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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A Solidão dos Números Primos

Com um dos títulos mais bonitos já vistos, A Solidão dos Números Primos, do escritor italiano Paolo Giordano, foi uma grande descoberta. Intenso, verdadeiro e, em muitos momentos, extremamente doloroso de ler, tal sua veracidade, o livro faz uma reflexão sobre as diferenças, sobre a solidão, sobre as relações familiares (e os problemas que encontramos nelas) e sobre muitos conflitos da nossa juventude.

Contando a história de Mattia e Alice, duas crianças desde a infância marcadas por suas diferenças, acompanhamos a passagem dos dois pela adolescência, com todas as dificuldades, encontros e desencontros, até sua vida adulta. Nesse percurso o que chama a atenção são as relações familiares, os problemas de comunicação entre as pessoas de uma mesma família e o quanto isso será determinante para a formação de cada indivíduo. O autor nos mostra como nossos erros e nossas escolhas deixam marcas em nós por toda a vida.

Alice é uma menina oprimida que tem distúrbios alimentares e frequenta aulas de esqui. O detalhe mais importante é que Alice não quer aprender a esquiar, ela só frequenta as aulas porque é obrigada pelo pai. Durante um dos treinos, Alice sofre um acidente que a deixa com uma deficiência permanente na perna.

Mattia tem uma inteligência rara, enquanto sua irmã gêmea tem uma doença mental, da qual ele se envergonha. Um dia, indo para o aniversário de um amigo da escola, levando a irmã junto com ele apenas porque sua mãe o obrigava, Mattia deixa a irmã em uma praça e segue para o aniversário, porque queria ser aceito pelo grupo de colegas pelo menos uma vez, mas sua irmã desaparece, e esse fato marcará sua vida para sempre.

Em suas diferenças, Mattia e Alice se reconhecerão em sua solidão, e são muitos os encontros e desencontros que permearão a história dos dois durante todo o livro, numa avalanche de aspectos psicológicos muito bem explorados pelo autor, mas que deixam o leitor quase sempre com o coração apertado, sofrendo pelos personagens. 

“Mattia tinha estudado que entre os números primos existem alguns ainda mais especiais. Os matemáticos os chamam de primos gêmeos: são casais de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase vizinhos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente. Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos, mas não o bastante para se tocar de verdade”.

Este é sem dúvida um livro com personagens extremamente complexos que nos levam a refletir sobre várias questões, não só sobre as relações familiares, mas sobre a juventude nos dias de hoje e todas as dificuldades que ela enfrenta. E o livro nos mostra o quanto o ser humano pode ser cruel com o simples fato de ficar em silêncio. É um livro que recomendo não apenas para os jovens, mas para os pais de todas as idades, porque às vezes ver no outro o nosso erro é uma forma de reconhecê-lo, e acompanhar o doloroso desenvolvimento desses personagens acaba por ser uma grande lição de como relacionar-se com o outro, de como ser mais humano diante de nossas imperfeições e diferenças.

Eu ainda estou torcendo por Mattia e Alice. E tenho certeza de que você terminará de ler este livro torcendo por eles também.

Paolo Giordano. A solidão dos números primos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
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Paolo Giordano nasceu eu Turim em 1982. Formou-se em Física e ganhou o Prêmio Strega 2009 por este romance de estreia.