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sábado, 14 de dezembro de 2013

Falar Sozinhos


“Um talento iluminado. A literatura do século XXI pertencerá a Neuman 
e a alguns poucos de seus irmãos de sangue.” – Roberto Bolaño

Falar sozinhos é o segundo livro do escritor argentino Andrés Neuman publicado no Brasil. Com cinco livros já publicados e elogiado por Bolaño como um dos grandes autores do século XXI, Neuman é também considerado um dos melhores jovens escritores em língua espanhola.
Falar Sozinhos é um romance sobre partir e ficar; sobre despedidas, saudade e silêncios; sobre a comunicação em uma família e sobre tudo o que falamos sozinhos. Narrado a três vozes, cada uma delas muito bem construída, o texto flui à medida que vamos conhecendo esses três personagens e nos encantando por eles.

Lito é um menino de 10 anos de idade, com uma imaginação e uma inocência que nos comovem, e que acredita que enquanto está com o pai viajando de caminhão, o que ele sente pode interferir nas condições do tempo. Fazendo uma viagem de caminhão com o pai, que está muito doente e não quer contar ao filho sobre a gravidade do problema, seja por não ter coragem, seja por não saber como. Mario se despede em silêncio a cada momento que tem para estar com o filho, de poder alimentar seus sonhos, sua fantasia de criança. Nessas horas fica impossível não se comover e de sentir essa melancolia da despedida muito bem retratada no texto de Neuman.

Elena é uma mulher prestes a ficar viúva, obcecada com a ideia de perda,  que mergulha em uma aventura sexual para desafiar seus limites enquanto cuida do marido, e que busca nos livros uma forma de enfrentar sua dor, tentando se deparar com sua vida em tudo o que lê. É na voz de Elena que vamos encontrar diversas referências literárias, que parecem dar continuidade ao texto.

"Quando um livro me diz o que eu queria dizer, sinto o direito de me apropriar de suas palavras, como se alguma vez tivessem sido minhas e as estivesse recuperando." pág.122

Neuman coloca uma nota no final do livro dizendo que as traduções dos trechos citados são improvisações do autor, pois "se a escritura nos permite falar sozinhos, ler e traduzir são semelhantes a conversar".
O único porém (na minha humilde opinião de leitora comum) foi que cada vez que ele citava um trecho de um romance de Atwood, de Hemingway, e de tantos outros, eu, na minha curiosidade de leitora ciente de que um livro sempre nos leva a descobrir muitos outros, me perguntava: qual romance? qual o título? Não há nenhuma referência bibliográfica e eu lamentei muito por isso. Ficamos sem saber quais são os livros que Elena lia, temos a chance apenas de ler os trechos que se mesclam ao texto com perfeição. O que fiz foi apenas listar todos os autores que ele cita, mas sem saber de qual livro é cada trecho.

"Vou escolher os textos para os exames. Depois vou passar a tarde lendo. Meus nervos se acalmam com a leitura. Falso. Não se acalmam: mudam de direção. Quando saí do consultório, fui (fugi) a uma livraria. Comprei vários romances de autores que eu gosto (fiz isso rapidamente, quase sem olhar, como se fosse analgésicos) e um diário de Juan Gracia Armendáriz que folheei por acaso. Imagino que este livro, mais que um analgésico, poderia ser uma vacina: vai inocular em mim a inquietação que tento combater". pág. 22

Mario está muito doente e sabe que pouco tempo de vida lhe resta, por isso sofre nas pequenas despedidas silenciosas que faz do filho de 10 anos, registrando também com um gravador o que gostaria de dizer ao filho e à esposa, mas não tem coragem. A consciência da morte próxima e as reflexões que ele faz enquanto observa silencioso alguns momentos do dia a dia e da convivência com Lito e Elena são realmente capazes de levar os leitores mais sensíveis às lágrimas.

"Acredito que todas as despedidas são incompletas. Como na nossa vida. Por isso vivemos nos despedindo. E talvez por isso, também, somos viciados em ficção: para nos completarmos, para fabricarmos o tempo e a vida que não teremos." (Em entrevista para o Estadão, 13/11/2013)

Andrés Neuman me conquistou com esse livro, que mesmo me fazendo chorar, me deixou sem querer parar de ler o livro até o fim. Entrou para a minha lista de melhores leituras de 2013. Recomendo.

Andrés Neuman. Falar Sozinhos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. 168 páginas. Tradução: Maria Alzira Brum Lemos.

A seguir, compartilho o link para o blog do Andrés Neuman, considerado um dos melhores blogs literários da Argentina; o link para uma entrevista linda que ele deu para o Estadão, o primeiro capítulo para quem quiser ler, e a lista com os autores citados no livro.

Entrevista com Andrés Neuman : Todas as formas de viver e morrer

Blog do Andrés Neuman: Microrréplicas

Primeiro Capítulo: Falar Sozinhos

Autores citados:
Margaret Atwood; Sylvia Plath;Virginia Woolf ; Flannery O'Connor ; Kenzaburo Oe ; Roberto Bolaño; Mallarmé; Justo Navarro; Hemingway; Ana María Matute; Lorrie Moore;Javier Marías; Chekov; Iréne Némirovsky; César Aira; Philippe Ariés; Christian Bobin; Richard Gwyn; Juan Gracia Armendáriz; John Banville; Cynthia Ozick; Helen Garner; Shakespeare; Alonso Quijano;  De Pablos;  Funes;  Neruda;  Keats; Bécquer; Garcilano