dar spoilers, peguei emprestada a ideia de uma carta para a autora do blog the blank garden, no qual a querida Juliana escreve cartas incríveis para as autoras dos livros que lê. Espero que com ela eu tenha conseguido demonstrar o quanto gosto dessa autora e o quanto vale a pena ler essa série napolitana, caso você não tenha começado ainda.

*Escolhi e recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros (Biblioteca Azul).

quarta-feira, 9 de março de 2016

Os pescadores


“Hoje, quando olho para trás, como tenho feito com mais frequência agora que tenho meus filhos, percebo que foi durante uma dessas idas ao rio que nossas vidas e nosso mundo mudaram. Pois foi nele que o tempo começou a ter importância, foi naquele rio que nos tornamos pescadores”. (p.18)
Os pescadores é o livro de estreia de Chigozie Obioma, um jovem autor nigeriano de apenas 28 anos que em 2015 esteve entre os finalistas do Man Booker Prize e ganhou destaque na imprensa como uma das grandes promessas da literatura africana contemporânea. O romance chega agora aos leitores brasileiros pela Globo Livros, com tradução de Claudio Carina.

O livro pode ser lido como um romance de formação, pois retrata o amadurecimento dos personagens, da infância até a idade adulta, e em face das situações distintas que passam a ocorrer em sua família, o que gera profundas transformações em cada um deles. Os pescadores é um romance sobre a infância de quatro irmãos de classe média, que vivem em uma pequena cidade da Nigéria com os pais e uma irmã ainda bebê e que, de um dia para o outro, passam a ter mais liberdade quando o pai é transferido para uma cidade maior, onde poderá ter melhores oportunidades profissionais e garantir melhor futuro aos filhos. Até então levando uma vida bem regrada, pois o pai era severo com os meninos e sempre enfatizava que eles seriam professores, médicos, advogados e teriam um futuro diferente do que a maioria das pessoas da cidade, os garotos passam a curtir a liberdade de não ter mais um pai rígido tão presente. A mãe cuida dos dois filhos menores e trabalha em uma loja da região vendendo produtos. Apesar de gostarem muito da mãe, que se desdobra entre o trabalho e as tarefas domésticas para cuidar dos cinco filhos, sem a figura paterna cobrando uma postura mais responsável, logo os meninos veem uma oportunidade de driblar as regras estipuladas pelo pai, mesmo com todas as ameaças. Assim, começam a deixar de estudar depois da escola para jogar futebol, brincar e também para pescar no rio. Um rio que está abandonado e condenado no imaginário popular a ser um local assombrado e perigoso, visto que alguns crimes ocorreram por lá.
"tudo o que fizemos pelo resto daquela tarde foi cantar, com o sol morrendo num canto do céu". (p. 214)
Mas Ikenna, o irmão mais velho (15 anos), Boja, Obembe e Benjamin (9 anos) estão empolgados com a ideia de serem pescadores e fazem isso por algumas semanas sem nada contar para a mãe. Até que um dia uma das figuras errantes da cidade, às vezes considerado um louco, outras vezes considerado um profeta, mas com um passado cheio de histórias terríveis e de muita violência, encontra os garotos no rio e diz uma de suas profecias diabólicas. A partir daí diversas coisas mudarão para os garotos, que terão que aprender a lidar com uma das coisas mais poderosas que existem: aquilo em que acreditamos.

Narrado por Benjamin, o filho mais novo, a partir do presente, acompanhamos os sonhos e as angústias de uma criança que precisa aprender a lidar com as mudanças que afetarão sua família para sempre. O romance mistura alguns traços da tradição oral africana ao romance moderno, encenando o conflito entre o tradicional e o moderno na própria narrativa.

Cada capítulo se constrói a partir de animais e outros elementos da natureza, uma simbologia interessante para criar imagens e construir metáforas, guiando o leitor diante das mudanças pelas quais cada um dos personagens passará. Além disso, as descrições por vezes são belas ecoando todo um imaginário de inocência e ternura ligado à infância.
“Fiquei olhando para ele discretamente, atormentado pelo medo de um futuro que pensei estar mais próximo do que podia imaginar, um futuro que era o dia seguinte. Comecei a rezar, com a voz mais baixa possível, para que o dia seguinte não chegasse, para que os ossos das pernas do tempo tivessem se quebrado”. (p. 236)
Os pescadores é um romance sobre a infância, sobre os laços familiares que às vezes se tornam frágeis, e em outras inesperadamente se fortalecem; é sobre o poder dos nossos sonhos para nos mantermos vivos em situações pouco favoráveis e também sobre a importância de lutar contra os nossos medos, já que nos tornamos aquilo em que acreditamos. Uma história linda, muito envolvente, que certamente ainda vai conquistar muitos leitores e leitoras. 
“Uma vez me disseram que, quando um homem deseja uma coisa que não tem, não importa quanto seja ilusória, se seus pés não o impedirem de se locomover, ele acaba conseguindo”. (p. 226)
OBIOMA, Chigozie. Os pescadores. trad. Claudio Carina. São Paulo: Globo Livros, 2015. 270 págs.

Sobre o autor

Chigozie Obioma nasceu em 1986 em Akure, Nigéria. Seus contos foram publicados na Virginia Quarterly Review e New Madrid. Já viveu na Nigéria, no Chipre e na Turquia, mas atualmente mora nos Estados Unidos onde concluiu um mestrado em Escrita Criativa na Universidade de Michigan. É professor assistente na Universidade de Nebraska-Lincoln. Seu primeiro romance, Os pescadores, ganhou vários prêmios, foi eleito o melhor livro do ano por diversas instituições e ficou entre os finalistas de um dos principais prêmios literários atuais, o Man Booker Prize.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

terça-feira, 8 de março de 2016

Ana de Amsterdam


"Sou Ana do dique e das docas
Da compra, da venda, das trocas de pernas
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas
Sou Ana das loucas
Até amanhã
Sou Ana
Da cama, da cana, fulana, sacana
Sou Ana de Amsterdam"

A música de Chico Buarque foi escolhida para nomear o blog de Ana Cássia Rebelo simplesmente por ser uma canção que ela gostava muito. A escrita no blog começou em 2006 como uma forma de lidar com a solidão das noites e também com a depressão. Mãe de três filhos, ao chegar em casa após um dia de trabalho burocrático em Lisboa, depois de colocar as crianças para dormir, Ana escreve. E o blog, pelo tom confessional que adquiriu ao longo do tempo, passou a ser uma espécie de diário, no qual Ana fala de suas angústias, de solidão, de uma tristeza que há muito a acompanha, mas também de família, maternidade, e situações que observa no dia a dia ao ir e voltar para o trabalho. Uma escrita visceral, que aborda assuntos considerados tabus: a sexualidade feminina, menstruação, aborto, as limitações e opressões que o casamento impõe às mulheres e o conflito que as mulheres têm com os seus corpos, entre muitas outras coisas. 

Em seus escritos, Ana expõe a condição feminina sem nenhum eufemismo, com uma honestidade que para alguns parecerá uma afronta, para muitas outras apenas uma possibilidade maior de reconhecimento. Em um texto que transita entre a simplicidade de um página de diário (ao qual supostamente não deveríamos ter acesso, e isso torna a leitura ainda mais interessante pelo que de íntimo existe ali) e o lirismo de certos trechos, somos carregados, por vezes cruamente, para o universo de Ana, que é também o universo de muitas mulheres. O que mais nos emociona e atinge neste livro talvez seja justamente isso: a verdade que ele escancara sem nenhum pudor, com uma imensa coragem. 

Os textos reunidos no livro Ana de Amsterdam, publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, foram organizados e selecionados por João Pedro Jorge, que também escreve o prefácio do livro, e que há muitos anos acompanha a escrita do blog percebendo, desde o início, o grande potencial da escritora que diariamente ali se manifestava. Dispostos por ordem cronológica, de 2006 a 2014, ele mantém as datas de publicação original e constituem, nas palavras do organizador, "um grande solilóquio sobre a solidão". Acho que este livro vai muito além: ele traz para a cena literária uma discussão bem relevante no mundo contemporâneo -  ele coloca em cena questões de gênero que precisam ainda ser muito discutidas, principalmente por serem pouco exploradas na literatura. Tudo isso de uma forma clara, honesta e poética. O mais difícil é chegar na última página do diário quando Ana afirma "Morri no princípio de outubro", e ter a certeza de que não queremos dela nos despedir.


"22 de maio de 2007. 
Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei porque vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita. Petrifica-me. Torno-me um cristal baço. Uma mancha de bolor. Uma estátua grotesca. Repelente. Torno-me uma fêmea de jacaré ou caimão. Sou uma fêmea de caimão. Sei, com precisão, onde, no meu corpo, se aloja a tristeza. Sinto-a aninhada na traqueia, perto da laringe e da faringe. Nas imediações da glote. Provoca-me náuseas. Vontade de vomitar, também. Hoje, durante o almoço, transformou-se em lágrimas e escorreu sobre a sopa de agriões." (p. 37)


REBELO, Ana Cássia. Ana de Amsterdam. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

Ana Cássia Rebelo nasceu em Moçambique, em 1972. Filha de pai goês e mãe alentejana, foi para Portugal quando tinha cinco anos. Estudou Direito e trabalha atualmente como advogada em um instituto público. Tem três filhos e mora em Lisboa. 

*Recebi este livro como cortesia da Biblioteca Azul.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

A situação humana



A situação humana reúne as palestras proferidas por Aldous Huxley em 1959, na Universidade de Santa Bárbara, Estados Unidos, e aborda os mais diversos temas, desde a educação e a relação do homem com a natureza, até religião e arte, crescimento populacional e o inconsciente. Por serem palestras, o texto é fluido, quase como uma conversa, abordando assuntos diferentes e (alguns deles) ainda relevantes nos dias de hoje. Nessa minha primeira aproximação à obra de Huxley (sim, ainda não tinha lido nada do autor, nem mesmo a obra que o tornou célebre, Admirável mundo novo), confesso que inicialmente achei que não fosse gostar. Mas o texto me surpreendeu, pois algumas reflexões do autor, que revelam sua preocupação em compreender o mundo que lhe cerca, são interessantes.

Logo de início, no primeiro ensaio sobre educação integrada (e um dos que eu mais gostei), Huxley destaca um aspecto do nosso sistema educacional que, ainda nos dias de hoje, todos aqueles e aquelas que trabalham com educação certamente já consideraram em algum momento de suas carreiras: a especialização cada vez maior que trilhamos na academia sem nem sempre levar em conta um conhecimento interdisciplinar que só amplia a nossa capacidade de compreender o ser humano e suas relações com o mundo.

“Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas uma boa porção de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, menos profunda, dos problemas humanos em geral” (p.7).                                 

No ensaio “Guerra e nacionalismo”, no qual o autor tenta entender as origens da guerra e chegar a um conceito do que entende por nação, vale destacar seu posicionamento de que a violência da guerra é também uma construção social e não algo inerente ao homem.

“É muito importante lembrar que tanto a guerra quanto o poder motivador que leva o homem à guerra são socialmente condicionados, porque assim percebemos que não há nada de biologicamente inevitável nessa terrível coisa que nos ameaça. Por ser um fenômeno socialmente condicionado, poderemos, se quisermos, descondicioná-lo e livrar-nos dele” (p. 89).

Outro ensaio que gostei é o intitulado “Linguagem”, no qual o autor discorre sobre o papel da linguagem e das palavras como diferencial humano e também como um meio através do qual ideias, boas e más, são transmitidas, evidenciando o poder da palavra.

“A linguagem é o que nos torna humanos. Infelizmente, é também o que nos torna humanos demais. De um lado, é a mãe da ciência e da filosofia, e de outro produz toda a sorte de superstição, preconceito e loucura. Ajuda-nos e nos destrói; torna possível a civilização e também produz aqueles assustadores conflitos que degradam a civilização” (p. 190).

Cada uma das palestras em A situação humana demonstra como Huxley era um homem atento e interessado em refletir e questionar os mais diversos assuntos debatidos em sua época. E para nós, talvez o mais interessante aqui seja acompanhar seus pensamentos para refletir sobre as nossas questões hoje, o que mudou, ou o que ainda permanece relevante para os nossos dias. Não é um livro cansativo, já que a linguagem mais fluida ajuda bastante a acompanhar o raciocínio do autor, mas é um livro que contém muitas informações e muitas referências e que, por isso, pede uma leitura mais atenta. Por serem ensaios independentes, os leitores também podem decidir em que ordem cada um deles será lido.


Sobre o autor

Aldous Huxley nasceu em 26 de julho de 1894 no condado de Surrey, na Inglaterra. Em 1916, publica seu primeiro livro, uma coletânea de poemas. A partir de 1921, sua reputação literária se estabelece, através de Crome yellow. Em seguida, escreve Antic hay (1923), Folhas inúteis (1925) e Contraponto (1928), sátiras onde analisa de modo espirituoso e implacável os dissabores do mundo moderno. No período anterior à Segunda Guerra Mundial, sua obra adquire tons mais sombrios, incluindo o célebre romance Admirável mundo novo (1932), antiutopia que descreve a desumanizada sociedade do futuro, e Sem olhos em Gaza (1936), uma novela pacifista. Em 1937, deixa a Europa e se muda para a Califórnia. Além de ensaios sobre assuntos tanto culturais quanto religiosos, em que se nota a forte influência da mística oriental, Huxley publicou O tempo deve parar (1944), O macaco e a essência (1949), A ilha (1962) e As portas da percepção (1954), onde descreve suas experiências com a mescalina. Aldous Huxley faleceu em 22 de novembro de 1963.

HUXLEY, Aldous. A situação humana. Trad. Lya Luft. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros