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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Luto

Luto (Mario Benedetti)

Hace una semana que estoy de luto
se me murió una idea en el papel
estoy buscando una que la sustituya
pero nadie responde / son de otros

mi pobrecita idea / la finada
iba armando una historia de mí mismo
ahora ha quedado en blanco / casi en gris

transito en el olvido / sin perdones
y el olvido también está de luto



BENEDETTI, Mario. Biografía para encontrarme. Barcelona: Debolsillo, 2015.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Estar onde eu não estou

*
Agora é janeiro de 2018
e tem 17 caixas no meu quarto
primeiro pensei em levar tudo comigo
mas me falaram que já que não sei como tudo vai ser
melhor deixar algumas coisas para trás
eu nunca tinha pensado que era possível
deixar algumas coisas para trás
não levar tudo comigo
escolher o que levar comigo
(deixar para trás não é a mesma coisa que apagar)

*

Um dia um monte de gente me disse
que eu tinha ganhado uma segunda vida
era sinal para eu viver diferente
eu disse que só sabia viver como eu vivo
acho que me falta imaginação
para ser outra coisa
até no meu diário eu escrevo a verdade
mas por isso sou ótima mentirosa
de tanto acreditar

Olivia Gutierrez. Estar onde eu não estou. Belo Horizonte: Crivo Editorial, 2018

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Um verso e Mei


EIXO

tinha um Eixo atravessando o meu peito,
tão grande que cortava minha alma em L2
Sul e Norte.

uma W3 entalada na garganta virou nó.
eles têm o Parque da Cidade.
nós, o Três Meninas.
eles, a Catedral.
nós, Santa Luzia.
eles, as Super Quadras.
nós, a Rocinha.
eles, Fonte Luminosa.
nós, Chafariz.
eles, Noroeste.
nós, Santuário.
eles, Sudoeste.
nós, Sol Nascente.
eles, o Lago Paranoá.
nós, Águas Lindas.

sou filha da Maria, que não é santa e nem puta.
nasci e me criei num Paraíso que chamam de Val
e me formei na Universidade Estrutural.

não troco o meu Recanto de Riachos Fundos
e Samambaias Verdes
pelas tuas tesourinhas.
essa Bras(ilha) não é minha.

porque eu não sou Planalto,
eu sou periferia!
eu não sou concreto,
eu sou quebrada!

BASTOS, Meimei. Um verso e Mei. Rio de Janeiro: Malê Edições, 2017.

Meimei Bastos é atriz, escritora, slammer, arte-educadora e estudante de Artes Cênicas na Universidade de Brasília. Nasceu em 1991, em Ceilândia, Distrito Federal.  Desde 2015, atua em batalhas de poesia falada (Slam), como poeta e organizadora. Atualmente coordena e produz nas periferias o Slam Q'BRADA.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Álbum, de Ana Elisa Ribeiro

PRENHEZ                   

estava grávida
naquela foto

o filho
não chegou
a nascer

a foto
nos mantém
à sua espera



POEMA IMPRESSO NA HORA

escrever um poema
não é como
pegar peixe com as mãos; caçar com flecha;
riscar fósforo; rezar o terço; alcançar a graça;
dizer adeus; ou capturar borboleta.

Também não é como
a dor do parto; fotografar pessoas paisagens
ambos; ver estrela cadente; catar feijão;
descrever sentimento.

Escrever o poema
se parece com
carregar água na peneira
e dar nó em pingo d'água:
lugares muito mais comuns.

***
Ana Elisa Ribeiro, 1975, é mineira de Belo Horizonte. Além de vários livros de poesia publicados, tem outros de crônica, conto e infantojuvenis publicados por diversas editoras brasileiras. Participou de antologias, revistas e jornais no Brasil, em Portugal, na França, no México, na Colômbia e nos Estados Unidos. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, professora e pesquisadora de Edição no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais.

RIBEIRO, Ana Elisa. Álbum. Belo Horizonte: Relicário, 2018.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

[Adriana Lisboa]

Bastaria  


Bastaria
algum tempo sem vencimento
aberto como asas
onde não haja sorrisos úteis nem
papéis a endossar. Um vão
entre duas felicitações
contemporizações - por exemplo
(pensar em) margear
Buenos Aires: poetas
Bornéu: primatas
adentrar a ideia dessas coisas.
Bastaria um templo
o céu cobalto que me ignora
raízes varando paredes
menos do que residuais.
Bastaria subtrair: sem eventos
sem motivos
e como desde sempre soubemos,
bastaríamos nós.


Balão

O balão leva alguém
para uma volta ao mundo - é
o que você escolhe pensar, pés fincados
no cimento mole da manhã em que
todos os voos são imaginados
ou impossíveis, como o do balão
que brota do horizonte tal uma
pera invertida e cujas cores
mal se podem distinguir (mas você sabe
que as há, se as há sempre, se os balões são
animais do ar, da cor, do risco).
O balão sobre em seu perigo lento.
Daqui de baixo você sorri de sua própria
fantasia (é só um sujeito se divertindo
lá em cima numa manhã
de quarta-feira, só isso) e segue
em frente: uma vez pedestre,
sempre chão.

Promessa

O prato da casa
é a sobrevivência, então
não se preocupe. Não se preocupe.
Mesmo com todos os
estilhaços, a areia na garganta,
mesmo que eu tenha nos olhos
um cansaço de trincheiras,
mesmo assim, veja:
continuo de pé. Um joão-bobo,
um náufrago de pança inchada
subsistindo de sol a sol.

Adriana Lisboa. Parte da paisagem. São Paulo: Iluminuras, 2014.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Martelo

a porca

a escrivã é uma pessoa
e está curiosa como são
curiosas as pessoas
pergunta-me por que bebi
tanto não respondi mas sei
que a gente bebe pra morrer
sem ter que morrer muito
pergunta-me por que não
gritei já que não estava
amordaçada não respondi mas sei
que já se nasce com a mordaça
a escrivã de camisa branca
engomada
é excelente funcionária e
datilógrafa me lembra muito
uma música
um animal não lembro qual.



o urubu

corpo de delito é
a expressão usada
para os casos de
infração em que há
no local marcas do evento
infracional
fazendo do corpo
um lugar e de delito
um adjetivo o exame
consiste em ver e ser
visto (festas também
consistem disso)
deitada numa maca com
quatro médicos ao meu redor
conversando ao mesmo tempo
sobre mucosas a greve
a falta de copos descartáveis
e decidindo diante de minhas pernas
abertas se depois do
expediente iam todos pro bar
o doutor do instituto
de medicina legal escreveu seu laudo
sem olhar pra minha cara
e falando no celular
eu e o doutor temos um corpo
e pelo menos outra coisa em comum:
adoramos telefonar e ir pro bar
o doutor é uma pessoa
lida com mortos e mulheres vivas
(que ele chama de peças)
com coisas.

Ivánova, Adelaide. O martelo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições garupa, 2017.

Adelaide Ivánova nasceu em 1982 na cidade de Recife. Jornalista, poeta, tradutora e fotógrafa, seu trabalho percorre o mundo em publicações impressas e digitais como i-D (UK), Colors (Itália), Te Hufngton Post (EUA), Modo de Usar & Co. (Brasil), Suplemento Pernambuco (Brasil) entre outras. "O Martelo" é seu terceiro livro de poemas.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Escuro


A CARTA
(Ana Luísa Amaral)

Senhores:
hão de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos

Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão

Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira

Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai

Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas,
eu, que as fui construindo devagar,
na escuridão da cela

O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários

Não fui só voz:
fui eu, dona de mim,
porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso

Só para isso me valeu viver,
para compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei

Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário

Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência

Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura

E os atos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura

E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui

Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus

Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência

Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói -

AMARAL, Ana Luísa. Escuro. São Paulo: Iluminuras, 2015. p. 47-48.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Na esperança, o homem


Da cabeceira do rio, as águas viajantes
não desistem do percurso.
Sonham.

A seca explode no leito vazio
e a pele enrugada da terra seca e
sonha.

O barco espera.
O sábio contemplativo aguarda.
O homem, ao peso de qualquer lenho,
Não se curva.
Sonha.

Sonha e faz
com o suor de seu rosto,
com a água de seus olhos,
com a fluidez de sua alma,
cospe e cospe no solo
amolecendo a pedra bruta.

Faz e sonha.

E no outro dia, no amanhã de muitos
outros dias, a vida ressurge fértil,
úmida,
alimentada pelo seu hálito.

E que venham todas as secas,
o homem esperançoso
há de vencer.

Conceição Evaristo. Poemas da recordação e outros movimentos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Malê, 2017. p. 55-56.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Drummond

Carlos Drummond de Andrade. Eterno.
(31 de outubro de 1902 - 17 de agosto de 1987)

domingo, 12 de março de 2017

As mãos de meu pai

Imagem: Gayle George
As mãos de meu pai 
(Mário Quintana)


As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
— como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da
nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa
beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos
braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
contra o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre
das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos
nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria
vida
... e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Descascando cebolas

Lilly Martin Spencer (1822 –1902) Peeling Onions



Descascando cebolas (Adrienne Rich)

Só para ter um pesar
equivalente a todas essas lágrimas!

Nem um soluço em meu peito.
De coração impávido como Peer Gynt
eu corto tudo, sem heróis,
uma mera cozinheira.

Chorar já foi trabalho, uma vez
quando tive bom motivo.
Caminhando, senti meus olhos como feridas
abertas em minha cabeça.
Por isso os atendentes dos correios, pensei, deviam me encarar.
Um olhar de cachorro, de um gato, fizeram-me sentir dor -
ainda assim tudo permaneceu
preso em meus pulmões feito neblina escura.

Essas velhas lágrimas na tigela de cortar cebolas.

[Traduzido do inglês por Paula D.]


Peeling Onions (Adrienne Rich)

Only to have a grief
equal to all these tears!

There's not a sob in my chest.
Dry-hearted as Peer Gynt
I pare away, no hero,
merely a cook.

Crying was labor, once
when I'd good cause.
Walking, I felt my eyes like wounds
raw in my head,
so postal-clerks, I thought, must stare.
A dog's look, a cat's, burnt to my brain -
yet all that stayed
stuffed in my lungs like smog.

these old tears in the chopping-bowl.

[1961]

RICH, Adrienne. The fact of a doorframe, 1984.

sábado, 4 de março de 2017

Meu poema sem palavras

Starry Night Over the Rhone - Vincent Van Gogh

[por Adrienne Rich]

A noite fala,
você diz.
Meu poema sem palavras.
Meu voo rumo ao desconhecido.

O corpo é leve quando
tomado pelo que é.
Formado por muros e
janelas.
Pronto para entrar em chamas.
Com pequenas bandeiras
tremulando ao centro.

Toco em você com a ajuda
do vazio.
Uma ode à sobrevivência.
Um dicionário de prados selvagens.
Faremos qualquer coisa
por uma cura.

[Traduzido do Inglês por Paula D.]


Night is speaking
you say.
My poem without words.
My flight into wild country.

The body is light when
taken for what it is.
Formed of walls and
windows.
Ready to burn.
With little flags
fluttering in the center.

I touch you with the help
of the void.
An ode to survival.
A dictionary of wild grasses.
We'll do anything
for a cure.

(2004) Adrienne Rich. Telephone ringing in the labyrinth: poemas 2004 - 2006. 
London and New York: W.W. Norton & Company, 2007. p. 33

sexta-feira, 3 de março de 2017

Maré baixa



Maré baixa
[M. Vasalis]

Recuo e espero.
Tempo assim não será perdido.
Cada minuto se transforma em futuro.
Sou um oceano de espera,
envolto em água pelo instante.
Na maré baixa que sinto,
que puxa para si os minutos e,
em suas profundezas, prepara
a maré alta que vem.
Não há tempo. Ou será que
nada há além do tempo?

[Traduzi do inglês a partir da tradução do holandês por Juliana Brina]

quinta-feira, 2 de março de 2017

Outros jeitos de usar a boca



quando minha mãe estava grávida
do segundo filho eu tinha quatro anos
apontei para sua barriga inchada sem saber como
minha mãe tinha ficado tão grande em tão pouco tempo
meu pai me ergueu com braços de tronco de árvore e
disse que nesta terra a coisa mais próxima de deus
é o corpo de uma mulher é de onde a vida vem
e ouvir um homem adulto dizer algo
tão poderoso com tão pouca idade
fez com que eu visse o universo inteiro
repousando aos pés de minha mãe

[Rupi Kaur. in: Outros jeitos de usar a boca. trad. Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2017.]


Rupi Kaur é uma escritora e artista nascida na Índia que vive em Toronto, Canadá. Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência, o amor, o sexo, o abuso, a perda, o trauma, a cura e feminilidade. Publicado inicialmente de forma independente, o livro já vendeu mais de 1 milhão de exemplares impressos e ficou em 1º lugar na lista de mais vendidos do The New York Times.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

.



Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES (Gótica Ed., 2001), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Um poema de Adília Lopes


Body Art
(Adília Lopes)

Com os remédios
engordo 30 Kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre

Emagreço 21 kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina

No metro
um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar

Detesto
o sofrimento

***
Adília Lopes, pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poetisa, cronista e tradutora portuguesa.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O ódio

O ódio                              

(Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien)
                                                                                    
Vejam como ainda é eficiente,
como se mantém em forma
o ódio no nosso século.
Com que leveza transpõe altos obstáculos.
Como lhe é fácil – saltar, ultrapassar.

Não é como os outros sentimentos
a um tempo mais velhos e mais novos que ele.
Ele próprio gera as causas
que lhe dão vida.
Se adormece, nunca é um sono eterno.
A insônia não lhe tira as forças; aumenta.

Religião, não religião –
contanto que não se ajoelhe para a largada.
Pátria, não pátria –
contanto que se ponha a correr.
A justiça também não se sai mal no começo.
Depois ele já corre sozinho.
O ódio. O ódio.
Seu rosto num esgar
de êxtase amoroso.

Ah, estes outros sentimentos –
fracotes e molengas.
Desde quando a fraternidade
pode contar com a multidão?

Alguma vez a compaixão
chegou primeiro à meta?
Quantos a dúvida arrasta consigo?
Só ele, que sabe o que faz, arrasta.

Capaz, esperto, muito trabalhador.
Será preciso dizer quantas canções compôs?
Quantas páginas da história numerou?
Quantos tapetes humanos estendeu
Em quantas praças, estádios?

Não nos enganemos:
ele sabe criar a beleza.
São esplêndidos seus clarões na noite escura.
Fantásticos os novelos das explosões na aurora rosada.
Difícil negar o phátos das ruínas
e o humor tosco
da coluna que sobressai vigorosamente sobre elas.

É um mestre do contraste
entre o estrondo e o silêncio,
entre o sangue vermelho e a neve branca.
E acima de tudo nunca o enfada
o tema do torturador impecável
sobre a vítima conspurcada.

Pronto para novas tarefas a cada instante.
Se tem que esperar, espera.
Dizem que é cego. Cego?
Tem a vista aguda de um atirador
e afoito olha o futuro

- só ele.

SZYMBORSKA, Wislawa. Um amor feliz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Tempo - Orides Fontela



TEMPO

O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.

O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.

O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.

O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.

- Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo

cavalga o fluxo num milagre
de vida.


FONTELA, Orides. Poesia Completa. São Paulo: Hedra, 2015.

Orides Fontela (1940-1998) é uma das mais importantes poetas brasileiras da segunda metade do século XX. Da mesma geração de Paulo Leminski, Hilda Hilst, Roberto Piva e Adélia Prado, sua pequena e densa obra se sobressai pela radical modernidade e pela cortante lucidez de sua linguagem. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A noite não adormece nos olhos das mulheres

A noite não adormece nos olhos das mulheres

CONCEIÇÃO EVARISTO
(Em memória de Beatriz Nascimento)


A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Tecendo a manhã



1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 


João Cabral de Melo Neto