sábado, 10 de outubro de 2015

Um poema de Ana Martins Marques

O que eu sei

Sei poucas coisas sei que ler                                                
é uma coreografia
que concentrar-se é distrair-se
sei que primeiro se ama um nome sei
que o que se ama no amor é o nome do amor
sei poucas coisas esqueço rápido coisas
que sei sei que esquecer é musical
sei que o que aprendi do mar não foi o mar
que só a morte ensina o que ela ensina
sei que é um mundo de medo da vizinhança
de sono de animais de medo
sei que as forças do convívio sobrevivem no
tempo
apagando-se porém
sei que a desistência resiste
que esperar é violento
sei que a intimidade é o nome que se dá
a uma infinita distância
sei poucas coisas

Poema de Ana Martins Marques, do belíssimo "O livro das semelhanças" (Companhia das Letras, 2015)

***
Ana Martins Marques nasceu em 1977, em Belo Horizonte. Graduada em Letras, tem mestrado em literatura brasileira pela UFMG. É autora de A vida submarina e Da arte das armadilhas, vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional em 2012.

sábado, 3 de outubro de 2015

Sonhos em tempo de guerra



Sonhos em tempo de guerra é o primeiro volume de memórias do escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong'o. Nascido em 1938, em uma região rural do Quênia, ele cresceu sob o impacto da Segunda Guerra Mundial nas colônias britânicas. Este primeiro volume reúne as memórias de infância, nas quais o autor relembra o cotidiano e as peculiaridades de sua família (seu pai era casado com quatro esposas, e todas viviam próximas umas das outras, cuidando dos 24 filhos que formavam ao todo essa família) e, principalmente, destaca como as histórias da tradição oral ouvidas na sua infância, ao redor do fogo e em conversas em sua aldeia, contribuíram para que ele se tornasse um escritor. Vale lembrar que Ngũgĩ wa Thiong'o tem sido um dos autores cotados a ganhar o Prêmio Nobel nos últimos anos.

"Eu ansiava pela chegada dessas noites; parecia-me um glorioso alumbramento que histórias tão bonitas e às vezes assustadoras pudessem sair daquelas bocas. Para mim o melhor eram aquelas histórias nas quais a plateia se juntava para cantar o coro. A melodia era invariavelmente cativante; eu sentia como se fosse transportado a outro mundo de infinita harmonia, até mesmo na tristeza. Isso intensificava minha expectativa do que iria acontecer em seguida." (p. 34)

Os impactos da Segunda Guerra foram sentidos nas colônias, não apenas nas histórias que passaram a circular sobre os "ogros" comandados por Hitler e Mussolini e sobre os heróis, integrantes da comunidade, que estavam lutando pelo Império Britânico, mas pelas dificuldades que afetaram a vida na colônia, como a dificuldade de circulação de alimentos, que gerou períodos de fome e penúria em determinadas áreas. Os primeiros contatos com os homens brancos, algo que marcou a memória do autor e de sua comunidade, ocorreram em 1941, com os prisioneiros de guerra italianos, incumbidos de construir uma estrada de ferro de Nairóbi até o interior. A comunicação entre os italianos e os quenianos da aldeia se dava de forma rudimentar, e chega a ser engraçado as recordações do autor sobre as palavras mais recorrentes que ouviam, da qual deduziam um significado, e que passavam a representar um povo. No caso dos italianos, dada a repetição, passaram a ser apelidados de "Bono" por eles. A violência desses contatos, ainda que de forma sutil, também é descrita pelo autor:

"Houve um tempo em que eu não mais via o Bono Mayai caminhando ou pedindo coisas em nenhuma de nossas vilas. Eles não voltaram. [...] Mas os Bonos deixaram sua marca arquitetônica na igreja que ergueram perto da estrada na borda do Vale Rift em suas horas de descanso, e sua marca sociobiológica nas famílias desfeitas e nos bebês pardos, sem pais, nascidos nas várias aldeias que haviam visitado" (p. 44)

Com o fim da guerra em 1945, o retorno dos soldados, considerados os grandes heróis nesse imaginário infantil, também descreve de que forma a guerra deixa suas marcas, não apenas físicas, mas também psicológicas naqueles que dela participaram. A volta do meio-irmão do autor, que para ele havia lutado nos campos de batalha, mas que exercia na realidade um trabalho burocrático, sinaliza o desejo desse menino por uma educação melhor, que até o momento só esse meio-irmão parecia ter alcançado, e que para ele parecia um sonho impossível. Até o dia em que sua mãe lhe pergunta se quer ir para a escola, e os dois fazem um pacto: ela arcará com as despesas de mensalidade, mas precisa que ele faça sempre o seu melhor, mesmo diante das dificuldades que enfrentará, como não poder levar algo para comer ao meio-dia. É o desejo de aprender dessa criança, em uma escola com costumes diferentes do seu (há uma passagem bonita sobre o estranhamento que o jovem Ngũgĩ sente diante das orações silenciosas na escola - mais uma das marcas da colonização britânica-, que ele levou tempo para entender ser a forma que os colegas e professores rezavam, e que agora lhe era imposta) e a força dessa mãe, sempre preocupada muito mais com o processo de aprendizagem do que com os resultados, que transforma a vida desse menino através da educação.

"Percebo que mesmo as palavras escritas podem transmitir a música que eu amava nas histórias, particularmente a melodia dos coros. E no entanto isso não é uma história; é uma afirmação descritiva. Não traz uma ilustração. É uma imagem em si mesma e, contudo, mais do que uma imagem e uma descrição. É música. Palavras escritas também podem cantar" (p. 67, sobre quando ele aprende a ler)

Os fios que tecem essas memórias são feitos com a ternura e o olhar ainda inocente, cheio de esperança, que costuma caracterizar a infância. Através das memórias por vezes singelas de Ngũgĩ wa Thiong'o passeamos não apenas pelo tempo e por uma região diferente da nossa, mas por uma parte da história pouco conhecida por nós: o olhar de África sobre a colonização. E vemos, aos poucos, como cada uma das muitas histórias vividas e narradas por diversas pessoas contribuiu na formação de um escritor.

***
Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em Kamirithu, Quênia, em 1938, período no qual o país ainda era colônia do Império Britânico. Autor de romances, contos, peças de teatro e ensaios, no fim da década de 1960 renunciou à língua inglesa, ao catolicismo e ao nome de batismo, James, e passou a escrever em gĩkũyũ, língua bantu. Em 1977, foi preso por conta de uma de suas peças. Desde 1992, é professor de literatura comparada na Universidade da Califórnia, Irvine.


Ngũgĩ wa Thiong'o. Sonhos em tempo de guerra: memórias de infância. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015. Trad. Fábio Bonillo e Elton Mesquita.

 *Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

domingo, 27 de setembro de 2015

A pedra de paciência


"A Pedra de Paciência", de Atiq Rahimi

Em plena guerra no Afeganistão, uma jovem mulher cuida de seu marido, um soldado e herói de guerra que está em uma espécie de coma por conta de um ferimento na nuca durante uma luta. A primeira impressão que temos é a diferença de idade entre os dois, seguida pelo estado de abandono da casa, que parece estar em ruínas. Mãe de duas filhas pequenas, essa jovem mulher se vê totalmente desamparada diante do marido em coma, sob os seus cuidados já que toda a família dele fugiu da guerra, deixando-a para mantê-lo vivo, com duas filhas pequenas para alimentar, e correndo todos os riscos de estar em meio a um bombardeio, principalmente se você for mulher.

É a sensação de desamparo que parece mover a personagem a falar o que sente, o que se lembra, e todos os segredos que silenciou durante mais de dez anos de casamento. O filme, nesse sentido, é um monólogo que descreve toda a opressão das mulheres na sociedade afegã (mas não apenas por lá...). Diariamente voltando para a sua antiga casa para cuidar do marido depois de deixar as filhas aos cuidados de uma tia, que mora em um bordel em uma região mais afastada do centro, a jovem esposa se sente cada vez mais compelida a falar. Histórias desde a sua juventude, quando ficou noiva aos 16 anos do marido, as recordações da sua primeira noite com o marido que revelam como a mulher é objetificada, das cobranças da família para engravidar, o sofrimento da primeira gravidez, entre muitas outras histórias começam a ganhar força e a sensação da personagem é de libertação. Em determinado momento, ela diz para o marido em coma: "em todos esses anos, essa é a primeira vez que você me escuta". Uma afirmação que denuncia toda a opressão sofrida pelas mulheres, que silenciam seus desejos e sonhos, mas também seus segredos, para sobreviver em uma sociedade que não lhes permite ser. Afinal, pode realmente o subalterno falar? É essa a grande reflexão do filme, que demonstra que, mesmo que falem, quase sempre as mulheres não são ouvidas.

"A Pedra de Paciência", de Atiq Rahimi

Mas falar é terapêutico e libertador, e isso a protagonista logo descobre. Mesmo que sem ter certeza de que o marido de fato a estivesse escutando. Narrar essas histórias para o marido é uma forma de curar as suas mágoas e, finalmente, se libertar dos segredos que carregou durante toda a vida. Apesar de ser em grande parte um monólogo, o filme não é nem um pouco monótono. Pelo contrário, seguimos o tempo todo envolvidos nas histórias sofridas e nos solidarizando com ela, mas também compartilhando do despertar dessa personagem para a sua própria vida. Um filme intenso e forte, que discute a opressão feminina e que, sem dúvida, merece ser visto.

Se quiser saber mais um pouco do filme, veja o trailer a seguir:

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Cadeia: relatos sobre mulheres



"As mulheres do presídio são muito parecidas entre si - pobres; pretas ou pardas; pouco escolarizadas; dependentes de drogas, cujo crime é uma experiência da economia familiar"

"Cadeia: relatos sobre mulheres" é uma espécie de caderno de campo, no qual a pesquisadora e antropóloga Debora Diniz anotou as histórias que ouviu de mulheres, prisioneiras temidas, durante os seis meses em que visitou a penitenciária feminina do Distrito Federal.

Pesquisadora premiada e reconhecida por sua produção acadêmica, Debora Diniz compartilha com o leitor esse caderno de anotações que foi seu companheiro de reflexões sensíveis, fruto de observação silenciosa diante do que ouviu e viu nesses meses em visita ao presídio. O texto, no entanto, foi escrito de uma forma mais leve se comparado ao hermetismo que muitas vezes habita o texto acadêmico. Com textos curtos, sensíveis, a pesquisadora consegue aproximar o leitor das histórias dessas mulheres, sempre sofridas, que lemos nesse caderno. A leitura flui com facilidade, apesar de tratar de uma temática por vezes dura, e de um espaço marginal em nossa sociedade: um espaço feminino, pobre, negro, presidiário, nordestino. 

É através do olhar de Debora Diniz que podemos atravessar os muros que cercam a penitenciária feminina, carregados por um texto que mistura reportagem e denúncia, e que fala do abandono dessas mulheres, dando voz a suas histórias, histórias que provavelmente nunca ouviríamos sem esse livro; histórias que revelam todo o sistema de exclusão que as envolve, dentro e fora das penitenciárias brasileiras. Apesar de ser um livro que nos convida a pensar no Outro (ou melhor, nas Outras) e que, diante do respeito com que suas histórias foram contadas, tenta nos ensinar a não julgar, eu fico aqui pensando se isso é mesmo possível, principalmente porque uma narrativa, por mais que trate o seu objeto com todo o respeito como vemos no livro, é sempre uma narrativa: o ponto de vista de alguém sobre o outro. Mesmo que o lugar de fala da autora seja marcado no livro e dentro do próprio presídio, ao usar a mesma cor preta da vestimenta dos policiais que fazem a segurança para deixar claro para as detentas que ela não faz parte da turma do "jaleco branco" (as médicas que estão ali para cuidar), a própria seleção de quais histórias seriam contadas já revela muito sobre o olhar de quem escreve. De forma semelhante, nós, leitores, também vamos nos emocionar de maneiras diferentes com cada uma das vidas que ali nos são apresentadas. Mas vale a reflexão sobre o "não julgar" e, mais ainda, vale a leitura desse caderno de vidas quase esquecidas.

***

Debora Diniz é antropóloga e pesquisadora premiada, professora da Faculdade de Direito na Universidade de Brasília, além de militante de causas como a descriminalização do aborto e os direitos reprodutivos das mulheres. É autora de livros e artigos sobre temas diversos, que refletem e impulsionam debates e lutas pela garantia dos direitos humanos no Brasil.



sábado, 22 de agosto de 2015

Lendo a ditadura



Convidei alguns amigos que, assim como eu, ficaram incomodados com alguns pedidos absurdos de intervenção militar e retorno da ditadura em manifestações públicas recentes. Manifestações que só aconteceram porque vivemos em uma democracia (é sempre bom lembrar que manifestações políticas não são permitidas na ditadura, período marcado por prisões sem julgamento, torturas, assassinatos, desaparecimento de pessoas, silenciamento, censura...). 

O projeto Lendo a Ditadura tem por objetivo ler e comentar obras literárias e filmes brasileiros que abordem o período da ditadura militar no Brasil, pois acreditamos que conhecer a nossa história é um passo importante para não repetirmos erros do passado. Todos estão convidados a nos acompanhar nessas leituras. As publicações dos vários blogs e canais que estão participando do projeto, a quem agradeço pelo entusiasmo com que abraçaram a ideia, serão reunidas no blog Lendo a Ditadura. Esperamos que as leituras e as discussões sobre esses livros e filmes sejam proveitosos e que ajudem a relembrar um período de nossa história que não deve ser esquecido e que ainda precisa ser discutido. Boas leituras!



domingo, 16 de agosto de 2015

A distância entre nós



A distância entre nós, que acaba de ganhar uma reedição linda pela Globo Livros, foi o livro que transformou a Thrity Umrigar em uma escritora com mais de 200 mil exemplares vendidos no mundo. Mesmo já conhecendo a escrita dessa autora indiana, não pude deixar de me surpreender com as diversas questões que ele aborda.

O livro tem duas personagens principais, Bhima e Sera, que, por serem mulheres, compartilham as mesmas dores: a opressão de um sistema patriarcal que reprime a liberdade das mulheres e a violência a que estão sujeitas em suas variadas formas. Mas aí a autora ganha muitos pontos: apesar de tudo que as une, existe a diferença de classes que separa as duas personagens e torna diferente as formas de violência que sofrem. Uma perspectiva que não deve ser desconsiderada quando falamos em feminismo.

Bhima trabalha como empregada doméstica na casa de Sera, que é casada com um homem rico, que a mantém em casa, sem poder trabalhar. Há uma cumplicidade entre as duas estabelecida em mais de vinte anos de convivência, pois ao longo desse tempo, apesar da distância social que as separam, estabeleceu-se entre elas uma solidariedade, visto que se ajudaram em diferentes momentos de suas vidas.

A vida confortável de Sera, aparentemente perfeita vista de fora, era na verdade um inferno. Casada com um homem agressivo, Sera era constantemente espancada por ele. Envergonhada por ter esse tipo de tratamento mesmo tendo uma família bem estruturada, formada por intelectuais, Sera se cala diante das agressões. É Bhima quem cuida dela diversas vezes, sempre a encorajando a reagir, a não aceitar esse tratamento. É bem interessante a forma como a Umrigar trata da questão da violência contra a mulher, mostrando que é um problema que atinge as mulheres também da classe alta, desconstruindo o mito de que só as mulheres das camadas mais pobres da população sofrem violência física. A violência psicológica também é abordada, e está presente no casamento de Sera que, mesmo depois da morte do marido, ainda sofre com as lembranças de anos de opressão e sofrimento.

A neta de Bhima, Maya, tem dezessete anos e aparece grávida, sem nunca dizer quem é o pai da criança. Na Índia, uma menina grávida sem  ter se casado está marcada para sempre como uma desonra para a família, pois tudo o que importa é o casamento. A violência desse sistema patriarcal afeta Maya profundamente, que passa a andar triste pelos cantos, deprimida, sem saber o que será de seu futuro. Com a ajuda de Sera, que decide que esta é a melhor opção para não comprometer o futuro da menina, Maya faz um aborto em uma clínica particular por estar acompanhada de Sera. Se estivesse acompanhada de sua avó, Bhima, que não tem dinheiro e não teria condições de arcar com as despesas de um atendimento particular, talvez a saúde de Maya e até mesmo a sua vida fossem comprometidas. E outra vez a Thrity Umrigar ganha pontos por trazer essa discussão à tona, mostrando a importância de discutirmos sobre a saúde da mulher e o direito que todas devem ter de tomar as decisões sobre o seu próprio corpo, independente da classe social a que pertençam.

Enquanto Maya sofre em silêncio pela gravidez seguida de um aborto ainda tão jovem, a filha de Sera comemora a sua primeira gravidez. E nesse momento a crítica social que Thrity Umrigar faz a esses diferentes mundos que coexistem sem quase nunca se tocarem demonstra toda a crueldade das desigualdades sociais.

Além disso, a autora ainda aborda a grande disseminação da AIDS na Índia, mostrando como as mulheres são mais vulneráveis à contaminação, muitas vezes pelos próprios maridos, também por não terem controle e autonomia para se protegerem e cuidarem de sua saúde.

Como já deu para perceber, apesar da narrativa envolvente de Thrity Umrigar, que é uma ótima contadora de histórias, esse é um livro sofrido justamente por sabê-lo real e, mais ainda, por saber que histórias como a de Bhima, Maya e Sera não ocorrem apenas na Índia, mas em nosso próprio país e em vários outros lugares do mundo. São histórias que estão mais próximas de nós do que gostaríamos. São muitos os temas tratados nesse romance e todos envolvem o universo feminino, o que só o engrandece: fala-se de aborto, de estupro, de violência doméstica, de assédio no ambiente de trabalho, na desigualdade ao acesso aos serviços básicos de saúde, de preconceito e também de injustiça.

Mas, mesmo sendo doloroso refletir sobre essas questões, é importante não esquecermos a importância dessa reflexão, principalmente nos dias de hoje. A distância entre nós é um livro que deve ser lido e compartilhado pelas reflexões sobre o feminismo que histórias tão dolorosamente verdadeiras como as das personagens nos possibilitam. É um livro excelente para discussões em um clube do livro, por exemplo. E hoje passou a ser o meu livro preferido da Thrity Umrigar.

UMRIGAR, Thrity. A distância entre nós. São Paulo: Globo Livros, 2015.

Thrity Umrigar nasceu em Mumbai, na Índia, em 1961. Mudou para os Estados Unidos aos 21 anos e trabalhou como jornalista por quase 20 anos. Atualmente dá aulas de literatura e escrita criativa na Case Western Reserve University, em Cleveland, e colabora com jornais como o The Washington Post e The Boston Globe. É autora de A hora da história e A doçura do mundo.

Escolhi e recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Escuta - poemas


Certo
(Eucanaã Ferraz)

Hoje quero te falar de permanecer vivo.

Observa que há árvores velhas e a juventude é 
       longa;
perde ao menos uma hora restaurando os azulejos
       brancos
da tua infância; sobretudo abre as janelas que dão
      para o céu
de Nova Friburgo, terra onde as terras são
principados
de toda a gente e à vista nua divisamos planetas
em varandas alvoroçadas por malmequeres só de
      luz;
hoje quero te falar de junhos nervosos de tantas
      alegrias.

Se tudo te parece frágil é verdade é frágil tudo;
mas venho te dizer que tudo permanecerá vivo
nesta hora em que te digo agora.

FERRAZ, Eucanaã. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 
Para ler um trecho do livro, clique aqui.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Estação Atocha


O romance é narrado em primeira pessoa por Adam, um jovem poeta estadunidense que ganha uma bolsa de estudos em uma prestigiosa instituição para desenvolver um projeto de pesquisa em Madri sobre poetas espanhóis e seu papel na guerra civil espanhola. Mas Adam é um rapaz que não acredita em si mesmo, que não sabe o que quer da vida, e que está o tempo inteiro refletindo sobre as suas menores ações, buscando analisar o que os outros vão pensar a respeito dele, e se isso está de acordo com o que ele quer que os outros pensem, ainda que isso seja para ele uma grande representação. Nem ele mesmo sabe como conseguiu essa bolsa de estudos, se pouco sabe sobre seu próprio projeto de pesquisa e sabe pouco do idioma.
Usuário de drogas como maconha e haxixe, de medicamentos para depressão e ataques de pânico em altas dosagens, tudo isso associado a um grande consumo de álcool, fazem de Adam um ser caótico, que nada tem de herói. Ele usurpa não apenas versos que lê em outros livros, modificando-os para se apropriar da poesia de outros poetas, como também se apropria de histórias que outras pessoas lhe contam e depois as utiliza em outro contexto, numa tentativa bem desajeitada de criar uma narrativa de si mesmo um pouco mais interessante do que Adam acredita ser.
Durante a leitura, que se arrasta até quase a metade do livro e que depois ganha um pouco mais de ritmo, não consegui me identificar com o protagonista, nem consegui compreender por que dizem que é um romance engraçado. O que Adam quer da vida? Ser poeta? Se tornar um acadêmico? Casar e ter filhos? Ele não sabe e o livro trata basicamente disso, da falta de certeza sobre o que se quer fazer da vida e de como dessa forma Adam passa por ela sem sentir, nem o que escreve, nem o que se passa ao seu redor, sem estabelecer laços afetivos. Diante do atentado terrorista que ocorre em Madri na Estação Atocha que dá nome ao livro (e que é também título do poema "Leaving the Atocha Station" de John Ashbery, poeta muito lido por Adam durante todo o romance e sobre o qual o autor já escreveu ensaios), podemos situar no tempo o romance de Ben Lerner. Porém, Adam não consegue se envolver nem com os protestos políticos que tomam conta das ruas da cidade após a tragédia (o atentado ocorreu em março de 2005, matando mais de 200 pessoas e deixando muitos feridos, a maioria imigrantes), nem muito menos se solidarizar com tantas mortes de inocentes ocorridas a poucos metros do apartamento onde vivia. O egoísmo de Adam só faz com que ele pense nas chances que ele teve de ter morrido/sobrevivido.
O texto, em intenso fluxo de consciência, parece encenar as angústias desse jovem poeta diante da experiência artística, na busca por compreender se ele é mesmo digno de sua arte. Alguns leitores podem achar que este é um romance de formação, que ao final da história alguma transformação ocorreu em Adam. Outros, como ocorreu comigo, podem não ver transformação nenhuma nesse personagem que permanece imerso em si mesmo, nos seus pensamentos e concentrado em sua própria observação do mundo, descrente de seu papel enquanto artista ou cidadão. Duas possibilidades de interpretação sobre a transformação do personagem que deixam para o leitor essa reflexão sobre as intersecções entre arte e realidade na contemporaneidade.

***

"Por muito tempo, eu convivera com a preocupação de ser incapaz de passar por uma profunda experiência artística e me custava acreditar que alguém mais fosse, pelo menos entre os meus conhecidos. Nutria profundo ceticismo a respeito das pessoas que alegavam que um poema ou uma música tinham "mudado a vida delas", especialmente porque, observando-as antes e depois dessa experiência, não conseguia detectar a menor mudança. Embora quisesse dar uma de poeta e apesar de ter ganhado minha bolsa de estudos na Espanha graças a meu suposto talento literário, eu só conseguia apreciar a beleza dos versos quando os encontrava citados em trechos de prosa, nos ensaios que os professores da faculdade me mandavam ler, com as barras substituindo as quebras de linha, de modo que o que me impressionava não era um poema em particular, mas o eco de uma possibilidade poética. O que realmente me interessava na arte era a desconexão entre a minha percepção das obras de arte físicas e as alegações feitas em nome delas. A sensação mais próxima de uma profunda experiência artística que eu tivera talvez tenha sido a vivência dessa desconexão, uma profunda experiência da ausência de profundidade". (p.9)

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LERNER, Ben. Estação Atocha. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2015.

Escolhi e recebi este livro como cortesia da Editora Rádio Londres.

domingo, 26 de julho de 2015

Poesia domingueira

Apocalipse Mínimo

Bem-aventurado quem lê e ouve as palavras desta 
                                                            [alegria
porque o tempo está próximo.
Ouvi por detrás de mim uma pequena voz como de
                                                            [assovio,
e que dizia:
o que vês, e ouves, escreve-o em uma melodia e
                                                         [envia-o.

Eu vi um gafanhoto que dizia
que todas as coisas grandes serão substituídas
por todas as coisas pequenas:
O infinito, pelo grão;
a eternidade, por um triz;
a verdade, pelas palavras;
o amor, pela graça;
o pecado, pelo capricho;
a história, pela gesta;
a certeza, pelo sim
Eu sou o que é, o que era e o que há de vir: a letra e o
som, a colméia e a teia, a brecha e a raiz.

Noemi Jaffe. Todas as coisas pequenas. São Paulo: Hedra, 2005.

***
Noemi Jaffe nasceu e vive em São Paulo. Professora de Literatura Brasileira, publicou Folha Explica Macunaíma (Publifolha, 2001) e Ver Palavras, Ler Imagens (Global, 2003, em parceria com Denise Grinspun).

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Flor da neve e o leque secreto

Um idioma criado e usado pelas mulheres e mantido em segredo durante milhares de anos na China foi o que motivou a escritora Lisa See a escrever Flor da neve e o leque secreto. A autora pesquisou sobre essa escrita que só as mulheres chinesas compreendiam e usavam para se comunicar umas com as outras e compartilhar as suas histórias pessoais. Lisa See viajou para a China para pesquisar mais sobre o nu shu, onde pôde conhecer algumas mulheres que aprenderam esse idioma secreto na infância, quando tiveram seus pés atados com uma bandagem para que diminuíssem de tamanho, pois na China pés pequenos eram sinônimos de beleza e também de status social, uma vez que permitiam às mulheres conseguir um melhor casamento. Essa tradição, extremamente violenta e que provocava muito sofrimento às meninas (isso acontecia por volta dos seis anos de idade) e que hoje é proibida, era realizada pelas próprias mães e demais mulheres da família e durava cerca de dois anos, período no qual as meninas ficavam em um quarto, sem sair, trocando as bandagens diariamente e caminhavam com os pés atados sobre os ossos quebrados. Na foto abaixo, os pés de uma mulher chinesa que passou por esse processo (mais fotos aqui). É difícil olhar para essas imagens sem pensar: como uma cultura decide o que é bonito? Como nosso valor enquanto mulheres muda de acordo com esses conceitos?


Ambientado na China no século XIX, o romance é narrado por Lírio, uma viúva de 80 anos que no final da vida decide escrever a história de uma amizade que lhe foi essencial: a que teve com Flor da Neve, uma menina que conheceu quando tinha seis anos, na mesma época em que o processo de bandagem dos pés das duas começou. Algumas meninas encontravam essa amizade especial: a laotong, ou velha igual, aquela que tinha a mesma data de nascimento, a mesma altura, o mesmo signo astrológico e outras coincidências do tipo. Lírio e Flor da Neve estabelecem essa amizade, que é mais forte até mesmo que os laços do matrimônio. O romance narra, portanto, a história dessa amizade, desde a infância até a velhice, abordando os laços de afeto que uniram essas mulheres durante todos os momentos importantes de suas vidas, assim como os seus sofrimentos, e ilustra a condição das mulheres na China do século XIX.
Para as famílias, tudo o que importava era ter um filho, pois na cultura chinesa e patriarcal é o filho homem quem poderá cuidar dos bens da família e dos pais na velhice, assegurando a sua entrada no "céu". O filho homem, ao se casar, traz para a família uma nora que fará todas as tarefas domésticas, em total submissão, como as mulheres são ensinadas desde a infância. Os pais não escondiam a decepção quando nascia uma menina. Alguns chegavam a dizer que era melhor ter tido um cachorro, pois teriam que alimentar e cuidar de suas filhas, juntar dinheiro para o dote, e depois entregá-las a outra família no casamento. Ter uma filha para eles significava financeiramente (e também emocionalmente) perder.
Além de serem consideradas "os galhos inúteis da família", as meninas eram subalimentadas, pois os homens eram sempre os primeiros a comer, e as mulheres viviam das sobras, sem reclamar. Ao completar seis anos, passavam pelo processo de bandagem dos pés que lhes tirava a liberdade de andar e correr como qualquer criança normal durante a infância. A delimitação entre espaço doméstico para as mulheres e espaço público entre os homens torna-se evidente desde os primeiros dias de vida.
Iletradas, analfabetas na escrita dos homens, as mulheres criam então essa escrita secreta, o nu shu, que era passada de geração para geração registrando assim muito da tradição oral em leques, lenços e cartas nas quais as mulheres falavam sobre suas vivências. Alguns homens tomaram conhecimento do nu shu, mas como era algo "de mulheres", essa escrita não foi levada à sério, como se fosse algo menor. Qualquer semelhança com a visão que muitos homens ainda tem da escrita das mulheres nos dias de hoje não é mera coincidência.
Apesar de amigas iguais, ou laotong, Lírio e Flor da Neve tiveram destinos bem diferentes. Enquanto Lírio, por ter os menores pés já vistos na aldeia (também chamados pés de lótus), consegue se casar com o filho de um dos homens mais ricos e importantes da região, Flor da Neve, oriunda de uma família tradicional que perdeu a sua fortuna acaba por se casar com um açougueiro, um homem que foi violento com ela durante toda a vida. A vida de escravidão e violência dessas mulheres, sua angústia constante para ter um filho homem e conseguir mantê-lo com vida para garantir a sua permanência na família é algo terrível. Mas mesmo entre todos os percalços essas mulheres se ajudam como podem, apoiando-se durante todas as etapas da vida, ainda que em ambientes tão distantes. É disso que o livro trata: de uma amizade verdadeira, que se fez possível em muitos momentos através dessa escrita.
Acredita-se que nu shu - a escrita secreta usada pelas mulheres em uma área remota da província de Hunan, na região sudoeste da China - foi desenvolvida há mil anos. Ela parece ser a única linguagem escrita do mundo criada por mulheres exclusivamente para o seu próprio uso.



***
Lisa See nasceu em Paris, mas cresceu em Los Angeles, mais especificamente em Chinatown. Atualmente vive em Los Angeles. O romance foi adaptado para o cinema em 2011.

SEE, Lisa. Flor da neve e o leque secreto. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. Tradução: Léa Viveiros de Castro. 335 páginas.