segunda-feira, 30 de junho de 2014

Sete dias sem fim


"Ele perdeu a esposa, o emprego e o pai. E foi aí que reencontrou sua família."

Do Jonathan Tropper eu já havia lido "Como falar com um viúvo", que eu achei bem divertido. Quando vi que o livro estava na lista das adaptações para o cinema em 2014 eu achei que era o momento certo de lê-lo. Mas ele foi ficando aqui na minha estante e só agora chegou o meu momento. Sou dessas que acreditam que são os livros que nos escolhem e não o contrário. Sete dias sem fim me escolheu neste último final de semana e acho que era o que eu precisava ler. 

Vale lembrar que esta é uma leitura de entretenimento, sem grandes aspirações literárias, e nesse sentido foge um pouco do que costumo ler. Mas às vezes a gente precisa de livros assim, pelo menos eu precisei.

O enredo conta a história de um homem de quarenta e poucos anos que acaba de descobrir que sua esposa o estava traindo com o seu chefe. Além de perder a esposa, a casa e a segurança de um relacionamento de mais de 20 anos, ele também perdeu o emprego. E em meio a todo esse caos ele ainda recebe uma das piores notícias que alguém pode receber: o falecimento do pai.

Nascido em uma família judaica não muito praticante, onde os sentimentos sempre foram reprimidos e as relações um pouco conflituosas, Judd e seus irmãos são surpreendidos com a notícia de que seu pai fez um último pedido: que todos os membros da família Foxman se reunissem em sua casa, a casa onde todos cresceram, para realizar a shivá, período de sete dias de luto mantidos pela morte de uma pessoa próxima dentro do Judaísmo. É nessa reunião de família para homenagear o pai que muitas questões familiares são retomadas, mas não sem muita confusão. A narrativa de Jonathan Tropper é bem envolvente, há situações que nos fazem sorrir e outras com as quais nos identificamos (afinal de contas, quem nunca se sentiu um pouco perdido?) e que nos emocionam, como quando os irmãos, que tem dificuldade em verbalizar seus sentimentos, finalmente conseguem admitir que sentem muitas saudades do pai. É um livro que faz a gente pensar em nossa própria família e agradecer por ela.

Avaliação emocional: ****
Avaliação racional: ***

Tropper, Jonathan. Sete dias sem fim. São Paulo: Arqueiro, 2013. 304 páginas. Tradução Regina Lyra.

O livro foi adaptado para o cinema e tem lançamento previsto no Brasil para 25 de setembro de 2014. A seguir, o trailer do filme, que parece ser bem divertido.

domingo, 8 de junho de 2014

Poesia domingueira

Der Spaziergang, by Marc Chagall

Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira

sábado, 7 de junho de 2014

No Silêncio de Deus


 Sara é uma jornalista de 30 anos, de uma família judia, mas ela não tem formação religiosa. O silêncio, para ela, é uma forma de confrontar-se consigo mesma, com sua solidão, com a frustração de não ser feliz com a própria vida. Por isso, Sara foge desse silêncio, que pesa sobre seus ombros, junto com a saudade que sente da mãe.
Manuel Guerra é um escritor de sucesso, bastante premiado, que precisa do silêncio para escrever. Durante sua vida, sempre se escondeu dos sentimentos e experiências verdadeiras com as quais não sabia lidar atrás de sua escrita, e da solidão que lhe era sempre tão necessária ao seu ofício. Foi um marido e um pai ausente, que agora sofre com as lembranças de sua esposa, que faleceu de câncer, e do seu filho, que se afastou por completo do pai quando a mãe fica doente, culpando-o por isso.

Dois personagens unidos e separados pelo silêncio, que se encontram para uma entrevista em um restaurante durante o almoço, e cujo encontro afetará bastante a vida dos dois, como se houvessem se reconhecido em sua solidão e na tristeza que tentam, a todo custo, ocultar.

Depois da entrevista, Sara decide ir a Israel com o pretexto de resolver um negócio de família, mas o que ela busca mesmo são suas raízes, sua origem, para quem sabe finalmente se encontrar. É chegado o momento de enfrentar o silêncio. Percorremos as ruas de Israel através da narrativa de Patrícia Reis, que nos conduz pelo passado e pelas tradições com a delicadeza de quem sabe pisar em território sagrado e cheio de emoções.

Manuel Guerra, logo depois da entrevista descobre que está com câncer e tem pouco tempo de vida, decide então ir para Amsterdam, sem data marcada para o regresso. Lá, aluga um apartamento em uma rua de prostituição, tem uma faxineira do Senegal e, certo de que já não há o que escrever, passa os dias em um café da rua, observando o acontecimento do lugar. É lá que conhece um garçom e uma prostituta, Martina, de quem se torna amigo. É com Martina que, pela primeira vez, Manuel consegue falar sobre o que sente, sobre a sua vida, sobre a dor de ter perdido a esposa, sobre a tristeza de estar longe do filho, sobre a proximidade da morte. São esses novos amigos, no lugar menos provável, que ensinarão a Manuel sobre a bondade, essa nova forma de ver a vida. 

Para os dois personagens, a viagem aparece como essa possibilidade de autoconhecimento e aprendizado, como se só em movimento, longe de nossa zona de conforto, pudéssemos chegar ao melhor de nós. No caso do escritor, outro aspecto interessante é essa possibilidade de renascer em outro idioma, pois em Amsterdã ele passa a se comunicar em inglês e isso acaba por ser uma forma de ser outro, talvez alguém melhor.

Esta é certamente uma história de redenção, que nos faz pensar sobre a vida, na bondade que podemos encontrar onde menos esperamos, no tempo que faz planos diferentes dos nossos e, às vezes, passa rápido demais. Há um tom melancólico que nos aproxima dos personagens, bem construídos através de diálogos simples, mas cheios de profundidade. Um texto que emociona.

Patrícia Reis é jornalista, escritora e editora da Revista Egoísta em Portugal. Já publicou diversos livros, entre eles Morder-te o coração (Língua Geral, 2007 ), Amor em segunda mão (Língua Geral, 2006), Contracorpo (Dom Quixote) Antes de ser feliz (Dom Quixote, 2009) e Por este mundo acima (Leya, 2012). 

REIS, Patrícia. No Silêncio de Deus. Lisboa: Dom Quixote, 2008.

E para quem se interessou pelo livro e quiser ouvir a própria autora falando um pouco sobre ele, clique aqui.

domingo, 1 de junho de 2014

Poesia Domingueira

Da vista e do visto

Mais uma vez é maio; não o levaste contigo;
horas se escrevem hoje com o lápis de sempre,
ultramar e um tanto adolescente; não o levaste,
maio, mês de meu aniversário, quando a melancolia
é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios;

vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste
maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo;
algo, porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei,
e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência
ou não, procuro e não encontro a minha antiga alegria.

Eucanaã Ferraz


FERRAZ, Eucanaã. Sentimental. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Caderno de um ausente



"... eu ia te ensinar por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e por que ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços, eu ia te levar para passear nos bosques que o meu imaginário esculpe, eu ia te ensinar a podar os ramos mais altos das árvores, porque se é preciso aprender a plantá-las é igualmente vital que se saiba apará-las, se eu pudesse, Bia, eu ia te ensinar tudo isso e muito, muito mais, eu ia até te contar baixinho, eu ia te contar o segredo do universo como quem sussurra uma canção de ninar, mas eu não posso, filha, eu só posso te garantir, agora que chegastes, a certeza da despedida". [pág.36]

Às vezes anotamos em um caderno o que precisamos lembrar; muitas vezes, o que não queremos esquecer. Em outras muitas vezes, a palavra é aquilo que nos salva de nós mesmos, do que sentimos tão intensamente "na carne": um espanto diante da vida que nasce, um temor pelos dias que se aproximam do fim. É em um caderno que Carrascoza conta a história de um pai que, com mais de cinquenta anos de idade e diante do nascimento da filha, constata que talvez não estará presente para vê-la amadurecer. É nesse tom melancólico diante da consciência de sua finitude que o narrador faz uma reflexão poética e filosófica sobre a vida, sobre as pequenas coisas do dia a dia que fazem os dias valerem a pena. É um caderno já cheio de ausências e silêncios, que ficam impressos nessa edição tão linda da Cosac Naify; um caderno que o pai deixa para a filha, como um registro de suas impressões desde seu nascimento ao seu primeiro ano de vida, com histórias de sua família, com seu olhar amoroso para sua companheira. Um caderno com a escrita delicada e poética de Carrascoza com o que um pai talvez gostasse de dizer para a filha no futuro, quando ela estivesse descobrindo com os próprios passos os caminhos incertos da vida. A beleza do que é dito nesse livro vai além de qualquer declaração de amor, não só do pai para sua filha recém-nascida, Beatriz, mas do pai pela mãe de Beatriz, aquela que "serena as tempestades". O livro representou para mim um daqueles instantes em que nos damos conta do quanto somos pequenos diante desse mistério maior que é a vida, e do quanto o tempo passa sem nos darmos conta, quase sempre, do que de mais importante os dias são feitos. Um livro pequenino, mas com uma narrativa grandiosa.

"a palavra se faz carne, e a carne se lacera, a carne apodrece aos poucos, mas é também pela carne quea palavra se imortaliza. Não há borracha para um fato já vivido, pode-se erguer represas e costões, muralhas e fortalezas para barrar o fluxo das horas, mas, uma vez que o sol se torne sombra, que o luar prenda no céu em luto, a névoa se disperse na paisagem pendurada à parede, o dedo acione o gatilho, nada mais se pode fazer; nossa jornada, aqui, é única, a ninguém será dada a prerrogativa, salvadora ou danosa, da reescrita." [pág. 17]

João Anzanello Carrascoza. Caderno de um ausente. São Paulo: Cosac Naify, 2014. 128 páginas.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Essa coisa brilhante que é a chuva


Mesmo gostando mais de ler romances, tenho me esforçado nos últimos tempos para ler mais livros de contos. Foi assim que descobri o Marcelino Freire e seus contos incrivelmente fantásticos; foi assim que agora encontrei um conto da Cíntia Moscovich tão incrível* que fiquei morrendo de vontade de ler mais coisas da autora. Foi então que encontrei "Essa coisa brilhante que é a chuva".

A capa e o título já encantam à primeira vista. Essa coisa brilhante que é a chuva podia até ser um mantra de tão bonito e poético. Tirando esse encantamento primeiro, começamos a ler os contos da Cíntia Moscovich e logo nos deparamos com o cotidiano simples de personagens tão reais como eu ou você. Logo no primeiro conto, há um filho que sente ciúmes da mãe e, um pouco tarde, se dá conta de que não cuidou de sua vida como devia, no tempo certo. Depois viramos criança novamente com o conto Mare Nostrum e sua vontade bonita de ver o mar e sentir a liberdade que ele representa ("o mar era uma eternidade" pág.25).

"e, na volta às ondas, a menina encheu a concha de uma das mãos com água e bebeu um gole de mar, como quem chega ao destino depois de uma travessia. Só assim, finalmente, ela pôde suportar o tamanho da liberdade. Só assim, depois do deserto." (pág. 29)

Em Caminho torto para uma linha reta, um cachorrinho transforma a vida de um casal que não esperava gostar tanto dele assim, afinal só tomariam conta do cachorro por uns dias, até encontrarem um dono para ele. A balada de Avigdor desconstrói preconceitos de gênero e nos mostra que cada um tem o direito de ser e fazer o que gosta, e não o que dele ou dela se espera.

Em O brilho de todas as estrelas, um passeio até o jardim com o cão é oportunidade de encontrar consolo para muitas lembranças. Um coração de mãe, com a proximidade da morte e uma epifania, em um final tão bonito, me lembrou muito Clarice. Aos sessenta e quatro enche nosso coração de uma vontade de viver que só os que sobreviveram talvez possam verdadeiramente entender. Tempo de voo retrata a imensidão efêmera de um instante, no momento exato em que ocorre um acidente. Uma forma de herança, o meu preferido, tem um cheiro de saudade, como se adentrássemos aquela casa antiga da infância, povoada de memórias e de sonhos; há um amor bonito pelo pai, e uma casa de cabelos grisalhos que nos ensina a sentir orgulho dos nossos caminhos, do nosso tempo e de nossas próprias histórias.

Há quem diga que a morte está muito presente no livro, mas para mim é um livro cheio de vida, onde os pequenos acontecimentos cotidianos são retratados com delicadeza, tornando a leitura um prazer. É como uma travessia, que mesmo sendo um pouco dolorosa em alguns momentos (e por doloroso quero dizer daqueles momentos em que o coração aperta), nos emociona quando chegamos ao fim com a sensação de que cada instante valeu a pena. É um livro que a Cíntia Moscovich dedica aos que sobreviveram e aos que sobreviverão. E, quando terminei de ler, olhos ainda marejados, só pude pensar nessa coisa fascinante que é a literatura, por nos permitir vivenciar essas (e outras tantas) travessias.

MOSCOVICH, Cíntia. Essa coisa brilhante que é a chuva. Rio de Janeiro: Record, 2012. 140 páginas.

Cíntia Moscovich nasceu em 15 de março de 1958 na cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, é escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária, tendo exercido atividades de professora, tradutora, consultora literária, revisora e assessora de imprensa. Dentre vários prêmios literários conquistados, destaca-se o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães Rosa, instituído pelo Departamento de Línguas Ibéricas da Radio France Internationale, de Paris, ao qual concorreu com mais de mil e cem outros escritores de língua portuguesa. Em 2013, ganhou o primeiro lugar no Prêmio Literário Portugal Telecom, na categoria contos/crônica.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A cabeça do santo

A cabeça do santo é a estreia de Socorro Acioli, que já publicou alguns livros infanto-juvenis, no romance para adultos. Esta é a história de Samuel, um homem que acabou de perder sua mãe, Mariinha, cujo último pedido antes de morrer foi: acender uma vela para o padre Cícero, outra para São Francisco e outra para Santo Antônio, e ir encontrar o pai, que desapareceu há anos, e também sua avó, lá na cidade de Candeia.

A viagem de Samuel de Juazeiro do Norte a Candeia tem um tom de romaria, mas Samuel nunca alimentou a mesma fé pelos santos de sua mãe. Era por ela que fazia aquela viagem tortuosa, a pé, em condições tão difíceis. Samuel também não tinha mais para onde ir, nem mais ninguém no mundo. A viagem sofrida pelas estradas do nordeste me fez lembrar de outras maravilhosas histórias da nossa literatura: do Vidas Secas de Graciliano, do Alto da Compadecida do mestre Ariano, do ritmo de cordel da narrativa de A máquina, da Adriana Falcão. E foi justamente este tom bem brasileiro, regional, que me encantou nesta história.

Chegando em Candeia, no entanto, nada ocorreu como Samuel esperava: sua avó não lhe recebeu bem, seu pai não foi encontrado, provavelmente estava morto, e Samuel, exausto da viagem, ainda foi atacado por um bando de cachorros loucos. Ferido, encontra abrigo contra a chuva no que só mais tarde descobre ser a cabeça oca de um santo Antônio, caída ao lado da estátua do santo, perto de uma colina. É neste abrigo improvisado que Samuel conhece Francisco, com quem estabelece uma nova amizade, e onde ele começa a ouvir diversas vozes: as orações das moças da cidade, que reverberam dentro da cabeça do santo e que só Samuel pode ouvir. Santo Antônio é mais conhecido por ser o santo casamenteiro, então as orações das moças todas continham pedidos, alguns com destinatário já escolhido, outros sem nenhuma dica para o santo. Mas por que todas as mulheres do povoado queriam se casar? Porque o livro é o retrato de uma "tradição" que ainda persiste em grande parte do Brasil: a de que o único destino de uma mulher é o casamento, "porque no sertão, mulher que não casa é mandacaru sem flor" (pág. 75). A euforia de todas as mulheres da história para encontrar o mensageiro de santo Antônio e com isso "cumprir seu destino" é contada com humor e de forma alegórica, o que torna a leitura do livro bem divertida, mas não pude deixar de fazer esta reflexão durante a leitura. Talvez a história não tenha mudado tanto assim desde os tempos de José Lins afinal. O patriarcado ainda persiste com força como vemos na história, onde o prefeito é o dono da região, agindo de forma quase sempre corrupta e de acordo com sua vontade; onde as mulheres sofrem violência e são discriminadas por isso; onde os pais expulsam suas filhas de casa por uma gravidez inesperada, tudo em nome da moral e dos bons costumes: "Diga a sua irmã que, se isso for bucho, ela vá embora dessa casa amanhã mesmo que eu tô velho demais pra aguentar filha malfalada". (pág. 45)

A história do homem que ouvia as mensagens do santo muda a vida de Samuel, causa rebuliço na cidade, antes abandonada, que passa a receber cada dia mais e mais visitantes em peregrinação, fazendo prosperar todo o comércio local. E nesse sentido este livro é também uma reflexão sobre o surgimento dessas crenças que vão crescendo e se modificando ao serem contadas pelo povo.

Samuel, que no início do livro não acredita em muita coisa, depois de cumprir os pedidos de sua mãe e ter modificado a vida de muitas pessoas, não sem tentar tirar algum proveito por ouvir as orações feitas para o santo, termina por encontrar algo em que acredita, cumprindo também ele o seu destino.

A cabeça do santo é um livro bem gostoso de ler, a história é contada com humor e isso dá uma leveza ao texto que envolve o leitor nesse mundo fascinante e mítico do sertão, por isso acredito que agradará a um público bem diverso. Durante a leitura não pude deixar de pensar que este romance tão cheio de imagens da cultura popular brasileira daria uma ótima adaptação, tanto para o teatro quanto para o cinema. E fiquei feliz de ver uma das escritoras da chamada "nova geração" trazendo suas raízes para a literatura. Recomendo a leitura, é um livro brasileiríssimo.

ACIOLI, Socorro. A cabeça do santo. São Paulo: Companhia das letras, 2014. 170 páginas.

Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Um teto todo seu


Quando recebeu a encomenda de proferir uma palestra sobre as mulheres e a ficção em duas faculdades frequentadas por mulheres dentro da Universidade de Cambridge, em 1928, Virginia Woolf fez uma reflexão sobre o que é necessário a uma mulher para que ela escreva ficção. Com seu estilo refinado e irônico, num texto cheio de digressões, Virginia deixa claro que, para escrever ficção ou poesia, uma mulher precisa de quinhentas libras por ano e um teto todo seu, de preferência, com tranca na porta. Um espaço que desde sempre foi negado às mulheres que, por conta disso, não puderam produzir tantas obras literárias como os homens sempre fizeram.

Refletindo sobre os espaços da Universidade permitidos aos homens e às mulheres e sobre a diferença nas refeições oferecidas em ambas, Virginia faz uma análise da conquista desse espaço, observando que os homens sempre cuidaram dos negócios e buscaram ganhar mais e mais dinheiro, tendo sido possível para eles investir muito na construção de Universidades para seus filhos. No caso das mulheres, a opressão do casamento e o fato de só bem mais tarde elas terem conquistado o direito de gerenciarem seu próprio dinheiro foram determinantes para que não tivessem acesso às mesmas estruturas, pois não herdaram de suas mães as mesmas condições que os filhos homens herdaram de seus pais. Cada espaço em uma universidade foi conquistado com muito custo e todas essas dificuldades interferiram significativamente em sua produção literária, já que ela depende diretamente do acesso à educação e ao conhecimento. 

Na tentativa de compreender essa raiva que os homens demonstravam em relação às mulheres, claramente identificável pela violência, pela opressão e por diminuí-las diante de suas ações, Virginia busca na vasta literatura escrita por homens sobre as mulheres uma resposta plausível e, diante das mais absurdas afirmações que ela encontra nesses livros, a autora afirma que a raiva que os homens sentem em relação a qualquer crítica ou pensamento próprio vindos de uma mulher deve-se ao fato de que as mulheres são para os homens um espelho no qual eles se veem com o dobro do tamanho, o que sempre serviu para reafirmar sua confiança e autoestima, além de estimular significativamente seu pensamento criativo.

É possível que, quando o professor insistiu de forma um pouco enfática na inferioridade das mulheres, ele estivesse preocupado não com a inferioridade delas, mas com sua própria superioridade. (Woolf, 2014, p. 53)


Era um protesto contra a violação do poder de acreditar em si mesmo. As mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho. (Woolf, 2014, p.54)

Analisando também alguns dos romances escritos por mulheres na literatura inglesa, ela observa que quase sempre as mulheres eram mostradas dentro de suas relações com os homens e poucas foram as que tentaram romper com o pré-estabelecido. Virginia reafirma sua tese sobre a necessidade das mulheres de ter um espaço todo seu e, principalmente, condições financeiras para sobreviver e poder escrever, pois a liberdade intelectual depende de coisas materiais (Woolf, 2014, pág. 151). A falta de registro sobre a vida dessas mulheres que escreveram no passado só demonstra o total anonimato e a ausência de condições propícias à produção intelectual. A autora comenta que, para qualquer artista, há dificuldades que precisam ser enfrentadas para produzir sua arte, sendo eles os mais suscetíveis às críticas ou à indiferença, mas que para as mulheres essas dificuldades foram infinitamente maiores. O desencorajamento que recebiam de seus próprios pais e a descrença em sua capacidade criativa por toda parte, inclusive de outras mulheres da época, sem dúvida afetaram a produção dessas escritoras.

Com as oportunidades surgidas após as guerras, as mulheres encontraram um pequeno espaço para ganhar algum dinheiro com sua escrita e também fazendo traduções. A partir do momento que foram remuneradas para isso, apesar de continuarem sendo bastante criticadas por sua vontade de escrever, elas deram os primeiros passos para garantir o direito de pensar por conta própria, de escrever sua história. A literatura, que Virginia descreve de forma bem poética, é o espaço de liberdade pelo qual se deve lutar:

A literatura está aberta a todos. Recuso-me a permitir que você, mesmo que seja um bedel, me negue o acesso ao gramado. Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões, nem fechaduras, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento
(Woolf, 2014, p. 109)

É enfatizando o esforço no pensamento próprio, e a atitude de se escrever como uma mulher, mas como uma mulher que se esquecera de que era mulher (Woolf, 2014, p.133) é que Virginia pede que as mulheres não desistam de lutar pelo seu espaço na literatura, em uma declaração de amor à leitura e sua capacidade de tornar o mundo um lugar melhor a partir do que lemos e pensamos. A autora deixa clara a necessidade de maior participação das mulheres não apenas na literatura, mas nas demais áreas do conhecimento, demonstrando que há uma escritora em nós, como houve em muitas mulheres que foram silenciadas por uma opressão patriarcal desde sempre, mas que depende do esforço de cada uma lutar para dar voz à sua história.

Tudo o que eu disser aqui sobre o encantamento que a escrita da Virginia Woolf causou em mim será pouco para dizer o quanto eu gostei desse livro, o quanto ele é essencial. Enquanto devorava as páginas de Um Teto Todo Seu eu me perguntava como era possível não ter lido este livro até agora. Como ninguém me obrigou a ler este livro? E é por isso que serei enfática na recomendação: parem o que quer que seja que estejam lendo e leiam Um teto todo seu. Há quase cem anos Virginia Woolf fez algo muito importante por todas nós, mulheres, numa das reflexões mais brilhantes que eu já li. Há no texto de Virginia Woolf uma paixão que nos sacode do lugar comum e desperta em nós a escritora que há muito tempo, desde o início dos tempos, foi sempre silenciada. Que este livro alcance mais e mais mulheres, é o que eu desejo de todo coração.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014. Tradução: Bia Nunes de Sousa.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Adeus, Gabo

Há pouco mais de um mês escrevi sobre ele aqui. Ele, que completava 87 anos e já apresentava sinais de cansaço. Era uma tristeza saber que já não escrevia. E para quem nasceu para escrever e inventar os mundos mais incríveis da literatura, viver sem escrever já deve ter sido uma das muitas mortes que enfrentamos no coração antes de realmente poder partir. Nas semanas seguintes, leitores do mundo inteiro falaram do seu amor por ele em todas as redes sociais. De repente, o espanhol virou a nossa língua do coração para dizermos, todos juntos, feito uma prece: ”Fuerza Gabo”.

O dia hoje terminou cheio de uma tristeza silenciosa, porque as despedidas são sempre tristes, é inevitável. Eu lamento sempre que os bons partam primeiro. E quando eu soube da notícia, que Gabo “se fue”, creio ter visto mesmo uma revoada de borboletas amarelas na minha janela. Chorei como quem chora ao perder um amigo. E perdi. Assim como muitos leitores mundo afora. Logo depois veio a chuva, como acredito também ter acontecido em Macondo. Talvez chova lá por dias. Há quem diga que choverá para sempre na cidade inventada por Gabo, um lugar mágico que nos foi permitido conhecer. Temos uma imensa sorte por isso. Mas eu prefiro acreditar que cada vez que um leitor abrir um de seus livros, que alguém ler uma de suas mágicas histórias, histórias que fizeram tantas pessoas se apaixonarem pela literatura, se olharmos com olhos de quem sabe ver, veremos uma chuva de flores amarelas iluminar Macondo outra vez. A morte não é o fim, leitores, é só o começo de mais uma história. E com tantas histórias incríveis, não se enganem: há tempos que Gabo já é eterno. E permanecerá assim.



Gabriel García Marquez (06-03-1927 / 17-04-2014)

"A vida não é a que a gente viveu, e sim
 a que a gente recorda, e como recorda
 para contá-la"

"Então entraram no quarto de José Arcadio Buendía, sacudiram-no com todas as suas forças, gritaram-lhe aos ouvidos, puseram-lhe um espelho em frente das narinas, mas não conseguiram acordá-lo. Pouco depois, quando o carpinteiro lhe tirava as medidas para o caixão, viram, através da janela, que caía uma chuva de minúsculas flores amarelas. Caíram durante toda a noite sobre a aldeia numa tormenta silenciosa e cobriram os telhados e bloquearam as portas e sufocaram os animais que dormiam à intempérie. Tantas flores caíram do céu que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta e tiveram de varrê-las com pás e ancinhos para que o funeral pudesse passar." Gabriel García Marquéz, in Cem Anos de Solidão.

terça-feira, 15 de abril de 2014

O coração às vezes para de bater


"Antes de mais nada, queria falar do mar. Que é começo de tantas coisas."

"O coração às vezes para de bater" é uma novela juvenil da escritora e tradutora brasileira Adriana Lisboa, escrita com a suavidade de um balançar de ondas na praia de Copacabana, e que conta a história de um casal de adolescentes e do turbilhão de sentimentos que marca esta época de suas vidas.  Dois jovens de quinze anos que estão descobrindo o amor e cujos encontros ocorrem através da paixão pelo skate que os une. 

"Foi na beira do mar que eu conheci, no começo deste ano, a Paloma. Foi também por isso que eu quis falar do mar, aqui, nesta carta, antes de mais nada".

O narrador da história, um rapaz de quinze anos, começa a falar do mar, que é começo de tantas coisas, para falar de sua família e dos problemas de comunicação que enfrenta em casa, e também para nos falar de Paloma, a jovem por quem ele se apaixona completamente. Logo no início, sabemos que Rafael está escrevendo uma carta, mas não sabemos a quem ela se destina (algo que só descobriremos no final), mas é através da escrita que ele consegue superar uma grande perda  que teve que enfrentar inesperadamente. A escrita aparece aqui como uma possibilidade de o salvar das dores do mundo, como uma reflexão, afinal "as palavras organizam as coisas", é o que nos ensina o personagem desta história.

Uma novela com a delicadeza da escrita da Adriana Lisboa, que aborda os conflitos da juventude, o choque entre as gerações, a descoberta do amor e a perda da inocência diante de um acontecimento trágico. Um desses livros que retratam com doçura aqueles muitos momentos em que nosso coração para de bater para nos ensinar a viver.

LISBOA, Adriana. O coração às vezes para de bater. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 80 páginas.

O livro foi adaptado para o cinema no curta homônimo dirigido por Maria Camargo. Informações sobre o filme e entrevista com a autora podem ser achadas aqui.

Adriana Lisboa nasceu no Rio de Janeiro, em 1970, e já se consagrou como um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, tendo escrito seis romances, um livro de contos e quatro obras infantojuvenis. Conquistou prêmios importantes como o Prêmio José Saramago. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas e publicados em treze países.