domingo, 28 de fevereiro de 2016

A situação humana



A situação humana reúne as palestras proferidas por Aldous Huxley em 1959, na Universidade de Santa Bárbara, Estados Unidos, e aborda os mais diversos temas, desde a educação e a relação do homem com a natureza, até religião e arte, crescimento populacional e o inconsciente. Por serem palestras, o texto é fluido, quase como uma conversa, abordando assuntos diferentes e (alguns deles) ainda relevantes nos dias de hoje. Nessa minha primeira aproximação à obra de Huxley (sim, ainda não tinha lido nada do autor, nem mesmo a obra que o tornou célebre, Admirável mundo novo), confesso que inicialmente achei que não fosse gostar. Mas o texto me surpreendeu, pois algumas reflexões do autor, que revelam sua preocupação em compreender o mundo que lhe cerca, são interessantes.

Logo de início, no primeiro ensaio sobre educação integrada (e um dos que eu mais gostei), Huxley destaca um aspecto do nosso sistema educacional que, ainda nos dias de hoje, todos aqueles e aquelas que trabalham com educação certamente já consideraram em algum momento de suas carreiras: a especialização cada vez maior que trilhamos na academia sem nem sempre levar em conta um conhecimento interdisciplinar que só amplia a nossa capacidade de compreender o ser humano e suas relações com o mundo.

“Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas uma boa porção de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, menos profunda, dos problemas humanos em geral” (p.7).                                 

No ensaio “Guerra e nacionalismo”, no qual o autor tenta entender as origens da guerra e chegar a um conceito do que entende por nação, vale destacar seu posicionamento de que a violência da guerra é também uma construção social e não algo inerente ao homem.

“É muito importante lembrar que tanto a guerra quanto o poder motivador que leva o homem à guerra são socialmente condicionados, porque assim percebemos que não há nada de biologicamente inevitável nessa terrível coisa que nos ameaça. Por ser um fenômeno socialmente condicionado, poderemos, se quisermos, descondicioná-lo e livrar-nos dele” (p. 89).

Outro ensaio que gostei é o intitulado “Linguagem”, no qual o autor discorre sobre o papel da linguagem e das palavras como diferencial humano e também como um meio através do qual ideias, boas e más, são transmitidas, evidenciando o poder da palavra.

“A linguagem é o que nos torna humanos. Infelizmente, é também o que nos torna humanos demais. De um lado, é a mãe da ciência e da filosofia, e de outro produz toda a sorte de superstição, preconceito e loucura. Ajuda-nos e nos destrói; torna possível a civilização e também produz aqueles assustadores conflitos que degradam a civilização” (p. 190).

Cada uma das palestras em A situação humana demonstra como Huxley era um homem atento e interessado em refletir e questionar os mais diversos assuntos debatidos em sua época. E para nós, talvez o mais interessante aqui seja acompanhar seus pensamentos para refletir sobre as nossas questões hoje, o que mudou, ou o que ainda permanece relevante para os nossos dias. Não é um livro cansativo, já que a linguagem mais fluida ajuda bastante a acompanhar o raciocínio do autor, mas é um livro que contém muitas informações e muitas referências e que, por isso, pede uma leitura mais atenta. Por serem ensaios independentes, os leitores também podem decidir em que ordem cada um deles será lido.


Sobre o autor

Aldous Huxley nasceu em 26 de julho de 1894 no condado de Surrey, na Inglaterra. Em 1916, publica seu primeiro livro, uma coletânea de poemas. A partir de 1921, sua reputação literária se estabelece, através de Crome yellow. Em seguida, escreve Antic hay (1923), Folhas inúteis (1925) e Contraponto (1928), sátiras onde analisa de modo espirituoso e implacável os dissabores do mundo moderno. No período anterior à Segunda Guerra Mundial, sua obra adquire tons mais sombrios, incluindo o célebre romance Admirável mundo novo (1932), antiutopia que descreve a desumanizada sociedade do futuro, e Sem olhos em Gaza (1936), uma novela pacifista. Em 1937, deixa a Europa e se muda para a Califórnia. Além de ensaios sobre assuntos tanto culturais quanto religiosos, em que se nota a forte influência da mística oriental, Huxley publicou O tempo deve parar (1944), O macaco e a essência (1949), A ilha (1962) e As portas da percepção (1954), onde descreve suas experiências com a mescalina. Aldous Huxley faleceu em 22 de novembro de 1963.

HUXLEY, Aldous. A situação humana. Trad. Lya Luft. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Beijo, boa sorte



Sacada

"Eu não sei o que ela fará sem mim. Imagino que o rosto se transforme numa permanente coleção de vincos e que as pernas tremam ao sinal da mais embaçada lembrança. Não fomos em lua de mel para Kosovo e nem brincamos de tiro no parque. Hoje compreendo que Melina não deixou de me amar nem mesmo nesses momentos de delírio. Vendo-a daqui de cima, acho que me arrependo de não lhe ter dedicado mais punhetas e de não ter cedido aos pedidos de socorro enquanto caía. É linda mesmo assim. No entanto, quando eu disse que iria embora, não suportei fitar-lhe a cara. O cenho fechou-se numa expressão-relâmpago e notei nela os punhos cerrados. A barriga enorme já não deixava entrever ainda a intenção do aborto. Mas eu não permitiria. Ficou nervosa – tigresa à morte – quando mostrei as passagens de trem. Nem era assim tão longe, mas era o abandono. Olhando daqui, noto que a calcinha era presente de Natal. Mesmo estatelada lá embaixo, ainda dedico-lhe tesão. Melina, minha menina, quem mandou ficares de costas na sacada?"

RIBEIRO, Ana Elisa. Beijo, boa sorte. Natal (RN): Jovens Escribas, 2015. p. 13


Adorei ler os contos de Ana Elisa Ribeiro. Mini contos que dizem tanto! O que transcrevo acima já ilustra a força do texto de Ana Elisa. Os temas são diversos: falam de gênero, de violência, de perdas e de lembranças, de relações amorosas e de infância, entre muitas coisas mais. Não conhecia a autora e fiquei com vontade de ler mais coisas dela depois de ter lido Beijo, boa sorte. E ela ainda escreve crônicas, poesias, livros infantis. Comprei meu exemplar lá no site Jovens Escribas, onde há um novo universo de autores a serem descobertos, pelo menos pra mim. É sempre bom encontrar novos horizontes. Vamos ler mais autoras brasileiras? =]


Ana Elisa Ribeiro nasceu em Belo Horizonte, em 1975. Escritora, poetisa, professora e pesquisadora. Licenciada e bacharel em Letras pela UFMG, mestre em Linguística e doutora em Linguística Aplicada, pesquisa a leitura de impressos e telas. Pós-doutora pela PUC Minas e pela Unicamp. É professora do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. Seu primeiro livro foi a coletânea de poemas Poesinha (1997), pela Poesia Orbital, nos eventos comemorativos de 100 anos da capital mineira. Publicou em jornais e revistas brasileiros. Foi blogueira da Estante de Livros Virtual, em 2002-2003. Participou de antologias de poetas no Brasil, no México e na França. Desde 2003, escreve crônicas para o site Digestivo Cultural. Anzol de pescar infernos (2013) e Meus segredos com Capitu - Livros, leituras e outros paraísos (2013) foram semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom em 2014. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Maus



Maus é uma história em quadrinhos que conta a vida de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O pai do ilustrador Art Spiegelman, Vladek, foi levado para Auschwitz junto com a sua esposa, Anja. Durante o tempo em que permaneceram nos campos, vivendo todo o terror sobre o qual já ouvimos falar diversas vezes, eles ficaram separados, reunindo-se novamente apenas quando a guerra chega ao fim. Praticamente toda a família de Vladek e Anja é morta nas câmaras de gás ou tentando fugir delas, inclusive o filho pequeno do casal, que morre aos 5 anos.

Anos depois, já vivendo nos Estados Unidos, onde recomeçaram a vida depois de serem libertados dos campos,Vladek se casa novamente com uma mulher que também sobreviveu aos campos de concentração, mas é completamente diferente dele. Os conflitos entre os dois revelam os diferentes tipos de trauma daqueles que sobrevivem a uma guerra, e também que certas atitudes de Vladek são características dele mesmo, e não uma consequência do trauma. Apesar de ter casado com Mala, ele ainda não se recuperou da morte da esposa, Anja, que se suicida quando Art ainda é adolescente.

O filho então quer escrever uma história em quadrinhos contando a vida dos pais e passa a gravar as conversas que tem com o pai para não esquecer nenhum detalhe, afinal ele é hoje a sua única fonte de informações, aquele que pode contar a história da família, destacando a importância desses relatos de sobreviventes como forma de preservar a história daqueles que morreram. Os diários da mãe, que poderiam ser mais uma fonte de informações preciosa para Art, foram destruídos pelo pai, que não consegue lidar com o suicídio da esposa, principalmente depois de tudo o que enfrentaram na guerra. Mas ser uma sobrevivente de Auschwitz não é um fardo fácil de carregar, não apenas pelo trauma e pelas lembranças de tudo o que vivenciaram, mas também pelo sentimento de culpa que muitos carregam de ter sobrevivido enquanto tantos outros morreram.

Essas conversas entre pai e filho, apesar de tão diferentes um do outro, não apenas pela personalidade diferente, mas pelas marcas da guerra que o pai carrega, são uma oportunidade valiosa que Art e Vladek tem de se reaproximar. O filho passa a compreender um pouco mais o jeito de ser do pai ao ouvir o seu relato e tomar conhecimento do sofrimento que eles vivenciaram.

Falar sobre o Holocausto é sempre difícil, que nos entristece e que me deixa nauseada quase sempre, mas achei que por ser em quadrinhos, contando com o apoio visual dos desenhos de Art que representam as personagens como animais, o autor conseguiu retratar com ternura a história de seus pais, que é também a história de muitos outros, sobreviventes ou não, de um dos eventos mais sombrios da história da humanidade. Para quem quer começar a ler sobre o assunto, Maus é uma ótima maneira de começar - e uma excelente aula de história - acredito que bem interessante de ser trabalhado nas escolas também, por ser um pouco mais leve (se é que possível ser leve com esse tema...) do que outros relatos, escritos pelos próprios sobreviventes do Holocausto, como É isto um homem? e A trégua de Primo Levi, ou Noite, de Elie Wiesel, por exemplo.

O que mais gostei em Maus é a sinceridade do texto, já que Art Spiegelman não idealiza sua relação com o pai, retratando com honestidade tanto as suas próprias falhas como os defeitos do pai. Por exemplo, algo que nos choca bastante é quando o pai dele, mesmo depois de tudo o que passou nos campos de concentração por conta da intolerância, do preconceito e da ideia absurda de superioridade dos alemães em relação aos judeus, demonstra que é um homem racista, julgando um homem negro a quem o filho oferece uma carona como um ladrão, como alguém inferior por sua cor. E, quando questionado pelo filho, ainda afirma "que os negros não são como os judeus", algo surreal de se imaginar por parte de alguém que viu sua própria família ser dizimada pelos alemães, que agiam com base em uma ideia semelhante. A honestidade desse relato pode servir como excelente ponto de reflexão sobre como certas visões que temos fundamentam a exclusão, o desrespeito e, principalmente, a violência.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Africano



O africano é o primeiro livro que leio do escritor Jean-Marie Gustave Le Clézio e o primeiro pensamento ao concluir a leitura foi aquele de “quero ler mais coisas desse autor”. Pelo seu tom intimista e autobiográfico, O africano encanta pela simplicidade da narrativa, tão poética e cheia de sentimento que é difícil não se encantar pelo livro, afinal ele trata da relação pai e filho e isso, acredito, alcança todos nós. 

"Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas ideias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós.
Por muito tempo sonhei que minha mãe era negra. Inventei-me uma história, um passado, para escapar da realidade em meu retorno da África, neste país, nesta cidade onde eu não conhecia ninguém, onde me tornara um estrangeiro. Depois descobri, quando meu pai, na idade da aposentadoria, retornou para viver conosco na França, que o Africano era ele. Foi difícil admitir isso. Tive de voltar atrás, de recomeçar, de tentar compreender. Em memória disso escrevi este pequeno livro".

O trecho acima é a primeira página do livro e já nos situa no que é, em essência, esta história: as lembranças de um filho que percorre as memórias que tem de seu pai e de alguns momentos de sua vida, assim como da vida da família, que foram determinantes em sua formação. O livro pode ser visto como uma homenagem do autor à sua infância na África colonial e ao seu pai, um médico que passou grande parte da vida no país, e longe da própria família que permaneceu na França, para exercer a medicina e ajudar as pessoas.

Após uma primeira infância na França, onde viveu com a mãe e os avós, já que o pai não podia visitá-los por conta da guerra, aos oito anos o autor viaja até a África ocidental, na Nigéria e finalmente conhece seu pai. São os anos que viveu em África que ele tem como os melhores de sua vida.

Relembrando como foi descobrir a liberdade de viver em África, tão diferente da vida que levava no apartamento burguês dos avós na França, percebemos o olhar ainda idealizado que o autor tem da vida na África, mas também a diferença do olhar entre ele e seu irmão do olhar das demais crianças da região. Enquanto as crianças conviviam com os insetos, respeitando-os como parte da natureza que os constituíam, os dois recém-chegados da França tinham como brincadeira destruir as casas de cupins que encontravam, sem nenhum motivo, apenas movidos por uma raiva incontida que levava à destruição. Uma analogia da própria colonização, que nos permite uma reflexão sobre a visão eurocêntrica do mundo, que ainda hoje prevalece. Afinal quem são os selvagens? Questionamentos assim perpassam o texto de forma sutil e certamente nos levam a refletir sobre a apropriação cultural decorrente da colonização, sobre a violência e o descaso com a vida dos africanos em diversos conflitos que destruíram inúmeras vidas e sobre o nosso próprio olhar em relação ao outro, ao que difere de nós. 

Apesar dos elementos de denúncia social, o livro é uma espécie de tentativa de um filho de se reaproximar de seu pai, já que na época, quando o conheceu, o pai era um homem amargurado, rígido, calado, que exigia um comportamento disciplinado dos filhos e que os anos que passou distante da mulher e das crianças haviam transformado em um estranho. Na época, ainda criança, o autor não compreendia o que havia se passado com o pai ali em todos aqueles anos, sendo o único médico de uma enorme região, e completamente sem estrutura para exercer a sua profissão como desejava, mas ainda assim fazendo de tudo para respeitar as pessoas daquele lugar, tão diferente do seu, e também a sua cultura. Uma experiência que certamente o transformou em um africano, que o ensinou muito sobre a vida, a ponto de sempre ter desejado para lá voltar.

Tempos depois, e percorrendo os objetos, as fotografias e as histórias dos quais só muito depois tomou conhecimento, o filho então tenta reencontrar, por meio das memórias que escreve nesse pequeno grande livro, o pai que por muito tempo foi para ele um estrangeiro, percebendo o quanto de sua experiência de vida e do que ele foi existe em si mesmo. Entre as muitas coisas bonitas que habitam este livro (fotografias tiradas pelo próprio pai do autor e outros trechos belos, carregados de sentimento), escolhi encerrar este texto com um dos trechos de que mais gostei e que diz muito da história, que merece ser lida e compartilhada:

“Os africanos costumam dizer que não é do dia em que saem do ventre materno que as pessoas nascem, mas sim do lugar e do instante em que elas são concebidas” (p.83)

LE CLÉZIO, J.M.G. O africano. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

Jean-Marie Gustave Le Clézio, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2008, nasceu em 1940, em Nice, na França, mas suas origens também nos levam à ilha Maurício, onde nasceram seus pais. Aos oito anos, mudou-se com a família para a Nigéria, onde seu pai trabalhou como médico durante a Segunda Guerra Mundial. Formou-se em Letras e, em 1963, aos 23 anos de idade, ganhou o prêmio literário Renaudot pelo livro Le Procès-verbal. É autor de contos, novelas, romances, ensaios e livros de literatura infanto-juvenil.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Um poema de Herberto Helder



Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Helder. In: Poesia toda. Lisboa: Plátano editora, 1973. p.18-19.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Euforia

A escritora estadunidense Lily King buscou inspiração na vida de uma das mais famosas antropólogas da história para criar o romance Euforia. Após ler a biografia de Margaret Mead (1901-1978), a autora usou algumas informações reais para elaborar as personagens (ficcionais) do seu romance, ambientado na Nova Guiné, na década de 1930. Sem dúvida uma forma de homenagem, já que, sabendo que o livro é um romance, ficamos curiosos para conhecer um pouco mais da vida dessa mulher que se destacou em sua carreira, teve uma vida interessante e serviu de inspiração para esta história de amor.

Mas quem foi Margaret Mead?

Margaret Mead teve grande importância na divulgação da antropologia enquanto ciência. Formada em psicologia pela Barnard e doutora pela Universidade de Columbia, Mead acreditava que a antropologia era uma nova forma de compreender o comportamento humano, algo indispensável para nos prepararmos para o futuro. Foi a primeira antropóloga a analisar o desenvolvimento humano através de uma perspectiva intercultural. Em seus estudos na Nova Guiné, ela demonstrou que os papeis de gênero diferem de uma sociedade para outra, dependendo também dos aspectos culturais (e não apenas do biológico, como se acreditava na época). Casou-se três vezes: o primeiro casamento, com Luther Sheeleigh Cressman; o segundo, com o antropólogo Reo Fortune; e o terceiro com o antropólogo Gregory Bateson, com quem teve uma filha. As mulheres altamente educadas da sua família, como a avó e a mãe, tiveram grande influência na formação de Mead. 

Na biblioteca do congresso dos Estados Unidos, que reúne hoje os mais de 5000 itens que constituem a sua produção, é possível encontrar uma carta de Mead para a sua avó logo após o primeiro casamento, em 1923, afirmando a sua decisão de manter o seu nome de solteira. Atitude que aliás manteve durante os três casamentos e que justificou com base no que sua mãe lhe ensinou: as mulheres deveriam manter a sua identidade e não se anular, o que já revela bastante de sua personalidade. Margaret Mead faleceu em 1978, em Nova Iorque.

“Never doubt that a small group of thoughtful, 
committed citizens can change the world.” 
Margaret Mead

***
Importante lembrar que o romance não é uma biografia, apenas teve Margaret Mead e seus dois últimos maridos como fonte de inspiração, visto que os três eram antropólogos e poderiam ter convivido em determinado momento de suas vidas. O mote perfeito para a criação do romance: um triângulo amoroso intenso e perigoso.

O romance narra a história de Nell Stone, uma importante antropóloga que, após escrever um livro e obter grande sucesso com uma pesquisa que causou polêmica, decide voltar ao local de suas pesquisas para desenvolver uma nova investigação. Assim, ela retorna para a Nova Guiné com o marido, Fen, também antropólogo, embora seu nome seja sempre ofuscado pelo talento da esposa. O sucesso de Nell, e o fato de seu trabalho ser muito mais reconhecido e aclamado que o dele, provoca grande desconforto em Fen, que representa o papel de homem que não se conforma com a conquista do espaço social e da igualdade pelas mulheres. Com isso, ele deixa de compartilhar informações com ela sobre suas investigações, criando um ambiente de tensão e também de violência, que percebemos já desde as primeiras páginas. Nesse sentido, o romance é interessante para pensarmos a construção social dos papéis de gênero - e como a violência é usada para manter a ordem patriarcal sempre que uma mulher consegue superar e ter mais destaque que os homens - o que é bastante atual e algo que certamente a autora encontrou nos próprios trabalhos de Margaret Mead.

Há mais de um ano vivendo entre diferentes tribos e em condições não tão favoráveis, Nell está bastante doente. Mesmo contra a vontade, o marido, Fen, acaba por aceitar voltar para o local de pesquisas inicial, onde a mulher poderia ter um pouco mais de conforto. É nesse momento que eles encontram um jovem antropólogo, Andrew Bankson, e uma amizade se estabelece entre os três, já que são praticamente os únicos ocidentais naquela região. 

Os cuidados e a atenção de Andrew, assim como a sintonia intelectual que ele estabelece com Nell, tornam cada dia mais evidente que Fen não nutre pela esposa tanto amor quanto diz, mas um sentimento de posse e, claro, de ciúmes. Mas não é só para Nell que Andrew se faz necessário: Fen, sem querer compartilhar seus resultados com a esposa com medo de que ela conquiste ainda mais sucesso que ele, passa a ter em Andrew um apoio para conversar e refletir sobre sua pesquisa, mesmo percebendo que há um interesse latente entre Andrew e Nell. Tudo isso ocorre entre tribos com culturas e línguas bastante diferentes, todas inventadas, como a autora nos informa depois, mas pautadas em características verdadeiras de alguns locais, o que serve muito para discutir nossa visão eurocêntrica de mundo, e a importância de respeitar as diferenças, o espaço e a cultura do outro, assim como ter uma ideia do dia a dia de um antropólogo em trabalho de campo.

As atividades dos três antropólogos ilustram um pouco a era de ouro da antropologia moderna, mostrando os desafios e os encantos dessa profissão que, conforme as próprias personagens mostram no romance, ainda estava se firmando como ciência e foi por conta dos trabalhos de pesquisadores como Margaret Mead, por exemplo, que conquistou seu espaço, e se tornou mais popular, não que isso não tenha ocorrido sem muita polêmica. A paixão de Nell e Andrew pela antropologia e a sintonia entre os dois pode ser percebida nas conversas e no compromisso com o lado humano dessa atividade que os dois personagens demonstram. Quando Andrew lhe pergunta qual a sua parte preferida na profissão, Nell responde:

" - Aquele momento, cerca de dois meses depois do início, quando você acha que finalmente entendeu um pouco o lugar onde está. De repente, ele parece estar ao seu alcance. É uma ilusão, só faz oito semanas que você chegou, e é seguida pelo desespero completo de se perguntar se um dia vai entender alguma coisa. Mas, naquele momento, o lugar parece inteiramente seu. 
É a mais breve e mais pura euforia." (p. 51)

E é justamente o sentimento de euforia que encanta Andrew, pois ele encontra em Nell uma pesquisadora apaixonada pelo seu trabalho, ciente da responsabilidade que ele implica, já que certos resultados podem ser apropriados de forma inadequada e para algo muito distante do que se tinha em mente, além de ser uma grande pesquisadora, disposta a compartilhar seu conhecimento com ele.

As anotações de campo, parte indispensável do trabalho de observação dos antropólogos ao se aproximar de uma outra cultura e relatar diariamente, por escrito, suas reflexões, estão presentes na narrativa que intercala a narração de Andrew com anotações dos próprios cadernos de Nell, complementando dessa forma o cenário que compõe o livro. 

Lily King criou uma história de amor envolvente, bem possível de ocorrer ainda nos dias de hoje, que nos faz pensar sobre a destruição que uma briga de egos pode gerar em um relacionamento, e isso não apenas nos relacionamentos amorosos, e no quanto as mulheres continuam sendo punidas por suas conquistas, seu talento, sua inteligência. Ou simplesmente por dizer não.


KING, Lily. Euforia. São Paulo: Globo Livros, 2016. Tradução: Adriana Lisboa



*Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Tirza


Todas as famílias felizes se parecem,
cada família infeliz é infeliz à sua maneira.
Liev Tolstói


O romance Tirza, do escritor holandês Arnon Grunberg, tem como enredo a história de uma família holandesa de classe média, formada por Jörgen, sua esposa (que não tem nome na narrativa) e suas duas filhas, a mais velha, Ibi, e a caçula, Tirza, que dá título ao livro.  
Jörgen é um editor de livros de ficção estrangeira em uma editora, tem uma casa em um dos melhores lugares de Amsterdã e aparentemente uma vida de fazer inveja a qualquer um. Isso até nos aproximarmos um pouco mais dessa história, narrada sob a perspectiva de Jörgen e, a cada capítulo, perceber a loucura, a violência, a tensão constante e a falta de estrutura da família Hofmeester. Prestes a se aposentar, Jörgen é um homem que faz de tudo para ser aceito pelas pessoas, importando-se mais com o que os outros pensam dele, pois para ele são os outros que nos definem. Ele quer a todo custo ter controle sobre tudo ao seu redor e ao falhar com frequência algumas atitudes suas reverberam a tensão que ele sente e tenta reprimir por ter falhado. 
A história começa com os preparativos da festa de despedida de Tirza, sua filha caçula e a preferida dele. Empenhado em fazer tudo da melhor maneira possível, mas sem a menor chance de ter sucesso, Jörgen aprende a cozinhar para cuidar de Tirza depois que a sua esposa o abandona para viver uma paixão de juventude. Apesar de passar anos esperando a volta da esposa, mesmo sem ter por ela um sentimento de amor, ele segue vivendo tentando controlar a vida que lhe resta. Ibi, sua filha mais velha, para seu desgosto abandona a faculdade e vai morar na França com o namorado, trabalhando em uma pousada. Mas nada disso parece de fato abalar Jörgen, afinal, ele tem Tirza em sua vida e a filha passa a ser sua obsessão. 
Alguns contratempos surgem na tão esperada festa de despedida de Tirza, que acaba de se formar e vai viajar para a África com o novo namorado. A esposa, que não aparecia nem dava notícias há anos, reaparece um dia antes da festa e para ficar. A relação conturbada dos dois fica então mais evidente, mas mesmo assim Jörgen, na tentativa de controlar tudo para que nada dê errado na festa de Tirza, não consegue reagir e aceita passivamente a volta da esposa, inclusive a dividir a mesma cama com ela. Tudo é muito estranho na família Hofmeester. E, como já imaginávamos, muita coisa dá errado na tão esperada festa de Tirza. Ainda que tente aparentar ser um ótimo pai e um excelente anfitrião, Jörgen não se encaixa em nenhum lugar. Sua tentativa de controlar tudo ao redor só gera mais e mais tensão e ele acaba por terminar a festa no quarto de ferramentas no jardim, dando espaço para o que já não consegue reprimir.
Depois da festa, e mesmo não aceitando o novo namorado de Tirza, o aparente controle que Jörgen tenta exercer o faz levar o casal até a sua casa de campo, para um último final de semana antes dos dois partirem juntos para África. Tudo já havia sido planejado por Jörgen, que quer a todo custo levar Tirza até o aeroporto e lidar, de sua forma 'torta', com a partida de Tirza.
Na terceira e última parte do romance, ambientado em África, quando Jörgen viaja em busca de Tirza, estamos mais uma vez diante do mundo através de visão eurocêntrica e obcecada de Jörgen, e as certezas desse homem se perdem e se confundem ao mesmo tempo em que as evidências passam a fazer cada vez mais sentido para o leitor.
Uma narrativa brilhante, envolvente até a ultima página, e apesar de tratar de temas tão difíceis em um cenário simples, já que praticamente 80% do romance se passa na própria casa dos Hofmeester, é um livro que nos intriga e nos faz refletir durante toda a leitura. Tirza, como toda boa literatura, faz o leitor sair de sua zona de conforto. E como tudo o que nos inquieta, continua martelando em nossa mente por um bom tempo.

GRUNBERG, Arnon. Tirza. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2014.

*Escolhi e recebi este livro como cortesia da Rádio Londres Editores.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Mary Reilly


A clássica história de O médico e o monstro, que gira basicamente em torno de personagens masculinos, é recontada a partir da perspectiva feminina em Mary Reilly, da escritora estadunidense Valerie Martin. O romance é narrado por Mary, a empregada da casa do Dr. Jekyll que, em sua perspectiva duplamente subalterna, por ser mulher e por ser uma trabalhadora pobre, revela um novo olhar sobre a famosa história de Robert Louis Stevenson.
Inicialmente conhecemos um pouco do passado de Mary, cujo corpo carrega cicatrizes de toda a violência que sofreu do seu próprio pai, um homem que bebia e descontava na filha suas frustrações. Após muitos incidentes, Mary é levada pela mãe para o hospital e depois disso as duas fogem do comportamento abusivo do pai, mas as marcas de toda essa violência ficam para sempre no corpo e na alma de Mary.
Diferente da maioria das mulheres de sua classe social, Mary aproveita as precárias condições da escola pública que frequenta, e que mais tarde descobre ser financiada pelo próprio Dr. Jekyll, e consegue aprender a ler e a escrever. Enquanto trabalha na casa do Dr. Jekyll, o fascínio pelos livros fica claro quando está limpando a biblioteca do patrão, algo que ele observa e valoriza, incentivando-a a escrever a história daquelas cicatrizes para ele. Após registrar a história que o patrão solicitou, Mary começa a escrever uma espécie de diário e vê na sua escrita uma forma de deixar a sua história para o mundo, uma forma de não ser esquecida, pois, ciente da invisibilidade de sua condição, por ser mulher e por ser uma simples criada, ela sabe que sua visão da história não será ouvida. A escrita é, portanto, uma forma de empoderamento. 
O dilema do médico e do monstro é recontado através da narrativa envolvente de nossa narradora que, a cada dia, vai desvendando o segredo que o Dr. Jekyll esconde de todos, mas que não consegue ocultar de Mary. Uma leitura interessante principalmente para quem já leu O médico e o monstro.

*O romance foi adaptado para o cinema em 1996 por Stephen Frears e tem Julia Roberts no papel de Mary Reilly.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O médico e o monstro: O estranho caso do dr. Jekyll e sr.Hyde



Escrito em 1885, O estranho caso do dr Jekyll e sr. Hyde é um dos grandes clássicos da literatura gótica inglesa. Ambientado em Londres, O médico e o monstro, como também ficou conhecido, narra a história do dr; Jekyll, um respeitado médico e cientista e um indivíduo muito esquisito, o sr. Hyde., que passa a frequentar a casa do renomado dr. Jekyll e que tem um comportamento violento e agressivo. Certa noite, o sr. Hyde comete um crime e tanto a polícia quanto os amigos próximos do dr. Jekyll passam a procurá-lo e a tentar desvendar qual a relação que o une ao médico. Os amigos suspeitam de uma chantagem, pois o dr. Jekyll deixa toda a sua fortuna em testamento para o sr. Hyde, caso algo aconteça com ele. A narrativa se desenvolve como uma boa história detetivesca, prendendo a atenção até do leitor até o fim. [Se você não gosta de spoilers, este é o momento de parar de ler a resenha :) ]

Enquanto o dr. Jekyll vive uma vida pacata, sua curiosidade acerca da natureza humana e seu inconsciente fazem com que ele elabore uma fórmula capaz de separar o bem e o mal que habitam todo ser humano. Ao tomar a fórmula por ele elaborada, dr. Jekyll se transforma no sr. Hyde (Hyde refere-se a hide em inglês, que significa esconder, ocultar), um homem perverso e violento, que representa o seu lado do mal, a sua sombra, o seu duplo. Cada vez que toma a fórmula, acontece essa transformação que permite que Jekyll, através do corpo do sr. Hyde, consiga expressar seus sentimentos mais mundanos, sem nenhum remorso ou consciência de que faz algo errado. Hyde representa a total liberdade, onde não há moral nem ética, apenas os impulsos mais animalescos. Nesse sentido, o romance é  uma reflexão sobre a dualidade do homem, ou seja, bem e mal coexistem em todo ser humano, assim como uma reflexão interessante sobre consciente e inconsciente, id e ego, e tudo o que nos impede de nos tornarmos monstros. 

Com o tempo, a fórmula precisa de uma dosagem cada vez maior para fazer efeito, e o dr. Jekyll sente que a cada dia o lado sombrio fica mais forte, passando a se apossar de sua personalidade quando deseja, enquanto o médico fica cada vez mais fraco. Até o dia em que a fórmula acaba e não pode mais ser preparada (não se encontram mais os mesmos ingredientes) e o grande mistério que envolvem Jekyll e Hyde finalmente é revelado para os amigos. Um texto curto e muito envolvente, que mostra o que torna uma obra universal: mesmo tanto tempo depois é uma história que permite reflexões atuais e garante o mesmo prazer durante a leitura.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Vésperas, de Adriana Lunardi


Termino de ler o livro de contos Vésperas, de Adriana Lunardi, com um misto de surpresa e satisfação. Cada um deles me carregou por inteiro pelas vidas dessas personagens que de uma forma ou de outra partiam, destacando assim a finitude da vida, mas sem deixar de falar da própria vida. Os nove contos do livro tem como título o nome de uma escritora, homenageando dessa forma grandes autoras, cujas biografias se mesclam com a escrita ficcional e poética de Lunardi em contos de muita beleza. De Virginia Woolf a Clarice e Júlia da Costa, Vésperas é um passeio pela história literária das mulheres.

O primeiro conto, Ginny, é o meu preferido e reconta o último dia da escritora Virginia Woolf, os últimos momentos antes do seu suicídio, e consegue ser poético e verdadeiro, como se cada um de nós de fato estivéssemos lá. Difícil não se emocionar.

O segundo conto, intitulado Dottie, descreve a solidão de uma mulher idosa que vive sozinha com o seu cachorro em um apartamento. Relembrando a beleza e o glamour da vida que teve em sua juventude, e contando apenas com a atenção sincera que o seu cachorro lhe oferece, Dottie é o retrato dos últimos dias da escritora Dorothy Parker.

O conto Ana C. narra os últimos momentos da vida de um homem de cinquenta anos, doente já há algum tempo por conta da AIDS. Em seu quarto, recebendo os cuidados de uma enfermeira que o acompanha, começa a piorar e é necessário ser levado ao hospital em uma ambulância. Os percursos imaginados por várias cidades são fantasiados pelo personagem no trajeto entre a casa e o hospital, como se despedisse dos lugares que não poderá mais visitar. Entre sedativos e cuidados médicos, há o encontro mágico com a amiga e escritora Ana Cristina César, que se suicidou aos trinta anos.

Minet-Chéri é uma homenagem à escritora francesa Colette, que faleceu aos 81 anos de idade e cujo funeral foi realizado com honras de chefe de Estado. Colette teve vários amores ao longo de sua vida e publicou dezenas de livros. No conto, Lunardi ficcionaliza seus últimos momentos de vida.

O conto Clarice, em referência à Clarice Lispector, narra a história de uma adolescente que chega ao Rio para se encontrar com o pai que acaba de conhecer e com o qual não tem nenhuma identificação. Chegando ao Rio, quer visitar o cemitério do Caju, onde está o túmulo da escritora Clarice Lispector, cujos livros tem uma importância tal em sua vida que é como se ela fosse parte da família.

Kass é uma referência à escritora Katherine Mansfield, que morreu aos 34 anos vítima de tuberculose, e narra os útlimos momentos de vida de Katherine, que esperava o marido chegar de uma viagem para finalmente dele poder se despedir.

Victoria foi o pseudônimo usado pela escritora  americana Sylvia Plath para publicar seu livro, A redoma de vidro, semanas antes de se suicidar, em fevereiro de 1963, em Londres. O conto Victoria retrata o impacto que a notícia da morte da poeta Sylvia Plath tem um homem de sessenta anos, cuja esposa também se chama Sylvia. A notícia o faz refletir sobre a perda de comunicação com a esposa ao longo dos anos de casamento, fazendo-o sentir saudade dela.

Flapper é também o nome do estilo de comportamento criado por Zelda Fitzgerald e retratado nas personagens dos romances de seu marido, o escritor F. Scott Ftizgerald. O conto narra os últimos instantes de vida de Zelda antes do incêndio no sanatório em que estava internada.

O conto Sonhadora ficcionaliza a história da escritora paranaense Júlia da Costa, que faleceu em julho de 1911, aos 62 anos, e que passou os últimos anos de vida reclusa, após ter ficado cega. Por meio da escrita poética de Lunardi imaginamos as muitas histórias que Júlia teria escrito se não tivesse perdido a visão e recuperamos a vida de uma autora que tem sido apagada da história literária brasileira.

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LUNARDI, Adriana. Vésperas. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.