domingo, 22 de novembro de 2015

Feliz Ano Velho


Feliz Ano Velho é um romance testemunho, narrado em primeira pessoa por Marcelo, narrador-personagem dessa história. É um romance sobre o passado, pois relata sua juventude e como tudo mudou a partir do momento em que ele sofre um acidente ao pular em um lago raso e fraturar a coluna na queda. Por conta do acidente, Marcelo fica paralisado do pescoço para baixo. Por meio desse testemunho de tudo o que passou no hospital durante os meses em que ficou internato, tomamos conhecimento de seu sofrimento e de sua luta para recuperar pelo menos uma parte dos movimentos.

Marcelo passa por uma cirurgia e, após alguns meses no hospital em tratamento consegue recuperar o movimento dos braços, mas permanece paraplégico. Durante o período em que está no hospital fazendo fisioterapia e angustiado diante da possibilidade de nunca mais ter os movimentos e a sua vida de volta, ele relembra a sua infância, quando o pai, o deputado Rubens Paiva, é sequestrado e morto pelos militares na ditadura militar brasileira, assim como outros momentos que marcaram sua juventude, o convívio com os amigos na época da universidade, sua relação com a música e com as mulheres. Contudo, a ditadura militar não é o tema central desse romance, uma vez que o tema só aparece em determinado momento da narrativa quando Marcelo relembra o dia em que o pai foi levado pelos militares, descrevendo o medo que sentiu e o sofrimento de sua mãe que continuou por muito tempo a procurá-lo. Ainda assim, é um testemunho importante do que de fato ocorreu com tantas pessoas durante a ditadura militar em nosso país.

Mas Feliz Ano Velho fala de Marcelo. Do que ele sentia, do que ele se lembrava enquanto estava no hospital, dos muitos amigos que estiveram ao seu lado durante esse período de recuperação, enfim, é um exemplo dessa escrita de si. O livro é um testemunho interessante e importante em nossa literatura por trazer uma realidade pouco discutida pela maioria das obras que é a questão da deficiência. Para comprovar isso basta tentar lembrar: quantos personagens com alguma deficiência física você lembra de já ter lido?

Entre lembranças de sua juventude na universidade, dos seus relacionamentos com as garotas, e outras lembranças de sua vida às quais ele recorre como que para fugir da situação de paralisa em que se encontrava no hospital e que exigia muita paciência, aos poucos, Marcelo toma consciência de que não voltará ao que era no passado e que é preciso seguir em frente. O processo de negação inicial dá lugar a um Marcelo consciente de que está paraplégico e que terá que reconquistar sua independência em cada pequena ação do dia a dia, sem deixar de notar as dificuldades e o preconceito que as pessoas com alguma deficiência física enfrentam nas cidades brasileiras, onde a acessibilidade ainda hoje, 30 anos depois da publicação do romance, não é ideal. É nesse momento que o foco do romance parece mudar um pouco, demonstrando o amadurecimento do personagem ao descobrir sua força para lidar com essa nova situação, reencontrando na escrita uma forma de tratar do assunto, compartilhar experiências e também de trabalho. Nesse sentido o livro traz informações importantes sobre a dificuldade de adaptação que pessoas como Marcelo tiverem que enfrentar, mas mostrando, de forma positiva, que é possível viver bem e superar as dificuldades.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Flores


"De tarde, senti cheiro a fumo. Fui à janela e percebi que a biblioteca estava a arder, o fogo cuspia chamas pelas janelas. Os bombeiros ainda não tinham chegado, mas havia muita gente na rua. As sereias já se ouviam ao longe e não tardou a chegar um carro. Acendi um cigarro enquanto bebia um café. Reparei que o senhor Ulme se encontrava entre a multidão, a cabeça inclinada, a passar repetidamente as mãos pela cabeça. Afastou-se um pouco e, sem que ninguém notasse, entrou pela porta lateral do edifício em chamas. Fiquei perplexo e cheguei a gritar, mas ninguém me deu atenção. Os bombeiros chegaram enquanto eu corri para a rua. Da porta lateral da biblioteca surgiu o senhor Ulme com um livro na mão. Os bombeiros já regavam o edifício. O senhor Ulme dirigiu-se para o nosso prédio, interpelei-o, criticando a insensatez da sua atitude. Encolheu os ombros e disse:
- É o meu livro favorito."

CRUZ, Afonso. Flores. Lisboa: Companhia das Letras, 2015. p. 99

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Os bebês de Auschwitz



Uma vez escutei alguém dizer que não havia mais nada a ser escrito sobre Auschwitz, que tudo já havia sido dito nos diversos livros e filmes sobre o assunto. Penso que não. E para concordar comigo basta pensar nas 6 milhões de pessoas que foram exterminadas, levando consigo seus sonhos e histórias de vida, sobre as quais nunca saberemos. Ou ler relatos devastadores, escritos pelos próprios sobreviventes, como os de Elie Wiesel, em Noite, para ter a certeza de que essas histórias precisam sempre ser recontadas.
Livros como o da jornalista Wendy Holden são importantes na medida em que trazem à tona histórias como as de Priska, Rachel e Hanka, três mulheres de extraordinária força, que nos ensinam muito sobre o que o ser humano é capaz, tanto para o bem quanto para o mal. Sim, livros sobre o Holocausto são sempre dolorosos, porém necessários. Tratam de histórias que, ainda que absurdas de tão cruéis que são, mostram o que a intolerância e o ódio podem produzir. São histórias que não podemos deixar que sejam esquecidas, para que não se repitam.
Diferente de outros relatos pessoais, escritos por sobreviventes dos campos de concentração nazistas, este é o relato de uma jornalista norte-americana que decidiu contar a história de três mulheres, de países e classes sociais diferentes, todas levadas aos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Wendy nos conta quem foram essas mulheres, como viviam com suas famílias, o que estudaram, como se apaixonaram pelos seus maridos e todos os sonhos que alimentavam até 1938, quando Hitler começou a impor restrições aos judeus. Nesse sentido, o livro mostra como essas restrições foram progredindo durante anos, retirando dos judeus os seus direitos mais básicos, prendendo-os nos guetos onde as condições de vida já eram absurdas, até culminar em sua total desumanização nos diversos campos de concentração da Europa.
Essas três mulheres, que não se conheciam, foram levadas a Auschwitz em 1944, ainda no início da gravidez. Separadas dos maridos, elas contaram com a intuição e com a sorte ao serem interpeladas, logo na chegada, pelo médico Josef Mengele, conhecido como o médico da morte, que buscava identificar entre as mulheres aquelas que estavam grávidas. Afinal, para os nazistas, era proibido trazer mais um judeu ao mundo. Sujeitas a todo tipo de constrangimento nessas inspeções, algumas mulheres grávidas foram levadas pelo médico, que as torturava com "experimentos médicos" da maior crueldade. O mesmo era feito com pessoas com alguma deficiência e com crianças gêmeas que Mengele identificava logo na chegada aos campos. E creio que não é possível não se revoltar ao saber que Mengele fugiu, permanecendo impune de todos os crimes, morrendo no Brasil muitos anos depois, onde vivia com um nome falso.
Por sorte, essas três mulheres grávidas conseguiram mentir e enganar o médico alemão, escondendo de todos a sua gravidez. Cada uma das mulheres se viu responsável por lutar por sua vida e pela de seu bebê, e foi esse amor materno que deu forças a elas para suportarem situações inimagináveis. Elas tinham também a esperança de que a Guerra logo acabaria e elas poderiam ainda reencontrar seus maridos.

Wendy Holden fez uma vasta pesquisa, baseando-se em entrevistas, cartas e diários, para reconstruir a história de Priska, Hanka e Rachel e de seus filhos, Eva, Mark e Hana, todos três nascidos no campo de Mauthausen, na Áustria, para onde as mães haviam sido levadas já próximo ao final da guerra. Contando com ajudas inesperadas, as três mulheres, por sorte ou milagre, conseguiram ter os bebês e mantê-los com vida apesar das longas viagens de trem no frio rigoroso do inverno, das condições de higiene degradantes, da fome (elas pesavam menos de trinta quilos quando os bebês nasceram), com sede, exaustas dos trabalhos forçados e emocionalmente destruídas diante de tudo que haviam presenciado até ali.
É impossível não se comover com essa história, que detalha a eficiência com que os nazistas exterminaram milhões de judeus - e nessas horas é preciso respirar fundo por que a violência dos relatos é sempre perturbadora - mas que mostra também a força dessas mulheres, que, por sorte, conseguiram resistir aos maiores sofrimentos. E nos momentos em que a bondade foi inesperada, e por conta delas talvez as três mulheres tenham sobrevivido, é que entendemos por que seus filhos ficaram conhecidos como "bebês-milagre".
O livro também traz informações interessantes para mostrar que o sofrimento dessas pessoas, que não sei se podem ser chamadas "sobreviventes" (retomo a pergunta de Elie Wiesel: é possível sobreviver a um campo de concentração?), foi algo com que tiveram que lidar durante o resto de suas vidas. Depois da libertação dos campos pelos soldados estadunidenses, com o fim da guerra, todos eles tiveram que enfrentar viagens longas de volta para "casa" (no caso delas, de trem, mas em relatos como o de Primo Levi, em A Trégua, sabemos que muitos sobreviventes levaram mais de 6 meses para conseguir voltar para suas casas, muitas vezes caminhando longos trechos, mesmo tão debilitados como estavam). E sofreram ao não encontrar mais suas casas (muitas haviam sido roubadas) e, o mais difícil de tudo, não reencontrar mais nenhum membro de suas famílias com vida. Esse recomeço difícil é uma parte importante da história que costuma ser pouco comentada pois, não bastasse tudo o que viveram, muitos deles foram hostilizados nas ruas depois de terem sido libertados dos campos de concentração. O sofrimento de já não pertencer a nenhum lugar depois do que viveram é algo que fez parte da vida deles para sempre.

Questionamentos desse tipo são levantados por Wendy Holden, que em alguns momentos questiona o silêncio dos que nada fizeram para impedir o que de mais absurdo e desumano acontecia nos campos de concentração próximos a algumas cidades, como o de Mauthausen, onde os bebês nasceram. O sentimento de vingança que muitos sentiram contra os alemães também é comentado no livro em uma das respostas que Rachel dá ao filho, já um rapazinho:
"Seus pais se recusavam a ter qualquer coisa alemã, inclusive carro. Talvez não seja de espantar que, quando lhe perguntavam o que ele queria fazer quando crescesse, Mark respondesse: "Matar o maior número de alemães possível". Rachel ralhava. "Já perdemos tudo e todo mundo. Se perdermos nossa humanidade, perderemos a única coisa que não precisávamos perder." Só nos anos finais de vida é que Rachel admitiu que a geração responsável pelo que havia acontecido na Europa não existia mais". (pág. 319)
Priska, Rachel e Hana já faleceram, mas seus três filhos, que se reencontraram já adultos nos Estados Unidos, onde moram hoje, descobriram que não eram os únicos "bebês-milagre". Juntos, 70 anos depois do final da guerra, eles permitiram que a jornalista Wendy Holden escrevesse as suas histórias em homenagem à coragem e força de suas mães. Os bebês de Auschwitz é um livro impactante, que merece ser lido e que traz uma impressionante história sobre o amor materno, a persistência, a coragem. Ele também nos ensina sobre um período sombrio de nossa história, conhecimento fundamental para que ele não se repita.
"As almas de suas mães e de milhões de outras pessoas que morreram durante a guerra merecem que sua história seja contada e recontada, para jamais ser esquecida. "Tentamos viver a vida da melhor maneira possível, preenchendo esse espaço tão vazio", diz Hana. "Em memória à memória delas, cada dia que nasce é uma nova promessa" (p. 349)
HOLDEN, Wendy. Os bebês de Auschwitz. São Paulo: Globo Livros, 2015. Tradução: Bruno Alexander.
*Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

sábado, 10 de outubro de 2015

Um poema de Ana Martins Marques

O que eu sei

Sei poucas coisas sei que ler                                                
é uma coreografia
que concentrar-se é distrair-se
sei que primeiro se ama um nome sei
que o que se ama no amor é o nome do amor
sei poucas coisas esqueço rápido coisas
que sei sei que esquecer é musical
sei que o que aprendi do mar não foi o mar
que só a morte ensina o que ela ensina
sei que é um mundo de medo da vizinhança
de sono de animais de medo
sei que as forças do convívio sobrevivem no
tempo
apagando-se porém
sei que a desistência resiste
que esperar é violento
sei que a intimidade é o nome que se dá
a uma infinita distância
sei poucas coisas

Poema de Ana Martins Marques, do belíssimo "O livro das semelhanças" (Companhia das Letras, 2015)

***
Ana Martins Marques nasceu em 1977, em Belo Horizonte. Graduada em Letras, tem mestrado em literatura brasileira pela UFMG. É autora de A vida submarina e Da arte das armadilhas, vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional em 2012.

sábado, 3 de outubro de 2015

Sonhos em tempo de guerra



Sonhos em tempo de guerra é o primeiro volume de memórias do escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong'o. Nascido em 1938, em uma região rural do Quênia, ele cresceu sob o impacto da Segunda Guerra Mundial nas colônias britânicas. Este primeiro volume reúne as memórias de infância, nas quais o autor relembra o cotidiano e as peculiaridades de sua família (seu pai era casado com quatro esposas, e todas viviam próximas umas das outras, cuidando dos 24 filhos que formavam ao todo essa família) e, principalmente, destaca como as histórias da tradição oral ouvidas na sua infância, ao redor do fogo e em conversas em sua aldeia, contribuíram para que ele se tornasse um escritor. Vale lembrar que Ngũgĩ wa Thiong'o tem sido um dos autores cotados a ganhar o Prêmio Nobel nos últimos anos.

"Eu ansiava pela chegada dessas noites; parecia-me um glorioso alumbramento que histórias tão bonitas e às vezes assustadoras pudessem sair daquelas bocas. Para mim o melhor eram aquelas histórias nas quais a plateia se juntava para cantar o coro. A melodia era invariavelmente cativante; eu sentia como se fosse transportado a outro mundo de infinita harmonia, até mesmo na tristeza. Isso intensificava minha expectativa do que iria acontecer em seguida." (p. 34)

Os impactos da Segunda Guerra foram sentidos nas colônias, não apenas nas histórias que passaram a circular sobre os "ogros" comandados por Hitler e Mussolini e sobre os heróis, integrantes da comunidade, que estavam lutando pelo Império Britânico, mas pelas dificuldades que afetaram a vida na colônia, como a dificuldade de circulação de alimentos, que gerou períodos de fome e penúria em determinadas áreas. Os primeiros contatos com os homens brancos, algo que marcou a memória do autor e de sua comunidade, ocorreram em 1941, com os prisioneiros de guerra italianos, incumbidos de construir uma estrada de ferro de Nairóbi até o interior. A comunicação entre os italianos e os quenianos da aldeia se dava de forma rudimentar, e chega a ser engraçado as recordações do autor sobre as palavras mais recorrentes que ouviam, da qual deduziam um significado, e que passavam a representar um povo. No caso dos italianos, dada a repetição, passaram a ser apelidados de "Bono" por eles. A violência desses contatos, ainda que de forma sutil, também é descrita pelo autor:

"Houve um tempo em que eu não mais via o Bono Mayai caminhando ou pedindo coisas em nenhuma de nossas vilas. Eles não voltaram. [...] Mas os Bonos deixaram sua marca arquitetônica na igreja que ergueram perto da estrada na borda do Vale Rift em suas horas de descanso, e sua marca sociobiológica nas famílias desfeitas e nos bebês pardos, sem pais, nascidos nas várias aldeias que haviam visitado" (p. 44)

Com o fim da guerra em 1945, o retorno dos soldados, considerados os grandes heróis nesse imaginário infantil, também descreve de que forma a guerra deixa suas marcas, não apenas físicas, mas também psicológicas naqueles que dela participaram. A volta do meio-irmão do autor, que para ele havia lutado nos campos de batalha, mas que exercia na realidade um trabalho burocrático, sinaliza o desejo desse menino por uma educação melhor, que até o momento só esse meio-irmão parecia ter alcançado, e que para ele parecia um sonho impossível. Até o dia em que sua mãe lhe pergunta se quer ir para a escola, e os dois fazem um pacto: ela arcará com as despesas de mensalidade, mas precisa que ele faça sempre o seu melhor, mesmo diante das dificuldades que enfrentará, como não poder levar algo para comer ao meio-dia. É o desejo de aprender dessa criança, em uma escola com costumes diferentes do seu (há uma passagem bonita sobre o estranhamento que o jovem Ngũgĩ sente diante das orações silenciosas na escola - mais uma das marcas da colonização britânica-, que ele levou tempo para entender ser a forma que os colegas e professores rezavam, e que agora lhe era imposta) e a força dessa mãe, sempre preocupada muito mais com o processo de aprendizagem do que com os resultados, que transforma a vida desse menino através da educação.

"Percebo que mesmo as palavras escritas podem transmitir a música que eu amava nas histórias, particularmente a melodia dos coros. E no entanto isso não é uma história; é uma afirmação descritiva. Não traz uma ilustração. É uma imagem em si mesma e, contudo, mais do que uma imagem e uma descrição. É música. Palavras escritas também podem cantar" (p. 67, sobre quando ele aprende a ler)

Os fios que tecem essas memórias são feitos com a ternura e o olhar ainda inocente, cheio de esperança, que costuma caracterizar a infância. Através das memórias por vezes singelas de Ngũgĩ wa Thiong'o passeamos não apenas pelo tempo e por uma região diferente da nossa, mas por uma parte da história pouco conhecida por nós: o olhar de África sobre a colonização. E vemos, aos poucos, como cada uma das muitas histórias vividas e narradas por diversas pessoas contribuiu na formação de um escritor.

***
Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em Kamirithu, Quênia, em 1938, período no qual o país ainda era colônia do Império Britânico. Autor de romances, contos, peças de teatro e ensaios, no fim da década de 1960 renunciou à língua inglesa, ao catolicismo e ao nome de batismo, James, e passou a escrever em gĩkũyũ, língua bantu. Em 1977, foi preso por conta de uma de suas peças. Desde 1992, é professor de literatura comparada na Universidade da Califórnia, Irvine.


Ngũgĩ wa Thiong'o. Sonhos em tempo de guerra: memórias de infância. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015. Trad. Fábio Bonillo e Elton Mesquita.

 *Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

domingo, 27 de setembro de 2015

A pedra de paciência


"A Pedra de Paciência", de Atiq Rahimi

Em plena guerra no Afeganistão, uma jovem mulher cuida de seu marido, um soldado e herói de guerra que está em uma espécie de coma por conta de um ferimento na nuca durante uma luta. A primeira impressão que temos é a diferença de idade entre os dois, seguida pelo estado de abandono da casa, que parece estar em ruínas. Mãe de duas filhas pequenas, essa jovem mulher se vê totalmente desamparada diante do marido em coma, sob os seus cuidados já que toda a família dele fugiu da guerra, deixando-a para mantê-lo vivo, com duas filhas pequenas para alimentar, e correndo todos os riscos de estar em meio a um bombardeio, principalmente se você for mulher.

É a sensação de desamparo que parece mover a personagem a falar o que sente, o que se lembra, e todos os segredos que silenciou durante mais de dez anos de casamento. O filme, nesse sentido, é um monólogo que descreve toda a opressão das mulheres na sociedade afegã (mas não apenas por lá...). Diariamente voltando para a sua antiga casa para cuidar do marido depois de deixar as filhas aos cuidados de uma tia, que mora em um bordel em uma região mais afastada do centro, a jovem esposa se sente cada vez mais compelida a falar. Histórias desde a sua juventude, quando ficou noiva aos 16 anos do marido, as recordações da sua primeira noite com o marido que revelam como a mulher é objetificada, das cobranças da família para engravidar, o sofrimento da primeira gravidez, entre muitas outras histórias começam a ganhar força e a sensação da personagem é de libertação. Em determinado momento, ela diz para o marido em coma: "em todos esses anos, essa é a primeira vez que você me escuta". Uma afirmação que denuncia toda a opressão sofrida pelas mulheres, que silenciam seus desejos e sonhos, mas também seus segredos, para sobreviver em uma sociedade que não lhes permite ser. Afinal, pode realmente o subalterno falar? É essa a grande reflexão do filme, que demonstra que, mesmo que falem, quase sempre as mulheres não são ouvidas.

"A Pedra de Paciência", de Atiq Rahimi

Mas falar é terapêutico e libertador, e isso a protagonista logo descobre. Mesmo que sem ter certeza de que o marido de fato a estivesse escutando. Narrar essas histórias para o marido é uma forma de curar as suas mágoas e, finalmente, se libertar dos segredos que carregou durante toda a vida. Apesar de ser em grande parte um monólogo, o filme não é nem um pouco monótono. Pelo contrário, seguimos o tempo todo envolvidos nas histórias sofridas e nos solidarizando com ela, mas também compartilhando do despertar dessa personagem para a sua própria vida. Um filme intenso e forte, que discute a opressão feminina e que, sem dúvida, merece ser visto.

Se quiser saber mais um pouco do filme, veja o trailer a seguir:

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Cadeia: relatos sobre mulheres



"As mulheres do presídio são muito parecidas entre si - pobres; pretas ou pardas; pouco escolarizadas; dependentes de drogas, cujo crime é uma experiência da economia familiar"

"Cadeia: relatos sobre mulheres" é uma espécie de caderno de campo, no qual a pesquisadora e antropóloga Debora Diniz anotou as histórias que ouviu de mulheres, prisioneiras temidas, durante os seis meses em que visitou a penitenciária feminina do Distrito Federal.

Pesquisadora premiada e reconhecida por sua produção acadêmica, Debora Diniz compartilha com o leitor esse caderno de anotações que foi seu companheiro de reflexões sensíveis, fruto de observação silenciosa diante do que ouviu e viu nesses meses em visita ao presídio. O texto, no entanto, foi escrito de uma forma mais leve se comparado ao hermetismo que muitas vezes habita o texto acadêmico. Com textos curtos, sensíveis, a pesquisadora consegue aproximar o leitor das histórias dessas mulheres, sempre sofridas, que lemos nesse caderno. A leitura flui com facilidade, apesar de tratar de uma temática por vezes dura, e de um espaço marginal em nossa sociedade: um espaço feminino, pobre, negro, presidiário, nordestino. 

É através do olhar de Debora Diniz que podemos atravessar os muros que cercam a penitenciária feminina, carregados por um texto que mistura reportagem e denúncia, e que fala do abandono dessas mulheres, dando voz a suas histórias, histórias que provavelmente nunca ouviríamos sem esse livro; histórias que revelam todo o sistema de exclusão que as envolve, dentro e fora das penitenciárias brasileiras. Apesar de ser um livro que nos convida a pensar no Outro (ou melhor, nas Outras) e que, diante do respeito com que suas histórias foram contadas, tenta nos ensinar a não julgar, eu fico aqui pensando se isso é mesmo possível, principalmente porque uma narrativa, por mais que trate o seu objeto com todo o respeito como vemos no livro, é sempre uma narrativa: o ponto de vista de alguém sobre o outro. Mesmo que o lugar de fala da autora seja marcado no livro e dentro do próprio presídio, ao usar a mesma cor preta da vestimenta dos policiais que fazem a segurança para deixar claro para as detentas que ela não faz parte da turma do "jaleco branco" (as médicas que estão ali para cuidar), a própria seleção de quais histórias seriam contadas já revela muito sobre o olhar de quem escreve. De forma semelhante, nós, leitores, também vamos nos emocionar de maneiras diferentes com cada uma das vidas que ali nos são apresentadas. Mas vale a reflexão sobre o "não julgar" e, mais ainda, vale a leitura desse caderno de vidas quase esquecidas.

***

Debora Diniz é antropóloga e pesquisadora premiada, professora da Faculdade de Direito na Universidade de Brasília, além de militante de causas como a descriminalização do aborto e os direitos reprodutivos das mulheres. É autora de livros e artigos sobre temas diversos, que refletem e impulsionam debates e lutas pela garantia dos direitos humanos no Brasil.



sábado, 22 de agosto de 2015

Lendo a ditadura



Convidei alguns amigos que, assim como eu, ficaram incomodados com alguns pedidos absurdos de intervenção militar e retorno da ditadura em manifestações públicas recentes. Manifestações que só aconteceram porque vivemos em uma democracia (é sempre bom lembrar que manifestações políticas não são permitidas na ditadura, período marcado por prisões sem julgamento, torturas, assassinatos, desaparecimento de pessoas, silenciamento, censura...). 

O projeto Lendo a Ditadura tem por objetivo ler e comentar obras literárias e filmes brasileiros que abordem o período da ditadura militar no Brasil, pois acreditamos que conhecer a nossa história é um passo importante para não repetirmos erros do passado. Todos estão convidados a nos acompanhar nessas leituras. As publicações dos vários blogs e canais que estão participando do projeto, a quem agradeço pelo entusiasmo com que abraçaram a ideia, serão reunidas no blog Lendo a Ditadura. Esperamos que as leituras e as discussões sobre esses livros e filmes sejam proveitosos e que ajudem a relembrar um período de nossa história que não deve ser esquecido e que ainda precisa ser discutido. Boas leituras!



domingo, 16 de agosto de 2015

A distância entre nós



A distância entre nós, que acaba de ganhar uma reedição linda pela Globo Livros, foi o livro que transformou a Thrity Umrigar em uma escritora com mais de 200 mil exemplares vendidos no mundo. Mesmo já conhecendo a escrita dessa autora indiana, não pude deixar de me surpreender com as diversas questões que ele aborda.

O livro tem duas personagens principais, Bhima e Sera, que, por serem mulheres, compartilham as mesmas dores: a opressão de um sistema patriarcal que reprime a liberdade das mulheres e a violência a que estão sujeitas em suas variadas formas. Mas aí a autora ganha muitos pontos: apesar de tudo que as une, existe a diferença de classes que separa as duas personagens e torna diferente as formas de violência que sofrem. Uma perspectiva que não deve ser desconsiderada quando falamos em feminismo.

Bhima trabalha como empregada doméstica na casa de Sera, que é casada com um homem rico, que a mantém em casa, sem poder trabalhar. Há uma cumplicidade entre as duas estabelecida em mais de vinte anos de convivência, pois ao longo desse tempo, apesar da distância social que as separam, estabeleceu-se entre elas uma solidariedade, visto que se ajudaram em diferentes momentos de suas vidas.

A vida confortável de Sera, aparentemente perfeita vista de fora, era na verdade um inferno. Casada com um homem agressivo, Sera era constantemente espancada por ele. Envergonhada por ter esse tipo de tratamento mesmo tendo uma família bem estruturada, formada por intelectuais, Sera se cala diante das agressões. É Bhima quem cuida dela diversas vezes, sempre a encorajando a reagir, a não aceitar esse tratamento. É bem interessante a forma como a Umrigar trata da questão da violência contra a mulher, mostrando que é um problema que atinge as mulheres também da classe alta, desconstruindo o mito de que só as mulheres das camadas mais pobres da população sofrem violência física. A violência psicológica também é abordada, e está presente no casamento de Sera que, mesmo depois da morte do marido, ainda sofre com as lembranças de anos de opressão e sofrimento.

A neta de Bhima, Maya, tem dezessete anos e aparece grávida, sem nunca dizer quem é o pai da criança. Na Índia, uma menina grávida sem  ter se casado está marcada para sempre como uma desonra para a família, pois tudo o que importa é o casamento. A violência desse sistema patriarcal afeta Maya profundamente, que passa a andar triste pelos cantos, deprimida, sem saber o que será de seu futuro. Com a ajuda de Sera, que decide que esta é a melhor opção para não comprometer o futuro da menina, Maya faz um aborto em uma clínica particular por estar acompanhada de Sera. Se estivesse acompanhada de sua avó, Bhima, que não tem dinheiro e não teria condições de arcar com as despesas de um atendimento particular, talvez a saúde de Maya e até mesmo a sua vida fossem comprometidas. E outra vez a Thrity Umrigar ganha pontos por trazer essa discussão à tona, mostrando a importância de discutirmos sobre a saúde da mulher e o direito que todas devem ter de tomar as decisões sobre o seu próprio corpo, independente da classe social a que pertençam.

Enquanto Maya sofre em silêncio pela gravidez seguida de um aborto ainda tão jovem, a filha de Sera comemora a sua primeira gravidez. E nesse momento a crítica social que Thrity Umrigar faz a esses diferentes mundos que coexistem sem quase nunca se tocarem demonstra toda a crueldade das desigualdades sociais.

Além disso, a autora ainda aborda a grande disseminação da AIDS na Índia, mostrando como as mulheres são mais vulneráveis à contaminação, muitas vezes pelos próprios maridos, também por não terem controle e autonomia para se protegerem e cuidarem de sua saúde.

Como já deu para perceber, apesar da narrativa envolvente de Thrity Umrigar, que é uma ótima contadora de histórias, esse é um livro sofrido justamente por sabê-lo real e, mais ainda, por saber que histórias como a de Bhima, Maya e Sera não ocorrem apenas na Índia, mas em nosso próprio país e em vários outros lugares do mundo. São histórias que estão mais próximas de nós do que gostaríamos. São muitos os temas tratados nesse romance e todos envolvem o universo feminino, o que só o engrandece: fala-se de aborto, de estupro, de violência doméstica, de assédio no ambiente de trabalho, na desigualdade ao acesso aos serviços básicos de saúde, de preconceito e também de injustiça.

Mas, mesmo sendo doloroso refletir sobre essas questões, é importante não esquecermos a importância dessa reflexão, principalmente nos dias de hoje. A distância entre nós é um livro que deve ser lido e compartilhado pelas reflexões sobre o feminismo que histórias tão dolorosamente verdadeiras como as das personagens nos possibilitam. É um livro excelente para discussões em um clube do livro, por exemplo. E hoje passou a ser o meu livro preferido da Thrity Umrigar.

UMRIGAR, Thrity. A distância entre nós. São Paulo: Globo Livros, 2015.

Thrity Umrigar nasceu em Mumbai, na Índia, em 1961. Mudou para os Estados Unidos aos 21 anos e trabalhou como jornalista por quase 20 anos. Atualmente dá aulas de literatura e escrita criativa na Case Western Reserve University, em Cleveland, e colabora com jornais como o The Washington Post e The Boston Globe. É autora de A hora da história e A doçura do mundo.

Escolhi e recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Escuta - poemas


Certo
(Eucanaã Ferraz)

Hoje quero te falar de permanecer vivo.

Observa que há árvores velhas e a juventude é 
       longa;
perde ao menos uma hora restaurando os azulejos
       brancos
da tua infância; sobretudo abre as janelas que dão
      para o céu
de Nova Friburgo, terra onde as terras são
principados
de toda a gente e à vista nua divisamos planetas
em varandas alvoroçadas por malmequeres só de
      luz;
hoje quero te falar de junhos nervosos de tantas
      alegrias.

Se tudo te parece frágil é verdade é frágil tudo;
mas venho te dizer que tudo permanecerá vivo
nesta hora em que te digo agora.

FERRAZ, Eucanaã. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 
Para ler um trecho do livro, clique aqui.