terça-feira, 29 de março de 2016

História do novo sobrenome (carta para Elena)



Querida Elena,

Terminei de ler A amiga genial encantada com a sua escrita e muito ansiosa para ler a continuação da história de Lila e Lenu. Você sabe mesmo como prender a atenção do leitor e atiçar a nossa curiosidade. Sinto a mesma coisa agora que terminei de ler a História do novo sobrenome, o segundo volume de sua tetralogia napolitana, que foi devorado com o mesmo interesse, apesar de ter achado que em algumas partes a narrativa ficou um pouco mais lenta e descritiva, mas nada que desagrade. A história dessa amizade foi sem dúvida uma das melhores coisas que li nos últimos tempos. 

Acho engraçado, para usar um bom eufemismo, quando escuto alguém dizer que você é um homem. Tolinhos. Só uma mulher seria capaz de escrever esta história, e fico feliz que você tenha feito isso. E mais ainda, que seus livros estejam sendo traduzidos aqui no Brasil. Já fico imaginado como vai ser quando chegar ao último volume de sua tetralogia e tiver que me despedir de Lila e Lenu. Mas até lá outros livros seus já estarão por aqui também (espero).

Mais do que um livro sobre a vida de duas jovens italianas, seu romance é sobre as mulheres, tão forte é a perspectiva feminina em seus livros. Suas angústias, seus dilemas, e todos os contratempos que somos obrigadas ainda a enfrentar estão ali, tipo A vida como ela é. Mesmo retratando uma outra época, já que o livro se passa no pós-guerra, às vezes é assustador perceber o quanto disso tudo ainda está presente nos dias de hoje. São muitas as mulheres que, como Lila, só veem diante de si a possibilidade do casamento, quase como uma obrigação. Sem falar na pressão de todos para ter filhos, ainda que esse não seja o seu desejo. Essa parte cortou um pouco meu coração durante a leitura, porque tinha imaginado para Lila tantas outras aventuras e possibilidades, ela que é tão inteligente. Mas mesmo diante de todos os problemas, gosto da força de suas protagonistas: quando achamos que elas se perderam, de repente elas se recuperam e surgem cheias de vida e coragem, como tantas outras mulheres fazem diariamente.

Foi muito interessante o que você fez no segundo livro quase que invertendo as nossas expectativas, pelo menos as expectativas que eu cultivei para Lila e Lenu durante a leitura do primeiro volume. Os dois caminhos traçados por elas, do casamento e dos estudos, sempre mostrando o que eles tem de bom e de ruim, são um bom contraponto para a tradicional história da vida de uma protagonista nos romances que costumamos ler. Quando menos percebemos já estamos envolvidos com as vidas tão intensas e cheias de reviravoltas dessas duas italianas. E é incrível como você as construiu, da forma complexa como elas são, que passamos do amor ao ódio em diversos momentos e é por isso que você é genial.

Algo que me inquieta nos seus livros é a violência contra a mulher que está presente em cada página, do início ao fim. Certamente uma denúncia de algo que ainda persiste nos dias de hoje, enraizado em nossa sociedade e nas instituições, seja no Brasil, na Itália ou em muitos outros lugares. A violência no casamento, que ainda permanece como um assunto privado, quando não é. Tão comum que passa muitas vezes como algo banal, naturalizado, o que jamais deve acontecer. Ainda fico esperando uma reviravolta nesse sentido, mas talvez isso seja mais um desejo meu, algo que talvez não vá acontecer ainda em sua história. Mas mesmo que isso não aconteça, o mérito dos seus livros se mantém: chama a atenção para uma questão muito importante e que não pode, nem deve, continuar sendo silenciada, ou tratada como algo menor. Obrigada por falar dessa dor.

Já espero ansiosamente o terceiro livro, porque você, cara Elena, sabe como ninguém terminar um capítulo e nos deixar de cabelo em pé de tanta curiosidade sobre o que vai acontecer depois. 

Continue escrevendo. Para os bons entendedores a sua literatura realmente diz tudo o que precisa ser dito.

Com carinho,

Pipa

*Como é muito difícil falar do segundo volume de uma tetralogia sem dar spoilers, peguei emprestada a ideia de uma carta para a autora do blog the blank garden, no qual a querida Juliana escreve cartas incríveis para as autoras dos livros que lê. Espero que com ela eu tenha conseguido demonstrar o quanto gosto dessa autora e o quanto vale a pena ler essa série napolitana, caso você não tenha começado ainda.

*Escolhi e recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros (Biblioteca Azul).

quarta-feira, 23 de março de 2016

Sorteio: Os pescadores



Quer ganhar um exemplar do livro Os pescadores, do escritor nigeriano Chigozie Obioma?

Para participar do sorteio de um exemplar do livro Os pescadores, de Chigozie Obioma, é só preencher o formulário abaixo com seu nome e email e torcer :)

As inscrições podem ser feitas até o dia 31/03/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 01/04/2016 (o resultado será anunciado no blog). Sorteio válido apenas para residentes no Brasil.

Para preencher o formulário e participar do sorteio: (clique aqui)

Boa sorte! =]

Arco de virar réu


"As palavras são sempre insuficientes, 
desajustadas e vazias de sentido 
para descrever o que fica registrado 
no tempo de um mísero segundo de um pesadelo."

Primeiro romance do escritor brasileiro Antonio Cestaro, Arco de virar réu chama a atenção pelo trabalho cuidadoso com a linguagem. A narrativa ágil nos envolve do início ao fim - é desses livros que não conseguimos parar de ler até chegar à última página. 

A fronteira tênue entre doença e normalidade, entre sanidade e loucura é o tema do romance, que se divide em quatro partes. O narrador-protagonista é um homem de meia idade, filho primogênito de uma família simples. O casamento dos pais chega ao fim muito cedo e a ausência do pai, e a consequente fragilidade da mãe, causa grande impacto nos filhos. Clara é a irmã mais nova e a única que parece conseguir seguir de forma independente. Pedro, o irmão esquizofrênico, cuja doença se agrava com o tempo, interferindo no dia a dia dos familiares e provocando rupturas profundas na família, é o ponto chave para a narrativa. É a partir da dor, que mistura lembranças e memórias, delírios e pesadelos, que o narrador escreve a sua história.

Cada vez mais ausente pela doença, Pedro se distancia da realidade na fala desordenada e na perda de sentido progressiva que aparece de forma intercalada no texto. A evolução da doença de Pedro aos poucos leva a uma dolorosa percepção do próprio estado mental do narrador, que se agrava após a morte do irmão. As digressões, os fragmentos de memória e os pesadelos, que se originam no tema de interesse do narrador, os costumes indígenas, ajudam a colocar em dúvida a sua própria existência. 

Nós, leitores, somos envolvidos no delírio e na dor diante de um mundo cada vez mais duro, onde a própria esquizofrenia parece ser uma "solução", ou talvez a rota de fuga encontrada pelo personagem para lidar com sua própria dor. Enquanto até determinado ponto do texto há uma divisão entre os delírios do irmão e a sanidade do narrador, mais adiante essa linha divisória se confunde, até não haver mais diferença entre sanidade e loucura.
“Parte daquilo que considero fatos, que ficaram registrados com a bandeira da verossimilhança na minha mente, acham-se agora submetidos a vozes que dizem e garantem, apoiadas pelos diplomas que exibem nas paredes, que eram realidades paralelas, criadas como subterfúgios ou caminhos de fuga do factual, ou ainda, na interpretação do Juca Bala, os caminhos que percorri quando decidi viver dentro da minha cabeça”
O narrador vai morar no sítio da tia Rosana, com a mãe, exatamente como fizera Pedro tempos antes. Isolado da civilização, ele pressente a aproximação da morte. Então, escreve seus segredos numa carta e pede que a entreguem ao primo, com quem ele sempre conversava sobre seus pesadelos. Já não há certezas de que até mesmo esse primo e os outros personagens de fato existiram, ou se são fruto de um delírio. Na carta, o narrador se lembra do “arco de virar réu”, que dividiu sua vida em duas partes: sanidade e loucura.  Nela fica claro, para o narrador e para o leitor, que “numa trama de insanos o mundo inteiro é só insanidades” (p. 147). Um ótimo romance, recomendo principalmente para quem se interessa pela temática da loucura, já que traz um personagem esquizofrênico, algo pouco explorado na nossa literatura.


CESTARO, Antonio. Arco de virar réu. São Paulo: Tordesilhas, 2016. 152 págs.

SOBRE O AUTOR
Antonio Cestaro nasceu em 1965, em Maringá, Paraná. É editor, fundador do selo Tordesilhas, dedicado a literatura. Em 2012 estreou como escritor com o livro de crônicas Uma porta para um quarto escuro, que ganhou o prêmio Jabuti na categoria Projeto Gráfico. Em 2013 publicou seu segundo livro de crônicas, As artimanhas do Napoleão e outras batalhas cotidianas. Arco De virar réu é seu primeiro romance.  Clique aqui para ver o Booktrailer do livro.

*Recebi este livro como cortesia da editora Alaúde (selo Tordesilhas)

sexta-feira, 11 de março de 2016

(em silêncio)

.
perguntam-me
como está você?
amiúde,
nestes dias

explicar
as perdas
se parece
com cultivá-las

deixem
meu jardim
apenas
morrer
em silêncio
.
Ana Elisa Ribeiro

quarta-feira, 9 de março de 2016

Os pescadores


“Hoje, quando olho para trás, como tenho feito com mais frequência agora que tenho meus filhos, percebo que foi durante uma dessas idas ao rio que nossas vidas e nosso mundo mudaram. Pois foi nele que o tempo começou a ter importância, foi naquele rio que nos tornamos pescadores”. (p.18)
Os pescadores é o livro de estreia de Chigozie Obioma, um jovem autor nigeriano de apenas 28 anos que em 2015 esteve entre os finalistas do Man Booker Prize e ganhou destaque na imprensa como uma das grandes promessas da literatura africana contemporânea. O romance chega agora aos leitores brasileiros pela Globo Livros, com tradução de Claudio Carina.

O livro pode ser lido como um romance de formação, pois retrata o amadurecimento dos personagens, da infância até a idade adulta, e em face das situações distintas que passam a ocorrer em sua família, o que gera profundas transformações em cada um deles. Os pescadores é um romance sobre a infância de quatro irmãos de classe média, que vivem em uma pequena cidade da Nigéria com os pais e uma irmã ainda bebê e que, de um dia para o outro, passam a ter mais liberdade quando o pai é transferido para uma cidade maior, onde poderá ter melhores oportunidades profissionais e garantir melhor futuro aos filhos. Até então levando uma vida bem regrada, pois o pai era severo com os meninos e sempre enfatizava que eles seriam professores, médicos, advogados e teriam um futuro diferente do que a maioria das pessoas da cidade, os garotos passam a curtir a liberdade de não ter mais um pai rígido tão presente. A mãe cuida dos dois filhos menores e trabalha em uma loja da região vendendo produtos. Apesar de gostarem muito da mãe, que se desdobra entre o trabalho e as tarefas domésticas para cuidar dos cinco filhos, sem a figura paterna cobrando uma postura mais responsável, logo os meninos veem uma oportunidade de driblar as regras estipuladas pelo pai, mesmo com todas as ameaças. Assim, começam a deixar de estudar depois da escola para jogar futebol, brincar e também para pescar no rio. Um rio que está abandonado e condenado no imaginário popular a ser um local assombrado e perigoso, visto que alguns crimes ocorreram por lá.
"tudo o que fizemos pelo resto daquela tarde foi cantar, com o sol morrendo num canto do céu". (p. 214)
Mas Ikenna, o irmão mais velho (15 anos), Boja, Obembe e Benjamin (9 anos) estão empolgados com a ideia de serem pescadores e fazem isso por algumas semanas sem nada contar para a mãe. Até que um dia uma das figuras errantes da cidade, às vezes considerado um louco, outras vezes considerado um profeta, mas com um passado cheio de histórias terríveis e de muita violência, encontra os garotos no rio e diz uma de suas profecias diabólicas. A partir daí diversas coisas mudarão para os garotos, que terão que aprender a lidar com uma das coisas mais poderosas que existem: aquilo em que acreditamos.

Narrado por Benjamin, o filho mais novo, a partir do presente, acompanhamos os sonhos e as angústias de uma criança que precisa aprender a lidar com as mudanças que afetarão sua família para sempre. O romance mistura alguns traços da tradição oral africana ao romance moderno, encenando o conflito entre o tradicional e o moderno na própria narrativa.

Cada capítulo se constrói a partir de animais e outros elementos da natureza, uma simbologia interessante para criar imagens e construir metáforas, guiando o leitor diante das mudanças pelas quais cada um dos personagens passará. Além disso, as descrições por vezes são belas ecoando todo um imaginário de inocência e ternura ligado à infância.
“Fiquei olhando para ele discretamente, atormentado pelo medo de um futuro que pensei estar mais próximo do que podia imaginar, um futuro que era o dia seguinte. Comecei a rezar, com a voz mais baixa possível, para que o dia seguinte não chegasse, para que os ossos das pernas do tempo tivessem se quebrado”. (p. 236)
Os pescadores é um romance sobre a infância, sobre os laços familiares que às vezes se tornam frágeis, e em outras inesperadamente se fortalecem; é sobre o poder dos nossos sonhos para nos mantermos vivos em situações pouco favoráveis e também sobre a importância de lutar contra os nossos medos, já que nos tornamos aquilo em que acreditamos. Uma história linda, muito envolvente, que certamente ainda vai conquistar muitos leitores e leitoras. 
“Uma vez me disseram que, quando um homem deseja uma coisa que não tem, não importa quanto seja ilusória, se seus pés não o impedirem de se locomover, ele acaba conseguindo”. (p. 226)
OBIOMA, Chigozie. Os pescadores. trad. Claudio Carina. São Paulo: Globo Livros, 2015. 270 págs.

Sobre o autor

Chigozie Obioma nasceu em 1986 em Akure, Nigéria. Seus contos foram publicados na Virginia Quarterly Review e New Madrid. Já viveu na Nigéria, no Chipre e na Turquia, mas atualmente mora nos Estados Unidos onde concluiu um mestrado em Escrita Criativa na Universidade de Michigan. É professor assistente na Universidade de Nebraska-Lincoln. Seu primeiro romance, Os pescadores, ganhou vários prêmios, foi eleito o melhor livro do ano por diversas instituições e ficou entre os finalistas de um dos principais prêmios literários atuais, o Man Booker Prize.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

terça-feira, 8 de março de 2016

Ana de Amsterdam


"Sou Ana do dique e das docas
Da compra, da venda, das trocas de pernas
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas
Sou Ana das loucas
Até amanhã
Sou Ana
Da cama, da cana, fulana, sacana
Sou Ana de Amsterdam"

A música de Chico Buarque foi escolhida para nomear o blog de Ana Cássia Rebelo simplesmente por ser uma canção que ela gostava muito. A escrita no blog começou em 2006 como uma forma de lidar com a solidão das noites e também com a depressão. Mãe de três filhos, ao chegar em casa após um dia de trabalho burocrático em Lisboa, depois de colocar as crianças para dormir, Ana escreve. E o blog, pelo tom confessional que adquiriu ao longo do tempo, passou a ser uma espécie de diário, no qual Ana fala de suas angústias, de solidão, de uma tristeza que há muito a acompanha, mas também de família, maternidade, e situações que observa no dia a dia ao ir e voltar para o trabalho. Uma escrita visceral, que aborda assuntos considerados tabus: a sexualidade feminina, menstruação, aborto, as limitações e opressões que o casamento impõe às mulheres e o conflito que as mulheres têm com os seus corpos, entre muitas outras coisas. 

Em seus escritos, Ana expõe a condição feminina sem nenhum eufemismo, com uma honestidade que para alguns parecerá uma afronta, para muitas outras apenas uma possibilidade maior de reconhecimento. Em um texto que transita entre a simplicidade de um página de diário (ao qual supostamente não deveríamos ter acesso, e isso torna a leitura ainda mais interessante pelo que de íntimo existe ali) e o lirismo de certos trechos, somos carregados, por vezes cruamente, para o universo de Ana, que é também o universo de muitas mulheres. O que mais nos emociona e atinge neste livro talvez seja justamente isso: a verdade que ele escancara sem nenhum pudor, com uma imensa coragem. 

Os textos reunidos no livro Ana de Amsterdam, publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, foram organizados e selecionados por João Pedro Jorge, que também escreve o prefácio do livro, e que há muitos anos acompanha a escrita do blog percebendo, desde o início, o grande potencial da escritora que diariamente ali se manifestava. Dispostos por ordem cronológica, de 2006 a 2014, ele mantém as datas de publicação original e constituem, nas palavras do organizador, "um grande solilóquio sobre a solidão". Acho que este livro vai muito além: ele traz para a cena literária uma discussão bem relevante no mundo contemporâneo -  ele coloca em cena questões de gênero que precisam ainda ser muito discutidas, principalmente por serem pouco exploradas na literatura. Tudo isso de uma forma clara, honesta e poética. O mais difícil é chegar na última página do diário quando Ana afirma "Morri no princípio de outubro", e ter a certeza de que não queremos dela nos despedir.


"22 de maio de 2007. 
Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei porque vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita. Petrifica-me. Torno-me um cristal baço. Uma mancha de bolor. Uma estátua grotesca. Repelente. Torno-me uma fêmea de jacaré ou caimão. Sou uma fêmea de caimão. Sei, com precisão, onde, no meu corpo, se aloja a tristeza. Sinto-a aninhada na traqueia, perto da laringe e da faringe. Nas imediações da glote. Provoca-me náuseas. Vontade de vomitar, também. Hoje, durante o almoço, transformou-se em lágrimas e escorreu sobre a sopa de agriões." (p. 37)


REBELO, Ana Cássia. Ana de Amsterdam. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

Ana Cássia Rebelo nasceu em Moçambique, em 1972. Filha de pai goês e mãe alentejana, foi para Portugal quando tinha cinco anos. Estudou Direito e trabalha atualmente como advogada em um instituto público. Tem três filhos e mora em Lisboa. 

*Recebi este livro como cortesia da Biblioteca Azul.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Sinfonia em branco



Foi com Sinfonia em branco que Adriana Lisboa conquistou o Prêmio José Saramago em 2001. Nas palavras de Pilar Del Rio, que escreve o prefácio da edição brasileira, Sinfonia em branco é um daqueles livros que permanecem nítidos em nossa memória, resistindo ao tempo, como só as grandes histórias conseguem permanecer.

A sinfonia que dá nome ao livro, e que conduz as personagens tão complexas dessa história, é a música invisível que muitas vezes nos aterroriza: o silêncio. Nas relações familiares que o livro descreve, é a ausência de palavras que machuca, destrói, atordoa. Os silêncios habitam a casa da família composta por Afonso Olímpio (o pai), Otacília (a mãe) e as filhas Clarice (mais velha) e Maria Inês (a caçula). É a relação entre as irmãs o eixo central do romance.

Tão diferentes uma da outra, Clarice é recatada, quieta, obediente – ajustando-se a todas as expectativas impostas às mulheres desde cedo. Maria Inês é o oposto – quer aventuras e liberdade e resiste a esse papel. Mesmo tão diferentes, as duas irmãs possuem uma forte ligação – e ela é o único elo que elas têm com o passado, com o antes de tudo. Ao mesmo tempo unidas e separadas por esse segredo, cada uma trilhou um caminho distinto, mas um caminho que carrega as marcas do silêncio que sempre prevaleceu em suas famílias.

Entre presente e passado, o romance nos transporta para a infância e adolescência das personagens para que possamos compreender muito do que elas são na idade adulta. Cada escolha, cada palavra silenciada, deixa uma marca como aquela deixada por um quadro que ficou muito tempo na parede e depois é retirado. Um espaço vazio que não permite que nada seja esquecido.

Sinfonia em branco é um romance sobre muitas coisas. Relações familiares, violências e segredos, memória e esquecimento, amor e recomeços. Escrito com a linguagem poética e delicada de Adriana Lisboa, é mesmo um livro difícil de esquecer. A cada página, somos atropelados pela dor dessas personagens, por tudo o que não é dito - e como esse silêncio grita! - uma sinfonia de vidas e de mágoas regida pela maestria de uma grande escritora. Tão lindo que eu não sei recomendá-lo o suficiente.

Para ler um trecho do livro, clique aqui.


 LISBOA, Adriana. Sinfonia em branco. 2ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

A situação humana



A situação humana reúne as palestras proferidas por Aldous Huxley em 1959, na Universidade de Santa Bárbara, Estados Unidos, e aborda os mais diversos temas, desde a educação e a relação do homem com a natureza, até religião e arte, crescimento populacional e o inconsciente. Por serem palestras, o texto é fluido, quase como uma conversa, abordando assuntos diferentes e (alguns deles) ainda relevantes nos dias de hoje. Nessa minha primeira aproximação à obra de Huxley (sim, ainda não tinha lido nada do autor, nem mesmo a obra que o tornou célebre, Admirável mundo novo), confesso que inicialmente achei que não fosse gostar. Mas o texto me surpreendeu, pois algumas reflexões do autor, que revelam sua preocupação em compreender o mundo que lhe cerca, são interessantes.

Logo de início, no primeiro ensaio sobre educação integrada (e um dos que eu mais gostei), Huxley destaca um aspecto do nosso sistema educacional que, ainda nos dias de hoje, todos aqueles e aquelas que trabalham com educação certamente já consideraram em algum momento de suas carreiras: a especialização cada vez maior que trilhamos na academia sem nem sempre levar em conta um conhecimento interdisciplinar que só amplia a nossa capacidade de compreender o ser humano e suas relações com o mundo.

“Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas uma boa porção de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, menos profunda, dos problemas humanos em geral” (p.7).                                 

No ensaio “Guerra e nacionalismo”, no qual o autor tenta entender as origens da guerra e chegar a um conceito do que entende por nação, vale destacar seu posicionamento de que a violência da guerra é também uma construção social e não algo inerente ao homem.

“É muito importante lembrar que tanto a guerra quanto o poder motivador que leva o homem à guerra são socialmente condicionados, porque assim percebemos que não há nada de biologicamente inevitável nessa terrível coisa que nos ameaça. Por ser um fenômeno socialmente condicionado, poderemos, se quisermos, descondicioná-lo e livrar-nos dele” (p. 89).

Outro ensaio que gostei é o intitulado “Linguagem”, no qual o autor discorre sobre o papel da linguagem e das palavras como diferencial humano e também como um meio através do qual ideias, boas e más, são transmitidas, evidenciando o poder da palavra.

“A linguagem é o que nos torna humanos. Infelizmente, é também o que nos torna humanos demais. De um lado, é a mãe da ciência e da filosofia, e de outro produz toda a sorte de superstição, preconceito e loucura. Ajuda-nos e nos destrói; torna possível a civilização e também produz aqueles assustadores conflitos que degradam a civilização” (p. 190).

Cada uma das palestras em A situação humana demonstra como Huxley era um homem atento e interessado em refletir e questionar os mais diversos assuntos debatidos em sua época. E para nós, talvez o mais interessante aqui seja acompanhar seus pensamentos para refletir sobre as nossas questões hoje, o que mudou, ou o que ainda permanece relevante para os nossos dias. Não é um livro cansativo, já que a linguagem mais fluida ajuda bastante a acompanhar o raciocínio do autor, mas é um livro que contém muitas informações e muitas referências e que, por isso, pede uma leitura mais atenta. Por serem ensaios independentes, os leitores também podem decidir em que ordem cada um deles será lido.


Sobre o autor

Aldous Huxley nasceu em 26 de julho de 1894 no condado de Surrey, na Inglaterra. Em 1916, publica seu primeiro livro, uma coletânea de poemas. A partir de 1921, sua reputação literária se estabelece, através de Crome yellow. Em seguida, escreve Antic hay (1923), Folhas inúteis (1925) e Contraponto (1928), sátiras onde analisa de modo espirituoso e implacável os dissabores do mundo moderno. No período anterior à Segunda Guerra Mundial, sua obra adquire tons mais sombrios, incluindo o célebre romance Admirável mundo novo (1932), antiutopia que descreve a desumanizada sociedade do futuro, e Sem olhos em Gaza (1936), uma novela pacifista. Em 1937, deixa a Europa e se muda para a Califórnia. Além de ensaios sobre assuntos tanto culturais quanto religiosos, em que se nota a forte influência da mística oriental, Huxley publicou O tempo deve parar (1944), O macaco e a essência (1949), A ilha (1962) e As portas da percepção (1954), onde descreve suas experiências com a mescalina. Aldous Huxley faleceu em 22 de novembro de 1963.

HUXLEY, Aldous. A situação humana. Trad. Lya Luft. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Beijo, boa sorte



Sacada

"Eu não sei o que ela fará sem mim. Imagino que o rosto se transforme numa permanente coleção de vincos e que as pernas tremam ao sinal da mais embaçada lembrança. Não fomos em lua de mel para Kosovo e nem brincamos de tiro no parque. Hoje compreendo que Melina não deixou de me amar nem mesmo nesses momentos de delírio. Vendo-a daqui de cima, acho que me arrependo de não lhe ter dedicado mais punhetas e de não ter cedido aos pedidos de socorro enquanto caía. É linda mesmo assim. No entanto, quando eu disse que iria embora, não suportei fitar-lhe a cara. O cenho fechou-se numa expressão-relâmpago e notei nela os punhos cerrados. A barriga enorme já não deixava entrever ainda a intenção do aborto. Mas eu não permitiria. Ficou nervosa – tigresa à morte – quando mostrei as passagens de trem. Nem era assim tão longe, mas era o abandono. Olhando daqui, noto que a calcinha era presente de Natal. Mesmo estatelada lá embaixo, ainda dedico-lhe tesão. Melina, minha menina, quem mandou ficares de costas na sacada?"

RIBEIRO, Ana Elisa. Beijo, boa sorte. Natal (RN): Jovens Escribas, 2015. p. 13


Adorei ler os contos de Ana Elisa Ribeiro. Mini contos que dizem tanto! O que transcrevo acima já ilustra a força do texto de Ana Elisa. Os temas são diversos: falam de gênero, de violência, de perdas e de lembranças, de relações amorosas e de infância, entre muitas coisas mais. Não conhecia a autora e fiquei com vontade de ler mais coisas dela depois de ter lido Beijo, boa sorte. E ela ainda escreve crônicas, poesias, livros infantis. Comprei meu exemplar lá no site Jovens Escribas, onde há um novo universo de autores a serem descobertos, pelo menos pra mim. É sempre bom encontrar novos horizontes. Vamos ler mais autoras brasileiras? =]


Ana Elisa Ribeiro nasceu em Belo Horizonte, em 1975. Escritora, poetisa, professora e pesquisadora. Licenciada e bacharel em Letras pela UFMG, mestre em Linguística e doutora em Linguística Aplicada, pesquisa a leitura de impressos e telas. Pós-doutora pela PUC Minas e pela Unicamp. É professora do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. Seu primeiro livro foi a coletânea de poemas Poesinha (1997), pela Poesia Orbital, nos eventos comemorativos de 100 anos da capital mineira. Publicou em jornais e revistas brasileiros. Foi blogueira da Estante de Livros Virtual, em 2002-2003. Participou de antologias de poetas no Brasil, no México e na França. Desde 2003, escreve crônicas para o site Digestivo Cultural. Anzol de pescar infernos (2013) e Meus segredos com Capitu - Livros, leituras e outros paraísos (2013) foram semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom em 2014. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Maus



Maus é uma história em quadrinhos que conta a vida de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O pai do ilustrador Art Spiegelman, Vladek, foi levado para Auschwitz junto com a sua esposa, Anja. Durante o tempo em que permaneceram nos campos, vivendo todo o terror sobre o qual já ouvimos falar diversas vezes, eles ficaram separados, reunindo-se novamente apenas quando a guerra chega ao fim. Praticamente toda a família de Vladek e Anja é morta nas câmaras de gás ou tentando fugir delas, inclusive o filho pequeno do casal, que morre aos 5 anos.

Anos depois, já vivendo nos Estados Unidos, onde recomeçaram a vida depois de serem libertados dos campos,Vladek se casa novamente com uma mulher que também sobreviveu aos campos de concentração, mas é completamente diferente dele. Os conflitos entre os dois revelam os diferentes tipos de trauma daqueles que sobrevivem a uma guerra, e também que certas atitudes de Vladek são características dele mesmo, e não uma consequência do trauma. Apesar de ter casado com Mala, ele ainda não se recuperou da morte da esposa, Anja, que se suicida quando Art ainda é adolescente.

O filho então quer escrever uma história em quadrinhos contando a vida dos pais e passa a gravar as conversas que tem com o pai para não esquecer nenhum detalhe, afinal ele é hoje a sua única fonte de informações, aquele que pode contar a história da família, destacando a importância desses relatos de sobreviventes como forma de preservar a história daqueles que morreram. Os diários da mãe, que poderiam ser mais uma fonte de informações preciosa para Art, foram destruídos pelo pai, que não consegue lidar com o suicídio da esposa, principalmente depois de tudo o que enfrentaram na guerra. Mas ser uma sobrevivente de Auschwitz não é um fardo fácil de carregar, não apenas pelo trauma e pelas lembranças de tudo o que vivenciaram, mas também pelo sentimento de culpa que muitos carregam de ter sobrevivido enquanto tantos outros morreram.

Essas conversas entre pai e filho, apesar de tão diferentes um do outro, não apenas pela personalidade diferente, mas pelas marcas da guerra que o pai carrega, são uma oportunidade valiosa que Art e Vladek tem de se reaproximar. O filho passa a compreender um pouco mais o jeito de ser do pai ao ouvir o seu relato e tomar conhecimento do sofrimento que eles vivenciaram.

Falar sobre o Holocausto é sempre difícil, que nos entristece e que me deixa nauseada quase sempre, mas achei que por ser em quadrinhos, contando com o apoio visual dos desenhos de Art que representam as personagens como animais, o autor conseguiu retratar com ternura a história de seus pais, que é também a história de muitos outros, sobreviventes ou não, de um dos eventos mais sombrios da história da humanidade. Para quem quer começar a ler sobre o assunto, Maus é uma ótima maneira de começar - e uma excelente aula de história - acredito que bem interessante de ser trabalhado nas escolas também, por ser um pouco mais leve (se é que possível ser leve com esse tema...) do que outros relatos, escritos pelos próprios sobreviventes do Holocausto, como É isto um homem? e A trégua de Primo Levi, ou Noite, de Elie Wiesel, por exemplo.

O que mais gostei em Maus é a sinceridade do texto, já que Art Spiegelman não idealiza sua relação com o pai, retratando com honestidade tanto as suas próprias falhas como os defeitos do pai. Por exemplo, algo que nos choca bastante é quando o pai dele, mesmo depois de tudo o que passou nos campos de concentração por conta da intolerância, do preconceito e da ideia absurda de superioridade dos alemães em relação aos judeus, demonstra que é um homem racista, julgando um homem negro a quem o filho oferece uma carona como um ladrão, como alguém inferior por sua cor. E, quando questionado pelo filho, ainda afirma "que os negros não são como os judeus", algo surreal de se imaginar por parte de alguém que viu sua própria família ser dizimada pelos alemães, que agiam com base em uma ideia semelhante. A honestidade desse relato pode servir como excelente ponto de reflexão sobre como certas visões que temos fundamentam a exclusão, o desrespeito e, principalmente, a violência.