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quinta-feira, 5 de março de 2015

Três vezes ao amanhecer

O novo romance de Alessandro Baricco chega às livrarias na primeira quinzena de março em uma edição bonita da Alfaguara e com tradução de Joana Angélica d'Avila Melo. Três vezes ao amanhecer (2015, 112 páginas) é um livro imaginário que aparece em Mr. Gwyn, lançado no Brasil em 2014. Depois de escrever Mr. Gwyn, Baricco quis também dar vida a Três vezes ao amanhecer. Apesar de derivar de um livro anterior, ele pode ser lido de forma independente, mas acredito que os leitores que ainda não tiveram a chance de ler Mr. Gwyn ficarão bem mais curiosos agora.

Na nota de abertura do livro, Baricco diz:
"Estas páginas contam uma história verossímil que, no entanto, jamais poderia acontecer na realidade. De fato, contam sobre dois personagens que se encontram por três vezes, mas cada vez é única, e a primeira, e a última. Eles podem fazer isso porque habitam um Tempo anômalo que inutilmente procuraríamos na experiência cotidiana. São as histórias que o proporcionam, de vez em quando, e este é um dos privilégios delas." Por essa nota, percebemos muito da relação com o romance anterior, em que Jasper Gwyn nos diz que "não somos personagens, somos histórias". E essas três histórias únicas, que falam de um encontro que é o primeiro e também o último, me fizeram pensar em Kundera em A insustentável leveza do ser (einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca).

Nas três histórias que constituem o livro, dois personagens se encontram antes do amanhecer (o que me fez pensar em Após o anoitecer, do Murakami) e esse encontro acaba por proporcionar uma reflexão sobre suas vidas, sobre a possibilidade de recomeçar. A primeira história narra o encontro de um homem de 42 anos e uma mulher embriagada no saguão de um hotel; a segunda é o encontro de uma jovem de dezesseis anos e o porteiro idoso de um hotel que tenta convencê-la a fazer escolhas melhores e deixar o namorado violento e fugir; a terceira e última história também começa em um quarto de hotel onde uma policial de meia-idade prestes a se aposentar decide levar um garoto de treze anos, único sobrevivente de um incêndio, para o lugar que considera o mais bonito do mundo: ao lado do homem que ama e que não vê há anos.

Com essas três histórias breves, mais uma vez Baricco nos mostra que o tempo inteiro explora e se diverte com as possibilidades da literatura, assim como Jasper Gwyn. Ao explorar o tema da mudança e da possibilidade de recomeços à luz do alvorecer, essas três histórias se entrelaçam com maestria numa metáfora bonita sobre as possibilidades e os recomeços de nossas próprias vidas. 

BARICCO, Alessandro. Três vezes ao amanhecer. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. Trad. Joana Angélica d'Avila Melo. 112 páginas.

Para ler o primeiro capítulo de Três vezes ao amanhecer, clique aqui.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mr. Gwyn

“A ousadia de Baricco é ter escrito um livro sobre a possibilidade de desaparecer, com o objetivo de se reencontrar.” – Corriere della Sera

Publicado originalmente em 2011, Mr. Gwyn, do escritor italiano Alessandro Baricco, finalmente chega ao público brasileiro (lançamento previsto para março de 2014 nas livrarias), em edição da Alfaguara com tradução de Joana Angélica d'Avila Melo.

Cada livro de Alessandro Baricco que leio é uma surpresa, um segredo que aos poucos ele vai revelando ao leitor, mantendo-o sempre intrigado, até a última página. Nenhuma palavra parece sobrar nesse texto que é sempre muito poético. Com capítulos curtos e uma aparente simplicidade (digo aparente por que não há nada de simples na narrativa de Baricco, uma narrativa riquíssima na construção de imagens poéticas), ele continua inovando a cada livro, mas mantendo seu estilo elegante e delicado que me encanta sempre. E a cada página ficamos com a sensação de que a literatura para ele é um divertimento, algo encantatório e mágico com o qual ele brinca de enfeitiçar os leitores, mas não sem fazer parte do jogo.

Em Mr. Gwyn, a literatura e sua construção são parte da trama. Jasper Gwyn é um escritor famoso, que um dia se dá conta de que nada do que tem feito para ganhar a vida até então faz sentido. Ele decide escrever um artigo para um bem conceituado jornal inglês listando 52 coisas que ele não pretende mais fazer, sendo a última delas publicar e escrever livros. Seu artigo causa grande rebuliço na imprensa e deixa seu agente literário em desespero. Tom, o agente, acredita que isso é comum entre os escritores, que é algo passageiro, pois já ouviu de vários que não iriam mais escrever, e afirma que para um escritor "não é possível viver sem a escrita". Mas Jasper é esse sujeito peculiar, que tem hábitos esquisitos, como frequentar diariamente lavanderias por toda cidade, que não quer ter filhos e tende ao isolamento (e aqui Baricco brinca um pouco com esse estereótipo que existe acerca dos escritores). Seu agente é seu único amigo, a única pessoa com quem ele conversa e que sabe dos seus segredos. Algum tempo depois da publicação do artigo, Jasper encontra uma senhora que procura abrigo por conta da chuva na sala de espera de um consultório médico onde ele aguarda para fazer alguns exames. Sem escrever, Jasper passou a ter problemas de saúde, desmaios, e sem saber o que fazer, já que não pode mais escrever porque publicou isso na imprensa, recorre aos exames para encontrar o que lhe inquieta. É por conta dessa conversa com a senhora, que é também a única pessoa com quem ele quer conversar, que Jasper começa a procurar outra forma de realizar sua escrita, que nem ele mesmo sabe como isso será. Um passeio a uma galeria de arte, onde vê quadros que são retratos de pessoas, e ele decide que fará retratos escritos, algo totalmente diferente de uma simples descrição. E a história se desenvolve nessa busca de como fazer esse retratos, uma metáfora da própria atividade de escrita, que é essa busca de uma história, sem nem sempre saber onde chegará ou qual a fórmula para fazê-lo. A melhor definição que encontrei é de que é a história de um escritor que precisa desaparecer para poder se reencontrar. Uma descoberta que nos surpreende como só os livros de Baricco podem fazer, mas que não deixa de ser uma fábula sobre a amizade, sobre o processo criativo, uma viagem poética e inquietante como é a própria literatura e os mundos que ela nos faz descobrir.

Alessandro Baricco. Mr. Gwyn. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. 224 páginas. Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo

"Do que somos capazes, pensou. Crescer, amar, fazer filhos, envelhecer - e tudo isso enquanto estamos também em outro lugar, no tempo longo de uma resposta que não veio, ou de um gesto não concluído. Quantos caminhos, e com que passo diferente os percorremos, naquilo que parece uma única viagem."

"Jasper Gwyn me ensinou que não somos personagens, somos histórias.[...] Jasper Gwyn dizia que todos somos alguma página de um livro, mas de um livro que ninguém jamais escreveu e que procuramos em vão nas prateleiras de nossa mente. Ele me disse que aquilo que tentava fazer era escrever esse livro para as pessoas que o procuravam. As páginas certas. [...] Olhava essas pessoas. Por muito tempo. Até ver nelas a história que eram.[...] Nós somos um monte de coisas, e todas juntas".

Alessandro Baricco nasceu em 1958, em Turim. É autor de livros de ensaios, de peças teatrais e dos romances Mundos de vidro, Oceano mar, City, Seda (adaptado para o cinema em 2007), Sem sangue, Esta história e A paixão de A. Recebeu, entre outros prêmios, o Prix Médicis Étranger, na França, e o Selezione Campiello, na Itália. Vive atualmente em Roma.

Para ler o primeiro capítulo de Mr. Gwyn, clique aqui.


sábado, 20 de abril de 2013

Novecentos




Se há um adjetivo que não pode ser usado para descrever a literatura do escritor italiano Alessandro Baricco é a palavra previsível. Todo o encantamento de sua obra consiste em dizer tudo no não dizer, usando as entrelinhas para contar, com muita poesia, histórias que sempre surpreendem e emocionam.

Novecentos conta a história de um órfão que nasceu em um navio e, adotado pela tripulação, passou toda a sua vida no mar, tornando-se um dos maiores pianistas do mundo. Apesar de nunca ter posto os pés em terra firme, sua fama alcançou o mundo inteiro. Sua música carregava um pouco de cada canto do mundo, que ele conheceu através das muitas pessoas que viu chegar e partir do navio. Depois de 32 anos vividos no mar, Novecentos finalmente pensa em descer. Ele quer ver o mar, mas da terra. Essa mudança de perspectiva nos faz pensar em nossa própria maneira de ver as coisas, de ver o mundo.

O dilema de Novecentos, sua dúvida entre descer ou não descer do navio, é uma metáfora de nosso posicionamento diante da vida, da nossa vontade (e coragem) de enfrentar os desafios e o desconhecido para poder encontrar as alegrias que a vida oferece.

Novecentos foi adaptado para o cinema pelo diretor italiano Giuseppe Tornatore em A Lenda do Pianista do Mar (La Leggenda del Pianista Sull’oceano, 1998, 160 min) e foi o primeiro filme em inglês do diretor. Com Tim Roth no papel de Novecentos, o filme ganhou o globo de ouro de melhor trilha sonora e é um daqueles filmes que devemos ver antes de morrer.

Alessandro Baricco. Novecentos: um monólogo. Ed. Rocco, 2000. 72 páginas.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dos desejos.

Como pode eu não ter ouvido falar desse filme até agora, hein? Vou procurar na locadora urgente!! Depois que eu achar eu conto para vocês como foi. Mas também, com o nome "Paixão Proibida" como eu poderia associar com o "Seda" do Alessandro Baricco, né? E antes que vocês digam que foi a tradução, não foi! É tudo culpa de quem faz o marketing dos filmes e da distribuidora. Mas Seda já seria um nome lindo que só para um filme. Vejam o trailer a seguir:



silk, 2007. Movie Trailer.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Um tal de mar

Tenho encontrado coisas bonitas assim:

"Tem 38 anos, Bartleboom. Ele pensa que em algum lugar, no mundo, encontrará um dia uma mulher que, desde sempre, é a sua mulher. De vez em quando amargura-se pela obstinação do destino em fazê-lo esperar com tanta indelicada tenacidade, mas com o tempo aprendeu a considerar o fato com grande serenidade. Quase todo o dia, agora já faz anos, pega a caneta na mão e escreve-lhe. Não tem nomes e não tem endereços para colocar no envelope: mas tem uma vida para contar. E a quem, senão a ela? Ele pensa que quando se encontrarem será bonito pousar em seu colo uma caixa de mogno cheia de cartas e dizer-lhe
- Estava à sua espera.
Ela abrirá a caixa e lentamente, quando assim quiser, lerá as cartas uma a uma e subindo um quilométrico fio de tinta azul pegará para si os anos - os dias, os instantes - que aquele homem, antes ainda de conhecê-la, já lhe apresentara. Ou talvez, mais simplesmente, virará a caixa e atônita diante daquela engraçada nevasca de cartas sorrirá dizendo para aquele homem
- Você é louco.
E para sempre o amará."

Baricco, Alessando. Oceano Mar. São Paulo: Iluminuras, 1997. p.24