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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Dia bonito pra chover



Insurreição

Seria mais fácil não amar os pessegueiros macios
e nada sorver do seu perfume,
mas os meus dentes querem a carne do seu corpo,
minha língua deseja lamber do seu sumo.

O certo seria plantar a semente e esperar,
dos laços e nós dos caules finos,
aspergir-se o perfume da fruta vindoura.
Mas meu corpo tem pressa
e não respeita os relógios que inventam o tempo.

Minha natureza é temporã.
Eu sou das fêmeas que vão!
ficar é para quem tem raízes,
ceder é para quem deseja morada: eu sou o desabrigo.
Quero a fruta furtada do pé.
comer seu gosto ainda verde,
morder suas entranhas ainda duras.

Não sou das que esperam,
sou das que não querem nem chegar,
sou de partir e, no precipício, ainda ser silenciosa,
inteira.
Sou uma destas mulheres que vão.
ficar é raiz.
partir é imensidão.


Lívia Natália. Dia bonito pra chover. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2017.


sábado, 10 de outubro de 2015

Um poema de Ana Martins Marques

O que eu sei

Sei poucas coisas sei que ler                                                
é uma coreografia
que concentrar-se é distrair-se
sei que primeiro se ama um nome sei
que o que se ama no amor é o nome do amor
sei poucas coisas esqueço rápido coisas
que sei sei que esquecer é musical
sei que o que aprendi do mar não foi o mar
que só a morte ensina o que ela ensina
sei que é um mundo de medo da vizinhança
de sono de animais de medo
sei que as forças do convívio sobrevivem no
tempo
apagando-se porém
sei que a desistência resiste
que esperar é violento
sei que a intimidade é o nome que se dá
a uma infinita distância
sei poucas coisas

Poema de Ana Martins Marques, do belíssimo "O livro das semelhanças" (Companhia das Letras, 2015)

***
Ana Martins Marques nasceu em 1977, em Belo Horizonte. Graduada em Letras, tem mestrado em literatura brasileira pela UFMG. É autora de A vida submarina e Da arte das armadilhas, vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional em 2012.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Pour mémoire

Pour mémoire

Não me toques
nesta lembrança.
Não perguntes a respeito
que viro mãe-leoa
ou pedra-lage lívida
ereta
na grama
muito bem-feita.
Estas são as faces da minha fúria.
Sob a janela molhada
passam guarda-chuvas
na horizontal,
como em Cherbourg,
mas não era este
o nome.
Saudade em pedaços,
estação de vidro.
Água.
As cartas
não mentem
jamais:
virá ver-te outra vez
um homem de outro continente.
Não me toques,
foi minha cortante resposta
sem palavras
que se digam
dentro do ouvido
num murmúrio.
E mais não quer saber
a outra, que sou eu,
do espelho em frente.
Ela instrui:
deixa a saudade em repouso
(em estação de águas)
tomando conta
desse objeto claro
e sem nome.

Ana Cristina César

CÉSAR, Ana Cristina. A teus pés. São Paulo: Editora Ática, 1998.

domingo, 8 de junho de 2014

Poesia domingueira

Der Spaziergang, by Marc Chagall

Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira

domingo, 1 de junho de 2014

Poesia Domingueira

Da vista e do visto

Mais uma vez é maio; não o levaste contigo;
horas se escrevem hoje com o lápis de sempre,
ultramar e um tanto adolescente; não o levaste,
maio, mês de meu aniversário, quando a melancolia
é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios;

vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste
maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo;
algo, porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei,
e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência
ou não, procuro e não encontro a minha antiga alegria.

Eucanaã Ferraz


FERRAZ, Eucanaã. Sentimental. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sob uma estrela pequenina


Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.

Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.

Me desculpe a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.

Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo de ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não poder estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.

Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgue má, fala, por tomar
emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

Wislawa Szymborska. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Tradução: Regina Przybycien.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

poema das árvores e da aprendizagem

poema das árvores e da aprendizagem

tudo o que as árvores fazem é pensar. ficam generosas à espera de chegar a uma conclusão. e se morrem, não é absoluto que tenham tido resposta. deram sombra, pássaro, fruto e vento, mas podem partir quietas, como quem tomba para dentro de si mesmo, com felicidade pelo que já passou e nenhuma mágoa, só a aceitação sábia do tempo

[pág. 155]

Valter Hugo Mãe. Contabilidade - poesia 1996-2010. Lisboa: Editora Objetiva, 2010. 294 páginas.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Afinação.


Mariana Botelho. O silêncio tange o sino. São Paulo: Ateliê Editorial, 2010.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Poesias de Clarice

A mágoa,
Os telhados sujos a sobrevoar
Arrastas no vôo a asa partida
Acima da igreja as ondas do sino
Te rejeitam ofegante na areia
O abraço não podes mais suportar
Amor estreita asa doente
Sais gritando pelos ares em horror
Sangue escoa pelos chaminés.
Foge foge para o espanto da solidão
Pousa na rocha
Estende o ser ferido que em teu corpo se aninhou,
Tua asa mais inocente foi atingida
Mas a Cidade te fascina.
Insiste lúgubre em brancura
Carregando o que se tornou mais precioso.
Voas sobre os tetos em ronda de urubu
Asa pesa pálida na noite descida
Em pálido pavor
Sobrevoas persistente a Cidade Fortificada escurecida
Capela ponte cemitério loja fechada
Parque morto floresta adormecida,
Folha de jornal voa em rua esquecida.
Que silêncio na torre quadrada.
Espreitas a fortaleza inalcançada.
Não desças
Não finjas que não doi mais
Inútil negar asa partida.
Arcanjo abatido, não tens onde pousar.
Foge, assombro, inda é tempo,
Desdobra em esforço a sua medida
Mergulha tua asa no ar.
Clarice Lispector
Publicado no Diário de São Paulo em 5/1/1947.
Foi mantida a grafia original.
Para ler a matéria inteira sobre a (verdadeira) poesia de Clarice, vejam o site da Cosac Naify: http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=8284

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Yeats.

Até hoje não consigo explicar muito bem esses dias em que a gente acorda meio "blue", sem nenhum motivo concreto. Aqueles dias em que nem um chocolate resolve. E de um livro para um filme, de uma cena para um poema, eis que eu encontro conforto. Acho um mistério isso que a poesia tem de dizer tudo aquilo que a gente queria dizer, nem sempre para outra pessoa, às vezes para nós mesmos, de uma forma simples e tão bonita.
O poema que me salvou ontem é de William Butler Yeats, poeta e dramaturgo irlandês. E no filme ele é declamado por Anthony Hopkins. Quem sabe ele não possa salvar mais alguém por aí também.




HAD I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

William Butler Yeats, He Wishes For The Cloths Of Heaven

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Baladas

Corpo de argila
meu triste corpo
não é verdade

se te disserem
minha elegia
ser mais vaidade
do que homenagem.

Por que o seria?
Me adivinhaste
quando a palavra
nada dizia

e longo tempo
(quando se amava)
havia dias
em que choravas

e estremecias.

Falam de ti.
Da tua pouca
fidelidade.

Mas o que importa
a infinidade
dos teus amantes
se toda vez
que te entregavas
extenuado

te perdias.
Ah, se a poesia
me permitisse
vôos mais altos

mesmo na morte
as confidências
que eu te faria...

Ainda me tens.
E bem por isso
destila em mim
teu peso enorme.

E no poema
que te dedico

meu triste corpo
ainda uma vez
chora comigo
chora comigo.

Hilda Hilst. Baladas. São Paulo: Globo, 2003. pág. 102-103