PRENHEZ
estava grávida
naquela foto
o filho
não chegou
a nascer
a foto
nos mantém
à sua espera
POEMA IMPRESSO NA HORA
escrever um poema
não é como
pegar peixe com as mãos; caçar com flecha;
riscar fósforo; rezar o terço; alcançar a graça;
dizer adeus; ou capturar borboleta.
Também não é como
a dor do parto; fotografar pessoas paisagens
ambos; ver estrela cadente; catar feijão;
descrever sentimento.
Escrever o poema
se parece com
carregar água na peneira
e dar nó em pingo d'água:
lugares muito mais comuns.
***
Ana Elisa Ribeiro, 1975, é mineira de Belo Horizonte. Além de vários livros de poesia publicados, tem outros de crônica, conto e infantojuvenis publicados por diversas editoras brasileiras. Participou de antologias, revistas e jornais no Brasil, em Portugal, na França, no México, na Colômbia e nos Estados Unidos. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, professora e pesquisadora de Edição no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais.
RIBEIRO, Ana Elisa. Álbum. Belo Horizonte: Relicário, 2018.
quarta-feira, 30 de maio de 2018
terça-feira, 8 de maio de 2018
Sobre escrever
"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome.
Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever."
Gloria E. Anzaldúa
Para ler o texto completo da autora, clique aqui.
sábado, 14 de abril de 2018
O que o sol faz com as flores
Não era palavrão na minha casa
não era motivo de surra
apagaram do nosso dicionário
arrancaram das nossas costas aos tapas
até virarmos crianças comportadas
que diziam sim com obediência para qualquer coisa
quando ele subiu em cima de mim
todas as partes do meu corpo queriam rejeitá-lo
mas não consegui dizer não e salvar minha vida
quando tentei dar um grito
tudo que saiu de mim foi silêncio
ouvi o não batendo com força
no céu da minha boca
implorando para escapar
mas não pendurei a placa de saída
nunca construí a escada de emergência
para o não escapar não existia porta
quero fazer uma pergunta
a todos os pais e tutores
de que serviu a obediência naquela hora
quando dentro de mim havia mãos
que não eram as minhas
- como vou verbalizar o consentimento na vida adulta
se não me ensinaram na infância
KAUR, Rupi. O que o sol faz com as flores. Tradução Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2018.
não era motivo de surra
apagaram do nosso dicionário
arrancaram das nossas costas aos tapas
até virarmos crianças comportadas
que diziam sim com obediência para qualquer coisa
quando ele subiu em cima de mim
todas as partes do meu corpo queriam rejeitá-lo
mas não consegui dizer não e salvar minha vida
quando tentei dar um grito
tudo que saiu de mim foi silêncio
ouvi o não batendo com força
no céu da minha boca
implorando para escapar
mas não pendurei a placa de saída
nunca construí a escada de emergência
para o não escapar não existia porta
quero fazer uma pergunta
a todos os pais e tutores
de que serviu a obediência naquela hora
quando dentro de mim havia mãos
que não eram as minhas
- como vou verbalizar o consentimento na vida adulta
se não me ensinaram na infância
KAUR, Rupi. O que o sol faz com as flores. Tradução Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2018.
domingo, 4 de março de 2018
A origem das coisas
A origem das coisas
Explicou o filósofo grego
que todas as coisas
originam-se umas das outras
e desaparecem em outras
de acordo com a necessidade
tudo que há
movimento
tudo que é
contingência:
o assalto dos erros
o acaso pendular de um dia
de uma vida
de um poema.
Adriana Lisboa. Pequena Música. São Paulo: Iluminuras, 2018.
Explicou o filósofo grego
que todas as coisas
originam-se umas das outras
e desaparecem em outras
de acordo com a necessidade
tudo que há
movimento
tudo que é
contingência:
o assalto dos erros
o acaso pendular de um dia
de uma vida
de um poema.
Adriana Lisboa. Pequena Música. São Paulo: Iluminuras, 2018.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
Coração e alma
A vida é um sopro (Clarice Lispector)
A
frase de Clarice Lispector, “a vida é um sopro” passou muitas vezes pela minha
cabeça enquanto lia Coração e alma,
da escritora francesa Maylis de Kerangal. Em grande parte, isso se deve ao tema
do livro, que narra todo o processo de um transplante cardíaco em um grande
hospital da França, o que nos faz, inevitavelmente, pensar na efemeridade da
vida e, consequentemente, no que fazemos da vida que temos. Falar da morte e da
possibilidade de vida nos lembra da nossa humilde condição de mortais.
A
temática do livro pode, a princípio, parecer estranha e acho que é pouco comum
(pelo menos eu não me lembro de nenhum outro livro que fale do assunto), mas a
forma com que a autora conseguiu escrever essa história surpreende pelo ritmo
dado à narrativa, que tem uma velocidade e uma intensidade que conseguem
transmitir essa ideia de efêmero (somos instantes) e também da agilidade com
que esse processo de doação de órgãos precisa ser feito, literalmente correndo
contra o tempo.
Outro
ponto positivo do livro é, a meu ver, essa miríade de personagens, pessoas
comuns em seu dia a dia que autora consegue retratar, em sua dimensão humana,
complexa, cada uma vivendo seus dilemas, seus medos, sua solidão. Ao nos
apresentar a perspectiva de cada personagem, conseguimos nos colocar no lugar
do outro, pensar no que sente a família do futuro doador de órgãos, na tristeza
da perda e do luto que vivenciam e a dor de ter que lidar com essa decisão tão
imediata à morte; conseguimos também nos colocar no lugar dessas pessoas que
trabalham nos hospitais, dos médicos às enfermeiras, que trabalham um número
imenso de horas sob grande pressão para salvar vidas, ao mesmo tempo em que
lidam com a morte; e nos imaginamos no papel desses pacientes que precisam de
um transplante para seguir vivendo e tem uma vida repleta de angústia e espera
até encontrar (e se tiverem a sorte de encontrar) um doador compatível.
Coração
e alma é um livro bem diferente, que despertou em mim reações diferentes e por
vezes, contraditórias. É uma leitura intensa, para quem gosta de livros para
serem lidos de uma só vez e que desperta muitas reflexões. Repensei o tempo
todo a minha decisão sobre doação de órgãos – e para quem nunca parou para
pensar isso, esse romance é bem interessante para começar. Só por isso, acho
que já vale a leitura.
Por
fim, mas não menos importante, este é o primeiro livro escrito por uma autora
publicado pela Rádio Londres, editora independente de ficção internacional fundada
em 2015 e que tem publicado muitos autores inéditos no Brasil. Esperamos que
mais obras escritas por mulheres sejam publicadas pela editora.
KERANGAL, Maylis de. Coração e alma. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2017. Trad. Maria de Fátima Oliva do Couto.
domingo, 31 de dezembro de 2017
Minhas melhores leituras de 2017
Não li tanto quanto gostaria em 2017, e em grande parte foi poesia, sempre meu maior consolo, mas segue a minha listinha do que li de melhor esse ano:
Como se fosse a casa (uma correspondência) (Ana Martins Marques e Eduardo Jorge)
O Martelo (Adelaide Ivánova)
Da poesia (Hilda Hilst)
Poemas da recordação e outros movimentos (Conceição Evaristo)
Dia bonito pra chover (Lívia Natália)
Dia bonito pra chover (Lívia Natália)
Os bons amigos (Hannah Kent)
Dois (Oscar Nakasato)
Amora (Natália Borges Bolesso)
Aqui, no coração do inferno (Micheliny Verunschk)
A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana Aleksiévich)
E que 2018 seja um ano mais leve, de muitas realizações e leituras incríveis para nós!
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
Dia bonito pra chover
Insurreição
Seria mais fácil não amar os pessegueiros macios
e nada sorver do seu perfume,
mas os meus dentes querem a carne do seu corpo,
minha língua deseja lamber do seu sumo.
O certo seria plantar a semente e esperar,
dos laços e nós dos caules finos,
aspergir-se o perfume da fruta vindoura.
Mas meu corpo tem pressa
e não respeita os relógios que inventam o tempo.
Minha natureza é temporã.
Eu sou das fêmeas que vão!
ficar é para quem tem raízes,
ceder é para quem deseja morada: eu sou o desabrigo.
Quero a fruta furtada do pé.
comer seu gosto ainda verde,
morder suas entranhas ainda duras.
Não sou das que esperam,
sou das que não querem nem chegar,
sou de partir e, no precipício, ainda ser silenciosa,
inteira.
Sou uma destas mulheres que vão.
ficar é raiz.
partir é imensidão.
Lívia Natália. Dia bonito pra chover. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2017.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Os bons amigos
Ambientado na Irlanda do século XIX, Os bons amigos, da escritora australiana Hannah Kent, retrata a vida da época, seus costumes, superstições e tradições, em uma pequena vila no interior do país. O romance é baseado em fatos reais e a narrativa nos transporta para os anos 1825 e 1826, uma época em que as crenças e superstições tinham um grande poder no dia a dia das pequenas comunidades, que viviam em condições insalubres e sem muita informação. A medicina da época não era muito avançada e a figura de mulheres parteiras e conhecedoras do poder medicinal das ervas era muito presente na própria sobrevivência dessas comunidades. Nesse sentido, esse romance fala de crenças e das ligações ancestrais das mulheres com a natureza. Mas nada é tão simples assim.
Três personagens são centrais nessa narrativa: Nóra, uma mulher que acabou de ficar viúva e que recentemente também havia perdido a filha para uma doença misteriosa, ficando sozinha a cargo de cuidar de sua pequena fazenda e do neto, um menino de 4 anos que também estava muito doente, sem conseguir andar ou falar. A segunda personagem é Mary, uma menina de um vilarejo próximo e de família muito pobre, contratada por Nóra para ajudar nas tarefas da casa e nos cuidados com o neto doente. A terceira é Nance, uma senhora idosa que há anos chegara ao vilarejo e que vivia de doações em troca dos seus conhecimentos de ervas mediciais e outras superstições locais, quase sempre associadas à cura. Com a chegada do novo padre ao vilarejo, a vida de Nance fica cada vez mais difícil, uma vez que, buscando livrar a comunidade do paganismo dessas superstições e de aproximar os moradores um pouco mais da Igreja, ele passa a pregar contra os hábitos, associados à bruxaria, praticados por Nance.
A vida dessas três mulheres de idades diferentes se une em torno do pequeno Michaél, que retorna ao lar da avó após a morte da filha de Nóra. Para tristeza da avó, o menino está muito diferente do garoto saudável que era, com os membros deformados e sem conseguir falar ou andar. O médico consultado diz que não há mais nada a fazer em relação ao menino, a não ser se conformar com a sua nova condição de saúde. Mas Nóra, estimulada pelas conversas e lendas locais sobre os seres encantados que habitam a região e roubam as pessoas para outros mundos, deixando substitutos no lugar, procura Nance para resgatar o verdadeiro neto do mundo encantado.
Mantendo um clima de suspense ao longo de todo o romance, Hannah Kent consegue narrar com brilhantismo uma história que, como se sabe por pesquisas históricas feitas pela autora, relata um caso real ocorrido na Irlanda, e propõe com isso uma reflexão muito interessante e mais do que atual sobre o poder da crença e das superstições no trato das diferenças. Fiquei absolutamente encantada com a escrita da autora, tão cheia de lirismo e que manteve esta leitora aqui presa ao livro do início ao fim, tanto que Os bons amigos entrou para a minha singela lista de melhores leituras de 2017. Recomendadíssimo.
***
Hannah Kent. Os bons amigos. São Paulo: Globo Livros, 2017. Trad. Celina Portocarrero.
*Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.
sábado, 9 de dezembro de 2017
Sorteio: FOME
Um exemplar de "FOME: Uma autobiografia do (meu) corpo", de Roxane Gay;
3 canetinhas + 3 marcadores de livro fofos
Para participar do sorteio é só preencher o formulário abaixo com seu nome e email, seguir o instagram do blog @pipanaosabevoar e marcar três amigos na postagem oficial do sorteio no instagram.
As inscrições podem ser feitas até o dia 20/12/2017, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 21/12/2017, às 10h. Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. Boa sorte! :)
Link para o Instagram: http://instagram.com/pipanaosabevoar
Link do sorteio https://goo.gl/forms/vG6oMjCEhWeBWhyt1
O resultado será informado no blog:
http://pipanaosabevoar.blogspot.com.br/
RESULTADO DO SORTEIO: a vencedora é Estela Pereira dos Santos =] Estela, vou entrar em contato por email com você. Obrigada a todas por terem participado! Até o próximo!
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
Fome
Our silence will not protect
us.
Audre Lorde
Entre
as muitas palavras que imediatamente vem à mente para descrever esse livro, a
mais forte é, sem dúvida, coragem. Escrever sobre um trauma e ter a bravura de
narrá-lo como Roxane Gay faz nas páginas de Fome:
uma autobiografia do (meu) corpo, que acaba de ser publicado pela Globo
Livros, é um passo importante para todas que sobreviveram a uma violência tão terrível quanto a sofrida pela autora. Logo
no primeiro parágrafo do livro, Roxane afirma:
“A história do
meu corpo não é uma história de triunfo. Esta não é uma autobiografia sobre
perda de peso. Não haverá uma foto da minha versão magra, meu corpo esbelto
adornando a capa deste livro, eu de pé dentro de uma das pernas do jeans de
quando eu era mais gorda. Este não é um livro que irá oferecer motivação. Eu
não tenho nenhum insight poderoso quanto ao que é necessário para superar um
corpo e um apetite indisciplinados. Minha história não é uma história de
sucesso. Minha história é simplesmente uma história verdadeira”.
Este
é um livro-grito, um livro-corpo; é a voz de alguém que tenta lidar com os
eventos traumáticos do passado, que deixaram marcas profundas com as quais é
preciso aprender a conviver e isso não é um processo fácil; é também um livro-afirmação, que revela com muita
sinceridade a dor causada pelas imposições de nossa sociedade sobre os corpos
das mulheres, sobre a gordofobia que causa tanto sofrimento a inúmeras pessoas
mundo afora. Explico: aos doze anos, Roxane Gay, uma menina negra e de classe
média vivendo nos Estados Unidos, foi violentada por um grupo de garotos da
escola. Como acontece a muitas crianças, meninas e mulheres, Roxane calou-se
diante de tamanha violência. E sofreu com esse segredo por anos.
Mantendo
silêncio sobre o estupro que sofreu, sentindo-se culpada (pois infelizmente a
sociedade em que vivemos nos ensina a sentir culpa, mesmo quando somos
vítimas), Roxane não diz nada aos pais ou aos amigos. Cada vez mais
introspectiva, ela encontra na comida um consolo, uma fuga, um espaço de
proteção. Alguns estudos com vítimas de violência sexual indicam o aumento de
peso (e também os transtornos de ansiedade, insônia, depressão, entre outros) como um sintoma comum.
Para Roxane, como para muitas mulheres, comer compulsivamente e engordar
bastante foi uma forma de se proteger e de ficar invisível aos olhos dos homens
e, portanto, livre de sofrer outra violência sexual, uma vez que deixou de ser "desejável" de acordo com os padrões esperados dos corpos femininos.
“O que você tem
de saber é que a minha vida é dividida em duas, repartida de forma não muito
caprichosa. Há o antes e o depois. Antes de engordar. Depois de engordar. Antes
de ser estuprada. Depois de ser estuprada”. (p. 19)
É importante destacar que a
compulsão alimentar é um comportamento inconsciente e, mais importante ainda para refletirmos sobre a gordofobia e os padrões tão violentos impostos
principalmente às mulheres é nos perguntarmos: por que ser gorda é ser
invisível? Acho que essa é uma pergunta chave que o livro deve despertar em nós.
Nem
sempre o corpo gordo foi estigmatizado como ocorre nos dias de hoje, onde em
todos os cantos há informações sobre uma nova forma de emagrecer, uma nova
dieta do momento, por mais absurda e violenta que seja; há sempre um novo discurso que faz com que
as mulheres estejam sempre insatisfeitas com seus corpos, numa busca por um
padrão quase sempre impossível de alcançar. E isso causa grande sofrimento. É bom lembrar que o corpo gordo era valorizado
na Idade Média como sinal de poder e ascendência, só para dar uma amostra de
como esses padrões flutuam com o tempo e de acordo com certos interesses (Georges
Vigarello fala mais sobre isso no livro As
metamorfoses do gordo). Com o tempo, as normas nas sociedades ocidentais
passaram a ser cada vez mais exigentes em relação à aparência pessoal e
corporal, refletindo também as desigualdades de gênero entre homens e mulheres
na medida em que as cobranças em relação ao corpo feminino passaram a ser muito
mais severas. Vale a pena perguntar a quem interessa manter as mulheres
insatisfeitas consigo mesmas, sempre odiando seus corpos, e fazendo tudo o que
for possível para atingir o padrão de magreza estabelecido como o desejável.
É
relevante ter em mente também que nem todas as pessoas gordas vivenciaram
alguma violência e que nem todas as vítimas de violência serão gordas. Esta é
a história de Roxane, na qual ela encontra, através da escrita e do feminismo,
a sua verdade. Mas há muitas outras pessoas gordas, lutando para serem felizes
com o corpo que tem, apesar dos embates diários que precisam travar para se
aceitar em um mundo que a todo instante diz que uma pessoa gorda é sinal de
doença, de fracasso, de falta de vontade, de anormalidade, de feiúra. Ainda estamos longe
de chegar a ser um mundo de respeito pelas diferenças em todos os sentidos, de respeito ao outro, de
aceitação. Mas há muitas mulheres inspiradoras por aí, mostrando que é possível
resistir a essa busca por conformidade. Nesse ponto, o livro me incomodou em
alguns momentos pelo enfoque negativo dado a esse corpo gordo, mostrado por vezes como um
empecilho. Tem muita gente
aí mostrando o contrário. Contudo, entendo também que faz parte desse relato mostrar o processo vivido por Roxane, de passar por momentos de assimilar o discurso negativo sobre o corpo gordo com o qual somos todas bombardeadas diariamente, e também os momentos de resistir a esse discurso, de combatê-lo. E o feminismo serve de força nesses momentos.
“Mesmo sendo tão jovem, eu compreendia que ser
gorda era ser indesejável para os homens, ter o desprezo deles, e eu já sabia
demais sobre o desprezo deles. Isso é o que ensinam à maioria das garotas – que
devemos ser magras e pequenas. Não devemos ocupar espaço. Não devemos ser
vistas e ouvidas, e, se somos vistas, devemos ser uma visão agradável aos
homens, aceitáveis na sociedade. E a maioria das mulheres sabe disso, que nós
devemos desaparecer, mas isso é algo que tem de ser dito de forma ruidosa,
repetida, para que possamos resistir a nos render àquilo que esperam de nós”.
(p. 18)
Fome
é um livro extremamente honesto, e por isso mesmo, muitas vezes sofrido de se
ler, no qual a autora fala sobre os traumas, as dores, os medos, as
dificuldades que enfrenta diariamente por ser uma mulher negra e gorda (e também bissexual), desde os problemas para encontrar roupas, às dificuldades de estar em alguns
espaços, aos comentários ofensivos e cruéis que tem que ouvir sobre seu corpo. Mas é também sobre os
sonhos de Roxane, seu encontro com a escrita, pois sempre foi uma aluna
brilhante, sobre seu percuso de resistência diante das dificuldades. A fome de que
fala Roxane não é apenas por comida, e sim uma fome de muitas coisas que ela
deseja poder fazer e construir. E do ponto de vista da violência sofrida, ser
capaz de contar essa história de forma crua e intensa é um grande passo para a
autora e para outras muitas mulheres que podem encontrar nesse livro uma
inspiração para romperem o silêncio que, como diz a Audre Lorde, não vai nos
proteger. Vale a leitura.
* Roxane Gay é autora do best-seller do New York Times, vencedora de diversos prêmios de prestígio. PhD em Comunicação pela Universidade Técnica do Michigan, Roxane, além de escritora e palestrante, é editora e professora de Escrita Criativa na Universidade de Purdue. Atualmente mora em Lafayette, Indiana, e, de vez em quando, em Los Angeles.
* Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.
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