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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Rosário Tijeras

Gosto de me aventurar em livrarias arriscando comprar um livro de um autor sobre o qual nunca ouvi falar. Deixar o livro me escolher e não o contrário. Quando me perguntam como eu faço isso, eu não sei o que responder. Intuição, talvez. Na maioria das vezes dá certo. Na maioria. Nunca tinha ouvido falar de Jorge Franco, mas a sinopse me pareceu interessante e, bom, tinha uma recomendação de Gabo na contra-capa.... Não me arrependi em nada de ter lido Rosário Tijeras, e fiquei com vontade de ler mais livros do autor.

Rosário Tijeras tem todos os elementos, não do realismo fantástico de Gabo, mas do realismo das favelas da Colômbia. O enredo conta a história de Rosário Tijeras (que em espanhol que dizer tesouras), uma mulher sedutora e perigosa, altamente passional, que teve sua infância destruída na vida cruel e brutal da periferia. Para sobreviver, Rosário aprende a se defender com a mesma violência do ambiente que a cerca.

Mas Rosário também é perigosa por enfeitiçar os homens com sua beleza, sua impulsividade, sua força. A "heroína" da história foge a todos os arquétipos: usa droga, se prostitui, mata muitas pessoas e se torna uma lenda. Mas tudo isso ganha um brilho especial ao ser contado através dos olhos apaixonados de Antonio, melhor amigo de Rosário e de Emílio (namorado de Rosário). É através dos olhos de Antonio que conseguimos ver, mesmo em meio a tanto caos e a uma narrativa tão intensa, a menina sofrida que é Rosário, fruto de um mundo que não lhe oferece muitas expectativas e repleto de violência, mas que também ama à sua maneira, e que sonha com uma vida melhor.

A história de Rosario é a história de Antonio, de seu amor por essa mulher que só o via como um amigo. É a história triste dos amores não correspondidos e dos estragos que eles deixam nos corações. Isso é muito bem retratado neste romance contemporâneo do colombiano Jorge Franco.

Gabriel Garcia Marquez disse que "Jorge Franco é um dos escritores colombianos para quem ele gostaria de passar a torcha". O que é um grande elogio. Não acho que ele seja um Gabo, talvez seja possível compará-lo com Gabo quanto à intensidade e a paixão dos personagens. Mas ele é certamente um grande escritor. Com uma narrativa muito envolvente, apesar de tratar de temas que tornariam qualquer romance muito "pesado" como assassinatos, drogas, prostituição, estupro etc, o amor de Antonio por Rosário "amortece" nossos olhares. Espere encontrar no livro muitos palavrões, usados para caracterizar o linguajar desse submundo. Mas espere encontrar também descrições românticas dessa paixão de Antônio por Rosário, paixão dessas de entregar a alma ao objeto desse amor.

FRANCO, Jorge. Rosário Tijeras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. 160 páginas.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Hoje escrevemos ao coronel



Eu ainda era menina quando ouvi falar dele pela primeira vez. Devo a minha mãe, que desde cedo me falava dos livros que ela havia lido e amado quando era da minha idade (e com isso plantava no meu peito o desejo de ler que até hoje me acompanha), o meu amor pela literatura. Lembro que um dos primeiros livros que ela comentou comigo, livros que ela tinha lido e devorado, de tão bom que eram, haviam sido escritos por ele. Eu achava os títulos belíssimos e intrigantes: como deveria ser uma história que falasse de cem anos de solidão? Como seria um amor nesses tempos de cólera? A minha imaginação fervia de curiosidade. O desejo de ler essas histórias foi tão grande, que fiz minha mãe ir comigo a um sebo, porque eu precisava ler esses livros e ela já não os tinha mais. Comecei a ler Gabo nessa época, e acho que um começo assim é a garantia mais certa de um caminho infinito e cheio de encantamentos a percorrer com os livros. Tive a sorte de ter um começo assim. E esses dois livros desde então permanecem na minha lista de favoritos. Já gostei de livros que ficaram por um tempo nessa lista, e que depois deixaram de ser tão importantes. Paixão de momento. Mas os de Gabo não. Eles permanecem.


Anos depois, na faculdade, chegou a vez de relê-los. E eu me encantei novamente com a árvore genealógica dos Buendía, e sonhei com uma chuva de flores amarelas. Foi aí que eu descobri que as grandes histórias são mesmo eternas. E que não nos cansamos nunca de reler os escritores, aqueles que permanecem, porque os livros que eles escrevem são infinitos. E talvez seja por isso que, quando alguém me pergunta "que livro você levaria para ler em uma ilha deserta?" a primeira opção que sempre passa pela minha cabeça é Cem Anos de Solidão. Um livro que eu já li duas vezes, e estou certa de que ainda será lido muitas vezes durante a minha vida. E cada leitura será diferente, apenas uma versão das infinitas possibilidades de um livro mágico.

Hoje escrevemos ao coronel para celebrar seus 87 anos de vida e agradecê-lo pelos livros infinitos, que tornam o caminho da literatura algo muito mais interessante de percorrer. Feliz Aniversário, Gabo.



Gabriel Garcia Márquez nasceu em 6 de março de 1927 em Aracataca, Colômbia. É escritor, jornalista, editor, ativista e político colombiano. Considerado um dos autores mais importantes do século 20, ele foi premiado com  o Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, que entre outros livros inclui o aclamado Cem Anos de Solidão. Foi um dos precursores do realismo mágico na literatura latino-americana. E é um dos escritores preferidos deste blog.

Em abril de 2009 declarou que se aposentou e que não pretendia escrever mais livros. Essa notícia viu-se confirmada em 2012, quando o seu irmão, Jaime Garcia Márquez, noticiou que em virtude do tratamento contra o câncer, os sintomas de demência senil se agravaram e Gabriel Garcia Márquez, embora esteja em bom estado físico, sofre lapsos de memória e não voltará a escrever.