domingo, 26 de julho de 2015

Poesia domingueira

Apocalipse Mínimo

Bem-aventurado quem lê e ouve as palavras desta 
                                                            [alegria
porque o tempo está próximo.
Ouvi por detrás de mim uma pequena voz como de
                                                            [assovio,
e que dizia:
o que vês, e ouves, escreve-o em uma melodia e
                                                         [envia-o.

Eu vi um gafanhoto que dizia
que todas as coisas grandes serão substituídas
por todas as coisas pequenas:
O infinito, pelo grão;
a eternidade, por um triz;
a verdade, pelas palavras;
o amor, pela graça;
o pecado, pelo capricho;
a história, pela gesta;
a certeza, pelo sim
Eu sou o que é, o que era e o que há de vir: a letra e o
som, a colméia e a teia, a brecha e a raiz.

Noemi Jaffe. Todas as coisas pequenas. São Paulo: Hedra, 2005.

***
Noemi Jaffe nasceu e vive em São Paulo. Professora de Literatura Brasileira, publicou Folha Explica Macunaíma (Publifolha, 2001) e Ver Palavras, Ler Imagens (Global, 2003, em parceria com Denise Grinspun).

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Flor da neve e o leque secreto

Um idioma criado e usado pelas mulheres e mantido em segredo durante milhares de anos na China foi o que motivou a escritora Lisa See a escrever Flor da neve e o leque secreto. A autora pesquisou sobre essa escrita que só as mulheres chinesas compreendiam e usavam para se comunicar umas com as outras e compartilhar as suas histórias pessoais. Lisa See viajou para a China para pesquisar mais sobre o nu shu, onde pôde conhecer algumas mulheres que aprenderam esse idioma secreto na infância, quando tiveram seus pés atados com uma bandagem para que diminuíssem de tamanho, pois na China pés pequenos eram sinônimos de beleza e também de status social, uma vez que permitiam às mulheres conseguir um melhor casamento. Essa tradição, extremamente violenta e que provocava muito sofrimento às meninas (isso acontecia por volta dos seis anos de idade) e que hoje é proibida, era realizada pelas próprias mães e demais mulheres da família e durava cerca de dois anos, período no qual as meninas ficavam em um quarto, sem sair, trocando as bandagens diariamente e caminhavam com os pés atados sobre os ossos quebrados. Na foto abaixo, os pés de uma mulher chinesa que passou por esse processo (mais fotos aqui). É difícil olhar para essas imagens sem pensar: como uma cultura decide o que é bonito? Como nosso valor enquanto mulheres muda de acordo com esses conceitos?


Ambientado na China no século XIX, o romance é narrado por Lírio, uma viúva de 80 anos que no final da vida decide escrever a história de uma amizade que lhe foi essencial: a que teve com Flor da Neve, uma menina que conheceu quando tinha seis anos, na mesma época em que o processo de bandagem dos pés das duas começou. Algumas meninas encontravam essa amizade especial: a laotong, ou velha igual, aquela que tinha a mesma data de nascimento, a mesma altura, o mesmo signo astrológico e outras coincidências do tipo. Lírio e Flor da Neve estabelecem essa amizade, que é mais forte até mesmo que os laços do matrimônio. O romance narra, portanto, a história dessa amizade, desde a infância até a velhice, abordando os laços de afeto que uniram essas mulheres durante todos os momentos importantes de suas vidas, assim como os seus sofrimentos, e ilustra a condição das mulheres na China do século XIX.
Para as famílias, tudo o que importava era ter um filho, pois na cultura chinesa e patriarcal é o filho homem quem poderá cuidar dos bens da família e dos pais na velhice, assegurando a sua entrada no "céu". O filho homem, ao se casar, traz para a família uma nora que fará todas as tarefas domésticas, em total submissão, como as mulheres são ensinadas desde a infância. Os pais não escondiam a decepção quando nascia uma menina. Alguns chegavam a dizer que era melhor ter tido um cachorro, pois teriam que alimentar e cuidar de suas filhas, juntar dinheiro para o dote, e depois entregá-las a outra família no casamento. Ter uma filha para eles significava financeiramente (e também emocionalmente) perder.
Além de serem consideradas "os galhos inúteis da família", as meninas eram subalimentadas, pois os homens eram sempre os primeiros a comer, e as mulheres viviam das sobras, sem reclamar. Ao completar seis anos, passavam pelo processo de bandagem dos pés que lhes tirava a liberdade de andar e correr como qualquer criança normal durante a infância. A delimitação entre espaço doméstico para as mulheres e espaço público entre os homens torna-se evidente desde os primeiros dias de vida.
Iletradas, analfabetas na escrita dos homens, as mulheres criam então essa escrita secreta, o nu shu, que era passada de geração para geração registrando assim muito da tradição oral em leques, lenços e cartas nas quais as mulheres falavam sobre suas vivências. Alguns homens tomaram conhecimento do nu shu, mas como era algo "de mulheres", essa escrita não foi levada à sério, como se fosse algo menor. Qualquer semelhança com a visão que muitos homens ainda tem da escrita das mulheres nos dias de hoje não é mera coincidência.
Apesar de amigas iguais, ou laotong, Lírio e Flor da Neve tiveram destinos bem diferentes. Enquanto Lírio, por ter os menores pés já vistos na aldeia (também chamados pés de lótus), consegue se casar com o filho de um dos homens mais ricos e importantes da região, Flor da Neve, oriunda de uma família tradicional que perdeu a sua fortuna acaba por se casar com um açougueiro, um homem que foi violento com ela durante toda a vida. A vida de escravidão e violência dessas mulheres, sua angústia constante para ter um filho homem e conseguir mantê-lo com vida para garantir a sua permanência na família é algo terrível. Mas mesmo entre todos os percalços essas mulheres se ajudam como podem, apoiando-se durante todas as etapas da vida, ainda que em ambientes tão distantes. É disso que o livro trata: de uma amizade verdadeira, que se fez possível em muitos momentos através dessa escrita.
Acredita-se que nu shu - a escrita secreta usada pelas mulheres em uma área remota da província de Hunan, na região sudoeste da China - foi desenvolvida há mil anos. Ela parece ser a única linguagem escrita do mundo criada por mulheres exclusivamente para o seu próprio uso.



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Lisa See nasceu em Paris, mas cresceu em Los Angeles, mais especificamente em Chinatown. Atualmente vive em Los Angeles. O romance foi adaptado para o cinema em 2011.

SEE, Lisa. Flor da neve e o leque secreto. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. Tradução: Léa Viveiros de Castro. 335 páginas.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A linguagem dos pássaros


Pequena novela de estrutura linear, A linguagem dos pássaros narra a história de Miguel e Marisa, duas crianças que se encontram quando tem 11 e 9 anos, respectivamente. Marisa acaba de se mudar com a mãe para a casa ao lado onde Miguel mora com o pai, um professor de filosofia que quer que o filho siga os seus passos. O universo da infância onde esta história de amor se inicia é permeado de histórias, sendo muito ligado à natureza e ao fantástico. Na solidão em que vive com a mãe na casa ao lado, Marisa acaba por encontrar na casa de Miguel, próxima ao mar, um lugar de acolhimento. 

Na adolescência, descobrem-se apaixonados, mas quando Miguel vai para a faculdade as separações constituem um período de grande sofrimento para Marisa, que não consegue nem mesmo escrever cartas para Miguel, como uma forma de protestar pelo abandono. Miguel, no entanto, conta nas cartas que frequentemente escreve para Marisa sobre suas novas vivências. Entre a faculdade e as viagens por diversos lugares do mundo que decide conhecer, há sempre um retorno, e Marisa é sempre aquela que espera a sua volta, certa de que o amor que sente por Miguel é capaz de unir os dois e apaziguar todos os problemas.

Quando retorna dessas muitas viagens que fez na tentativa de se encontrar, de descobrir quem é de verdade, Miguel decide se casar com Marisa. Mas mesmo o amor e o desejo que sentem um pelo outro não são capazes de apaziguar o coração de Miguel, que procura encontrar algo que nem mesmo ele sabe o que é. Miguel encarna o anjo atormentado, a sombra, aquele que busca a linguagem universal, a linguagem dos pássaros, nas diversas línguas que se dedica a aprender. Traduz textos clássicos, escreve poesia, estuda filosofia, mas a vida simples ao lado de Marisa já não lhe basta. Marisa não consegue entender "porque é que ele continuava a procurar... depois de ter encontrado" (p. 40). A obsessão pela unidade, pela alma gêmea, por esse outro eu que completa e ao mesmo tempo é sombra, se aproxima do sobrenatural no final do romance.

Ambientado no presente, mas sem nenhuma marcação de tempo, o livro é rico em referências literárias e artísticas, dialogando com outras artes como a pintura, a música e o cinema e tem como tema a fragilidade do amor e a impossibilidade humana de eternizar a paixão. A linguagem dos pássaros é um livro de grande força narrativa, leitura de um só fôlego, apesar da história aparentemente simples – mas isso é só aparência, pois há outros desdobramentos, como a questão do duplo, que podem ser mais explorados a partir dessa leitura.

"Não disseram mais nada. A escuridão rodeava-os, as sombras, o rumor das vagas, ao longe surgiram as primeiras estrelas, depois o céu ficou coberto delas, começaram a distinguir as constelações, eram as mesmas, eram sempre as mesmas, como eles eram os mesmos, tinham sido tudo desde o primeiro momento, pelo menos desde o primeiro momento em que se tinham encontrado, tudo o que lhes ia acontecer a seguir já existia então, e tudo o que aconteceria depois, e sempre, com eles tudo acontecia ao mesmo tempo. Ela fechou os olhos e deixou-se adormecer, tranquila, plena, no corpo dele, no mundo negro semeado de estrelas e pássaros" (p. 62)

PEREIRA, Ana Teresa. A linguagem dos pássaros. Lisboa: Relógio D'água Editores, 2001.

Ana Teresa Pereira nasceu em 1958 no Funchal, onde vive. Publicou o seu primeiro romance em 1989, intitulado Matar a Imagem, com o qual ganhou o Prêmio Caminho Policial. Publica regularmente desde o seu primeiro romance. Em 2012 conquistou o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com o romance O Lago.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sejamos otimistas



Já é quase regra: todo ano, em algum sábado de poucas notícias, surge aquele mesmo texto, só que repaginado, com previsões catastróficas sobre o mundo da literatura e dos livros. “Ninguém mais lê” ou “Brasileiro lê pouco”, ou ainda a dramática afirmação “os livros digitais acabarão com os livros em papel”. Um discurso tão negativo que em nada acrescenta ao mundo. Ou será que alguém acha mesmo que ler uma reportagem de jornal fará os leitores imediatamente se darem conta de que precisam pegar um livro na estante como pegamos um remédio indicado pelo médico?

No romance O filho de mil homens, um dos meus livros preferidos, o escritor português Valter Hugo Mãe brinca com esse fato de a literatura ser um remédio:

Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstratas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o teto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com teto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça (2012, p. 69).

Acredito sim que literatura é remédio. Daqueles bem poderosos, capazes de curar tristezas, de mudar (mas também de reiterar) opiniões, de proporcionar reflexões sobre universos distintos dos nossos, de nos fazer pensar. Mas a literatura é um remédio tão específico e de difícil categorização que possui uma forma de indicação própria. Não é algo que se possa obrigar ninguém a gostar verdadeiramente.

A tradição clássica de ensino de literatura nas escolas tem demonstrado isso, pena que nem todo mundo consegue perceber. Não adianta obrigar alguém a ler, e com isso não quero dizer que o ensino de literatura deva deixar de existir, porque ele é indispensável. Com isso quero mostrar que a literatura é um remédio que precisamos desejar, e o papel da escola e também da família deve ser o de despertar o desejo de ler, fomentar o debate (e estimular a tolerância e a capacidade de dialogar, tão necessárias nos dias de hoje), além de alimentar o encanto inicial que move e forma leitores, fazendo com que eles desejem a cada livro lido um desafio maior, uma aventura diferente a ser percorrida. E o exemplo é a melhor forma de fazer isso. Como posso convencer alguém que a leitura é fascinante se eu mesmo não sou capaz de demonstrar a minha paixão pela leitura?

Cada vez que leio um desses textos com previsões apocalípticas, eu me pergunto por onde o autor tem andado que não tem visto a quantidade de jovens que está lendo, participando de clubes de leitura, escrevendo em blogs e gravando vídeos em vlogs, trocando livros para ter a chance de ler mais e driblar o alto preço cobrado nas livrarias, organizando maratonas literárias nas férias, ansiosos por compartilhar a paixão e o encanto de suas descobertas com outros leitores. Para mim é evidente que tem mais gente lendo, basta olhar ao redor. Com certeza ainda não é o suficiente, dada a extensão do nosso país, aos problemas que ainda existem, sem contar o fato de que só recentemente alguns milhões de brasileiros deixaram de viver abaixo da linha da pobreza. Se não havia dinheiro para comer, quem dirá para comprar livros. Tudo isso precisa ser pensado quando lemos sobre essas estatísticas. E não podemos nos esquecer de que leva tempo para transformá-las, mas isso não é algo impossível de acontecer.

Diante de textos tão desanimadores, eu recomendo acessar as novas redes sociais, algumas delas exclusivas para leitores, como o Skoob, que já tem mais de dois milhões de usuários no Brasil, sem falar nas redes internacionais, como o Goodreads, para ficar um pouco mais otimista e também para se animar a ler um livro pois, como disse Daniel Pennac no livro Como um romance, “Não há melhor maneira de abrir o apetite de um leitor do que lhe dar a farejar uma orgia de leitura” (Pennac, 2008, p. 112). É por isso mesmo que precisamos de professores, pais e bibliotecários apaixonados pela leitura para que possam partilhar a sua própria felicidade de ler e com isso despertar nos jovens o desejo de ler tão essencial na formação de um leitor.

Nós, leitores, podemos fazer o que mais amamos, como tenho visto com cada vez mais intensidade nas redes sociais e ao meu redor nesses últimos anos: podemos partilhar a nossa felicidade de ler, falando daqueles livros que nos tocaram a alma pois esse encantamento costuma ser contagioso e pode ajudar muito mais a mudar as estatísticas pessimistas em relação à leitura, e em proporções muito maiores, do que textos apocalípticos e negativos sobre o assunto. 

Entre os leitores deste blog que hoje já se tornaram amigos e que compartilham comigo o mesmo apreço que tenho pela leitura e seu poder transformador, sei que seguem espalhando esse encantamento contagioso e positivo sobre os livros que os encontraram e emocionaram, indicando um livro a um amigo, presenteando alguém com um livro especial, mantendo vivo esse círculo de leitores que desde sempre permitiu a construção de novos laços de amizade e de afeto. É nisso que procuro pensar quando escuto alguém dizer que ninguém mais gosta de ler. Imagino todos os livros que cruzam o país todos os dias nas muitas trocas realizadas no skoob, por exemplo. Ou nos muitos livros que são esquecidos propositalmente em algum banco de ônibus ou em um banco de praça em alguma cidade do país em iniciativas lindas como o bookcrossing. E não deixo de pensar que seria maravilhoso se em um desses dias de tédio, os jornalistas dos textos apocalípticos decidissem escrever não esse tipo de texto negativo, nem muito menos uma resenha de um lançamento do mês sobre o qual são obrigados a escrever, mas sobre um livro que de fato marcou a sua vida. Talvez assim eles conseguissem se lembrar da felicidade de ler; talvez assim eles conseguissem ver que tem muito mais gente lendo. Acredite:




sábado, 20 de junho de 2015

A amiga genial

A amiga genial é o primeiro volume da tetralogia criada por Elena Ferrante, narra a infância e a adolescência de duas personagens, as protagonistas da história: Elena e Lila. A partir do prólogo, tomamos consciência do mote do romance: Lila desapareceu, aos sessenta e seis anos, sem deixar vestígios; Elena, na tentativa de não deixar que ela desapareça por completo, decide escrever a sua história, que é a história de ambas e da amizade que se estabeleceu entre as duas desde a infância. A escrita é, portanto, uma forma de eternizar o que a vida não foi capaz de manter, uma forma de garantir a permanência das pessoas e das lembranças construídas a partir de suas vivências.

Mas a infância dessas personagens nada tem de comum. Lila é uma menina levada e destemida, por vezes cruel, em quem Elena se espelha. A relação entre as duas é uma mistura de competição, inveja e admiração. “Nosso mundo era assim, cheio de palavras que matam” (p. 25) é o que nos conta Elena. E a força das palavras de Lila era o que enfeitiçava Elena. A violência está presente na infância das duas como algo inerente à vida ou ao próprio ambiente em que vivem. São meninas pobres, em um bairro em que, para sobreviver, é preciso aprender a reagir.

 “Não tenho saudade de nossa infância cheia de violência” (p.25).

Apesar de franzina, Lila se destaca das demais pela inteligência, sendo a primeira da turma quase sempre, uma autodidata que lia escondido de todos, e por ser uma pessoa sempre em busca de um desafio. Algo que fica evidente na trama é como a escola por vezes também é um ambiente hostil e propício a humilhações quando a competição é estimulada pelos professores e diretores. Quando as meninas se destacam mais que os meninos na escola, são vítimas de mais violência para impedir qualquer desestruturação da ordem patriarcal que claramente governa a sociedade italiana descrita no romance. Muitas delas são impedidas de continuar os estudos muito mais por serem mulheres do que pela condição social da família, como podemos observar no diálogo entre Rino, irmão de Lila, e seu pai:

“Se você me pagar, eu me encarrego dos estudos dela”, dizia Rino.
“Estudar: Pra quê? Por acaso eu estudei?”
“Não”
“Então por que sua irmã, que é mulher, precisa estudar?”

A escrita honesta de Ferrante, ao mesmo tempo em que nos choca pela violência que se apresenta assim sem nenhum comedimento, também nos encanta à medida que a história se desenvolve e essas personagens incríveis e complexas vão se apresentando. Quando nos damos conta estamos absolutamente envolvidos nessa narrativa que mostra um pouco do cenário italiano pós-guerra, onde as mulheres sofrem bastante pela submissão que a sociedade lhes impõem, silenciando suas vontades para assumirem o papel de esposas e mães, mas onde também há meninas como Lila e Elena, que sonham com uma vida de glamour, em que possam escrever, estudar, se apaixonar de verdade.

A trajetória dessas duas amigas desde a infância até a adolescência é contada através dos olhos de Elena, a amiga genial, a única que consegue continuar estudando. As duas tem uma relação de encantamento com os livros, mas Lila parece silenciar essa relação com o tempo para atingir outros objetivos. A eterna admiração que Elena sente por Lila, que mesmo sem estudar continua sendo brilhante, é um sentimento complexo e talvez o que mais encante na escrita de Ferrante: ela consegue retratar de forma honesta personagens humanas, verdadeiras, com todas as suas contradições. Mais importante ainda é que é a história de uma amizade entre mulheres, destacando todas as transformações que enfrentam em suas vidas, todos os obstáculos que tem que enfrentar (a violência inclusive), a partir da perspectiva feminina.

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que, indo contra a maré atual entre os escritores, quer permanecer fora dos holofotes: nada se sabe sobre sua vida pessoal, ela se recusa a divulgar fotografias e diz acreditar que os livros, uma vez escritos, não precisam de seus autores. Se eles têm algo a dizer, mais cedo ou mais tarde encontrarão os leitores. 

Enquanto leitora, só tenho a dizer que estou feliz que este livro tenha me encontrado e que a obra dessa escritora finalmente comece a chegar ao público brasileiro – que certamente vai ficar como estou agora: ansiosa pelos volumes seguintes dessa série Napolitana que promete muitas emoções.

FERRANTE, Elena. A amiga genial. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015. 336 páginas. Tradução: Maurício Santana Dias.

Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Hanói



Romance sobre deslocamentos, Hanói narra a história de David, um rapaz de 32 anos apaixonado por música, que trabalha em uma loja de materiais de construção em Chicago, Estados Unidos. David acaba de ser diagnosticado com um câncer agressivo, em estado avançado, para o qual não há mais tratamento. Ele só tem mais três ou quatro meses de vida e, abalado com a notícia da morte próxima, começa a repensar algumas questões de sua vida. Sozinho, sem parentes próximos, sem namorada, David decide se desfazer de tudo, assim como na lenda dos elefantes que se afastam de tudo para morrerem sozinhos. Ele pede demissão do trabalho e começa a doar seus pertences antes de escolher um lugar para onde viajará sozinho, o seu último destino.
Quando te dizem que é o último gole, David pensou, você para, aguça os sentidos e sente o gosto da bebida pela primeira vez (LISBOA, 2013, p. 13)
David é um exemplo dos deslocamentos contemporâneos, que parecem ser o tema central do romance de Adriana Lisboa. Filho de pai brasileiro que imigrou para os Estados Unidos em busca de melhores condições de vida, e de uma mãe mexicana, David cresceu nos Estados Unidos em contato com três culturas e idiomas diferentes. Apesar disso, a língua que aprendeu a falar tão bem, o inglês, é a língua que o pai nunca conseguiu aprender e que a sua mãe falava com bastante sotaque, ou seja, uma barreira de comunicação com o filho e com o novo lugar que habitam, onde sempre serão estrangeiros, um lugar ao qual não pertencem. Sem família, David é esse homem desenraizado, que reconhece na música a possibilidade universal de comunicação, independente das fronteiras linguísticas ou geográficas. É por meio da música que David se expressa e se comunica com o mundo, mas essa comunicação não se dá com sua namorada, Lisa, que despreza sua condição de músico amador, sua falta de ambição diante da vida. Quando Lisa joga o trompete de David pela janela, evidencia-se que essa comunicação entre eles não se estabelece. 

Quando conhece Alex, uma jovem de vinte e dois anos que trabalha no mercado vietnamita do bairro, David encontra a possibilidade de ter ao seu lado algumas horas de alegria enquanto a doença progressivamente se agrava. Sim, Hanói também é uma história de amor. Alex (nome oriental para um rosto cinquenta por cento) também é resultado de deslocamentos: sua avó, Linh, engravidou de um soldado estadunidense, um soldado inimigo, durante a Guerra do Vietnã. Por conta disso, tanto ela quanto a sua filha sofreram muito preconceito por “trair” seu próprio povo. Do soldado, elas nunca mais tiveram notícias. Anos depois, Linh parte para os Estados Unidos com a filha de dezessete anos, Huong, em busca de trabalho e um recomeço. A amizade com Trung, um vietnamita que também migrou para os Estados Unidos, onde abriu um mercado de produtos vietnamitas, permitiu que eles formassem uma comunidade, pois compartilhavam a mesma língua e cultura, assim como a experiência da Guerra do Vietnã, que foi completamente distinta da experiência que os estadunidenses tiveram dessa mesma guerra, considerada a Guerra Americana. A língua, ao mesmo tempo em que os unia, também os segregava:
Trung só falava com Alex em vietnamita na presença da mãe e da avó dela. Uma espécie de decência. Com Alex, o que era mais confortável para Alex. Mas, quando as gerações mais velhas estavam presentes, prioridade às gerações mais velhas (LISBOA, 2013, p. 36)
Deslocados de seu país de origem, de sua cultura e de seus antepassados, essas personagens compartilham a sensação de não pertencimento:
Quanto a Huong e Lihn, que conheciam bem essa história (a partir da fase náutica), suas pequenas almas também não pareciam estar ali, presentes, quando seus pés pisavam as calçadas das novas cidades pelas quais passavam. Mesmo quando aprendiam palavras do novo idioma e decifravam os costumes esquisitos de seu novo país.
Suas almas não estavam grudadas no corpo, Alex pensava. Pairavam em algum outro lugar, como se fossem pipas que elas empinavam e que flutuavam lá no alto, onde havia mais ar puro e menos todas as outras coisas (LISBOA, 2013, pp. 46-47)
Ao representar mulheres imigrantes, com vivências sofridas em meio à violência da guerra, a autora foge dos estereótipos comuns que representam o imigrante apenas como o homem em busca de melhores condições de vida. A perspectiva apresentada no romance de Lisboa também é feminina. Além disso, é possível observar a presença do trabalho dessas mulheres imigrantes nos Estados Unidos, e todo o preconceito que sofriam, além da invisibilidade que as cercavam, excluídas por não partilharem o conhecimento do novo idioma e também por sua posição social.

Alex, da terceira geração dessa família, cinquenta por cento vietnamita, cinquenta por cento estadunidense, afasta-se de seus pais, assim como ocorre com David, principalmente por conta do idioma e do fato de não compartilhar com a mãe e a avó as lembranças de uma época e de um lugar no passado para o qual não é possível regressar.

Além de falar dos deslocamentos tão comuns no mundo contemporâneo, Hanói nos faz repensar essas fronteiras identitárias, a barreira linguística e o sentimento de pertencimento (ou não pertencimento) que é igualmente comum ao mundo moderno. O mais interessante do romance, contudo, é a forma que a autora apresenta personagens “sem raízes”, com histórias complexas, para falar de uma essência que os aproxima, de uma solidão que os aflige, independente do idioma ou de sua localização geográfica; algo que os torna mais humanos, aproximando-os do leitor: a consciência da proximidade da morte, da finitude da vida. Um livro sensível, delicado, aparentemente simples, mas que trata de sentimentos tão profundos que nós também somos transportados por esses lugares, mas não sem regressar dessa leitura de coração partido.

Para ler o primeiro capítulo de Hanói, clique aqui.

LISBOA,Adriana. Hanói. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Después del invierno



O mais recente romance da escritora mexicana Guadalupe Nettel, Después del invierno (Depois do inverno - ainda sem tradução em português) narra a história de Claudio, um cubano que vive em Nova York e trabalha em uma editora, e Cecilia, uma mexicana que vive em Paris e é estudante de pós-graduação. Intercalando as vozes masculina e feminina dos dois protagonistas, que contam suas lembranças de infância, seus medos, suas caraterísticas mais pitorescas, Nettel consegue mais uma vez envolver o leitor nessa história que fala de relações amorosas, às vezes de forma irônica e com um humor refinado, e,  em outros momentos, com uma sensibilidade delicada e bastante comovente.

Assim como no romance O corpo em que nasci (Publicado no Brasil pela editora Rocco e único romance de Guadalupe Nettel traduzido para o português até o momento), Nettel mais uma vez nos apresenta personagens que ocupam as margens, que causam estranhamento e fogem do comum. 

Claudio é um homem frio, metódico, que preza mais que tudo o silêncio e o isolamento; um homem egoísta que só pensa em seus sentimentos. Vive em um apartamento pequeno em Nova York, que tem uma única janela, mas sem nenhuma vista pois a única janela fica em frente a um muro. Nesse ambiente asséptico, pois é bem obcecado por limpeza, ele se sente protegido não apenas do caos da cidade grande que o cerca, mas também de se socializar com o mundo, na tentativa de não sofrer. Sem se apegar a ninguém, acaba por se relacionar com Ruth, uma cinquentona divorciada e muito rica que age com total submissão aos desejos mais estranhos de Claudio. Sem falar muito e, com isso, sem perturbar o silêncio que ele tanto preza, Ruth acaba se tornando o par ideal para o jeito esquisito de Claudio: não reclama, não questiona, aceita o distanciamento de Claudio e o recebe bem sempre que ele decide voltar. Nem mesmo o próprio Claudio entende inicialmente como é possível existir uma mulher assim, tão submissa. Mas logo ele descobre o motivo do comportamento de Ruth e tudo começa a mudar.

Enquanto isso, em Paris, Cecília se sente uma estrangeira na cidade, sempre buscando o isolamento quando não está em aulas. Depois dos primeiros meses morando em um quarto na casa de uma amiga, decide alugar um pequeno apartamento e ter mais independência. O local escolhido é um prédio antigo com vista para um dos cemitérios da cidade. Desde pequena, Cecília é obcecada por tumbas, encantamento que começou quando sua mãe a abandonou ainda pequena para fugir com um amante. Na adolescência começou a passear com seus amigos góticos pelos cemitérios de Oaxaca, pois era um lugar que lhe dava conforto e, de alguma forma, resignificava a dor de ter sido abandonada pela mãe aos cuidados do pai e da avó. Muito calada e tímida, sempre com ar sonhador, estudou Letras e depois mudou-se para Paris para cursar a pós-graduação. O que Claudio e Cecília tinham em comum, desde a infância, era a paixão pelos livros que, tanto em Cuba quanto em Oaxaca, eram difíceis de se ter em casa, por isso o grande amor dos dois pelas bibliotecas, pois para ambos a leitura foi uma grande companheira em boa parte de sua infância e adolescência. Nesse sentido, o livro traz muitas referências a outros livros e autores, e também à música, uma das paixões de Claudio, que buscava encontrar alguém que pudesse se entregar à música em silêncio como ele fazia.

A solidão de Cecília é tão grande que ela passa a observar os ruídos e os movimentos das pessoas do seu prédio, reconhecendo-os pelos sons e horários de suas rotinas. Sua vida em Paris, durante as férias e em pleno rigor do inverno parece completamente sem sentido. Até que percebe que no apartamento vizinho ao seu, Tom, o vizinho, também tem uma vida tão solitária quanto a sua e está sofrendo. A amizade entre os dois se dá principalmente quando descobre que Tom também é obcecado por cemitérios, ainda que o motivo de sua obsessão seja o fato de estar doente. É compartilhando os livros lidos e as músicas que gostam, sem falar de passado nem de futuro, que começa o relacionamento entre os dois, o encontro de duas almas que se compreendem e se completam, mas que desde o início está fadado ao fim.

Entre encontros e desencontros, esses personagens desenraizados passeiam pelo mundo e por diversas cidades, e nos fazem refletir sobre o amor, a morte, o abandono, o suicídio, a violência, a solidão, a amizade - enfim, sobre a condição humana, e o que há de feio, estranho e bonito em cada um. Desses livros que não conseguimos largar até chegar ao fim. 

NETTEL, Guadalupe. Después del invierno. Argentina: Editorial Anagrama, 2015.

Para ler o primeiro capítulo (em espanhol), clique aqui.

sábado, 30 de maio de 2015

A doçura do mundo


“por que se preocupar com o futuro 
se hoje pode ser doce? 
É tudo o que você tem, o presente” (p. 268). 

A doçura do mundo é um romance sobre luto, relações familiares e sobre os ruídos entre culturas diferentes e, talvez, gerações diferentes. Ao narrar a história de Tehmina, uma mulher indiana de 66 anos que acaba de perder o marido e está enfrentando todo o processo de reapreender a viver sozinha e a tomar decisões por conta própria, Thrity Umrigar constrói uma narrativa envolvente sobre família e superação. 

Depois da morte do marido, Tehmina foi passar uns meses nos Estados Unidos com seu filho, Sorab, que já está bem adaptado à cultura estadunidense e é casado com Susan, uma norte-americana branca, com quem tem um filho pequeno, Cookie. Além da saudade que sente do marido, e do sentimento de estar constantemente à deriva, Tehmina tem que lidar com outras questões nessa sua estadia com o filho: é necessário decidir se voltará a morar sozinha em Bombaim ou se ficará de vez nos Estados Unidos com a única família que lhe resta.

Apesar de ser acolhida pelo filho, pela nora e pelo neto com muito amor, às vezes as diferenças culturais se fazem notar, principalmente entre Tehmina e a nora. Em outros momentos, o próprio filho demonstra ter mudado, e as fissuras entre as duas culturas causam algum estranhamento. Mais do que isso, são gerações diferentes que passam a conviver juntas em uma mesma casa, perdendo com isso a privacidade que tinham. 

O olhar de Tehmina em relação aos Estados Unidos é sempre de encantamento, e incomoda um pouco certas afirmações como “é o melhor lugar do mundo para se viver” ou “o melhor e mais rico país do mundo”, que vão surgindo ao longo da narrativa sempre que Tehmina observa aspectos do dia a dia nos Estados Unidos, comparando-o com seu país natal. Em suas lembranças da Índia, exceto pelas pessoas que foram importantes em sua vida ou por algumas memórias afetivas de situações vividas lá, as descrições da cidade e do país são sempre negativas, o que já faz o leitor perceber qual será a sua escolha. É preciso ler o romance pensando sempre no lugar de fala dessa autora: uma indiana que há muito vive nos Estados Unidos, onde atua há um bom tempo em profissões “privilegiadas” como o jornalismo e o meio acadêmico, e que está bem inserida nessa outra cultura.

Mas Tehmina é essa personagem bem maternal da avó, que quer acolher as pessoas, alimentá-las com a comida que prepara com carinho (e essa tradição indiana de alimentar os outros como forma de demonstrar afeto fica muito presente no livro) que acaba nos conquistando por sua bondade e doçura e, em alguns momentos, ingenuidade, até. É bonita a forma com a qual Umrigar descreve a relação do filho com a mãe e com o pai pois, apesar dos pequenos conflitos, existe uma relação de respeito e admiração bem bonita entre eles. 

Quando as duas crianças que moram na casa vizinha começam a demonstrar que estão recebendo maus tratos por parte da mãe, Tehmina acaba por interferir na situação, na tentativa de ajudar as crianças, algo que destoa da indiferença típica dos moradores de grandes cidades dos Estados Unidos nos dias atuais. E aqui é importante estar atento aos estereótipos que podem circular nesse romance, afinal nem todo indiano se preocupa com os outros, nem todo estadunidense é indiferente. São essas observações entre as duas culturas que nos fazem o tempo todo pensar que a condição do imigrante é sempre um entre-lugar.

Mas, mais importante que isso, é que quando decide fazer o que seu coração julga ser o correto, independente dos olhares críticos que essa outra cultura lhe dará, é que Tehmina consegue se sentir mais confortável sendo quem é; é quando ela consegue reencontrar sua força e independência, mostrando que pode tomar decisões sozinha e continuar sendo feliz, apesar da saudade que sente do marido. Embora vivesse em um casamento por amor, o fato de sempre ter dependido do marido para tudo dificulta bastante a vida de Tehmina quando ela se vê tendo que recomeçar, o que gera um grande impasse não só para ela, mas para toda a família. Contudo, o importante é que ela recomeça e redescobre a sua força quando encontra a sua própria voz.

UMRIGAR, Thrity. A doçura do mundo. São Paulo: Globo Livros, 2015. Tradução: Fabienne Wyler das Mercês.

Thrity Umrigar nasceu em Bombaim, na Índia, em 1961. Mudou para os Estados Unidos aos 21 anos e trabalhou como jornalista por quase 20 anos. Atualmente dá aulas de literatura e escrita criativa na Case Western Reserve University, em Cleveland, e colabora com jornais como o The Washington Post e The Boston Globe.

Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Um poema de Manuel Bandeira

A Mário de Andrade Ausente

Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue,
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.

Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. 20 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A Hora da História


Em A Hora da História, a escritora indiana Thrity Umrigar narra a história de Lakshmi, uma indiana de trinta e dois anos que mora há cinco anos nos Estados Unidos com o marido. Apesar do tempo, Lakshmi sente que não pertence ao lugar, não fala corretamente o idioma, sente saudades da família que ficou na Índia e, em profundo desespero e isolamento, tenta o suicídio. 

A imagem que temos dessa personagem desde as primeiras páginas nos sensibiliza diante do seu sofrimento, afinal a sensação de inadequação e isolamento é comum entre os imigrantes - temática frequente nos romances de Umrigar. Ao mesmo tempo, consideramos os aspectos culturais da Índia que contribuem significativamente para reiterar a violência contra a mulher. 

Após o casamento, quase sempre arranjado, as mulheres indianas passam a ser "propriedade" das famílias dos maridos (afinal, foram compradas com o dote pago por elas) e, assim como acontece com Lakshmi no romance, muitas vezes são proibidas de entrar em contato com a sua família, passando a ser uma mão de obra gratuita para as novas famílias às quais agora pertencem. Lakshmi trabalha noite e dia no restaurante do marido nos Estados Unidos, sem nada ganhar pelo seu trabalho, além de fazer todas as tarefas domésticas. Sem possuir nenhuma independência, ela, assim como muitas mulheres, vivem em situação de total subserviência e silenciamento.

Mas quando Lakshmi é levada para o hospital após a tentativa de suicídio, ela é atendida pela psicóloga Margaret, que logo percebe sua tristeza e solidão. Após algumas tentativas de conversa, a psicóloga e a paciente estabelecem uma comunicação e percebem que tem mais coisas em comum do que imaginam. Maggie, como passa a ser chamada, é casada com um intelectual e professor indiano que mora há anos nos EUA. Além de compreender algumas das tradições indianas por conta de seu próprio casamento, estranhas aos olhos dos estadunidenses, Maggie compreende a dor de Lakshmi por ter perdido a mãe tão cedo, algo que ainda é muito doloroso para ela mesma, assim como seu distanciamento da família, e acaba por oferecer sessões gratuitas para Lakshmi a partir daí. 

A relação psicóloga-paciente passa a ser de amizade, e Maggie interfere bastante na vida de Lakshmi, pois percebe que ela precisa de ajuda (nesse aspecto, creio que os profissionais da área podem se incomodar um pouco com a representação que a autora faz dos psicólogos, uma vez que a distância necessária entre paciente e psicólogo é completamente desconstruída no romance). Contudo, é justamente essa ajuda que provoca uma grande transformação na vida da protagonista, que passa a assumir as rédeas do seu destino, a trabalhar e ganhar seu próprio dinheiro e a lutar por mais respeito (e também um pouco de amor) por parte do marido. Alguns segredos, posteriormente desvendados em muitas dessas conversas entre psicóloga e paciente acabam por tentar justificar a violência verbal que a protagonista sofreu do marido nesses cinco anos de casamento, o que me incomodou bastante. Quando perguntada pela terapeuta se ela sofria agressões do marido, Lakshimi, assim como muitas mulheres mundo afora, não reconhece os abusos verbais e psicológicos que sofria do marido, que, com palavras abusivas, durante muito tempo a fez acreditar-se incapaz e inferior, a ponto de pensar em suicídio, como sendo uma agressão. Nesse sentido, o mito de que a violência só ocorre fisicamente pode ser reforçado por essa história se o(a) leitor(a) não estiver atento(a).

Entre traições, confusões, segredos e muitas histórias sobre as suas vidas e memórias, essas duas personagens acabam descobrindo mais sobre si mesmas e sobre a vida do que jamais imaginaram que fossem descobrir. A narrativa de Thrity Umrigar fala sobre o poder das histórias de curar mágoas, de nos aproximar dos outros, mesmo que eles sejam tão diferentes de nós, além de possibilitar um diálogo com as nossas próprias memórias. Uma escrita que continua sendo muito envolvente, que nos faz pensar sobre a condição dos imigrantes e, principalmente, das mulheres, sempre torcendo para que as personagens reconheçam a força que possuem.

UMRIGAR, Thrity. A hora da história. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2015. Tradução: Amanda Orlando.

Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.