quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Um poema de Adília Lopes


Body Art
(Adília Lopes)

Com os remédios
engordo 30 Kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre

Emagreço 21 kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina

No metro
um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar

Detesto
o sofrimento

***
Adília Lopes, pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poetisa, cronista e tradutora portuguesa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Sorteio: O acorde secreto


Lançado uma década após a autora vencer o Prêmio Pulitzer, O acorde secreto reinterpreta os episódios mais marcantes da vida do rei Davi. Em uma análise detalhada do Antigo Testamento e de descobertas arqueológicas, Geraldine traz à tona um dos mais polêmicos personagens bíblicos, de quando era um soldado destemido que ascende ao trono até seus últimos dias como um tirano dominado pelo remorso. Narrado pelo profeta Natã, amigo, conselheiro e muitas vezes a própria consciência de Davi, o livro é uma saga épica sobre fé, sangue, desejo, família e ambição.

Para participar do sorteio de um exemplar de "O acorde secreto", de Geraldine Brooks, é só preencher o formulário abaixo com seu nome e email, e responder a pergunta desafio. As inscrições podem ser feitas até o dia 21/10/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 22/10/2016, às 10h. Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. 

O resultado será divulgado aqui no blog. Boa sorte! :)

Para participar do sorteio, clique aqui.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

As memórias do livro


Publicado em 2008, As memórias do livro é o terceiro romance da australiana Geraldine Brooks e ganha nova edição pela Globo Livros em 2016. O livro é um romance histórico que narra a vida de uma conservadora de livros, Hannah Heath, contratada para restaurar e analisar a Hagadá de Sarajevo, um importante livro judaico, com mais de 600 anos e famoso por ser um dos primeiros manuscritos judaicos a conter ilustrações. Em muitos momentos, o livro correu o risco de ser destruído, mas foi salvo por pessoas que acreditam na importância dos livros, independente de etnia, nacionalidade ou religião. Paralelamente à história pessoal de Hannah, que é apaixonada pelo seu trabalho, mas tem grandes conflitos familiares, a autora intercala diferentes momentos, no tempo e no espaço, em que conhecemos um pouco da história imaginada da Hagadá e das pessoas arriscaram suas vidas para protegê-la. 

Geraldine Brooks era correspondente de um jornal estadunidense em Sarajevo e se inspirou na história real de dois muçulmanos, um bibliotecário e um pesquisador, que em diferentes momentos arriscaram suas vidas para salvar a Hagadá da destruição: uma durante um incêndio durante a Guerra da Bósnia, outra durante a Segunda Guerra, quando foi levada para a biblioteca de uma mesquita para evitar que fosse destruída pelos nazistas. Essas duas histórias inspiraram a autora a pesquisar mais sobre a Hagadá, ainda que se tenha poucos registros sobre sua real trajetória, sobre o trabalho de conservadores de livros raros e o importante papel que esse trabalho, quase sempre invisível, têm na manutenção e preservação da história e da cultura, e decidiu ficcionalizar uma possível história para o livro e todas as pessoas que poderiam tê-lo salvado ao longo desses anos.

É um romance que vai agradar principalmente quem gosta de romances históricos, pois é muito rico em detalhes e essa parte sobre o passado da Hagadá foi o que eu pessoalmente mais gostei no livro. É como uma viagem no tempo que nos transporta para períodos tão sombrios da história da humanidade, tudo a partir de vestígios encontrados no livro, mas onde vemos que, mesmo nessa época de grandes tragédias e sofrimento, havia os que lutavam pela justiça e pela liberdade. O livro é dedicado aos bibliotecários e isso já diz muito sobre esse amor pelos livros e o reconhecimento do seu valor que sentimos ao ler esta história.

Geraldine Brooks, vencedora do Prêmio Pulitzer de ficção em 2006 pelo livro O Senhor March, é autora de quatro romances e de dois títulos de não ficção. Nascida e criada na Austrália, ela vive em Martha’s Vineyard, nos Estados Unidos, com o marido, o também escritor Tony Horwitz, e os dois filhos.

*Recebi este livro como cortesia da Globo Livros.

domingo, 9 de outubro de 2016

Dias de abandono




Sempre que me perguntam para que serve a literatura, a primeira coisa em que penso é que a literatura nos permite vivenciar outras experiências, uma vez que nos coloca no lugar do outro, cria em nós empatia pelo que ele ou ela vivencia ou sofre. É uma possibilidade de sempre acrescentar conhecimentos ou nos fazer questionar nossas verdades, tornando-nos, assim, pessoas melhores. 

Começo falando de empatia, porque esta palavra esteve muito presente durante a minha leitura de Dias de abandono, da Elena Ferrante. Nesse romance, Ferrante retrata a situação de luto vivenciada pela protagonista, Olga, uma mulher que foi abandonada pelo marido e se sente absolutamente perdida com seus dois filhos e a sensação de vazio que a acompanha por algum tempo. 

Se para muitos o tema do abandono pode ser considerado um clichê, na narrativa de Ferrante uma história aparentemente comum se engrandece pela sutileza com que ela se aproxima dessa personagem e de seus sentimentos. O choque de ter sido deixada pelo marido, a quem se dedicou durante toda a sua vida, é o ponto de partida para várias reflexões feitas pela personagem sobre a condição da mulher em um mundo que ainda valoriza o casamento como atestado de sucesso (ou fracasso, no caso da personagem). 

A imagem da infância que assombra a protagonista é a de uma mulher linda, mãe de duas crianças, que um dia é abandonada pelo marido e passa a ser alvo de todos os tipos de comentários pelas demais mulheres do bairro, inclusive sua própria mãe. É dessa imagem de "pobre coitada" que a personagem busca se afastar a todo custo, mas quando é deixada pelo marido, percebe que ela está na mesma situação. Quando se trata da dor que sentimos, acredito que nem tanto por ter perdido um amor, mas pelo status de mulher casada e bem sucedida que se perde, há uma grande semelhança em todas nós. É essa tomada de consciência da personagem, que passa a perceber o quanto se anulou no casamento, o quanto viveu em função do marido e para ele, que parece desencadear esse processo de luto, tão bem descrito por Ferrante em todas as suas etapas. 

Se no início temos vontade de sacudir a personagem e aconselhá-la a se desapegar desse homem que não a respeita enquanto ela vive a etapa da negação, logo em seguida sentimos vontade de consolá-la, pois como diz Leslie Jamison em Exames de empatia: "dor representada também é dor". E são os detalhes de algumas cenas em que podemos ver o quanto a protagonista está em pedaços que nos toca e causa empatia. Não pelo marido que a trocou por uma mulher bem mais jovem, mas por ela, por todos os dias em que ela deixou de ser prioridade em sua própria vida, pelo muito que ela terá que reconstruir. E gostei imenso do fato de que a possibilidade de se reconstruir e recomeçar exista, por ela.

Um livro que exercita a nossa empatia, na medida em que só consegue ser apreciado plenamente se nos distanciamos de tantos pré-julgamentos que às vezes reproduzimos sem pensar, mas que faz todo sentido se nos colocamos no lugar do outro, com empatia por sua dor, por seu sofrimento. Elena Ferrante mais uma vez brilha ao escrever um texto seco, frio, com a mesma qualidade estética dos livros anteriores, e que nos leva por todo o processo de angústia e luto da personagem durante a leitura, como se nós também buscássemos ar para fazer essa travessia. Apesar de ser um romance relativamente curto, é um livro que incomoda, que nos inquieta e que, assim como a personagem parece sentir, provoca o mesmo sentimento de termos, enfim, conseguido atravessar essas linhas. Uma das melhores leituras do ano.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O ódio

O ódio                              

(Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien)
                                                                                    
Vejam como ainda é eficiente,
como se mantém em forma
o ódio no nosso século.
Com que leveza transpõe altos obstáculos.
Como lhe é fácil – saltar, ultrapassar.

Não é como os outros sentimentos
a um tempo mais velhos e mais novos que ele.
Ele próprio gera as causas
que lhe dão vida.
Se adormece, nunca é um sono eterno.
A insônia não lhe tira as forças; aumenta.

Religião, não religião –
contanto que não se ajoelhe para a largada.
Pátria, não pátria –
contanto que se ponha a correr.
A justiça também não se sai mal no começo.
Depois ele já corre sozinho.
O ódio. O ódio.
Seu rosto num esgar
de êxtase amoroso.

Ah, estes outros sentimentos –
fracotes e molengas.
Desde quando a fraternidade
pode contar com a multidão?

Alguma vez a compaixão
chegou primeiro à meta?
Quantos a dúvida arrasta consigo?
Só ele, que sabe o que faz, arrasta.

Capaz, esperto, muito trabalhador.
Será preciso dizer quantas canções compôs?
Quantas páginas da história numerou?
Quantos tapetes humanos estendeu
Em quantas praças, estádios?

Não nos enganemos:
ele sabe criar a beleza.
São esplêndidos seus clarões na noite escura.
Fantásticos os novelos das explosões na aurora rosada.
Difícil negar o phátos das ruínas
e o humor tosco
da coluna que sobressai vigorosamente sobre elas.

É um mestre do contraste
entre o estrondo e o silêncio,
entre o sangue vermelho e a neve branca.
E acima de tudo nunca o enfada
o tema do torturador impecável
sobre a vítima conspurcada.

Pronto para novas tarefas a cada instante.
Se tem que esperar, espera.
Dizem que é cego. Cego?
Tem a vista aguda de um atirador
e afoito olha o futuro

- só ele.

SZYMBORSKA, Wislawa. Um amor feliz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

Meus segredos com Capitu



Meus segredos com Capitu: livros, leituras e outros paraísos, de Ana Elisa Ribeiro, reúne as crônicas escritas por Ana Elisa no Digestivo Cultural e que abordam a temática da leitura e dos livros. É um daqueles livros que tem o que todo bom leitor gosta: a paixão pela leitura e pelos livros em cada página. Ler livros nos quais consigo sentir essa paixão no texto é sempre algo prazeroso e que me anima a convidar mais leitores para, juntos, reafirmar essa paixão que nos move pelas palavras e por sua capacidade de melhorar o mundo. Pois é, acredito que os livros tem esse papel de nos fazer pensar, de nos tornar pessoas melhores, se estivermos dispostos a isso.

Discutindo questões que envolvem o nosso dia a dia, como a nossa relação com as bibliotecas, um simples passeio em uma livraria, aquele primeiro livro comprado com nosso dinheiro, ou um café que sempre nos convida a sentar e aproveitar a leitura de um romance ou um poema, Ana Elisa narra com uma linguagem muito fluida e da fácil acesso questões presentes na vida de qualquer leitor ou leitora. Ela também aborda questões que volta e meia reaparecem nas manchetes, sobre as novas mídias e o formato digital dos livros e como isso afeta nossa relação com os livros impressos – além de falar um pouco sobre seu primeiro contato com grandes nomes da literatura e como surgiu seu encanto por eles, e também sobre a sua relação com a escrita e a publicação de seus textos, entre outras coisas.


São crônicas ótimas para  novos e antigos leitores, podendo ser trabalhadas na escola, ainda que a autora chame a nossa atenção para o fato de que muitas vezes as leituras obrigatórias da escola acabam por tirar toda a nossa vontade de ler – mas, por ser um livro que deixa transparecer esse amor pelos livros, acho difícil não conseguir com ele chamar a atenção dos alunos para o encanto dos livros e as infinitas possibilidades que a leitura pode representar. No entanto, concordo com Ana Elisa e lembro-me do escritor francês Daniel Pennac que lança o desafio: “E se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?” (Daniel Pennac, 2008, p. 73). Durante a leitura, foi impossível não resgatar da memória o texto apaixonado de “Como um romance”, no qual DanielPennac nos contagia com seu amor pelos livros e argumenta que esse é o caminho para se ensinar literatura, compartilhando nossa paixão pelos livros e deixando que a curiosidade desperte o desejo de ler de novos leitores, afinal “Não se força uma curiosidade, desperta-se”. E acho que Ana Elisa Ribeiro faz isso muito bem. Terminamos a leitura com aquela vontade gostosa de ir até ali na estante buscar um livro favorito para reler um trecho e sentir novamente aquele afago no coração, ou então nos aventurarmos permitindo que uma nova história nos escolha.

(Em tempos tão sombrios, quando golpistas querem destruir nosso sistema educacional e retirar do currículo das escolas disciplinas tão fundamentais para a formação de nossos jovens, além de acabar com os cursos de licenciatura, uma vez que, de acordo com a medida provisória decretada essa semana não é mais necessário ter diploma para ensinar no Brasil (atentem para o fato de que essa decisão foi tomada por medida provisória, sem nenhuma consulta a especialistas no assunto ou à população), quis compartilhar esse livro que fala sobre o poder da leitura - a paixão pelos livros, que nos ensinam a ter empatia pelos outros, que nos sensibilizam para questões importantes dos seres humanos. Não se esqueçam da importância dessa liberdade de pensar criticamente sobre o mundo, que está sendo destruída diante de nossos olhos nos últimos meses. Por favor, lutem para defendê-la, por nós e pelas próximas gerações.)

RIBEIRO, Ana Elisa. Meus segredos com Capitu: livros, leituras e outros paraísos. 2ª ed. Natal: Jovens Escribas, 2015.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Tempo - Orides Fontela



TEMPO

O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.

O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.

O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.

O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.

- Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo

cavalga o fluxo num milagre
de vida.


FONTELA, Orides. Poesia Completa. São Paulo: Hedra, 2015.

Orides Fontela (1940-1998) é uma das mais importantes poetas brasileiras da segunda metade do século XX. Da mesma geração de Paulo Leminski, Hilda Hilst, Roberto Piva e Adélia Prado, sua pequena e densa obra se sobressai pela radical modernidade e pela cortante lucidez de sua linguagem. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sorteio 2 - A máquina de fazer espanhóis



Quem ganhou o sorteio foi Marina Vitale. Entrarei em contato por email com a vencedora, que tem o prazo de 7 dias para me passar o endereço para envio do livro. Caso não responda aos emails, farei novo sorteio.
Obrigada a todos que participaram.




segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Resultado do sorteio - A máquina de fazer espanhóis

Oi, gente!

Quem ganhou o sorteio foi:



Parabéns, Cleiry! Hoje à noite o Valter Hugo Mãe autografará seu livro no evento que acontece hoje em Salvador, Fronteiras do Pensamento. Entrarei em contato com você por email para pegar o endereço, logo logo seu livro autografado chega por aí :)
E obrigada aos 513 inscritos que participaram do sorteio. Até o próximo! ;)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Liturgia do fim



Em tempos em que buscamos dar mais visibilidade ao trabalho de escritoras, é sempre uma alegria quando encontro um romance de uma escritora brasileira que me encanta tanto pelo trabalho com a linguagem, quanto pelo conteúdo que apresenta. Foi assim com Liturgia do fim, segundo romance da paraibana Marília Arnaud, que acaba de ser publicado pela editora Tordesilhas.

Narrado por Inácio, um homem de cerca de trinta anos, o romance discute as raízes e as consequências de um sistema sexista e patriarcal ao retratar o retorno de Inácio a sua cidade natal, chamada Perdição, muitos anos depois do dia em que foi obrigado a deixar a cidade e sua família para trás. Esse dia é o ponto de partida do romance, e seguimos acompanhando as lembranças de Inácio de como foi sua vida depois de ter deixado a cidade, seu casamento, o trabalho como professor e escritor, sua paixão pelos livros. Mas as lembranças de infância continuam a assombrar Inácio que, assim como os demais membros da família, foi marcado pela convivência com um pai autoritário e opressor em um ambiente austero e violento. Mesmo tentando lutar contra essas lembranças, as consequências dessas vivências deixam marcas profundas em Inácio, que tem dificuldades em se relacionar com os outros e se torna um pai e marido ausentes. Essa viagem de retorno à cidade de Perdição é uma viagem de busca por redenção, uma tentativa de se apaziguar com as lembranças do passado e com o pai, que já está bem velho quando Inácio o reencontra.

Nesse sentido, o romance possibilita refletir sobre a construção dos papéis de gênero no ambiente familiar, uma vez que temos uma figura paterna autoritária, que pune frequentemente Inácio por sua personalidade mais sensível e interessada nos livros, o que nos faz refletir sobre como também é violenta a construção da masculinidade nas sociedades patriarcais. As personagens femininas são muito interessantes no romance, apesar de termos um narrador protagonista masculino, pois podemos ver como as mulheres são as maiores vítimas de um sistema patriarcal: ou são totalmente submissas e silenciadas como a mãe de Inácio, ou contestam e se rebelam contra o autoritarismo do pai, como é o caso da irmã de Inácio, ou enlouquecem como a tia louca de Inácio, que habita o sótão da casa - uma imagem também de resistência por não aceitar o sistema vigente e se recusar a fazer parte dele (e também uma referência a um importante texto feminista).

Em Liturgia do fim encontramos um texto trabalhado com grande cuidado, o que torna a leitura muito prazerosa. E as reflexões que ele incita ao retratar uma realidade ainda muito comum é o que torna a leitura desse texto ainda mais interessante.

***

"O que farei ao final deste relato? Subirei ao topo de Perdição, um mundo velado pelos guizos frios do vento, onde se ergue e se espraia um cenário de alturas, larguezas e ondulações, paisagem de uma quietude espessa, onírica, de uma imponência que meus olhos mal conseguem sustentar, e que contrasta com o espaço estiado e sem saída, com a terra de cercas e desalento que me habita, e do seu parapeito secreto jogarei para o alto o manuscrito que tenho aqui em minhas mãos, folha por folha, numa espécie de liturgia do fim, afugentando com meu gesto os pássaros de sonho, os deuses emplumados que mergulharão no milagre azul dos meus voos, e minhas palavras dançarão ao ritmo da ventania, valsa triste sob um céu de nenhuma sombra"

***

Marília Arnaud nasceu em Campina Grande, Paraíba. Escreveu quatro livros de contos, entre eles, O livro dos afetos (publicado pela editora 7letras em 2005), e participou de várias coletâneas de contos publicadas por importantes editoras do país. Em 2012 publicou seu primeiro romance, Suíte de silêncios, pela editora Rocco.

*Recebi este livro como cortesia da Editora Tordesilhas