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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Doidinho



Doidinho (1933) é o segundo livro da trilogia da cana de açúcar (formada por Menino de Engenho, Doidinho e Banguê), que aborda as três fases do personagem principal, Carlinhos: a infância, a adolescência e o início da maturidade. Menino de Engenho termina com a iniciação sexual de Carlinhos aos doze anos, quando logo em seguida ele deixa o engenho para ir estudar na cidade de Itabaiana. Doidinho começa com a chegada de Carlinhos, agora Carlos de Melo, no internato dirigido por um diretor rígido, que sempre punia os alunos com castigo físico, pelos mínimos motivos.

Ainda caracterizada pelo tom memorialista de José Lins, onde a solidão e a melancolia do menino Carlinhos continuam presentes, nesta narrativa um novo mundo de descobertas e relacionamentos surge para "doidinho", como Carlinhos passa a ser chamado no internato. Nesse lugar, uma miniatura do mundo real, vários temas são abordados: lealdade, amizade, injustiças, traição, sexo, religião, preconceito e a nova perspectiva que o menino passa a ter com os estudos, pois passa a compreender melhor o contexto social da época: "os livros começavam a me ensinar a ter pena dos pobres".

Em Doidinho a figura do senhor de engenho continua imponente, marcando o poder e o prestígio do patriarca na região. Carlos, que sofre um pouco para se acostumar com a vida no internato, passa a ser respeitado pelos colegas e até pelo diretor (por um período) por conta de uma visita  que seu avô, senhor de engenho, fez ao internato.

Enquanto no engenho havia a sinhá Totonha para povoar o imaginário das crianças com suas histórias, no internato havia o velho Coelho, descrito como "um narrador admirável, uma sinhá Totonha para os fatos comuns da vida", o que ressalta mais uma vez a importância das histórias no universo de José Lins.

Os livros foram responsáveis por descortinar o véu da ignorância que impedia Carlinhos de ver a dura realidade do engenho e, em vários momentos da narrativa,  podemos notar essa tomada de consciência:

"O dono da terra fez mal à menina. Só fez encher a barriga da pobre; nem deu um vintém para os panos do filho. E foi indo, e foi indo, até que levou o diabo." ..."O dono da terra fizera mal. Os pobres lhe pagavam este foro sinistro - a virgindade das filhas".

Quando Carlos volta para o engenho durante as férias, já observa a realidade dos moradores com outros olhos, notando, talvez pela primeira vez, que a vida para aquelas pessoas era muito difícil. Ele observa também a vida das mulheres no engenho, e comenta um pouco sobre religião, pois sua primeira confissão ao padre de Itabaiana provocou reflexões sobre o que de fato acontecia ali e o que era considerado pecado pela igreja:

"Ouvira contar a história de Teresa Beiçuda, uma Pompadour de São Miguel. Tio Juca, o irmão mais moço de meu avô, fazia-lhe filhos todos os anos. Uma vez, numa festa da padroeira, a mulata apareceu de chapéu na igreja. Foram dizer a tia Neném. Era um atrevimento da cabra. E quando saiu da missa, dois escravos lhe rasgaram o chapéu de plumas na porta da igreja, lhe arrancaram as anquinhas da moda. Todos aqueles senhores de engenho faziam o mesmo que tio Juca. E eram homens de têmpera, limpos de honra, de respeito. Parecia-me que o padre de Itabaiana aumentava as coisas. Não tinham eles oratórios em casa? Não faziam promessas, não davam tanto dinheiro para as igrejas? Logo, Deus não os teria assim debaixo de suas iras. O velho Zé Paulino quando morresse só podia ir para o céu."

Outro fato que vale a pena mencionar é o papel do cinema na época, que mudou a vida das pessoas e que trouxe informações novas e novas visões de mundo, não sem causar certo estranhamento, e demonstrando a como era a condição da mulher na época:

"O cinema já nos era um incitante sem o qual não podíamos passar. Levávamos a semana discutindo as fitas, comentando os enredos. Corrigiam-se atitudes, emendavam-se situações, aprendiam-se mesuras da sociedade. Havia mulheres tentadoras vestidas na última moda, bem diferentes das mulheres que víamos na vida. Tudo era diferente naquelas existências. Os homens tinham outros modos. As mulheres saíam de casa sozinhas. Viram uma, brigando com o marido, dizer-lhe com a maior simplicidade deste mundo: 'Vou para a América!", como tia Maria diria: "Vou para o sítio do seu Lucindo". A gente daqueles lugares era mesmo de outro planeta".

Uma leitura prazerosa, com representações ricas dos homens e do contexto social do período açucareiro no nordeste.

José Lins do Rego. Doidinho. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. 47ª edição.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Menino de Engenho


Segunda leitura do Projeto José Lins, "Menino de Engenho" é um dos clássicos da literatura brasileira e um dos livros mais importantes da obra de José Lins do Rego. Foi escrito em 1932 e sua primeira edição foi publicada pelo próprio autor, que com ela ganhou o Prêmio Graça Aranha e depois isso não parou mais de ter seus livros publicados.

É importante tomar conhecimento de alguns dados sobre a vida de José Lins para ver com outros olhos os seus livros. José Lins nasceu em 3 de junho de 1901 no engenho Corredor, município do Pilar, no estado da Paraíba. No ano do seu nascimento ficou órfão de mãe e seu pai foi viver em outro engenho. Foi levado então para o engenho do avô, onde cresceu aos cuidados de sua tia Maria. A experiência de ter crescido no engenho, com a figura patriarcal do avô, aos cuidados de sua tia, que ele considerava uma segunda mãe, marcaram para sempre a vida de José Lins, e isso se reflete muito em sua obra.

Em Menino de Engenho temos a história de Carlinhos, que perdeu sua mãe quando era criança em uma briga com o pai, que cometeu um crime passional, cujos motivos não são explicados. O menino Carlinhos é levado então para o engenho do avô, onde cresce junto com os moleques da região, aos cuidados da irmã de sua mãe, sua tia Maria. Carlinhos é tratado com distinção por ser neto do coronel e também por ser órfão. Através de suas lembranças de infância, de uma época em que descobria muito cedo as coisas do mundo, sempre marcado pela melancolia de ter perdido a mãe e de estar sozinho, é que temos um retrato social de uma época ainda marcada pela escravatura, pela dominação dos senhores de engenho.

Carlinhos cresce entre as negras que trabalhavam na senzala, mesmo depois da abolição. Nesse sentido, o livro mostra claramente com os negros continuaram a ser explorados por não terem oportunidade de sair dali. Como podemos ver nesses trechos sobre as negras do engenho, um relato triste sobre a condição da mulher e sobre os abusos que sofriam muitas vezes dos próprios senhores e seus filhos, e dos homens do engenho:

"As suas filhas e netas iam-lhes sucedendo na servidão, com o mesmo amor à casa-grande e a mesma passividade de bons animais domésticos".
"Não conheci marido de nenhuma, e no entanto viviam de barriga enorme, perpetuando a espécie sem previdência e sem medo".

O menino de engenho cresce ouvindo histórias, como as da velha Totônia, uma negra que visitava o engenho e que teve um papel importante em estimular o gosto pelas histórias em Carlinhos:

"As suas histórias para mim valiam tudo"...."Havia sempre rei e rainha, nos seus contos, e forca e adivinhações. E muito da vida, com suas maldades e as suas grandezas, a gente encontrava naqueles heróis e naqueles intrigantes, que eram sempre castigados com mortes horríveis. O que fazia a velha Totônia mais curiosa era a cor local que ela punha nos seus descritivos."

Histórias que marcaram tanto sua vida que precisaram ser recontadas em Histórias da Velha Totônia, livro de 1936. As histórias do avô sobre o engenho também marcaram a infância de Carlinhos e ajudam a construir esse relato da época dos engenhos de açúcar, que no período já começam a dar sinais de decadência. 

"Estas histórias do meu avô me prendiam a atenção de um modo bem diferente daquelas da velha Totonha. Não apelavam para a minha imaginação, para o fantástico. Não tinham a solução milagrosa das outras. Puros fatos diversos, mas que se gravavam na minha memória como incidentes que eu tivesse assistido. Era uma obra de cronista bulindo de realidade."

A escrita de José Lins tem um tom de nostalgia, uma característica também do menino Carlinhos:

"Era um menino triste. Gostava de saltar com os meus primos e fazer tudo o que eles faziam. Metia-me com os moleques por toda parte. Mas, no fundo, era um menino triste. Às vezes dava para pensar comigo mesmo, e solitário andava por debaixo das árvores da horta, ouvindo sozinho a cantoria dos pássaros."

Acompanhamos suas aventuras no dia a dia da produção de açúcar, seu primeiro amor por uma prima que passa o verão no engenho e que parte seu coração quando vai embora, tudo isso contado com a ingenuidade de uma olhar de criança; seu sofrimento é retratado quando a tia Maria se casa e vai embora do engenho, marcando sua vida outra vez com a perda de uma mãe (e pelos artigos que li, a morte da tia de José Lins o deixou muito abalado na vida real). O casamento da tia mostra também como as mulheres não tinham a liberdade de escolha, sendo que seu único destino era o casamento.

Esse livro é uma aula de história do Brasil, mas uma aula muito gostosa de se ler, porque a escrita de José Lins tem esse tom confessional, como se estivéssemos mesmo ouvindo suas memórias de infância. Infância essa que acaba muito cedo, aos doze anos de idade quando o menino Carlinhos vai para o colégio estudar. Menino de Engenho é um livro comovente, que permite uma infinidade de reflexões sobre questões sociais importantes de uma época de nossa história. Relê-lo hoje, quase 18 dezoito anos depois de minha primeira leitura ainda na escola, foi uma redescoberta maravilhosa de um texto bem escrito, repleto de regionalismos e muito rico, que eu espero que ainda seja lido nas escolas. Não deixem de ler Menino de Engenho.

José Lins do Rego. Menino de Engenho. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. 104ª edição. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Histórias da Velha Totônia


Para dar início ao Projeto José Lins, decidi começar pela leitura de seu livro infantil "Histórias da Velha Totônia", que foi escrito em 1936 e, por ordem cronológica de publicação, deveria ser o quinto livro a ser lido. No entanto, por ser destinado ao público infantil, optei por começar o projeto com ele e, na sequência, ler os 12 romances escritos por José Lins, que publicou praticamente um livro por ano desde 1932.

José Lins dedicou seu livro infantil para suas filhas, mas também para "os meninos do Brasil" dizendo: "quisera que todos eles me ouvissem com a ansiedade e o prazer com que eu escutava a velha Totônia do meu engenho". Um traço muito característico da escrita de José Lins é a memória. Todas as histórias que ele recriou em seus romances foram fruto de suas memórias de infância no engenho do avô. E é através das histórias desse livro que José Lins tenta compartilhar com as crianças o prazer que sentia sempre que esperava ansiosamente para ouvir a velha Totônia, "que era bem velha e bem magra", e que visitava o engenho e alegrava as crianças com suas histórias. Esse livro não deixa de ser também uma homenagem a todas as contadoras de histórias que alimentaram e alimentam a imaginação de milhares de crianças Brasil afora.

Nas quatro histórias reunidas nesse livro (O macaco mágico, A cobra que era uma princesa, O príncipe pequeno, O sargento verde), está presente a temática tradicional dos contos de fadas, com a luta entre o bem e o mal, sendo que o bem sempre vence. Há também um pouco de magia, com personagens encantadas que vencerão porque são bons. É possível identificar traços de histórias da tradição oral europeia em cada uma das histórias, que aqui tem ambientação brasileira e são contadas numa linguagem coloquial, cheia de regionalismos, característica da escrita de José Lins. A edição conta também com ilustrações de Tomás Santa Rosa, que ilustrou a primeira edição dos seus livros.

Foi gostoso descobrir essas histórias e gostei principalmente porque todas elas tem uma lição que valoriza a bondade, a gratidão, o ajudar o próximo, deixando um bom ensinamento para as crianças. E eu, que adorava os contos de fadas quando era criança, só lamentei não ter lido as histórias da velha Totônia quando era menina.

José Lins do Rego. Histórias da Velha Totônia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010. 32ª edição.