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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Reze pelas mulheres roubadas


“A melhor coisa que você pode fazer no México é ser uma menina feia” – é assim que a narradora protagonista de Reze pelas mulheres roubadas (Rocco, 2015, 240 páginas), Ladydi Garcia Martinez, começa a narrar sua vida e a história de tantas mulheres em Guerrero, no México. Uma terra onde as mães lamentam o nascimento de uma filha já antevendo o seu triste destino. Para proteger suas filhas, elas dizem para todos que tiveram um menino. Mas nessa aldeia todas as mulheres tinham meninos, até as crianças terem onze anos, quando já não era mais possível esconder que eram meninas. Então as mães fazem de tudo para que as suas filhas fiquem feias, para que pareçam sujas, na tentativa de torná-las invisíveis aos olhos dos homens, para não despertar a atenção e o desejo dos traficantes de drogas que dominam completamente a região, escravizando e exterminando mulheres. Porém, nem sempre essas mães conseguem esconder a beleza das filhas, que desde cedo tem a sua infância e os seus sonhos roubados. Por isso, próximo a cada casa há um buraco no chão cavado por essas mulheres, um esconderijo para as filhas caso os carros dos traficantes se aproximassem, na tentativa última de que a terra as protegesse. Mas “o estado de Guerrero se orgulha de ser o povo mais zangado e mais cruel do mundo” e nenhuma menina roubada jamais retornou. A única exceção foi Paula, amiga de Ladydi e a moça mais bonita da aldeia, que volta um ano depois cheia de cicatrizes no corpo e na alma.

A cidade de Guerrero, apesar de regida pelas leis opressoras do patriarcado, é, portanto, um território feminino,  pois são as mulheres que cuidam de suas famílias e estão em maioria no local. Não há homens na aldeia, pois quando adultos eles partem para a cidade grande em busca de trabalho ou arriscam suas vidas na tentativa de cruzar as fronteiras e alcançar o sonho americano. Muitos morrem nessa travessia; outros conseguem chegar aos Estados Unidos e, trabalhando de forma ilegal, conseguem mandar algum dinheiro para a família. Mas isso geralmente só dura um curto período de tempo, pois logo constituem uma nova família por lá e deixam para trás as mulheres e as filhas, como ocorreu com o pai de Ladydi, que tinha esse nome não em homenagem à beleza da princesa Diana, mas porque sua mãe compartilhava do mesmo destino de mulher traída que a princesa. 

Nesse território feminino, as mulheres são cúmplices, e compartilham as dores de seus destinos. Lutam diariamente pela sobrevivência nesse universo de solidão e miséria, mas sabem que seus caminhos foram traçados no seu nascimento. Não há um horizonte de possibilidade para essas mulheres. Elas são assassinadas por serem mulheres. Uma menina que nasce com lábio leporino, por exemplo, é celebrada por não atender aos padrões de beleza que atraem os homens, tendo por isso alguma chance de não ser alvo dos traficantes e de sobreviver. Uma das cenas bonitas do livro é quando as mulheres e as meninas se reúnem no salão de beleza, que se chama A Ilusão, e as mulheres pintam as unhas, arrumam os cabelos e se permitem sonhar por alguns instantes, mas desfazem tudo antes de sair. Afinal, diferente dos outros salões de beleza, o salão precisa deixar as mulheres mais feias para tentar protegê-las.

Através do olhar inocente de Ladydi, encontramos um retrato da vida dessas mulheres e de toda a violência que tem dizimado a população feminina na região. Não apenas a questão dos imigrantes ilegais e do narcotráfico são abordadas, mas também os problemas diversos de que essas mulheres são alvo, como o risco de contaminação da Aids pelos próprios maridos, o alcoolismo, a dificuldade de atendimento médico na região e de professores nas escolas, o que só destaca a ausência da participação do Estado no local, o que só favorece os criminosos, entre outros assuntos.

Apesar de ser uma obra de ficção, este romance não deixa de ser um retrato e uma denúncia da realidade cruel de violência contra as mulheres não apenas no México, mas em diversos outros países e também em outros continentes. A autora, Jennifer Clement, pesquisou durante anos e entrevistou mulheres na região norte do México que, pela proximidade da fronteira associado ao contexto de omissão de Estado e consequente impunidade dos criminosos, constitui um dos lugares onde esse tipo de violência ocorre com mais intensidade e se repete há anos. Estudos como o de Rita Laura Segato (2005) sobre os femicídios em Ciudad Juarez, outra cidade no norte do México que poderia muito bem ser a Guerrero do romance, mostram que a arte de fato imita a vida. Esses estudos são também uma denúncia de que reduzir tamanha barbárie a “crimes de motivo sexual” pode ser um pouco equivocado uma vez que o comportamento omisso do Estado, a ausência de provas nas investigações, a falta de informações sobre os crimes e de investigações mais consistentes resultam em um círculo de repetição sem fim desse tipo de crime, mostrando que o problema é bem maior e mais complexo.

Por meio de uma narrativa muito fluida e envolvente, contada através do olhar inocente de uma criança, Jennifer Clement coloca em evidência um assunto que precisa ter a atenção que merece. É sempre uma leitura válida a de um livro que nos faz pensar sobre um tema importante, que abre nossos olhos para acontecimentos que não são noticiados na TV, e que nos faz perceber essas formas de violência silenciosas que continuam afetando a vida de inúmeras mulheres e que não podem continuar. Uma leitura mais do que recomendada, obrigatória.

CLEMENT, Jennifer. Reze pelas mulheres roubadas. São Paulo: Rocco, 2015.

Para ler um trecho do romance, clique aqui.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Um caderno e tanto

Um caderno e tanto (traduzido em Portugal como O grande caderno) é o primeiro romance de uma trilogia (A prova e A terceira mentira), da escritora húngara Agota Kristof.

Agota Kristof nasceu em 30 de outubro de 1935, na Hungria. Quando o exército russo invadiu a Hungria em novembro de 1956, Kristof deixou o país com seu marido, que havia sido seu professor de história, e sua filha de quatro meses. Eles viajaram para Viena, com a intenção de imigrarem para os Estados Unidos, mas o medo e a incerteza da longa viagem os convenceram a ficar na Suíça. Agota trabalhou em uma fábrica de relógios onde lentamente aprendeu a falar francês, língua que adotou para escrever suas obras.Segundo a autora, ela precisou se apropriar de uma nova linguagem para poder existir no mundo.

Em 1986 publicou Um caderno e tanto (Le Grand Cahier), seu primeiro romance, aos 51 anos. O romance foi um grande sucesso e foi traduzido para quarenta idiomas. Teve várias adaptações para o teatro na Europa e também foi adaptado para o cinema (Le Grand Cahier, The notebook, 2013), filme dirigido por János Szász. Agota viveu em Neuchâtel, na Suíça, até sua morte em 27 de julho de 2011.

Um caderno e tanto conta a história de dois irmãos, gêmeos que, em pleno final da Segunda Guerra Mundial, recebem do pai um caderno no qual devem escrever todos os acontecimentos que vivenciarem e a incumbência de fazer de tudo para sobreviverem. A mãe, sem condição de alimentar e cuidar dos filhos sozinha, pois o marido foi para o exército, leva os filhos para a casa da mãe, com quem não falava há muito tempo. Não sabemos o motivo, provavelmente a suspeita que paira sobre a avó de ter envenenado o avô. Logo percebemos que a avó é uma bruxa, sem demonstrar absolutamente nada de amor pelos netos. Pelo contrário, passa a tratá-los como escravos, quase sem comida e vivendo em condições precárias de limpeza e proteção contra o inverno rigoroso da região. No livro não encontramos nenhuma informação que contextualize o lugar e a época, mas subentende-se que seja o final da Segunda Gerra e o local seja a Hungria, com base na própria experiência da autora.

Longe da mãe e convivendo com uma avó tão má, os gêmeos tornam-se monstros e passam a fazer de tudo: chantagear, mentir, roubar, matar. Passam a realizar exercícios estranhos para aprenderem a suportar a dor, a fome, o frio, a falta de amor ou de qualquer sentimento que os humanize. Eles passam a ser o espelho de tudo o que a guerra faz com os seres humanos, ou de tudo o que estava acontecendo ao seu redor: uma demonstração de que quando o que nos resta é o instinto de sobrevivência, já perdemos toda e qualquer moral.

Os gêmeos passam então a demonstrar uma grande frieza em relação a tudo o que acontece. São capazes de ajudar alguém que precisa, mas não por terem qualquer sentimento pelo outro, afinal não querem nenhuma gratidão, mas oferecem ajuda a pessoas que precisam como a vizinha, uma menina com lábio leporino que mora com a avó, uma velha considerada louca por todos. As duas vivem de esmolas e a menina é molestada sexualmente em vários momentos, inclusive pelo padre da região, que lhe oferece dinheiro para que fique em silêncio. Os gêmeos então chantageiam o padre para conseguir mais dinheiro para a menina durante o inverno, ajudando-a a sobreviver. Há uma lógica estranha no que fazem, como a jovem moça que trabalha na igreja e se oferece para lavar as roupas dos dois, pois andavam muito sujos e sem banho na casa da avó. Por trás desse ato de bondade, há também o assédio que sofriam dessa mesma mulher durante os banhos semanais. 

Em outro momento, os soldados na rua arrastam para um trem um grupo de pessoas muito debilitadas, que compreendemos ser judeus. A jovem mulher da igreja humilha um dos prisioneiros oferecendo-lhe um pedaço de pão e depois negando a oferta, divertindo-se com a situação degradante em que estavam. Não sabemos se por esse motivo, ou se por conta dos abusos que sofriam, os gêmeos colocam uma munição que encontraram junto a um cadáver na floresta entre a lenha que levavam para a mulher que lavava suas roupas. Depois de uma grande explosão, ela fica desfigurada e, pouco tempo depois, morre.

Os dois meninos passam a ser governados por uma moral própria, se é que podemos dizer que isso seja moral, e fazem "justiça" com as próprias mãos, como no caso da moça da igreja e do padre, e de forma muito estranha se recusam a ir embora com a mãe quando ela retorna para buscá-los. Os dois agora querem continuar ali, com a avó. Já não são os mesmos meninos que chegaram, já se desumanizaram. Quando a mãe morre ao pisar em uma mina, não demonstram qualquer emoção. Para eles, o sentimento de amor que sentiam pela mãe é algo que os enfraquece para a dura tarefa de sobreviver.

Eu diria que o livro é um "caderno do mal", onde tudo de pior e mais grotesco e brutal parece estar presente. Foi impossível não pensar nos relatos dos sobreviventes dos campos de concentração e o que narraram sobre o absurdo da experiência do holocausto. A violência, em todos os sentidos do termo, está presente no texto, na escrita simples de Kristof, que ainda estava aprendendo o francês quando escreveu o romance e se assemelha à escrita das crianças, mas o olhar frio que descreve coisas tão absurdas de forma natural e banal nos estraçalha. De forma semelhante aos relatos dos sobreviventes, esse romance nos faz pensar, citando Primo Levi: é isto um homem?

Slavoj Žižek, quando perguntado sobre um livro que mudou a sua vida, respondeu que foi "Um caderno e tanto". Não foi um livro que mudou a minha vida, nem acho que seja um livro que deva inspirar condutas. Mas certamente foi uma leitura angustiante, inquietante, que provocou muito desconforto. Ainda estou pensando sobre o livro e o que sinto em relação a ele; sobre a brutalidade estranha da escrita simples de Kristof, que nos fala de uma crueldade que nos assombra e choca e, ao mesmo tempo, nos faz seguir lendo até o final. Talvez para sentirmos algum conforto por estarmos longe de tudo isso, em segurança. Talvez para evitar que tudo isso ocorra outra vez. Não é um livro que recomendo a qualquer leitor,  pelos temas que aborda, com certeza é um livro para corações e estômagos fortes. Mas foi interessante ler uma escritora húngara que é considerada uma das grandes representantes da literatura francófona.

Para ler uma entrevista em inglês com Agota Kristof, clique aqui.
Para ver o trailer do filme Um caderno e tanto, dirigido por János Szász, clique aqui.

terça-feira, 15 de abril de 2014

O coração às vezes para de bater


"Antes de mais nada, queria falar do mar. Que é começo de tantas coisas."

"O coração às vezes para de bater" é uma novela juvenil da escritora e tradutora brasileira Adriana Lisboa, escrita com a suavidade de um balançar de ondas na praia de Copacabana, e que conta a história de um casal de adolescentes e do turbilhão de sentimentos que marca esta época de suas vidas.  Dois jovens de quinze anos que estão descobrindo o amor e cujos encontros ocorrem através da paixão pelo skate que os une. 

"Foi na beira do mar que eu conheci, no começo deste ano, a Paloma. Foi também por isso que eu quis falar do mar, aqui, nesta carta, antes de mais nada".

O narrador da história, um rapaz de quinze anos, começa a falar do mar, que é começo de tantas coisas, para falar de sua família e dos problemas de comunicação que enfrenta em casa, e também para nos falar de Paloma, a jovem por quem ele se apaixona completamente. Logo no início, sabemos que Rafael está escrevendo uma carta, mas não sabemos a quem ela se destina (algo que só descobriremos no final), mas é através da escrita que ele consegue superar uma grande perda  que teve que enfrentar inesperadamente. A escrita aparece aqui como uma possibilidade de o salvar das dores do mundo, como uma reflexão, afinal "as palavras organizam as coisas", é o que nos ensina o personagem desta história.

Uma novela com a delicadeza da escrita da Adriana Lisboa, que aborda os conflitos da juventude, o choque entre as gerações, a descoberta do amor e a perda da inocência diante de um acontecimento trágico. Um desses livros que retratam com doçura aqueles muitos momentos em que nosso coração para de bater para nos ensinar a viver.

LISBOA, Adriana. O coração às vezes para de bater. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 80 páginas.

O livro foi adaptado para o cinema no curta homônimo dirigido por Maria Camargo. Informações sobre o filme e entrevista com a autora podem ser achadas aqui.

Adriana Lisboa nasceu no Rio de Janeiro, em 1970, e já se consagrou como um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, tendo escrito seis romances, um livro de contos e quatro obras infantojuvenis. Conquistou prêmios importantes como o Prêmio José Saramago. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas e publicados em treze países.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A página assombrada por fantasmas


Que todo leitor gosta de livros todo mundo já sabe. Mas o que nem sempre fica evidente é que nós, leitores, também gostamos de livros que de algum modo falem sobre a leitura, e nos levem a outros livros. Bom, pelo menos eu gosto. E adoro quando um livro desperta em mim aquele desejo de ler um outro livro. Ou vários. E isso aconteceu muito durante a leitura de "A página assombrada por fantasmas", de Antônio Xerxenesky, um jovem escritor brasileiro de quem eu ainda não havia lido nada.

A página assombrada por fantasmas é um livro de contos, histórias curtas, nas quais Xerxenesky explora uma temática que amamos: as leituras. Nessas histórias, o real é quase sempre contaminado pela ficção e, por que não dizer, assombrado pelos grandes nomes da literatura contemporânea: Bolaño, Pynchon, Javier Marías, David Foster Wallace, Borges, Cortázar, só para citar alguns.

No primeiro conto, O escritor no castelo alto, somos convidados a passear por muitas situações possíveis em um primeiro encontro entre um jovem escritor e um dos grandes nomes da Literatura Latino-Americana.
Em Esse Maldito Sotaque Russo, um leitor apaixonado por Pynchon, conhecido por ser um escritor recluso, tenta encontrá-lo e um encontro com seu conceituado tradutor traz novas pistas sobre seu paradeiro e seu novo romance. Em Amanhã, quando acordar, um casal de jovens viaja para passar o ano-novo juntos, mas a leitura de um livro parece desencadear uma situação terrível, ou quem sabe, evitá-la.

"Há quem diga que a literatura tem como função fazer com que nós nos sintamos menos solitários, há quem diga que os livros são cartas endereçadas de um solitário a outro. Ele não sabe, ele nunca saberá ao certo. O que ele sabe é que os livros não trazem conforto e nunca trarão, os livros são peças demoníacas (mas ele não acredita em demônios, assim como não acredita em deus algum e não consegue mais acreditar em sinais ou nada), e se há algo que os livros, os romances, as ficções trazem é transtorno e desconforto e incômodo.
Então, ele continua lendo." [página 44]

No conto A morta-viva, um jovem conhece uma mulher em uma fila de cinema em Buenos Aires e aos poucos começa a notar as inúmeras coincidências entre essa mulher e a personagem de um livro do Alan Pauls. O escritor personagem de A breve história de Charles Mankuavic abandona a literatura depois de várias críticas feitas aos seus livros, descobrindo uma nova forma de ler sua própria obra. Quando perguntado se um dia voltaria a escrever, ele responde: "O dia em que eu encontrar um novo conflito que eu só consiga resolver na literatura". [página 53] 

Algum lugar no tempo é o conto mais pessoal do livro, dedicado ao irmão do autor, e fala um pouco sobre um dia que marcou a infância dos dois e de como cada um tomou um caminho diferente a partir de então. A literatura aparece aqui como um jogo com infinitas possibilidades (O Jogo da Amarelinha, de Cortázar), assim como o jogo que os dois meninos criaram para jogar juntos no computador.

Em A página assombrada por fantasmas, conto que dá título ao livro,  viajamos pelas ruas de Buenos Aires junto com duas amigas que partem para uma aventura e encontram um manuscrito, possivelmente de um grande escritor nacional, que mudará a vida das duas para sempre. Uma bonita homenagem a Borges e Cortázar.

Sequestrando Cervantes fala de um futuro talvez não tão distante, onde as histórias como as conhecemos hoje serão modificadas e contadas de forma diferente, e só quem poderá salvá-las são aqueles que as puderem lembrar. Em No segundo andar, o autor nos convida para um passeio entre um grupo de artistas e escritores que marcaram sua geração, ainda no início de suas carreiras.

"Há quem diga que o ser humano não é só os livros que lê, as músicas e os filmes que prefere. Já eu sou do time que acha que nossa personalidade vai sendo moldada justamente por essa via." [página 71]

Um livro muito gostoso de ler, repleto de referências literárias, compondo uma bonita homenagem à literatura e aos grandes nomes citados no decorrer do texto. Escrito por alguém que claramente gosta muito de ler, para quem gosta de ler. Recomendo.

Antônio Xerxenesky. A página assombrada por fantasmas. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. 128 páginas.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Fim de Verão


Esta poderia ser a história de um verão qualquer, aquele que antecede a volta às aulas, que marca o fim de um período de descanso e de férias. Mas é a história do fim daquela inocência que marca a infância, aquela linha tênue que separa a infância da adolescência, quando passamos a ver o mundo com outros olhos.

Esta é a história de um menino de treze anos, Henry, que está deixando de ser criança e passando por todos os percalços da adolescência: as mudanças no corpo, os questionamentos, as descobertas. Henry vive com a mãe, Adele, uma mulher que ficou depressiva e se isolou do mundo depois da separação e de ter perdido um filho no parto, criando um mundo só dela e de Henry, seu único companheiro. O pai de Henry casou-se novamente, e tem um filho pequeno com uma nova mulher, mas Henry não se sente muito bem acolhido nessa nova família que o pai construiu para si. Nesse aspecto, ele é um garoto bem maduro, que cresceu conversando muito com a mãe, que às vezes se esquecia de que ele era só uma criança e acabava por contar histórias e compartilhar lembranças que o tornaram maduro um pouco mais cedo do que o normal, mas que fizeram dele um menino mais sensível ao sentimento dos outros. Henry não tem amigos na escola, não faz parte do time dos populares, e é um menino com bom coração, sentindo-se responsável por não deixar a mãe sozinha.

Um dia os dois estão no supermercado da cidade pequena onde moram, e um homem ferido na perna, com a roupa de um dos funcionários do supermercado, pede uma carona aos dois. O que pareceria insensato para qualquer pessoa (afinal, é bem estranho encontrar uma pessoa com a perna ferida no supermercado, não é?) é algo que não desperta a menor reação na mãe de Henry, que parece estar anestesiada pela tristeza constante que sente. O garoto, apesar de ver o homem roubando um boné do supermercado, simplesmente sente que pode confiar nesse homem estranho que acaba de conhecer. No carro, o homem pede abrigo por uns dias na casa de Adele, e a mãe aceita, só depois vindo a descobrir que ele é um fugitivo da penitenciária local. Cria-se um clima de suspense, mas não há violência. O texto de Joyce Maynard é bem sentimental e nesse ritmo a autora constrói uma história que nos envolve, pois é narrada através do olhar desse menino, mas que aguça nossa curiosidade para saber o que vai acontecer, sempre com o receio de algo muito ruim possa acontecer com aquela família. A dúvida se é mesmo uma história de amor, ou se é síndrome de Estocolmo passou pela minha cabeça durante a leitura, assim como a dúvida de se haverá um final feliz, mas aos poucos percebemos que é uma história de amor. 

Com essa história, a autora nos faz pensar nas injustiças e nos julgamentos que às vezes fazemos do outro, fazendo-nos lembrar que todo mundo tem uma história que merece ser ouvida, que às vezes estamos presos a uma situação que não desejamos, e que a atitude que temos com aqueles que estão ao nosso redor é o que realmente importa. 

Este é um dos livros que foram adaptados para o cinema esse ano: Refém da Paixão tem estréia prevista para 14 de março nos cinemas brasileiros e tem Kate Winslet no papel de Adele. A seguir, o trailer do filme, que já me deixou bastante curiosa:


*Uma curiosidade: a autora Joyce Maynard teve um relacionamento de 10 meses com o escritor J. D. Salinger (autor de O apanhador no campo de centeio) quando ele tinha 53 anos e ela, apenas 18. Salinger, conhecido pelo seu isolamento, terminou seu relacionamento com Maynard de forma abrupta, deixando-a devastada. Ela abandonou a faculdade para morar com ele durante esses 10 meses e depois nunca retomou os estudos. Já expôs muito de sua história pessoal no que escreve: seus distúrbios alimentares (mencionados no livro Fim de Verão na personagem da primeira namoradinha de Henry), os problemas de alcoolismo do pai, seu divórcio conturbado (talvez recontado no sofrimento da personagem Adele, em fim de verão).  Artigo em inglês sobre o relacionamento da autora com Salinger aqui.

Joyce Maynard. Fim de Verão. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. 223 páginas. Tradução: Caroline Chang.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A Solidão dos Números Primos

Com um dos títulos mais bonitos já vistos, A Solidão dos Números Primos, do escritor italiano Paolo Giordano, foi uma grande descoberta. Intenso, verdadeiro e, em muitos momentos, extremamente doloroso de ler, tal sua veracidade, o livro faz uma reflexão sobre as diferenças, sobre a solidão, sobre as relações familiares (e os problemas que encontramos nelas) e sobre muitos conflitos da nossa juventude.

Contando a história de Mattia e Alice, duas crianças desde a infância marcadas por suas diferenças, acompanhamos a passagem dos dois pela adolescência, com todas as dificuldades, encontros e desencontros, até sua vida adulta. Nesse percurso o que chama a atenção são as relações familiares, os problemas de comunicação entre as pessoas de uma mesma família e o quanto isso será determinante para a formação de cada indivíduo. O autor nos mostra como nossos erros e nossas escolhas deixam marcas em nós por toda a vida.

Alice é uma menina oprimida que tem distúrbios alimentares e frequenta aulas de esqui. O detalhe mais importante é que Alice não quer aprender a esquiar, ela só frequenta as aulas porque é obrigada pelo pai. Durante um dos treinos, Alice sofre um acidente que a deixa com uma deficiência permanente na perna.

Mattia tem uma inteligência rara, enquanto sua irmã gêmea tem uma doença mental, da qual ele se envergonha. Um dia, indo para o aniversário de um amigo da escola, levando a irmã junto com ele apenas porque sua mãe o obrigava, Mattia deixa a irmã em uma praça e segue para o aniversário, porque queria ser aceito pelo grupo de colegas pelo menos uma vez, mas sua irmã desaparece, e esse fato marcará sua vida para sempre.

Em suas diferenças, Mattia e Alice se reconhecerão em sua solidão, e são muitos os encontros e desencontros que permearão a história dos dois durante todo o livro, numa avalanche de aspectos psicológicos muito bem explorados pelo autor, mas que deixam o leitor quase sempre com o coração apertado, sofrendo pelos personagens. 

Mattia tinha estudado que entre os números primos existem alguns ainda mais especiais. Os matemáticos os chamam de primos gêmeos: são casais de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase vizinhos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente. Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos, mas não o bastante para se tocar de verdade”.

Este é sem dúvida um livro com personagens extremamente complexos que nos levam a refletir sobre várias questões, não só sobre as relações familiares, mas sobre a juventude nos dias de hoje e todas as dificuldades que ela enfrenta. E o livro nos mostra o quanto o ser humano pode ser cruel com o simples fato de ficar em silêncio. É um livro que recomendo não apenas para os jovens, mas para os pais de todas as idades, porque às vezes ver no outro o nosso erro é uma forma de reconhecê-lo, e acompanhar o doloroso desenvolvimento desses personagens acaba por ser uma grande lição de como relacionar-se com o outro, de como ser mais humano diante de nossas imperfeições e diferenças.

Eu ainda estou torcendo por Mattia e Alice. E tenho certeza de que você terminará de ler este livro torcendo por eles também.

Paolo Giordano. A solidão dos números primos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
***
Paolo Giordano nasceu eu Turim em 1982. Formou-se em Física e ganhou o Prêmio Strega 2009 por este romance de estreia.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Extremamente alto e incrivelmente perto


Histórias podem ser contadas e recontadas de várias maneiras, cada uma a partir de uma perspectiva diferente. Quando achei que nada mais podia ser contado sobre a tragédia de 11 de setembro que abalou os Estados Unidos, eis que surge Jonathan Safran Foer, uma das grandes promessas da literatura contemporânea, e nos emociona com a sua versão da história, que mistura humor e melancolia.

Uma história de sobreviventes, é assim que podemos resumir "Extremamente alto e incrivelmente perto" (Extremely loud & incredibly close, EUA, 2005), publicado no Brasil pela Editora Rocco, com ótima tradução do escritor Daniel Galera. O livro conta a história do pequeno Oskar Schell, um menino de 9 anos que perdeu o pai na queda das torres gêmeas e sofre com essa perda. Quando encontra a chave de uma porta e um nome anotado em um papel entre as coisas do pai, o menino, que nos encanta por sua inteligência, decide sair em busca da porta que será aberta pela chave, na esperança de encontrar um pouco mais do pai, sem se dar conta de que, na verdade, está apenas buscando uma forma de exorcizar a tragédia que abalou sua família. Durante essa jornada pelas ruas de Nova York, Oskar fará novos amigos, todos eles sobreviventes de alguma tragédia, seja ela física ou não, e aos poucos redescobrirá o amor de sua mãe, a quem estava culpando por tentar seguir uma vida normal sem o pai.

É uma história que nos faz pensar sobre as nossas próprias relações familiares e nos leva do riso (diante da inocência de Oskar ao ver o mundo) às lágrimas, quando compreendemos um pouco mais do seu sofrimento e sentimos vontade de consolá-lo. Depois de ler "Extremamente alto e incrivelmente perto" acho pouco provável que alguém tenha a coragem de deixar uma carta sem resposta, principalmente se for de uma criança, por mais corrida que a vida possa ser. E ainda: acho que depois desse livro não perderemos mais a chance de dizer às pessoas que nos são importantes o quanto as amamos, sempre que houver uma oportunidade.

O livro de Jonathan Safran Foer ganhou em 2012 uma nova tradução, agora para o cinema, com direção de Stephen Daldry e tem no elenco grandes nomes como Sandra Bullock e Tom Hanks. No Brasil o filme tem o título "Tão forte e tão perto", e também me emocionou bastante.

Jonathan Safran Foer. Extremamente alto e incrivelmente perto. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Como um romance

Os direitos do leitor:

1. O direito de não ler
2. O direito de pular páginas
3. O direito de não terminar o livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler qualquer coisa
6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)
7. O direito de ler em qualquer lugar
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de se calar






Encontrei esse livro por acaso em uma das minhas andanças pelas livrarias. Reconheci o autor, de quem já havia lido um livro muito inspirador sobre ser professor (Diário de Escola, Rocco, 2004), e esse livro aberto na capa me chamou a atenção.

Com base em sua experiência como professor e romancista, Pennac fala de forma poética sobre o mundo mágico da leitura, mundo este que ele ama tanto quanto nós.
Neste ensaio muito sensível, Pennac mostra que muito da magia da leitura se perde quando o livro deixa de ser o objeto de encantamento de nossa infância, quando pedimos aos nossos pais que contem e recontem as histórias de que gostamos, e passa a ser a leitura obrigatória do programa escolar.

Só pelo que lemos nesse livro já dá para sentir que Pennac é desses professores que inspiram e encantam os alunos pela paixão que ele compartilha e demonstra. É lendo para seus alunos adolescentes, que dizem num primeiro momento não gostar de ler, que Pennac os faz perceber que todos os grandes escritores, que eles julgavam incapazes de entender, contam uma história. E que, para entendê-la, é necessário voltar ao despudor da primeira infância, quando queríamos tudo descobrir.

"E se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?" (página 73)

"Não se força uma curiosidade, desperta-se", e é lendo esses romances de grandes autores como Tolstói, Calvino, Dostoiévski, Gabriel Garcia Márquez, John Fante, entre outros, que ele desperta o desejo de ler nos alunos, que não conseguem esperar até a próxima aula para saber como aquela história continua e correm para as livrarias e bibliotecas para terminar de ler o livro. E um livro leva a outro, e a outro, e a outro... O universo mágico da literatura é reencontrado e eles agora podem continuar a descobrir os seus próprios caminhos entre os livros.

"O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vivem em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Essa leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivências entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade." (página 150)

Achei esse livro apaixonante quando o li pela primeira vez em 2009,  e hoje relendo-o pela terceira vez, ele se faz ainda muito atual e acredito que sempre será. Os direitos do leitor, que ele lista no livro, foram libertadores para mim, principalmente o direito de não terminar o livro (porque sempre me sentia culpada quando a leitura não fluía e eu não queria abandonar o livro na metade) e o direito de calar, que é libertador no sentido de que não devemos explicações sobre o que lemos para ninguém. Gostaria de ter lido esse livro mais cedo, ainda na escola, e gostaria que todos os professores tivessem que ler esse ensaio para que a abordagem em sala de aula fosse diferente. Para que a literatura não ficasse sendo uma coisa chata e obrigatória para muita gente que não teve a sorte de ter um professor que os inspirasse.

E, a propósito dessa releitura hoje, entre os direitos do leitor, Pennac lista o direito de reler:

"Reler o que me tinha uma primeira vez rejeitado, reler sem pular, reler sob um outro ângulo, reler para verificar, sim ... nós nos concedemos todos esses direitos. 
Mas relemos sobretudo gratuitamente, pelo prazer da repetição, a alegria dos reencontros, para pôr a prova a intimidade.
"Mais", "mais", dizia a criança que fomos...
Nossas releituras adultas têm muito desse desejo: nos encantar com a sensação de permanência e as encontrarmos,  a cada vez, sempre rica em novos encantamentos." (página 137)

Um livro para ser lido, relido e compartilhado.

Daniel Pennac. Como um romance. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008.


sábado, 14 de setembro de 2013

A Delicadeza

 Os títulos me conquistam com grande facilidade. Uma capa então, pode me ganhar ou me perder. Às vezes, é amor à primeira vista, como aconteceu quando vi nas prateleiras da livraria a capa de Delicacy, do David Foenkinos, que eu não conhecia. Comecei a ler e me encantei pelo estilo do Foenkinos: poético, com a dose certa de humor e de ternura, realmente delicado como o título sugeria. 
Nathalie, a personagem principal da história, tem realmente um quê de Amelie Poulain. O mesmo ar sonhador e romântico, a mesma timidez. Um dia ela conhece François e, num desses acasos felizes da vida, os dois se apaixonam e vivem a história de amor que qualquer um sonha em viver. O pedido de casamento é daqueles que nos deixam sonhando.
Esta não é apenas mais uma história de amor. É uma história sobre perdas, recomeços e segundas chances. É uma história bonita sobre encontrar a delicadeza necessária para reencontrar o amor e a alegria de viver.
"Procurava lembrar para onde estava indo quando topara com ele. Era algo turvo. E, no entanto, ela não era do tipo que anda por aí sem ter um ponto definido para chegar. Não tinha planejado perfazer o percurso daquele romance de Cortázar que tinha acabado de ler? A literatura estava ali, agora, entre os dois. Sim, era isso mesmo, ao ler O jogo da amarelinha gostara especialmente daquelas cenas em que os heróis tentam se cruzar na rua seguindo itinerários saídos da frase de um clochard. À noite, reconstruíam os percursos em um mapa, para ver em que momento poderiam ter se encontrado, em que momentos certamente teriam roçado um no outro. Era por ali que ela estava andando: dentro de um romance". (pág. 12)

Este é um daqueles livros que nos levam das lágrimas ao riso, mas com a delicadeza de uma escrita cuidadosa nos detalhes em cada página. O David Foenkinos, atualmente considerado um dos melhores escritores da nova geração na França, traz a simplicidade de histórias comuns e as transforma em poesia, com alusões à literatura, à música e à pintura. É bonito como o amor à leitura é inserido na história, na cena sutil em que a leitura de um livro marcada com um marcador de páginas simboliza o momento da grande perda de Nathalie e, a leitura do mesmo livro, mais adiante, marcando um recomeço, uma nova história de amor. Essa história linda foi traduzida para o cinema de forma igualmente bela em A delicadeza do amor, com a Audrey Tautou no papel da Nathalie e François Damiens no papel do desengonçado e doce Markus.



Recomendo para quem está precisando relembrar da beleza da vida nas pequenas coisas que fazem toda a diferença.

David Foenkinos. A Delicadeza. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. Tradução: Bernardo Ajzenberg.

P.S: para acompanhar o filme e/ou o livro, não posso deixar de recomendar a receita delícia da Sara  Graciano

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

The Cuckoo's Calling


O Chamado do Cuco

Fiquei curiosa quando soube que a J.K. Rowling, autora de Harry Potter, havia lançado um livro novo, mas sob o pseudônimo de Robert Galbraith. O livro, uma história de mistério, havia vendido cerca de 1500 cópias antes da notícia de que era da J.K. Rowling ser divulgada. Se foi mesmo uma tentativa de ter um pouco mais de liberdade e menos pressão para escrever, ou se foi apenas mais uma grande estratégia da editora para alavancar as vendas, não sei dizer. Mas que isso aumentou a curiosidade dos leitores sobre o livro, isso aumentou. Nem precisa dizer que depois da notícia o livro começou a vender feito água e a tradução em português deve ser lançada em 01 de novembro pela Editora Rocco.

Comprei o ebook em inglês e comecei a ler. E a história realmente me prendeu. Não consegui largar o livro até terminar. A narrativa da J.K. é muito gostosa, e adoro como ela cria esses personagens por quem imediatamente sentimos afeto. Mas esse é o único aspecto em comum aos livros anteriores escritos pela Rowling. Então, não espere encontrar Harry Potter nele para não se decepcionar. O detetive e sua assistente merecem destaque no quesito personagem. O Detive Cormoran Strike é um ex-soldado que lutou no Afeganistão, que está sem clientes, passando por uma crise financeira e afetiva, sendo perseguido pelos credores por não pagar o aluguel e vivendo provisoriamente em seu escritório. Ele não tem dinheiro nem para contratar uma secretária/assistente. Por isso acaba recebendo estagiários de uma empresa de recrutamento de pessoas, que normalmente mudam de trabalho a cada uma semana. Um dia surge Robin, que deveria ficar trabalhando como assistente de Cormoran por uma ou duas semanas, mas que acaba conquistando seu lugar e também a amizade do detetive.

A história se desenvolve a partir de um evento trágico: uma modelo famosa (Lula Landry, chamada pelos amigos de Cuckoo, daí o título) se suicida causando uma grande comoção na imprensa. O irmão da modelo, contudo, decide contratar um detetive para investigar melhor a morte da irmã, pois acredita que ela tenha sido assassinada. Cormoran então passará a investigar esse assassinato com a ajuda de sua assistente, Robin.

O livro é gostoso de ler e divertido, e me deu vontade de ler mais histórias de detetive e de mistério depois dele, gênero pelo qual até então não me aventurei muito. Comprei um livro da Agatha Christie depois disso, e acho louvável isso na J.K.Rowling: ela desperta o desejo de ler. Seremos sempre gratos por Harry Potter e por tantos jovens e adultos que descobriram o prazer de ler por que se apaixonaram pelo pequeno bruxo. E imagino que deve ser um peso muito grande para um escritor criar novas histórias depois de ter tanto sucesso com sua primeira criação. Mas acho que mudando um pouco de ares como ela tem feito e dando passos seguros nas histórias de detetive, que provavelmente continuarão nos próximos livros de Cormoran Strike (a J.K já anunciou que vem outras histórias por aí), ela certamente conseguirá conquistar novamente esse público órfão de Harry Potter com novas histórias e novas personagens. Se tivesse que dar estrelas para avaliar esse livro, acho que ficaria em dúvida: três ou quatro estrelas...3 estrelas e 3/4?

sábado, 20 de abril de 2013

Novecentos




Se há um adjetivo que não pode ser usado para descrever a literatura do escritor italiano Alessandro Baricco é a palavra previsível. Todo o encantamento de sua obra consiste em dizer tudo no não dizer, usando as entrelinhas para contar, com muita poesia, histórias que sempre surpreendem e emocionam.

Novecentos conta a história de um órfão que nasceu em um navio e, adotado pela tripulação, passou toda a sua vida no mar, tornando-se um dos maiores pianistas do mundo. Apesar de nunca ter posto os pés em terra firme, sua fama alcançou o mundo inteiro. Sua música carregava um pouco de cada canto do mundo, que ele conheceu através das muitas pessoas que viu chegar e partir do navio. Depois de 32 anos vividos no mar, Novecentos finalmente pensa em descer. Ele quer ver o mar, mas da terra. Essa mudança de perspectiva nos faz pensar em nossa própria maneira de ver as coisas, de ver o mundo.

O dilema de Novecentos, sua dúvida entre descer ou não descer do navio, é uma metáfora de nosso posicionamento diante da vida, da nossa vontade (e coragem) de enfrentar os desafios e o desconhecido para poder encontrar as alegrias que a vida oferece.

Novecentos foi adaptado para o cinema pelo diretor italiano Giuseppe Tornatore em A Lenda do Pianista do Mar (La Leggenda del Pianista Sull’oceano, 1998, 160 min) e foi o primeiro filme em inglês do diretor. Com Tim Roth no papel de Novecentos, o filme ganhou o globo de ouro de melhor trilha sonora e é um daqueles filmes que devemos ver antes de morrer.

Alessandro Baricco. Novecentos: um monólogo. Ed. Rocco, 2000. 72 páginas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Sr. Pip



Mais um livro que fala sobre o amor aos livros que me cativou. Um homem branco em uma ilha onde a população nativa é negra e onde uma guerrilha destrói a vida das pessoas. Enfrentando todos os preconceitos por ser o único branco do local, ele decide dar aulas para as crianças da região, que por conta dos conflitos não tinham mais escola há um bom tempo. É lendo um exemplar de Grandes Esperanças, um capítulo a cada aula, que ele ajuda aquelas crianças a criar um mundo novo, longe de todos os problemas e sofrimentos, onde possam sonhar. E então Pip, personagem principal da obra de Dickens, acaba por se tornar um amigo e muitas coisas acontecerão na aldeia por conta disso. O final do livro foi surpreendente para mim, não pude evitar as lágrimas nos olhos diante de situações tão tristes, mas mesmo assim ficou a sensação de esperança de que um livro pode realmente transformar a vida de muitas pessoas, mesmo em situações tão adversas, e que um professor, mesmo que não tenha o reconhecimento que mereça, provoca mudanças muito positivas em muitas vidas.
Achei o livro lindo e recomendo para todo mundo que gosta de ler. E se você já tiver lido Grandes Esperanças de Charles Dickens, melhor. Assim todas as referências serão identificadas com mais facilidade. Mas se ainda não leu, não tem problema. Tenho certeza de que depois de ler esse livro você procurará logo ler Grandes esperanças.

"É impossível fingir que está lendo um livro. Seus olhos irão traí-lo. Assim como sua respiração. Uma pessoa fascinada por um livro simplesmente se esquece de respirar. A casa pode pegar fogo, e o leitor mergulhado num livro só erguerá os olhos quando o papel de parede estiver em chamas". [pág. 168]

Lloyd Jones. O Sr. Pip. Editora Rocco, 2007. 272 páginas. Tradução: Léa Viveiros de Castro

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A sociedade literária e a torta de casca de batata



Sempre gostei de escrever cartas. Elas contam tantas histórias, aproximam tanto as pessoas, que acho uma pena que quase ninguém mais as escreva. Os livros contados por meio de cartas, chamados de romance epistolar, sempre foram para mim um atrativo a mais. Quem não gostaria de ter permissão para ler as cartas que outros receberam? Contado através de cartas, A sociedade literária e a torta de casca de batata é um livro feito a quatro mãos. Começou a ser escrito pela bibliotecária Mary Ann Shaffer, já com mais de 70 anos de idade, e terminou de ser escrito por Annie Barrows, sobrinha de Mary Ann. A bibliotecária infelizmente não chegou a ver o livro terminado, nem o sucesso que ele alcançou no mundo inteiro, pois faleceu em 2008. Mas a história criada por Mary Ann continua encantando leitores de todas as idades. Dizem que os direitos foram comprados por Hollywood e que será transformado em filme ainda esse ano.

Um livro com amizades tão bonitas, que talvez você fique até triste por perceber que nunca teve uma amizade assim. Amizades nascidas em uma sociedade literária (que tem um nome esquisito mesmo, que dá título ao livro, mas pode apostar que você só vai querer saber a razão do nome quando estiver lendo). 

Um livro que fala do quanto os livros, a arte, a poesia, podem mudar a vida da gente. E esse amor pelos livros está em cada página. É certamente um dos livros mais doces que eu já li. Por que nele eu vi muitas coisas bonitas nas quais acredito. Por que ele certamente me lembrará dessas coisas bonitas. Por que eu gostaria muito de escrever cartas para esses amigos e falar com eles sobre os livros de que gostei ou sobre qualquer outra coisa. E a parte mais dura da história talvez seja se convencer de que esses personagens foram mesmo inventados, de tão verdadeiros que eles são.

Um livro que fala sobre guerra, pois a ilha onde os habitantes da sociedade literária moraram, a ilha de Guernsey, foi ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. E as coisas horríveis que aconteceram nessa época, e com as quais já nos horrorizamos tantas vezes, aparecerão na história sim e, se você for como eu, vai chorar sempre pela dor dos que sofreram. Mas em muitas outras páginas, na maioria delas, acredito, você vai se ver com o livro nas mãos e sorrindo. E quando você terminar de ler, certamente se sentirá feliz.

Um livro para ser lido e para ser dado de presente para aqueles amigos que compartilham com a gente o amor pela leitura, porque, como a autora diz "talvez haja algum instinto secreto nos livros que os leve a seus leitores perfeitos". Talvez eu não seja a leitora perfeita, mas certamente sou uma das mais apaixonadas. E eu fico feliz que esse livro tenha chegado às minhas mãos.

"É isto que amo na leitura: uma pequena coisa o interessa num livro, e essa pequena coisa o leva a outro, e um pedacinho que você lê nele o leva a um terceiro. Isso vai em progressão geométrica - sem nenhuma finalidade em vista, e unicamente por prazer". pág.20

Mary Ann Shaffer; Annie Barrows. A sociedade literária e a torta de casca de batata. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. 304 páginas

domingo, 4 de outubro de 2009

Talento para viajar

"Essa é a verdade da viagem. Eu não sabia.
A vida nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminho e não o ponto fixo no espaço. Que nós somos feito a passagem dos dias e dos meses e dos anos, como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashô num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar". (pág. 125)

"A viagem sempre é pela viagem em si. É para ter a estrada outra vez debaixo dos pés. Há sempre um E SE em algum lugar". (pág. 82)

Adriana Lisboa. Rakushisha. Ed. Rocco, 2007.