quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Rosário Tijeras

Gosto de me aventurar em livrarias arriscando comprar um livro de um autor sobre o qual nunca ouvi falar. Deixar o livro me escolher e não o contrário. Quando me perguntam como eu faço isso, eu não sei o que responder. Intuição, talvez. Na maioria das vezes dá certo. Na maioria. Nunca tinha ouvido falar de Jorge Franco, mas a sinopse me pareceu interessante e, bom, tinha uma recomendação de Gabo na contra-capa.... Não me arrependi em nada de ter lido Rosário Tijeras, e fiquei com vontade de ler mais livros do autor.

Rosário Tijeras tem todos os elementos, não do realismo fantástico de Gabo, mas do realismo das favelas da Colômbia. O enredo conta a história de Rosário Tijeras (que em espanhol que dizer tesouras), uma mulher sedutora e perigosa, altamente passional, que teve sua infância destruída na vida cruel e brutal da periferia. Para sobreviver, Rosário aprende a se defender com a mesma violência do ambiente que a cerca.

Mas Rosário também é perigosa por enfeitiçar os homens com sua beleza, sua impulsividade, sua força. A "heroína" da história foge a todos os arquétipos: usa droga, se prostitui, mata muitas pessoas e se torna uma lenda. Mas tudo isso ganha um brilho especial ao ser contado através dos olhos apaixonados de Antonio, melhor amigo de Rosário e de Emílio (namorado de Rosário). É através dos olhos de Antonio que conseguimos ver, mesmo em meio a tanto caos e a uma narrativa tão intensa, a menina sofrida que é Rosário, fruto de um mundo que não lhe oferece muitas expectativas e repleto de violência, mas que também ama à sua maneira, e que sonha com uma vida melhor.

A história de Rosario é a história de Antonio, de seu amor por essa mulher que só o via como um amigo. É a história triste dos amores não correspondidos e dos estragos que eles deixam nos corações. Isso é muito bem retratado neste romance contemporâneo do colombiano Jorge Franco.

Gabriel Garcia Marquez disse que "Jorge Franco é um dos escritores colombianos para quem ele gostaria de passar a torcha". O que é um grande elogio. Não acho que ele seja um Gabo, talvez seja possível compará-lo com Gabo quanto à intensidade e a paixão dos personagens. Mas ele é certamente um grande escritor. Com uma narrativa muito envolvente, apesar de tratar de temas que tornariam qualquer romance muito "pesado" como assassinatos, drogas, prostituição, estupro etc, o amor de Antonio por Rosário "amortece" nossos olhares. Espere encontrar no livro muitos palavrões, usados para caracterizar o linguajar desse submundo. Mas espere encontrar também descrições românticas dessa paixão de Antônio por Rosário, paixão dessas de entregar a alma ao objeto desse amor.

FRANCO, Jorge. Rosário Tijeras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. 160 páginas.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Um caderno e tanto

Um caderno e tanto (traduzido em Portugal como O grande caderno) é o primeiro romance de uma trilogia (A prova e A terceira mentira), da escritora húngara Agota Kristof.

Agota Kristof nasceu em 30 de outubro de 1935, na Hungria. Quando o exército russo invadiu a Hungria em novembro de 1956, Kristof deixou o país com seu marido, que havia sido seu professor de história, e sua filha de quatro meses. Eles viajaram para Viena, com a intenção de imigrarem para os Estados Unidos, mas o medo e a incerteza da longa viagem os convenceram a ficar na Suíça. Agota trabalhou em uma fábrica de relógios onde lentamente aprendeu a falar francês, língua que adotou para escrever suas obras.Segundo a autora, ela precisou se apropriar de uma nova linguagem para poder existir no mundo.

Em 1986 publicou Um caderno e tanto (Le Grand Cahier), seu primeiro romance, aos 51 anos. O romance foi um grande sucesso e foi traduzido para quarenta idiomas. Teve várias adaptações para o teatro na Europa e também foi adaptado para o cinema (Le Grand Cahier, The notebook, 2013), filme dirigido por János Szász. Agota viveu em Neuchâtel, na Suíça, até sua morte em 27 de julho de 2011.

Um caderno e tanto conta a história de dois irmãos, gêmeos que, em pleno final da Segunda Guerra Mundial, recebem do pai um caderno no qual devem escrever todos os acontecimentos que vivenciarem e a incumbência de fazer de tudo para sobreviverem. A mãe, sem condição de alimentar e cuidar dos filhos sozinha, pois o marido foi para o exército, leva os filhos para a casa da mãe, com quem não falava há muito tempo. Não sabemos o motivo, provavelmente a suspeita que paira sobre a avó de ter envenenado o avô. Logo percebemos que a avó é uma bruxa, sem demonstrar absolutamente nada de amor pelos netos. Pelo contrário, passa a tratá-los como escravos, quase sem comida e vivendo em condições precárias de limpeza e proteção contra o inverno rigoroso da região. No livro não encontramos nenhuma informação que contextualize o lugar e a época, mas subentende-se que seja o final da Segunda Gerra e o local seja a Hungria, com base na própria experiência da autora.

Longe da mãe e convivendo com uma avó tão má, os gêmeos tornam-se monstros e passam a fazer de tudo: chantagear, mentir, roubar, matar. Passam a realizar exercícios estranhos para aprenderem a suportar a dor, a fome, o frio, a falta de amor ou de qualquer sentimento que os humanize. Eles passam a ser o espelho de tudo o que a guerra faz com os seres humanos, ou de tudo o que estava acontecendo ao seu redor: uma demonstração de que quando o que nos resta é o instinto de sobrevivência, já perdemos toda e qualquer moral.

Os gêmeos passam então a demonstrar uma grande frieza em relação a tudo o que acontece. São capazes de ajudar alguém que precisa, mas não por terem qualquer sentimento pelo outro, afinal não querem nenhuma gratidão, mas oferecem ajuda a pessoas que precisam como a vizinha, uma menina com lábio leporino que mora com a avó, uma velha considerada louca por todos. As duas vivem de esmolas e a menina é molestada sexualmente em vários momentos, inclusive pelo padre da região, que lhe oferece dinheiro para que fique em silêncio. Os gêmeos então chantageiam o padre para conseguir mais dinheiro para a menina durante o inverno, ajudando-a a sobreviver. Há uma lógica estranha no que fazem, como a jovem moça que trabalha na igreja e se oferece para lavar as roupas dos dois, pois andavam muito sujos e sem banho na casa da avó. Por trás desse ato de bondade, há também o assédio que sofriam dessa mesma mulher durante os banhos semanais. 

Em outro momento, os soldados na rua arrastam para um trem um grupo de pessoas muito debilitadas, que compreendemos ser judeus. A jovem mulher da igreja humilha um dos prisioneiros oferecendo-lhe um pedaço de pão e depois negando a oferta, divertindo-se com a situação degradante em que estavam. Não sabemos se por esse motivo, ou se por conta dos abusos que sofriam, os gêmeos colocam uma munição que encontraram junto a um cadáver na floresta entre a lenha que levavam para a mulher que lavava suas roupas. Depois de uma grande explosão, ela fica desfigurada e, pouco tempo depois, morre.

Os dois meninos passam a ser governados por uma moral própria, se é que podemos dizer que isso seja moral, e fazem "justiça" com as próprias mãos, como no caso da moça da igreja e do padre, e de forma muito estranha se recusam a ir embora com a mãe quando ela retorna para buscá-los. Os dois agora querem continuar ali, com a avó. Já não são os mesmos meninos que chegaram, já se desumanizaram. Quando a mãe morre ao pisar em uma mina, não demonstram qualquer emoção. Para eles, o sentimento de amor que sentiam pela mãe é algo que os enfraquece para a dura tarefa de sobreviver.

Eu diria que o livro é um "caderno do mal", onde tudo de pior e mais grotesco e brutal parece estar presente. Foi impossível não pensar nos relatos dos sobreviventes dos campos de concentração e o que narraram sobre o absurdo da experiência do holocausto. A violência, em todos os sentidos do termo, está presente no texto, na escrita simples de Kristof, que ainda estava aprendendo o francês quando escreveu o romance e se assemelha à escrita das crianças, mas o olhar frio que descreve coisas tão absurdas de forma natural e banal nos estraçalha. De forma semelhante aos relatos dos sobreviventes, esse romance nos faz pensar, citando Primo Levi: é isto um homem?

Slavoj Žižek, quando perguntado sobre um livro que mudou a sua vida, respondeu que foi "Um caderno e tanto". Não foi um livro que mudou a minha vida, nem acho que seja um livro que deva inspirar condutas. Mas certamente foi uma leitura angustiante, inquietante, que provocou muito desconforto. Ainda estou pensando sobre o livro e o que sinto em relação a ele; sobre a brutalidade estranha da escrita simples de Kristof, que nos fala de uma crueldade que nos assombra e choca e, ao mesmo tempo, nos faz seguir lendo até o final. Talvez para sentirmos algum conforto por estarmos longe de tudo isso, em segurança. Talvez para evitar que tudo isso ocorra outra vez. Não é um livro que recomendo a qualquer leitor,  pelos temas que aborda, com certeza é um livro para corações e estômagos fortes. Mas foi interessante ler uma escritora húngara que é considerada uma das grandes representantes da literatura francófona.

Para ler uma entrevista em inglês com Agota Kristof, clique aqui.
Para ver o trailer do filme Um caderno e tanto, dirigido por János Szász, clique aqui.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Lucy, de Jamaica Kincaid




Elaine Potter Richardson nasceu em 1949 em  St. John, Antígua e Barbuda. Filha única, ela mantinha uma forte ligação com a sua mãe até completar nove anos, quando o primeiro dos seus três irmãos nasceu e toda a atenção da mãe e da família se voltaram para os filhos varões. O senso de isolamento, a pobreza, o colonialismo e esse sentimento ambíguo em relação à mãe, que passou a preterir a filha por ser mulher, marcam a escrita forte de Elaine Potter Richardson (Jamaica Kincaid). Sua escrita denuncia a opressão do colonialismo e da sociedade patriarcal e possui uma raiva latente, inspirada nas tensões de sua adolescência. Aos 17 anos, a autora mudou para os Estados Unidos para fugir da pobreza e do destino de submissão e opressão destinado às mulheres em sua terra natal e começou a trabalhar como au pair. Trabalho que realizou por cerca de três anos, enquanto estudava em uma escola comunitária. Depois de estudar para ser enfermeira por um tempo, ela abandona os estudos e começa a trabalhar escrevendo entrevistas para uma revista voltada para o público adolescente. É então que muda seu nome para Jamaica Kincaid, com o objetivo de conseguir escrever com mais liberdade, como uma forma de fazer as coisas sem ser a mesma pessoa que não podia fazê-las - a mesma pessoa que carregava todo esse peso". Destituída desse "peso" que seu nome carregava, ela começa a escrever.

"a way for [her] to do things without being the same person who couldn't do them -- the same person who had all these weights". (Kincaid)

"If I hadn't become a writer I don't know what would have happened to me; that was a kind of self rescuing." Jamaica Kincaid
Lucy é o terceiro romance dessa escritora caribenha e não podemos deixar de falar de sua própria vida antes de entrar propriamente no enredo do romance, uma vez que há fortes traços autobiográficos em sua escrita. Uma escrita que pode ser imaginada e sentida, em toda sua simplicidade e lirismo, como uma escrita do entre-lugar, pois a personagem Lucy, protagonista do romance, deixa sua terra natal, uma ilha colonizada pelos ingleses, para fugir do passado, de suas raízes tão presas a uma sociedade patriarcal e colonial que oprime as mulheres e não lhes oferece melhor destino que viver trabalhando para a família e para ter filhos. Porém, ao mesmo tempo em que quer fugir de suas raízes, Lucy também não se reconhece em seu novo lugar, um lugar tão diferente de tudo o que sempre conheceu. As diferenças, desde o clima, aos objetos, à forma de se relacionar em família, e à forma de perceber o mundo e se expressar, estão constantemente causando estranhamento em Lucy, que contesta e questiona tudo o que lhe incomoda.  Lucy se permite sentir o que a situação lhe causa. A família aparentemente perfeita onde trabalha como au pair cuidando das crianças logo começa a se destroçar, assim como a aparente adaptação de Lucy ao novo país, onde é sempre vista como "a pobre visitante", "aquela que veio para servir", e sua indiferença em relação à sua família. É interessante perceber a imagem já estabelecida que pessoas como Lucy carregam ao chegar em países colonizadores. Por narrar a trajetória dessa personagem desde a adolescência até a idade adulta, retratando seu amadurecimento e a descoberta da sexualidade, Lucy é considerado um romance de formação. 

A escrita de Jamaica Kincaid é muito envolvente e aborda emoções e questões complexas, apesar do seu estilo ser considerado simples. É um livro importante na literatura pós-colonial e nos faz questionar visões pré-estabelecidas. É um livro que cutuca o leitor com sua prosa lúcida e provocativa, com questionamentos muito interessantes sobre gênero, e principalmente, sobre essa visão eurocêntrica que ainda prevalece no mundo contemporâneo. É compartilhando as emoções, por vezes conflitantes, da personagem que percebemos a importância de ter acesso a esse outro olhar, e a essas novas perspectivas na literatura.

Para ilustrar, transcrevo um trecho do romance, quando a patroa de Lucy, Mariah, contempla encantada um campo de flores (Daffodils = narcisos amarelos) que não são encontradas na terra natal de Lucy e que demonstra essa diferença de perspectiva: Mariah compreende a emoção de Lucy diante das flores como emoção e contentamento diante de tanta beleza. Mas o que Lucy está sentindo, e o que Kincaid apresenta ao leitor, é o desconforto de Lucy, sua raiva diante de flores que ela nunca havia visto na vida, mas sobre a qual teve que aprender na escola, decorando poemas imensos, porque faziam parte da vida do colonizador, mas não da sua. Essa "admiração" imposta de uma cultura sobre a outra, por meio da força e de relações de poder. Mariah tenta abraçar Lucy, que se afasta recusando o abraço, e com isso recupera a sua voz. Ela diz a Mariah o que sente ao ver os daffodils (narcisos amarelos). E lamenta que a mesma coisa provoque lágrimas por motivos diferentes nelas duas:

"Mariah, mistaking what was happening to me for joy at seeing daffodils for the first time, reached out to hug me, but I moved away, and in doing that I seemed to get my voice back. I said, "Mariah, do you realize that at ten years of age I had to learn by heart a long poem about some flowers I would not see in real life until I was nineteen?"

As soon as I said this, I felt sorry that I had cast her beloved daffodils in a scene she had never considered, a scene of conquered and conquests; a scene of brutes masquerading as angels and angels portrayed as brutes. This woman who hardly knew me loved me, and she wanted me to love this thing - a grove brimming over with daffodils in bloom - that she loved also. Her eyes sank back in her head as if they were protecting themselves, as if they were taking a rest after some unexpected work. It wasn't her fault. It wasn't my fault. But nothing could change the fact that where she saw beautiful flowers I saw sorrow and bitterness. The same thing could cause us to shed tears, but those tears would not taste the same. We walked home in silence. I was glad to have at last seen what a wretched daffodil looked like." (KINCAID, 1990, p.23)
Jamaica Kincaid atualmente vive nos Estados Unidos, entre Vermont e Califórnia, e tem dois filhos. É professora de escrita criativa na Universidade da Califórnia. Já publicou diversos romances, entre eles The Autobiography of My Mother (1996), My Brother (1997), A Small Place (1988), Annie John (1983), My Garden (Book) (1999), Talk Stories (2001), Seed Gathering Atop the World (2002), See Now Then (2013). Infelizmente, nenhum deles foi traduzido para o português AINDA. Vamos torcer para que isso ocorra em breve.

KINCAID, Jamaica. Lucy. New York: Farrar, Straus, and Giroux, 1990.

domingo, 23 de novembro de 2014

A filha do coveiro


O romance narra a história de Rebecca Esther Schwart, filha de imigrantes que chegaram aos Estados Unidos durante a Segunda Guerra fugindo do nazismo. A família de Rebecca, composta pelo pai, Jacob Schwart, pela mãe Anna Schwart e seus dois filhos, chegou de navio no porto de Nova York. Na chegada ao porto Rebecca nasce ainda no navio, após horas de parto muito sofridas para sua mãe. É nos Estados Unidos que a família busca recomeçar a vida e pouco se sabe sobre o que aconteceu antes da viagem em sua cidade natal, mas fica claro, desde o início, pelo comportamento abalado da mãe e do pai, que eles passaram por situações bem traumáticas.
Sem dinheiro algum e com o estigma de ser "judeu", Jacob Schwart encontra emprego como coveiro no cemitério da cidade, e passa a viver com sua família no chalé dentro do cemitério. A pequena casa, em péssimas condições, representa a precariedade da vida daquela família, totalmente destruída e transformada pelos horrores da guerra. O preconceito marca cada um deles desde sua chegada aos Estados Unidos, onde tentam recomeçar e buscam ser esquecidos pelos demais, como se a invisibilidade pudesse dar a eles alguma segurança. A mãe de Rebecca está deprimida e ausente; os dois filhos ajudam o pai nos afazeres do cemitério e Rebecca é o tempo todo desprezada pelo pai, por ser menina. As questões de gênero são muito fortes nessa história e a violência contra a mulher está presente em toda a narrativa, aliás, é um tema recorrente na obra de Joyce Carol Oates.
A narrativa não é linear e mescla presente e passado para, aos poucos, ir revelando a complexidade das personagens. Começamos conhecendo Rebecca, uma jovem que trabalha em uma fábrica nos Estados Unidos, próxima ao vilarejo onde mora com o filho e é casada com um homem que está sempre viajando "a trabalho". Ganhando muito pouco pelas horas de trabalho na fábrica, onde sofre assédio dos colegas por ser mulher, Rebecca está constantemente apavorada e em estado de alerta, com medo de que algo ruim possa lhe acontecer. É o medo compartilhado pelas mulheres ao voltar para casa sozinhas; é o medo de que o marido a culpe pelo acontecido, porque ainda vivemos em uma sociedade que culpa a vítima pela violência sofrida.
A primeira parte do livro mostra exatamente como Rebecca se sente, e podemos acompanhar o que ela pensa nesse trajeto diário da fábrica para a sua casa, compartilhando sua angústia e o medo que sente. Só mais adiante o leitor compreende o porquê desse medo, e assim ficamos presos na narrativa de Joyce, que nos aproxima imensamente da vida das suas personagens.
Em seguida, voltamos um pouco ao passado para compreender a história trágica da família de Rebecca, com os traumas da guerra e a vida sofrida que levaram nos Estados Unidos. A violência da guerra e o que ela faz com os homens fica bem representada em Jacob e Anna, que nunca mais conseguem ser o que foram um dia. As marcas do sofrimento serão para sempre visíveis nos dois que, mesmo nos Estados Unidos, convivem com o medo de serem descobertos ali. O preconceito dos estadunidenses que desprezam essa família sem ao menos tomar conhecimento dos seus sofrimentos deixa marcas profundas nas personagens. Sofrimento que se transforma em agressividade e loucura, que destrói as relações familiares dos Schwart. Rebecca, sempre desprezada por ser mulher, é a que mais se parece com o pai na inteligência e na esperteza. Mas o destino das mulheres era o casamento, e não os estudos, e assim Rebecca vê seu desejo de continuar progredindo da escolha frustrado. Os outros dois filhos varões de Jacob não são muito inteligentes, são incentivados pelo pai a abandonar a escola e a se dedicar unicamente ao trabalho. Por conta disso, são constantemente rejeitados e humilhados pelo pai, que desconta nos filhos e na mulher a raiva que sente pelo que passou, pela frustração de ter um trabalho muito diferente do trabalho intelectual que desempenhava em sua cidade natal. A frustração pela impotência diante do mal vivenciado na guerra acaba por se transformar em violência e agressividade e culminará com o abandono da vida.
Depois de um trágico incidente, a órfã Rebecca segue vivendo sozinha, contando com a ajuda de colegas, mas ela carrega a história dessa família consigo, o que inevitavelmente afetará muito sua vida. Rebecca começa a trabalhar como camareira em um hotel, onde conhecerá seu marido, Tignor. A possibilidade de trabalho para as mulheres ao longo da história é sempre restrita a cargos subalternos, marcados pela invisibilidade e muito sujeitos a todo tipo de violências, desde o desrespeito básico aos direitos das trabalhadoras à violência física a que estão constantemente submetidas por serem mulheres. A violência contra a mulher está presente no ambiente de trabalho como se fosse inerente à função, e também aparece com muita força no ambiente doméstico. As mulheres acumulam duas jornadas de trabalho, contribuem com uma parte substancial do orçamento doméstico, o que reflete uma realidade não muito distante da atual.
A violência é um elemento importante na narrativa de Joyce, que constrói personagens que nos fazem questionar pontos importantes referentes ao gênero: a violência doméstica, a violência no ambiente de trabalho, a desigualdade na remuneração entre homens e mulheres pelo mesmo trabalho e, o que considero mais importante, a possibilidade dessas mulheres resistirem à violência  que enfrentam e de recomeçar. Joyce dá voz àqueles que não conseguem falar para expressar sua dor e seu sofrimento.
O livro é dividido em três partes: o prólogo nos apresenta a Rebecca operária e já casada; a primeira parte nos apresenta a história da família de Rebecca e tudo o que aconteceu com eles desde sua chegada de navio aos Estados Unidos, assim como o relacionamento de Rebecca com seu marido, marcado por cenas fortes de violência. A terceira parte do livro, que é sim uma narrativa de fôlego (são 600 páginas), conta a vida de Rebecca e do filho e sua tentativa de recomeço fugindo das agressões do marido.
A filha do coveiro é um livro que envolve o leitor e que aborda todas essas questões mencionadas a partir da perspectiva feminina e, por isso, proporciona uma reflexão interessante que merece ser lida. Recomendo.

OATES, Joyce Carol. A filha do coveiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. 600 páginas. 
***

Joyce Carol Oates é uma escritora norte-americana e tem 76 anos. É autora de algumas das obras de literatura mais significativas da atualidade. Agraciada com os prêmios norte-americanos National Book Award e o The Pen/Malamud Award for Excellence in Short Fiction, é membro da Academia Americana de Artes e Letras e titular de cátedra na Universidade de Princeton, Nova Jersey, onde leciona desde 1978.
É tida por vezes como uma das personalidades favoritas ao prêmio Nobel da Literatura, surgindo em diversas listas de finalistas veiculadas pela imprensa. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

BookadayBrazil - Novembro


Pipa não sabe voar e O Pintassilgo convidam para o #BookadayBrazil do mês de novembro. Um livro por dia, de acordo com os critérios listados acima. Não esqueçam de usar a hastag  #BookadayBrazil para marcar suas fotos e participar da brincadeira. Vamos? :)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Um quarto para ela


"É um privilégio preparar o lugar 
em que outra pessoa vai dormir." 
Elizabeth Jolley

Antes de começar a falar do enredo desta história, gostaria de falar um pouco de minha história com esse romance. A primeira leitura ocorreu uns três anos atrás, logo que o livro foi lançado no Brasil, quando me deparei com uma capa bonita, com flores singelas, e o título delicado que me fez pensar em uma história bonita de amizade. A leitura, no entanto, não foi tudo o que eu esperava naquele momento, o livro não me falou ao coração, fiquei perturbada com aquela história. Tanto que me desfiz do livro em uma troca no skoob. Se não tivesse sido por obrigação, talvez eu nunca o tivesse relido, mas estou feliz de que isso tenha acontecido. Principalmente porque me mostrou que há um tempo certo para ler cada livro e que o que sentimos em relação a um livro também muda junto conosco.

Um quarto para ela de que fala o título é o quarto que Helen, uma jornalista/escritora de 64 anos, que vive em Melbourne, Austrália, prepara para receber sua amiga Nicola, que está com câncer. Nicola vem de outra cidade (Sidney) para fazer um tratamento e pede para se hospedar na casa da amiga por três semanas. Helen não fazia ideia do estado de Nicola até ela chegar no aeroporto, pois a comunicação que mantinham por telefone e emails ocultava muito da gravidade da situação. Muito debilitada, Nicola chega à casa de Helen e conta dos tratamentos alternativos que vai fazer e que vão “expulsar” o câncer de seu corpo.  Tudo indica que os médicos disseram a Nicola que não há mais nada que a medicina tradicional possa fazer para combater o câncer, além de ajudá-la a controlar a dor que sente. Mas Nicola está em negação e quer acreditar que tratamentos como o de uma clínica clandestina, que na verdade está explorando as pessoas em sofrimento, irá salvá-la.

Helen faz todo o possível para acomodar a amiga, recebendo-a com carinho, trocando as roupas de cama várias vezes durante a noite, cozinhando, limpando, e também está exausta por conta das muitas noites sem dormir. Cuidar de alguém doente é fisicamente e emocionalmente cansativo.  Mas o mais desgastante para Helen tem sido lidar com o sorriso falso de Nicola, a máscara de alegria que a amiga carrega no rosto mesmo nos momentos mais terríveis da doença, fingindo que tudo vai ficar bem, porque não consegue aceitar que a morte está próxima. Porque sente que falhou por não ter tido a vida que a sociedade esperava dela: Nicola não se casou, não teve filhos, foi sempre uma mulher feliz e independente, e que cultivou muitos amigos. E com isso podemos pensar na violência desse discurso que oprime as mulheres durante toda a vida, de que só são completas se casarem, se tiverem filhos, mesmo que tenham construído coisas muito importantes, mesmo que tenham, como Nicola, estabelecido relações de amizade que também são raras.

Entre a angústia de ver a amiga sendo enganada por uma clínica fajuta, que explora pacientes terminais dando-lhes uma falsa esperança, e a dificuldade de lidar com a negação de Nicola, um amigo conta a Helen que talvez Nicola tenha vindo até sua casa porque quer que ela seja a pessoa que lhe diga a verdade e que a ajude a aceitar a doença.

Um quarto para ela é um livro triste, alguns podem considerá-lo "pesado" porque é mesmo difícil falar da proximidade da morte e de uma doença tão sofrida sem o ser. Na casa de Helen, que se enche de alegria e vida com a netinha que lhe visita com frequência, o espaço passa a ser outro, mais pesado e sombrio, espaço de alguém que se despede da vida e de sua própria história. Helen sofre por não poder ajudar mais a amiga, que em sua fase de negação e numa tentativa pouco eficaz de manter sua dignidade diante da dor, pouco pede ajuda. São essas duas forças que estão em jogo na história, assim como acontece em nossas vidas. Enquanto a presença da neta lhe traz nova força e energia, a presença da amiga doente também dá a Helen uma maior consciência do envelhecimento do seu próprio corpo e isso nunca é algo fácil de lidar.

Na primeira leitura que eu fiz, anos atrás, creio que julguei demais a personagem e sua atitude no final perante a amiga doente. Mas hoje, apesar de acreditar que eu faria diferente, se é que podemos prever como nos comportaremos em situações assim, passei a compreender o que Helen nos conta sobre essa história, sobre seus próprios limites, sem tentar julgá-la tanto. Apesar de perceber no livro uma dose de culpa por sua decisão de não cuidar mais da amiga doente.

Apesar de ser um livro triste, é um livro que faz pensar sobre a vida, sobre a morte, para a qual nunca estamos preparados, e sobre a amizade e seu papel fundamental na vida das pessoas, às vezes maior até do que a própria família. E é um livro que assume com coragem o direito que todos temos de respeitar os nossos próprios limites em situações difíceis. E como todo livro que fale sobre a morte, ele nos faz pensar o que faríamos nessa mesma situação, tanto a de Nicola quanto a de Helen, fazendo-nos pensar sobre o valor que temos dado à vida. Nesse sentido, é uma leitura que vale a pena, assim como creio que valeu a pena para a autora, que trouxe muito da sua própria experiência pessoal cuidando de uma amiga com câncer para essa narrativa..

GARNER, Helen. Um quarto para ela. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O que amar quer dizer

 "É preciso tempo para compreender o que amar quer dizer"

LINDON, Mathieu. O que amar quer dizer. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

domingo, 14 de setembro de 2014

Este é o meu corpo


O corpo de uma mulher é encontrado após um telefonema anônimo para a delegacia. Está desfigurado na beira de uma estrada, com os pés amarrados e sinais de violência. O médico legista é chamado para descobrir o que aconteceu e ajudar a polícia a desvendar o caso. É esse médico legista, cujo nome desconhecemos, que contará a história, que é a história desse corpo e o que ele revela, e também a história de outras pessoas, do médico inclusive, e suas vidas envoltas em solidão. Intercalando as vozes narrativas do médico durante a autópsia e dos demais personagens que, aos poucos, vão se entrelaçando, Filipa Melo constrói uma história incrível para nos falar de solidão, de violência e também da morte, destino inevitável de todos nós. O silêncio dos personagens, que não sabem expressar seus sentimentos e sofrem e vivem em solidão e em silêncio, é algo fundamental nessa narrativa. Foi mesmo brilhante a ideia da autora de ter um corpo, já sem vida, a contar esse enredo, a desvendar esses silêncios. É o silêncio do pai de Eduarda, que sem saber como lidar com a perda da mulher, por quem nunca expressou o seu amor, que afasta cada vez mais a filha com a sua dificuldade de afeto e contato físico. É Alda, a mulher de Jacinto, o assassino, que sofre em silêncio a opressão de um casamento frustrado e sem amor, onde o diálogo nunca existiu. Jacinto, que a abandona por alguns meses, movido por uma paixão avassaladora por Eduarda, retorna ao lar depois de tudo, e é aceito sem questionamentos. Miguel, colega de trabalho de Eduarda, que há anos nutre seu amor por ela em silêncio, e o sofrimento que sente ao saber que a perdeu, sem nunca ter lhe confessado seu amor. Mais uma vez são os silêncios que falam mais que os personagens. O médico legista, com toda a descrição dos passos da autópsia que faz no corpo de Eduarda, estabelece uma relação quase poética com esses corpos, com os quais lida diariamente, refletindo sobre a vida mais do que sobre a morte, como se com eles pudesse dialogar. 
A força do texto de Filipa impressiona, tanto nas descrições tão precisas da necropsia, quanto na paixão que coloca no trabalho desse médico que, em sua vida pessoal, também sofre de imensa solidão, sem conseguir estabelecer com os outros nenhuma relação. À medida que conhecemos a história de Eduarda, a mulher que foi assassinada poucos dias após dar à luz a um menino em um dos hospitais da cidade, pelo próprio amante e pai da criança, por estar inconformado com o fim do relacionamento, vamos nos envolvendo mais e mais na história. Sim, senhoras e senhores, é desses livros que lemos de uma sentada só. Acho que pode ser considerado um romance policial, porque ficamos grudados no livro até o fim querendo saber a história dessa mulher que perdeu a vida, mas mais importante que o desfecho de uma história policial, onde tudo se resolve e o assassino é preso, aqui o que prevalece é a história de cada uma dessas vidas, seus silêncios e sua solidão.
Gostaria de ver outro livro da Filipa Melo por aí, vamos torcer para que a autora publique mais. Por esse livro de estreia só podemos esperar coisas boas.

MELO, Filipa. Este é o meu corpo. São Paulo: Planeta, 2004.

Filipa Melo nasceu em 1972 na cidade de Silva Porto (atual Cuito), em Angola. Jornalista e escritora, o seu romance "Este é o Meu Corpo" foi acolhido com grande entusiasmo pelos leitores e pela crítica, unânime em considerá-lo uma das revelações literárias da ficção portuguesa no ano de 2001.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Revolução em Dagenham (2010)


Dagenham, Inglaterra, 1968. Na fábrica Ford da cidade, Rita O'Grady (Sally Hawkins) é uma das 187 mulheres que trabalham como costureiras fazendo o revestimento dos bancos dos carros produzidos pelos 55 mil homens que são considerados a "força de trabalho", aqueles que fazem o trabalho mais qualificado e importante para a empresa. Cansadas de não serem reconhecidas pelo trabalho qualificado que desenvolvem e por ganharem menos que os homens pelo mesma hora de trabalho, as 187 operárias decidem reivindicar os seus direitos. As mulheres nunca haviam entrado em greve antes, apenas apoiado seus maridos, pais, e filhos operários durante as greves que eles iniciaram em busca de melhores condições de trabalho. A princípio, elas não são levadas a sério, como infelizmente costuma acontecer, mas quando a produção de carros precisa parar porque não há mais bancos prontos, fica evidente a importância do trabalho das mulheres nessa engrenagem industrial. Enfrentando uma oposição opressiva neste "mundo dos homens", Rita reúne as colegas a fim de lutar por igualdade salarial — uma atitude que desafia o status corporativo, ameaça o casamento dela, e finalmente, cobra um preço alto. Porém, com o apoio do administrador da fábrica (Bob Hoskins) e da Secretária do Trabalho (Miranda Richardson), as mulheres se tornam a sensação da nação — e as catalisadoras de uma mudança decisiva. Um desses filmes inspiradores, que nos faz refletir sobre a condição da mulher no mercado de trabalho e sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres exercendo as mesma funções, algo que ainda precisa mudar. Esta é uma história baseada em fatos reais e que mostra um ótimo exemplo de que essa mudança é possível. Recomendo muito.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

#BookadayBrazil - Setembro


A tag #BOOKADAYUK foi criada pelo site We love this book e tem sido compartilhada no Instagram, no Twitter e em outras redes sociais. A Juliana, do blog O Pintassilgo, e eu decidimos traduzir a tag, fazendo algumas adaptações para deixá-la um pouco mais brasileira. =)
Para participar, é só seguir a lista acima, que contém um desafio para cada dia, e postar a foto de um livro que esteja de acordo com o respectivo dia do mês de setembro em uma das redes sociais, não esquecendo de marcar sua foto com a Tag #BOOKADAYBRAZIL. Não deixe de compartilhar com os seus amigos e vamos falar sobre livros :-)

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