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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Coração e alma



A vida é um sopro (Clarice Lispector)

A frase de Clarice Lispector, “a vida é um sopro” passou muitas vezes pela minha cabeça enquanto lia Coração e alma, da escritora francesa Maylis de Kerangal. Em grande parte, isso se deve ao tema do livro, que narra todo o processo de um transplante cardíaco em um grande hospital da França, o que nos faz, inevitavelmente, pensar na efemeridade da vida e, consequentemente, no que fazemos da vida que temos. Falar da morte e da possibilidade de vida nos lembra da nossa humilde condição de mortais.

A temática do livro pode, a princípio, parecer estranha e acho que é pouco comum (pelo menos eu não me lembro de nenhum outro livro que fale do assunto), mas a forma com que a autora conseguiu escrever essa história surpreende pelo ritmo dado à narrativa, que tem uma velocidade e uma intensidade que conseguem transmitir essa ideia de efêmero (somos instantes) e também da agilidade com que esse processo de doação de órgãos precisa ser feito, literalmente correndo contra o tempo.

Outro ponto positivo do livro é, a meu ver, essa miríade de personagens, pessoas comuns em seu dia a dia que autora consegue retratar, em sua dimensão humana, complexa, cada uma vivendo seus dilemas, seus medos, sua solidão. Ao nos apresentar a perspectiva de cada personagem, conseguimos nos colocar no lugar do outro, pensar no que sente a família do futuro doador de órgãos, na tristeza da perda e do luto que vivenciam e a dor de ter que lidar com essa decisão tão imediata à morte; conseguimos também nos colocar no lugar dessas pessoas que trabalham nos hospitais, dos médicos às enfermeiras, que trabalham um número imenso de horas sob grande pressão para salvar vidas, ao mesmo tempo em que lidam com a morte; e nos imaginamos no papel desses pacientes que precisam de um transplante para seguir vivendo e tem uma vida repleta de angústia e espera até encontrar (e se tiverem a sorte de encontrar) um doador compatível.

Coração e alma é um livro bem diferente, que despertou em mim reações diferentes e por vezes, contraditórias. É uma leitura intensa, para quem gosta de livros para serem lidos de uma só vez e que desperta muitas reflexões. Repensei o tempo todo a minha decisão sobre doação de órgãos – e para quem nunca parou para pensar isso, esse romance é bem interessante para começar. Só por isso, acho que já vale a leitura.


Por fim, mas não menos importante, este é o primeiro livro escrito por uma autora publicado pela Rádio Londres, editora independente de ficção internacional fundada em 2015 e que tem publicado muitos autores inéditos no Brasil. Esperamos que mais obras escritas por mulheres sejam publicadas pela editora.

KERANGAL, Maylis de. Coração e alma. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2017. Trad. Maria de Fátima Oliva do Couto.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Butcher's Crossing


"Esses moços", disse McDonald com desdém. 
"Sempre acham que existe alguma coisa mais para descobrir" 


Estados Unidos, 1870. O jovem Will Andrews, estudante de Direito na Universidade de Harvard, decide largar tudo em busca de uma vida mais autêntica. Está em busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é e chega a Butcher's Crossing, uma cidadezinha do Kansas, dessas bem típicas dos filmes de faroeste, com um pouco de dinheiro e uma vontade de ver o mundo que até então ele só conheceu nos livros.

Ao chegar em Butcher's Crossing, ele procura um velho conhecido de seu pai, McDonald, dono de uma charquearia e o maior negociante de peles de búfalos da região. Enquanto caminha até lá, Will passa por grupos de caçadores que saem em busca dos búfalos, cujas peles são vendidas para McDonald, um negócio lucrativo na época. Nessa cidadezinha isolada, pacata, onde o tempo parece ter parado, as pessoas vivem na esperança da chegada da ferrovia, que mudaria para melhor as condições de vida e de trabalho de todos. 


No saloon da cidade, Will conhece Miller, um caçador experiente indicado por McDonald, e seu fiel escudeiro, Charley Hoge. Assim, ele fica sabendo dos sonhos de Miller de conseguir ir em busca da maior manada de búfalos que ele já viu, anos antes, em uma região mais afastada e que aparentemente se mantém intocada. Will vê nessa expedição a aventura que busca e decide partir com Miller, Charley e o rabugento Schneider, o esfolador contratado para tirar as peles dos búfalos, nessa jornada que o aproximará da natureza de forma intensa e transformadora.

Segundo romance do escritor estadunidense John Williams que chega ao público brasileiro pela Rádio Londres, Butcher's Crossing é um livro surpreendente, ao estilo de um bom faroeste americano, mas indo muito além disso. Um enredo aparentemente simples, mas que adquire grande profundidade em determinados momentos, como parece ser a marca de John Williams. Somos completamente envolvidos nessa história, cujas descrições tão ricas nos transportam de uma pequena cidadezinha no Kansas até as montanhas do Colorado. Quase dá para sentir a poeira, o vento, os cheiros.

Juntos, os quatro personagens enfrentam a exaustão física, a fome, a sede, o calor e o frio intenso do inverno. A caçada acaba por se tornar uma experiência existencial para eles, mas principalmente para Andrews, que passa por um processo de amadurecimento diante da vida durante essa jornada que acaba por durar muito mais tempo do que eles imaginavam. Nesse sentido, o romance pode ser lido como um romance de formação. Com seu jeito mais quieto e observador, e o contato com homens tão diferentes quanto Miller, Charley e Schneider por tanto tempo possibilitam um grande aprendizado e equilibram as diferentes perspectivas presentes durante a viagem.

Apesar do enredo simples, o que parece conquistar os leitores é a forma como John Williams consegue narrar a história de modo a nos envolver completamente nesse cenário de intenso contato com a natureza, com descrições ricas e sensoriais, tão perfeito que nos imaginamos mesmo dentro de um filme de faroeste (não é a toa que já existe um filme baseado nesse livro). O deslumbramento de Will diante da natureza - ao mesmo tempo tão assustadora - permite refletir sobre o papel da natureza na vida do homem, sua força, sua capacidade de transformação. Nenhum deles permanece o mesmo depois dessa jornada, ainda que o que movia cada um deles fosse algo diferente. Essa transformação é visível nas personagens, nas quais é possível perceber até mesmo certa animalização diante da experiência de isolamento em meio à natureza.
"Não conseguia imaginar sequer imaginar como seria. Com um leve choque, ele se deu conta de que o mundo, além daquela região cercada por encostas de montanhas por todos os lados, havia se apagado em sua memória. Não conseguia sequer se lembrar da montanha que haviam subido, sem mesmo da vasta planície onde haviam suado e sentido sede, tampouco de Butcher's Crossing, aonde chegara e que deixara apenas uma semana antes. Aquele mundo só lhe voltava aos surtos e de forma confusa, como que escondido num sonho. Havia passado naquele vale o período mais importante de sua vida, e quando olhou de cima - plano, verde-amarelado, as altas muralhas da montanha, amadeirada de pinheiros verdes escuros onde flamejava o ouro rubro dos álamos trêmulos, as rochas ressaltadas e as encostas, tudo toldado pelo azul intenso do céu de ar rarefeito -, parecia-lhe que os próprios contornos do lugar eram fluidos sob seus olhos, que seu próprio olhar modalva o que ele via e que, em troca, lhe dava à própria existência forma e lugar. Não conseguia mais pensar em si mesmo fora de onde se encontrava" (p. 194-195).
Butcher's Crossing é um livro sobre a necessidade de dar sentido à vida e à existência, a necessidade intensa de descobrir o mundo e desbravá-lo, procurando por algo que nem sabemos o que seja, sentimento tão comum na juventude (e às vezes também além dela). É um livro sobre as paixões e as ambições idealizadas, muitas das quais nos movem durante boa parte da vida, até percebermos que o tempo passou, que no final não fazia tanto sentido como imaginávamos. Talvez seja esse elemento existencial o que nos aproxima tanto do livro, mesmo que não tenhamos jamais imaginado gostar de uma narrativa que tratasse de caçadas de búfalos e homens em território selvagem. Mas se pensarmos que essa caçada é a vida, e que a busca desenfreada por trabalho, aventuras e descobertas, e também paixões, seja um sentimento tão comum entre nós, a ser trabalhado com o tempo e o amadurecimento (sábias palavras do velho McDonald), tudo faz mais sentido. E nos deixa com um sentimento, misto de melancolia e nostalgia, quando a jornada das personagens (e a leitura do livro) chega ao fim. Uma das melhores leituras do ano.

"Depois de um instante de euforia diante do anúncio de Miller, Andrews se sentiu tomado por uma tristeza estranha, como um pressentimento de nostalgia. Olhou para a pequena fogueira ardendo alegremente contra a escuridão e, mais além, ele viu a escuridão. Lá estava o vale que ele acabara conhecendo tão bem quanto a palma da própria mão. Ele não conseguia enxergá-lo, mas sabia que estava ali; e lá estavam os cadáveres putrefatos dos búfalos por cujas peles eles haviam trocado seu suor, seu tempo e boa parte de suas energias. Os fardos de peles também estavam por ali no escuro. Pela manhã, eles os carregariam na carroça e iriam embora daquele lugar; e ele teve a sensação de que jamais retornaria ali, embora soubesse que precisaria voltar com os outros para buscar as peles que não conseguissem levar. Sentia vagamente que estava deixando alguma coisa para trás, algo que talvez pudesse ser precioso para ele, se soubesse do que se tratava. Naquela noite, depois que a fogueira apagou, ele se deitou no escuro, sozinho, fora do abrigo, e deixou que o frio atravessasse suas roupas e sua carne. Enfim, adormeceu, mas acordou à noite várias vezes, e forçou a vista diante da escuridão da noite sem estrelas" (p. 254).
***

John Edward Williams (1922-1994) nasceu em Clarksville, no Texas, Estados Unidos. Serviu na aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1954, recebeu o título de doutor em Literatura Inglesa na Universidade do Missouri. Trabalhou como professor assistente de Literatura Inglesa na Universidade de Denver até sua aposentadoria, em 1985. Em Denver, também foi o editor fundador de uma revista literária,The Denver Quarterly. Publicou quatro livros: 
"Nothing but the Night" (1948), "Butcher's Crossing" (1960),  "Stoner" (1965) e Augustus (1972), que ganhou o National Book Award. Também publicou dois livros de poesia: "The Broken Landscape: Poems" (1949) e "The Necessary Lie" (1965).


*Recebi este livro como cortesia da Editora Rádio Londres.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Tirza


Todas as famílias felizes se parecem,
cada família infeliz é infeliz à sua maneira.
Liev Tolstói


O romance Tirza, do escritor holandês Arnon Grunberg, tem como enredo a história de uma família holandesa de classe média, formada por Jörgen, sua esposa (que não tem nome na narrativa) e suas duas filhas, a mais velha, Ibi, e a caçula, Tirza, que dá título ao livro.  
Jörgen é um editor de livros de ficção estrangeira em uma editora, tem uma casa em um dos melhores lugares de Amsterdã e aparentemente uma vida de fazer inveja a qualquer um. Isso até nos aproximarmos um pouco mais dessa história, narrada sob a perspectiva de Jörgen e, a cada capítulo, perceber a loucura, a violência, a tensão constante e a falta de estrutura da família Hofmeester. Prestes a se aposentar, Jörgen é um homem que faz de tudo para ser aceito pelas pessoas, importando-se mais com o que os outros pensam dele, pois para ele são os outros que nos definem. Ele quer a todo custo ter controle sobre tudo ao seu redor e ao falhar com frequência algumas atitudes suas reverberam a tensão que ele sente e tenta reprimir por ter falhado. 
A história começa com os preparativos da festa de despedida de Tirza, sua filha caçula e a preferida dele. Empenhado em fazer tudo da melhor maneira possível, mas sem a menor chance de ter sucesso, Jörgen aprende a cozinhar para cuidar de Tirza depois que a sua esposa o abandona para viver uma paixão de juventude. Apesar de passar anos esperando a volta da esposa, mesmo sem ter por ela um sentimento de amor, ele segue vivendo tentando controlar a vida que lhe resta. Ibi, sua filha mais velha, para seu desgosto abandona a faculdade e vai morar na França com o namorado, trabalhando em uma pousada. Mas nada disso parece de fato abalar Jörgen, afinal, ele tem Tirza em sua vida e a filha passa a ser sua obsessão. 
Alguns contratempos surgem na tão esperada festa de despedida de Tirza, que acaba de se formar e vai viajar para a África com o novo namorado. A esposa, que não aparecia nem dava notícias há anos, reaparece um dia antes da festa e para ficar. A relação conturbada dos dois fica então mais evidente, mas mesmo assim Jörgen, na tentativa de controlar tudo para que nada dê errado na festa de Tirza, não consegue reagir e aceita passivamente a volta da esposa, inclusive a dividir a mesma cama com ela. Tudo é muito estranho na família Hofmeester. E, como já imaginávamos, muita coisa dá errado na tão esperada festa de Tirza. Ainda que tente aparentar ser um ótimo pai e um excelente anfitrião, Jörgen não se encaixa em nenhum lugar. Sua tentativa de controlar tudo ao redor só gera mais e mais tensão e ele acaba por terminar a festa no quarto de ferramentas no jardim, dando espaço para o que já não consegue reprimir.
Depois da festa, e mesmo não aceitando o novo namorado de Tirza, o aparente controle que Jörgen tenta exercer o faz levar o casal até a sua casa de campo, para um último final de semana antes dos dois partirem juntos para África. Tudo já havia sido planejado por Jörgen, que quer a todo custo levar Tirza até o aeroporto e lidar, de sua forma 'torta', com a partida de Tirza.
Na terceira e última parte do romance, ambientado em África, quando Jörgen viaja em busca de Tirza, estamos mais uma vez diante do mundo através de visão eurocêntrica e obcecada de Jörgen, e as certezas desse homem se perdem e se confundem ao mesmo tempo em que as evidências passam a fazer cada vez mais sentido para o leitor.
Uma narrativa brilhante, envolvente até a ultima página, e apesar de tratar de temas tão difíceis em um cenário simples, já que praticamente 80% do romance se passa na própria casa dos Hofmeester, é um livro que nos intriga e nos faz refletir durante toda a leitura. Tirza, como toda boa literatura, faz o leitor sair de sua zona de conforto. E como tudo o que nos inquieta, continua martelando em nossa mente por um bom tempo.

GRUNBERG, Arnon. Tirza. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2014.

*Escolhi e recebi este livro como cortesia da Rádio Londres Editores.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Estação Atocha


O romance é narrado em primeira pessoa por Adam, um jovem poeta estadunidense que ganha uma bolsa de estudos em uma prestigiosa instituição para desenvolver um projeto de pesquisa em Madri sobre poetas espanhóis e seu papel na guerra civil espanhola. Mas Adam é um rapaz que não acredita em si mesmo, que não sabe o que quer da vida, e que está o tempo inteiro refletindo sobre as suas menores ações, buscando analisar o que os outros vão pensar a respeito dele, e se isso está de acordo com o que ele quer que os outros pensem, ainda que isso seja para ele uma grande representação. Nem ele mesmo sabe como conseguiu essa bolsa de estudos, se pouco sabe sobre seu próprio projeto de pesquisa e sabe pouco do idioma.
Usuário de drogas como maconha e haxixe, de medicamentos para depressão e ataques de pânico em altas dosagens, tudo isso associado a um grande consumo de álcool, fazem de Adam um ser caótico, que nada tem de herói. Ele usurpa não apenas versos que lê em outros livros, modificando-os para se apropriar da poesia de outros poetas, como também se apropria de histórias que outras pessoas lhe contam e depois as utiliza em outro contexto, numa tentativa bem desajeitada de criar uma narrativa de si mesmo um pouco mais interessante do que Adam acredita ser.
Durante a leitura, que se arrasta até quase a metade do livro e que depois ganha um pouco mais de ritmo, não consegui me identificar com o protagonista, nem consegui compreender por que dizem que é um romance engraçado. O que Adam quer da vida? Ser poeta? Se tornar um acadêmico? Casar e ter filhos? Ele não sabe e o livro trata basicamente disso, da falta de certeza sobre o que se quer fazer da vida e de como dessa forma Adam passa por ela sem sentir, nem o que escreve, nem o que se passa ao seu redor, sem estabelecer laços afetivos. Diante do atentado terrorista que ocorre em Madri na Estação Atocha que dá nome ao livro (e que é também título do poema "Leaving the Atocha Station" de John Ashbery, poeta muito lido por Adam durante todo o romance e sobre o qual o autor já escreveu ensaios), podemos situar no tempo o romance de Ben Lerner. Porém, Adam não consegue se envolver nem com os protestos políticos que tomam conta das ruas da cidade após a tragédia (o atentado ocorreu em março de 2005, matando mais de 200 pessoas e deixando muitos feridos, a maioria imigrantes), nem muito menos se solidarizar com tantas mortes de inocentes ocorridas a poucos metros do apartamento onde vivia. O egoísmo de Adam só faz com que ele pense nas chances que ele teve de ter morrido/sobrevivido.
O texto, em intenso fluxo de consciência, parece encenar as angústias desse jovem poeta diante da experiência artística, na busca por compreender se ele é mesmo digno de sua arte. Alguns leitores podem achar que este é um romance de formação, que ao final da história alguma transformação ocorreu em Adam. Outros, como ocorreu comigo, podem não ver transformação nenhuma nesse personagem que permanece imerso em si mesmo, nos seus pensamentos e concentrado em sua própria observação do mundo, descrente de seu papel enquanto artista ou cidadão. Duas possibilidades de interpretação sobre a transformação do personagem que deixam para o leitor essa reflexão sobre as intersecções entre arte e realidade na contemporaneidade.

***

"Por muito tempo, eu convivera com a preocupação de ser incapaz de passar por uma profunda experiência artística e me custava acreditar que alguém mais fosse, pelo menos entre os meus conhecidos. Nutria profundo ceticismo a respeito das pessoas que alegavam que um poema ou uma música tinham "mudado a vida delas", especialmente porque, observando-as antes e depois dessa experiência, não conseguia detectar a menor mudança. Embora quisesse dar uma de poeta e apesar de ter ganhado minha bolsa de estudos na Espanha graças a meu suposto talento literário, eu só conseguia apreciar a beleza dos versos quando os encontrava citados em trechos de prosa, nos ensaios que os professores da faculdade me mandavam ler, com as barras substituindo as quebras de linha, de modo que o que me impressionava não era um poema em particular, mas o eco de uma possibilidade poética. O que realmente me interessava na arte era a desconexão entre a minha percepção das obras de arte físicas e as alegações feitas em nome delas. A sensação mais próxima de uma profunda experiência artística que eu tivera talvez tenha sido a vivência dessa desconexão, uma profunda experiência da ausência de profundidade". (p.9)

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LERNER, Ben. Estação Atocha. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2015.

Escolhi e recebi este livro como cortesia da Editora Rádio Londres.

terça-feira, 31 de março de 2015

Minotauro


Alguns livros (hoje em dia cada vez mais raros) nos conquistam desde a primeira página. "Minotauro" é, sem dúvida, um deles. Pela própria forma como a narrativa é construída, o leitor, principalmente o mais curioso, não consegue deixar de lado uma história assim tão intrigante. Logo nos damos conta de que nós é que estamos presos no labirinto criado por Tammuz. Por conta do suspense estabelecido ao longo do texto, que só desvendamos de fato no final, Minotauro é um daqueles livros destinados a viver na prateleira de livros favoritos dos leitores mais exigentes. O livro, que foi um grande sucesso mundo afora nos anos oitenta, finalmente chega aos leitores brasileiros pela editora Rádio Londres com tradução direta do Hebraico de Nancy Rozenchan.

O enredo conta a história de um homem, um agente secreto, que no dia do seu aniversário de quarenta e um anos está sozinho em um quarto de hotel, bem longe de casa. Sabemos que o relacionamento dele com a sua esposa e seus três filhos é muito frio e distante. É um homem introvertido, misterioso, que vive em solidão.
Quando o agente secreto entra em um ônibus de uma cidade que a princípio não sabemos muito bem qual é, apenas que é bem distante de sua cidade de origem, ele finalmente encontra o objeto do seu amor: mas ela tem dezessete anos e ele, quarenta e um. Impossível não pensar na Lolita, do Nabokov:
"A jovem da esquerda tinha cabelo cuja cor era uma espécie de cobre, cobre escuro, brilhando com um reflexo dourado. O cabelo era liso e preso na nuca com uma fita de veludo preto, atada num laço cruzado. A fita, assim como os cabelos, destacava-se pela limpeza fresca, o tipo de limpeza imaculada que é encontrada nas coisas que ainda não foram tocadas pela mão que manuseia" (p.13)

Obcecado por Téa, ele começa a segui-la silenciosamente e o "diálogo" entre eles passa a acontecer através de cartas anônimas que ele começa a enviar para ela. Téa não sabe quem escreve essas cartas, nem para onde poderia enviar uma resposta, então começa a escrever cartas para ele, guardando-as em uma caixa destinada a esse remetente anônimo, que um dia ela espera conhecer. Quem seria esse homem misterioso, que já sabe tanto sobre ela, e que lhe escreve cartas tão belas de amor? Apesar do discurso "amoroso" das cartas, é difícil não pensar que mulher receberia estranhas cartas anônimas por tanto tempo de um homem que claramente está obcecado por ela e não sentiria medo, e não contaria para ninguém. Mas Téa, logo nas primeiras páginas, é descrita pelo narrador como alguém fácil de manipular, que faria tudo o que ele quisesse: "capaz de devoção total, entusiasta" (p. 15). Téa, portanto, não tem voz nessa história, assim como as demais mulheres que aparecem ao longo do narrativa. Todas aceitam passivamente e com total subserviência o que os homens lhes ordenam. Isso é algo que sem dúvida merece ser pensado durante a leitura de Minotauro.

Há uma tensão que perdura por toda a narrativa, e paira no ar a sensação de que algo trágico vai acontecer. Podemos sentir isso na angústia de Téa, que acaba por se envolver cada vez mais com essas cartas, que, feito fios, passam a prendê-la pouco a pouco no mistério desse homem que ela nunca viu, do qual ela pouco ou nada sabe, mas que a imaginação lhe permite idealizar. As fantasias românticas de Téa casam-se perfeitamente com o delírio obsessivo do agente secreto que manipula seus sentimentos durante anos.
"Você jamais terá a oportunidade de me formular perguntas, mas a minha voz chegará a você por meio de cartas, e eu sei que as lerá" (p.15, carta do agente secreto para Téa)
Temos assim uma troca de cartas, mas em alguns momentos lemos em sequência algumas cartas escritas pelo agente secreto, o que nos deixa imaginando as possíveis respostas de Téa, e, em outros momentos, lemos em sequência algumas cartas de Téa, o que também nos faz imaginar quais seriam as respostas de nosso agente secreto. Mas, enovelados que estamos nos fios dessa narrativa tão bem construída por Tammuz, lembramos que as cartas de Téa até então não haviam sido enviadas para ele, estavam todas em uma caixa. O diálogo foi todo através da imaginação. Da nossa imaginação e da imaginação desses personagens. 

Depois passa a haver de fato uma troca de cartas, que tornam-se menos ou mais frequentes em certos períodos. Assim como Téa, que espera pelas cartas de seu interlocutor anônimo, nós também ficamos aflitos por saber mais sobre esse personagem misterioso, obsessivo e romântico. 

Mais dois personagens são fundamentais para essa narrativa que tem quatro vozes importantes: G.R. e Nikos.
G.R., um rapaz também apaixonado por Téa, que faz de tudo para conquistá-la, surge como um terceiro elemento. Passa a estudar muito e a tirar boas notas na faculdade só para impressioná-la. Cultivou por muito tempo uma paixão platônica por Téa, até conseguir dela se aproximar. Mas qual homem poderia competir com o homem idealizado que, após anos de correspondências anônimas, mora no coração fantasioso de Téa? Ou será que um relacionamento real conseguiria destituir esse homem misterioso do mito que ele se tornou?

A quarta voz é Nikos, que deixa o coração de Téa em dúvida sobre sua verdadeira identidade. As semelhanças entre ele e o que ela imagina ser o agente secreto são muitas e Téa já está exausta de conviver há anos com esse suspense. Será que ele é o agente secreto com quem ela se corresponde há anos?

Por fim, o emaranhado de fios se desembaraça, não sem antes passear pela vida desses personagens, desde a infância. Esse passeio pelas lembranças do passado de cada um acaba por elucidar muitas de suas ações no presente em que se passa parte da história. Principalmente quando o passado do agente secreto é desvendado, a questão política ajuda a contextualizar no tempo e no espaço parte importante do enredo.

Minotauro é um livro inquietante, que nos faz refletir sobre a obsessão e a necessidade humana de amar e ser amado. É um livro triste por falar de uma solidão irreparável, sem salvação. Das marcas que relações familiares destituídas de amor podem deixar em nós a tal ponto de sermos capazes de reproduzi-las. Nem mesmo o amor de Téa pode salvar o minotauro do destino que ele acredita ser seu. Do mito do Minotauro na mitologia grega fica a lição: não há como enganar os deuses.


***
Benjamin Tammuz nasceu na Rússia, em 1919, e emigrou para a Palestina com a família aos cinco anos de idade. Estudou Direito e Economia na Universidade de Tel Aviv e mais tarde frequentou a Sorbonne, em Paris, onde cursou História da Arte. Foi escultor, pintor, romancista, jornalista e crítico literário. Por muitos anos foi editor do suplemento literário do jornal Ha'aretz. Durante quatro anos foi adido cultural da Embaixada de Israel em Londres. Seus romances e contos foram traduzidos para vários idiomas e receberam diversos prêmios literários, consagrando Tammuz como um dos mais ilustres expoentes da literatura hebraica contemporânea. O romance Minotauro foi eleito o livro do ano na Inglaterra quando foi publicado em 1989, tendo recebido elogios de grandes escritores. Benjamin Tammuz faleceu em 1989 em Tel Aviv. 

TAMMUZ, Benjamin. Minotauro. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2015. Tradução: Nancy Rozenchan.

Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Rádio Londres.

terça-feira, 10 de março de 2015

Rádio Londres - Parceria




A Rádio Londres é uma editora independente que acaba de estrear no mercado literário brasileiro em grande estilo, com um catálogo de alta qualidade, que já pelos primeiros livros tem se destacado com a publicação de vários títulos de ficção internacional que nunca foram traduzidos para o português. Já estou namorando os livros do catálogo desde que soube da nova editora em janeiro de 2015 e é por isso que estou feliz em anunciar que o blog Pipa não sabe voar foi selecionado como blog parceiro da Rádio Londres Editora. Com isso, vocês, leitores do blog, poderão acompanhar os principais lançamentos da Rádio Londres Editora com resenhas que publicaremos aqui no blog após a leitura dos livros. São muitos títulos interessantes e alguns deles já estão disponíveis nas melhores livrarias. Para conhecer melhor o catálogo da editora, clique aqui.
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