quinta-feira, 6 de março de 2014

Hoje escrevemos ao coronel



Eu ainda era menina quando ouvi falar dele pela primeira vez. Devo a minha mãe, que desde cedo me falava dos livros que ela havia lido e amado quando era da minha idade (e com isso plantava no meu peito o desejo de ler que até hoje me acompanha), o meu amor pela literatura. Lembro que um dos primeiros livros que ela comentou comigo, livros que ela tinha lido e devorado, de tão bom que eram, haviam sido escritos por ele. Eu achava os títulos belíssimos e intrigantes: como deveria ser uma história que falasse de cem anos de solidão? Como seria um amor nesses tempos de cólera? A minha imaginação fervia de curiosidade. O desejo de ler essas histórias foi tão grande, que fiz minha mãe ir comigo a um sebo, porque eu precisava ler esses livros e ela já não os tinha mais. Comecei a ler Gabo nessa época, e acho que um começo assim é a garantia mais certa de um caminho infinito e cheio de encantamentos a percorrer com os livros. Tive a sorte de ter um começo assim. E esses dois livros desde então permanecem na minha lista de favoritos. Já gostei de livros que ficaram por um tempo nessa lista, e que depois deixaram de ser tão importantes. Paixão de momento. Mas os de Gabo não. Eles permanecem.


Anos depois, na faculdade, chegou a vez de relê-los. E eu me encantei novamente com a árvore genealógica dos Buendía, e sonhei com uma chuva de flores amarelas. Foi aí que eu descobri que as grandes histórias são mesmo eternas. E que não nos cansamos nunca de reler os escritores, aqueles que permanecem, porque os livros que eles escrevem são infinitos. E talvez seja por isso que, quando alguém me pergunta "que livro você levaria para ler em uma ilha deserta?" a primeira opção que sempre passa pela minha cabeça é Cem Anos de Solidão. Um livro que eu já li duas vezes, e estou certa de que ainda será lido muitas vezes durante a minha vida. E cada leitura será diferente, apenas uma versão das infinitas possibilidades de um livro mágico.

Hoje escrevemos ao coronel para celebrar seus 87 anos de vida e agradecê-lo pelos livros infinitos, que tornam o caminho da literatura algo muito mais interessante de percorrer. Feliz Aniversário, Gabo.



Gabriel Garcia Márquez nasceu em 6 de março de 1927 em Aracataca, Colômbia. É escritor, jornalista, editor, ativista e político colombiano. Considerado um dos autores mais importantes do século 20, ele foi premiado com  o Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, que entre outros livros inclui o aclamado Cem Anos de Solidão. Foi um dos precursores do realismo mágico na literatura latino-americana. E é um dos escritores preferidos deste blog.

Em abril de 2009 declarou que se aposentou e que não pretendia escrever mais livros. Essa notícia viu-se confirmada em 2012, quando o seu irmão, Jaime Garcia Márquez, noticiou que em virtude do tratamento contra o câncer, os sintomas de demência senil se agravaram e Gabriel Garcia Márquez, embora esteja em bom estado físico, sofre lapsos de memória e não voltará a escrever.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Jesus Cristo bebia cerveja

A expectativa em relação a este livro não podia ser maior. Foram muitos os comentários que ouvi sobre o escritor nos últimos meses e estava ansiosa para lê-lo, ainda mais depois de ler a enfática recomendação do Valter Hugo Mãe, um dos meus escritores preferidos, sobre o Afonso Cruz. Minha irmã trouxe este livro de presente para mim lá de Portugal, porque, infelizmente, muitos dos livros do Afonso Cruz ainda não foram publicados no Brasil (e eu não sei o que as editoras estão esperando, com tanta gente ansiosa para ler este escritor). Ontem finalmente aproveitei o feriado carnavalesco para conhecer sua escrita.
A primeira coisa que chama a atenção no Afonso Cruz é certamente os títulos dos livros, que são sempre inusitados e deixam os leitores curiosos e cheios de expectativas. Afonso Cruz definitivamente sabe dar título aos livros. E ficamos ainda mais encantados com ele depois que mergulhamos na leitura e vemos que tudo se encaixa e faz sentido.


A história de Jesus Cristo bebia cerveja se passa em uma pequena aldeia alentejana e conta a vida de Rosa, uma menina que foi abandonada pela mãe ainda criança e cujo pai, desiludido com o abandono da esposa e deprimido por ter perdido a perna em um acidente no trabalho "pegou numa corda e pendurou-se numa figueira. Foi o mais estranho fruto daquela árvore". Sozinha, Rosa passa a morar com a avó, já bem envelhecida e doente, em uma casa pequena na aldeia. Vivem uma vida difícil e sem muitas condições, porque são pobres, e, com a doença da avó, já não tem como cultivar a terra para ganhar algum dinheiro. Rosa é uma menina melancólica e sonhadora, que adora ler histórias de cowboys. A leitura é uma de suas poucas distrações e seu livro favorito é "A morte não ouve o pianista".

"Rosa costuma ler um pouco antes de dormir, até os olhos se apagarem. Lê westerns na maior parte das vezes, lê policiais nas restantes. [...] Para Rosa, o cansaço é o livro mais eficaz, mas quando não consegue dormir um bom western faz o efeito". [pág. 70]

O pastor Ari é o único amigo de Rosa, são amigos desde que eram crianças. Seu sonho sempre foi trabalhar no teatro como ator, e o mais próximo que chegou de realizá-lo foi trabalhar aos sábados na sala de teatro da aldeia como lanterninha durante a projeção de filmes, algo de que muito se orgulha. Com o tempo, eles começam a namorar. Ari se apaixonou completamente por Rosa, mas era um homem simples, do campo, que não sabia muito o que dizer para declarar seu amor, exceto tocá-la. 

"Lembra-te de que quando Deus fecha uma porta abre-nos um livro" - dedicatória do autor para a esposa, contida em um livro de western que o pastor Ari dá de presente a Rosa

Para ganhar dinheiro, Rosa vai trabalhar na casa de um senhor rico da cidade durante a semana e deixa a avó aos cuidados da vizinha. Mas, com o passar do tempo, se sentindo infeliz nesse ambiente, e vendo que a avó não está sendo bem cuidada, deixa o trabalho e volta a morar em casa com a avó, Antónia, que está cada dia mais doente, já não enxerga nem escuta direito, e tem lapsos de memória. A avó sempre teve o sonho de conhecer a Terra Santa, Jerusalém, e Rosa se entristece por saber que Antónia nunca será capaz de realizar esse sonho. Até o dia em que conhece o Professor Borja, um homem das ciências, que "pena a solidão da razão - o último lugar deserto da Terra" [pág. 27]. O professor, um senhor de setenta e sete anos, teve um casamento sem amor, mas que lhe deu uma filha, a quem muito amava. No entanto, sua filha morre aos cinco anos em um acidente doméstico e a esposa, sofrendo com a perda, escolhe ter o mesmo fim e se suicida. O professor Borja sente um grande vazio e, assim como Rosa e outros personagens dessa história, sofre de uma grande solidão.

"De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficamos condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é morte. O momento final é apenas isso, um momento". [pág 89]

Quando conhece Rosa e sua avó, o professor Borja se apaixona perdidamente por Rosa, apesar desta ser muito mais jovem. E ao ver a tristeza de Rosa por não poder realizar o sonho da avó, o professor sugere que transformem a Aldeia em Jerusalém, numa espécie de teatro, apenas para realizar esse sonho de Antónia. Vários outros personagens contribuirão para essa encenação, alguns tocados pelo gesto da neta de tentar dar alguma alegria para a avó doente, outros tentando desmascarar a farsa de Rosa e do Professor. Farsa esta que inclui uma encenação da última ceia, mas nela, segundo o professor e suas teorias, Jesus Cristo bebia cerveja.

"Borja está entusiasmado e nem sente a mentira. Na verdade, acha que todas as geografias se sobrepõem. O sagrado está em todo o lado. Não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo valor que lhe damos. Se uma aldeia do Alentejo pode ser Jerusalém, é porque é Jerusalém". [pág. 206]

Esta é uma história sobre o amor, sobre a solidão, sobre a capacidade de transformação do ser humano. Os personagens são bem construídos e tudo se encaixa nessa narrativa elaborada por um poeta-artesão, que está atento a cada detalhe na construção dessa história que é, em si mesma, um objeto a ser contemplado. Os capítulos são curtos, e fluem muito bem durante a leitura, que tem um tom por vezes melancólico, por vezes irônico. Há uma certa dose de humor que diverte, mas não sem deixar de nos emocionar. Foi uma surpresa encontrar no fundo do livro, como um daqueles encartes de publicidade que contém o primeiro capítulo, o livro que tantas vezes Rosa menciona na história: "A morte não ouve o pianista", também de autoria de Afonso Cruz. Foi muito interessante, original e criativa essa abordagem, e diria até homenagem ao poder de contar histórias, a possibilidade de conhecer a história dentro da história que acabamos de ler. Afonso Cruz é, sem sombra de dúvidas, um autor original que vale a pena conhecer e de quem eu pretendo ler outros livros.

"Rosa recorda os tempos em que ouvia muitas histórias, contadas pelo avô, pelo pai, pela avó. Sempre com a lareira acesa, pois uma lareira queima duas coisas: lenha e histórias". [pág.72]

Afonso Cruz. Jesus Cristo bebia cerveja. Portugal: Editora Objectiva, 2012. 248 páginas.

Afonso Cruz nasceu em 1971, em Figueira da Foz, Portugal, e estudou nas Belas Artes de Lisboa, no Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e na António Arroio. É escritor, músico, cineasta e ilustrador. Escreveu oito livros: A Carne de Deus (Bertrand), Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal - Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010), Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho - Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A Contradição Humana (Caminho - Prémio Autores 2011 SPA/RTP), A Boneca de Kokoschka (Quetzal - Prémio da União Europeia para a Literatura), O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Caminho), Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria (Alfaguara) e Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara - Prémio Time Out 2012 - Melhor Livro do Ano). Ilustrou, desde 2007, cerca de trinta livros para crianças, trabalhando com autores como José Jorge Letria, António Torrado, Alice Vieira. Também tem publicado ilustrações em revistas, capas de livros e publicidade. (Informações retiradas do blog do Afonso Cruz)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mr. Gwyn

“A ousadia de Baricco é ter escrito um livro sobre a possibilidade de desaparecer, com o objetivo de se reencontrar.” – Corriere della Sera

Publicado originalmente em 2011, Mr. Gwyn, do escritor italiano Alessandro Baricco, finalmente chega ao público brasileiro (lançamento previsto para março de 2014 nas livrarias), em edição da Alfaguara com tradução de Joana Angélica d'Avila Melo.

Cada livro de Alessandro Baricco que leio é uma surpresa, um segredo que aos poucos ele vai revelando ao leitor, mantendo-o sempre intrigado, até a última página. Nenhuma palavra parece sobrar nesse texto que é sempre muito poético. Com capítulos curtos e uma aparente simplicidade (digo aparente por que não há nada de simples na narrativa de Baricco, uma narrativa riquíssima na construção de imagens poéticas), ele continua inovando a cada livro, mas mantendo seu estilo elegante e delicado que me encanta sempre. E a cada página ficamos com a sensação de que a literatura para ele é um divertimento, algo encantatório e mágico com o qual ele brinca de enfeitiçar os leitores, mas não sem fazer parte do jogo.

Em Mr. Gwyn, a literatura e sua construção são parte da trama. Jasper Gwyn é um escritor famoso, que um dia se dá conta de que nada do que tem feito para ganhar a vida até então faz sentido. Ele decide escrever um artigo para um bem conceituado jornal inglês listando 52 coisas que ele não pretende mais fazer, sendo a última delas publicar e escrever livros. Seu artigo causa grande rebuliço na imprensa e deixa seu agente literário em desespero. Tom, o agente, acredita que isso é comum entre os escritores, que é algo passageiro, pois já ouviu de vários que não iriam mais escrever, e afirma que para um escritor "não é possível viver sem a escrita". Mas Jasper é esse sujeito peculiar, que tem hábitos esquisitos, como frequentar diariamente lavanderias por toda cidade, que não quer ter filhos e tende ao isolamento (e aqui Baricco brinca um pouco com esse estereótipo que existe acerca dos escritores). Seu agente é seu único amigo, a única pessoa com quem ele conversa e que sabe dos seus segredos. Algum tempo depois da publicação do artigo, Jasper encontra uma senhora que procura abrigo por conta da chuva na sala de espera de um consultório médico onde ele aguarda para fazer alguns exames. Sem escrever, Jasper passou a ter problemas de saúde, desmaios, e sem saber o que fazer, já que não pode mais escrever porque publicou isso na imprensa, recorre aos exames para encontrar o que lhe inquieta. É por conta dessa conversa com a senhora, que é também a única pessoa com quem ele quer conversar, que Jasper começa a procurar outra forma de realizar sua escrita, que nem ele mesmo sabe como isso será. Um passeio a uma galeria de arte, onde vê quadros que são retratos de pessoas, e ele decide que fará retratos escritos, algo totalmente diferente de uma simples descrição. E a história se desenvolve nessa busca de como fazer esse retratos, uma metáfora da própria atividade de escrita, que é essa busca de uma história, sem nem sempre saber onde chegará ou qual a fórmula para fazê-lo. A melhor definição que encontrei é de que é a história de um escritor que precisa desaparecer para poder se reencontrar. Uma descoberta que nos surpreende como só os livros de Baricco podem fazer, mas que não deixa de ser uma fábula sobre a amizade, sobre o processo criativo, uma viagem poética e inquietante como é a própria literatura e os mundos que ela nos faz descobrir.

Alessandro Baricco. Mr. Gwyn. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. 224 páginas. Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo

"Do que somos capazes, pensou. Crescer, amar, fazer filhos, envelhecer - e tudo isso enquanto estamos também em outro lugar, no tempo longo de uma resposta que não veio, ou de um gesto não concluído. Quantos caminhos, e com que passo diferente os percorremos, naquilo que parece uma única viagem."

"Jasper Gwyn me ensinou que não somos personagens, somos histórias.[...] Jasper Gwyn dizia que todos somos alguma página de um livro, mas de um livro que ninguém jamais escreveu e que procuramos em vão nas prateleiras de nossa mente. Ele me disse que aquilo que tentava fazer era escrever esse livro para as pessoas que o procuravam. As páginas certas. [...] Olhava essas pessoas. Por muito tempo. Até ver nelas a história que eram.[...] Nós somos um monte de coisas, e todas juntas".

Alessandro Baricco nasceu em 1958, em Turim. É autor de livros de ensaios, de peças teatrais e dos romances Mundos de vidro, Oceano mar, City, Seda (adaptado para o cinema em 2007), Sem sangue, Esta história e A paixão de A. Recebeu, entre outros prêmios, o Prix Médicis Étranger, na França, e o Selezione Campiello, na Itália. Vive atualmente em Roma.

Para ler o primeiro capítulo de Mr. Gwyn, clique aqui.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

The Namesake (O Xará)

Minha dor é perceber / Que apesar de termos / Feito tudo o que fizemos 
Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais...
(Belchior, na voz de Elis Regina)



 The Namesake (2004, Mariner Books), da escritora Jhumpa Lahiri, conta a história de um casal de indianos que se muda para os Estados Unidos logo após o casamento, onde constroem juntos sua família. Ashima e Ashoke tentam criar seus filhos de acordo com a cultura e a tradição indianas, mas já não conseguem evitar que as influências do país onde agora residem interfiram na formação dos filhos, pois percebem que eles próprios já não são os mesmos, apesar da tradição.

A temática da identidade e do sentimento de conflito comum aos imigrantes é tema recorrente na escrita de Lahiri, que teve ela própria essa experiência de viver entre duas culturas antípodas. O sentimento de isolamento e de negação que marca a chegada de Ashima aos Estados Unidos retrata a situação dos imigrantes: ser estrangeiro em um país tão diferente do seu, onde os costumes não são compreendidos, onde a língua é um empecilho. O conflito de tradições e culturas fica evidente logo nas primeiras páginas quando Ashima, grávida do primeiro filho, relata o seu desconforto, o isolamento, nesse momento tão importante que é a chegada de um filho para a sua cultura, e ela está sozinha. Depois do parto, surge o primeiro conflito entre as duas culturas: o nome do bebê, também razão do título do livro. Segundo a tradição indiana, o nome dos filhos é escolhido pelos membros mais velhos da família, no caso, a avó de Ashima, que escreveria uma carta enviada da Índia informando o nome escolhido, no seu tempo, carta esta que se perde no caminho entre Calcutá e Massachusetts, onde a história se passa. Entre os membros da família, cada pessoa tem um nome carinhoso, como um apelido, com o qual só pode ser chamado por pessoas muito próximas. O marido de Ashima, Ashoke, ao pegar seu filho pela primeira vez no colo, escolhe chamá-lo de Gogol, uma homenagem ao escritor Nikolai Gogol, de quem é admirador e também porque esse livro marcou um acontecimento importante de sua vida. Contudo, eles estão nos Estados Unidos e para que Ashima e o bebê possam deixar o hospital o bebê tem que ser registrado. Apesar de todas as explicações sobre sua tradição, eles acabam cedendo às regras americanas: para frustração de Ashima, seu primeiro filho é registrado com seu nome "de casa", seu apelido carinhoso: Gogol Ganguli.

No decorrer da história, acompanhamos o crescimento de Gogol, desde seus primeiros dias até seus 32 anos, quando já é um homem; acompanhamos o nascimento de Sonia, sua irmã, também nascida nos Estados Unidos, e o crescimento dos dois entre essas duas culturas, nutrindo sentimentos ambíguos, em uma grande crise de identidade. Já não sentem que pertencem aos mesmo lugar que os pais, quando viajam para Calcutá nas férias para visitar os familiares, mas também não se sentem completamente pertencentes ao lugar onde nasceram, porque apesar de serem americanos, sempre são vistos como estrangeiros, seja pelo nome, seja pelas características físicas ou algum costume que mantém. 
Durante a adolescência, Gogol passa a detestar seu nome, sem compreender porque seu pai o escolheu. Apesar de ter ouvido as histórias sobre a carta da avó que nunca chegou e os motivos que o levaram a registrá-lo pelo seu nome "de casa", Gogol não entende a escolha, afinal ele nem tem um nome indiano, nem um nome americano, e um nome russo só complica ainda mais seu caminho para se encontrar como pessoa, para aceitar e formar sua identidade. 

Em The Namesake, Jhumpa Lahiri consegue retratar com um texto elegante e muito gostoso de ler não apenas o conflito entre culturas, mas o eterno dilema entre gerações de uma mesma família. Percebemos que não importa o lugar ou o país, esse 'gap' entre pais e filhos sempre existirá; é algo que só diminui com o tempo, com a maturidade que o tempo traz, quando passamos a compreender nossos pais, suas escolhas, as dificuldades que enfrentaram e que os fizeram ser como são. É quando passamos a compreender o que verdadeiramente somos e, quase sempre, nos aproximamos mais deles.


Jhumpa Lahiri nasceu em Londres, Inglaterra, em 1967. É filha de pais que emigraram da Índia. Passou a infância em Rhode Island, onde seu pai trabalhou como bibliotecário, e sua mãe, como professora. Formou-se em Literatura Inglesa pelo Barnard College, tem Mestrado em Inglês, Escrita Criativa e Estudos Comparados e Doutorado em Estudos Renascentistas pela Universidade de Boston. Pelo seu trabalho de estreia, o livro de contos Interpreter of Maladies, recebeu diversos prêmios, entre eles o Pulitzer Prize, em 2000. Seu primeiro romance, The Namesake, ficou várias semanas na lista de mais lidos do New York Times. The Namesake, uma produção indiana, foi adaptado para o cinema em 2007. Seu segundo romance, The Lowland, foi um dos finalistas do Man Booker Prize 2013.
A edição brasileira, O Xará, com tradução de José Rubens Siqueira, foi publicada em 2004 pela Companhia das Letras (336 páginas), mas a edição encontra-se esgotada nas principais livrarias.


Jhumpa Lahiri. The Namesake. UK: Mariner Books, 2004. 291 páginas.

Jhumpa Lahiri. O Xará. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 336 páginas. Trad. José Rubens Siqueira.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A página assombrada por fantasmas


Que todo leitor gosta de livros todo mundo já sabe. Mas o que nem sempre fica evidente é que nós, leitores, também gostamos de livros que de algum modo falem sobre a leitura, e nos levem a outros livros. Bom, pelo menos eu gosto. E adoro quando um livro desperta em mim aquele desejo de ler um outro livro. Ou vários. E isso aconteceu muito durante a leitura de "A página assombrada por fantasmas", de Antônio Xerxenesky, um jovem escritor brasileiro de quem eu ainda não havia lido nada.

A página assombrada por fantasmas é um livro de contos, histórias curtas, nas quais Xerxenesky explora uma temática que amamos: as leituras. Nessas histórias, o real é quase sempre contaminado pela ficção e, por que não dizer, assombrado pelos grandes nomes da literatura contemporânea: Bolaño, Pynchon, Javier Marías, David Foster Wallace, Borges, Cortázar, só para citar alguns.

No primeiro conto, O escritor no castelo alto, somos convidados a passear por muitas situações possíveis em um primeiro encontro entre um jovem escritor e um dos grandes nomes da Literatura Latino-Americana.
Em Esse Maldito Sotaque Russo, um leitor apaixonado por Pynchon, conhecido por ser um escritor recluso, tenta encontrá-lo e um encontro com seu conceituado tradutor traz novas pistas sobre seu paradeiro e seu novo romance. Em Amanhã, quando acordar, um casal de jovens viaja para passar o ano-novo juntos, mas a leitura de um livro parece desencadear uma situação terrível, ou quem sabe, evitá-la.

"Há quem diga que a literatura tem como função fazer com que nós nos sintamos menos solitários, há quem diga que os livros são cartas endereçadas de um solitário a outro. Ele não sabe, ele nunca saberá ao certo. O que ele sabe é que os livros não trazem conforto e nunca trarão, os livros são peças demoníacas (mas ele não acredita em demônios, assim como não acredita em deus algum e não consegue mais acreditar em sinais ou nada), e se há algo que os livros, os romances, as ficções trazem é transtorno e desconforto e incômodo.
Então, ele continua lendo." [página 44]

No conto A morta-viva, um jovem conhece uma mulher em uma fila de cinema em Buenos Aires e aos poucos começa a notar as inúmeras coincidências entre essa mulher e a personagem de um livro do Alan Pauls. O escritor personagem de A breve história de Charles Mankuavic abandona a literatura depois de várias críticas feitas aos seus livros, descobrindo uma nova forma de ler sua própria obra. Quando perguntado se um dia voltaria a escrever, ele responde: "O dia em que eu encontrar um novo conflito que eu só consiga resolver na literatura". [página 53] 

Algum lugar no tempo é o conto mais pessoal do livro, dedicado ao irmão do autor, e fala um pouco sobre um dia que marcou a infância dos dois e de como cada um tomou um caminho diferente a partir de então. A literatura aparece aqui como um jogo com infinitas possibilidades (O Jogo da Amarelinha, de Cortázar), assim como o jogo que os dois meninos criaram para jogar juntos no computador.

Em A página assombrada por fantasmas, conto que dá título ao livro,  viajamos pelas ruas de Buenos Aires junto com duas amigas que partem para uma aventura e encontram um manuscrito, possivelmente de um grande escritor nacional, que mudará a vida das duas para sempre. Uma bonita homenagem a Borges e Cortázar.

Sequestrando Cervantes fala de um futuro talvez não tão distante, onde as histórias como as conhecemos hoje serão modificadas e contadas de forma diferente, e só quem poderá salvá-las são aqueles que as puderem lembrar. Em No segundo andar, o autor nos convida para um passeio entre um grupo de artistas e escritores que marcaram sua geração, ainda no início de suas carreiras.

"Há quem diga que o ser humano não é só os livros que lê, as músicas e os filmes que prefere. Já eu sou do time que acha que nossa personalidade vai sendo moldada justamente por essa via." [página 71]

Um livro muito gostoso de ler, repleto de referências literárias, compondo uma bonita homenagem à literatura e aos grandes nomes citados no decorrer do texto. Escrito por alguém que claramente gosta muito de ler, para quem gosta de ler. Recomendo.

Antônio Xerxenesky. A página assombrada por fantasmas. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. 128 páginas.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Todos os dias




Uma casa habitada por uma família, suas dores, saudades, silêncios, ausências e também por um segredo. O cotidiano simples de acordar, sair para o trabalho, cuidar da casa, voltar no final do dia, sentar-se junto para o jantar, é narrado através da prosa lírica e delicada de Jorge Reis-Sá transformando esse livro em uma pequena obra prima. O cotidiano de um casal já aposentado, seus dois filhos, a avó já em idade avançada, e um neto que preenche essa casa com alguma alegria constituem essa casa, que é ela própria o centro de toda a história. É nela que os melhores dias, e também as piores dores ocorreram nessa família.

Justina e Antônio trabalharam durante a vida toda, cuidaram dos filhos, desejaram para eles o melhor futuro. Augusto, o mais velho, acabou com o sonho do pai de ter um filho doutor e bem sucedido quando decidiu deixar a faculdade porque queria ser escritor. Passou a viver em casa com a mãe, distante do restante da família porque à noite escrevia seu livro de forma obsessiva, livro que viria a ser publicado depois, dando orgulho aos pais que não o compreendiam direito. O filho mais novo, Fernando, tentava sempre fazer o que achava que os pais esperavam dele, tirar notas boas, trabalhar, casar, ter um filho, mas viveu sempre sob a sombra do irmão, a quem ao mesmo tempo admirava e amava, mas que também invejava.

Havia ainda a mãe de Antônio, que morava com eles e cuidava da cozinha, e que aceitava Justina como filha. E houve também uma tragédia, que marcou essa família para sempre, assim como um segredo, que só ficamos sabendo no final. A família nunca se recuperou da morte tão prematura de Augusto, cuja ausência afetou a vida de todos. Jorge Reis-Sá escreve com tal intensidade que sentimos a dor desses pais ao perderem seu filho:

"Mas não foi pelas vezes que ouvi o sino, enquanto o meu filho jazia na cama com a sua pele já fria, que o senti mais alto. Foi pela dor lancinante quando tocou para mim. Não era sicrano ou beltrano quem morrera, como dizia minha mãe. Era o meu filho. E, se para as outras pessoas era apenas uma morte a mais, para mim era a única. A única morte que me poderia um dia fazer entender o sino como se fosse uma fala antiga que me entrou quando nasci". [pág.119]

A morte da avó, logo em seguida, traz a dor da perda materna para a história, um vazio que nunca mais é preenchido e com o qual os personagens, que poderiam ser nós mesmos, tem que aprender a conviver e lidar, por mais doloroso que seja. Há o passar do tempo, inevitável, deixando marcas na pele e no coração dos homens. E há a capacidade de ver, através das rugas e do corpo cansado, a beleza verdadeira que construiu o relacionamento entre o casal, em uma das descrições de um olhar apaixonado mais singelas que já vi.

Em Todos os dias, a narrativa é composta por muitas vozes, que se entrelaçam todo o tempo, todos os dias, recriando a convivência em família. A cada momento o autor nos apresenta a perspectiva de um dos membros da família, no passado e no presente, recompondo sua trajetória única, e ao mesmo tempo também nossa. Este livro é daqueles que encontram na simplicidade da história uma forma muito especial de comover o leitor, pois nos identificamos com os sentimentos de cada personagem, e as relações familiares sempre foram (e sempre serão) palco rico e fértil para a literatura. Mas o que mais me encantou foi a forma verdadeira com que esses personagens foram apresentados, tão humanos em suas dores e suas falhas que conseguimos deles nos aproximar e partilhar dessas memórias, desse cotidiano simples em que a mãe acorda cedo todos os dias para alimentar as galinhas no quintal, em que o pai sai para trabalhar e só retorna no final do dia, sofrendo muito quando é convidado a se aposentar;  e também mais tarde, quando o pai tenta se fazer útil novamente naquela casa vazia e ao mesmo tempo cheia de silêncios e ausências, difíceis de aceitar. A rotina desse casal que envelheceu juntos e que consegue reviver as lembranças de seus próprios filhos no sorriso e na alegria do neto, numa tentativa constante de lembrar e esquecer alcança fundo nosso coração.

Poderia dizer que este livro é sobre o tempo que passa e que a ninguém perdoa; poderia dizer que é um livro sobre a morte e como lidamos com as ausências, com a culpa que carregamos do que foi ou não feito ou dito. Mas prefiro dizer que este é um livro sobre a vida, sobre os rituais cotidianos que compõem a vida, a família. "Porque é de gestos iguais que se fazem os dias"  e "porque somos, na passagem das horas, no olhar de quem amamos, todas as resignações, todos os dias que já fomos". [pág.188]


Jorge Reis-Sá. Todos os dias. São Paulo: Record, 2007. 224 páginas.

@mor e Emmi & Leo

Hoje em dia, vivemos mais conectados virtualmente do que no mundo real, e histórias de relacionamentos que começam por meio da Internet são cada vez mais comuns. Em @mor, o escritor austríaco Daniel Glattauer cria uma história de amor entre Emmi e Leo, que se conhecem por acaso, por conta de um email digitado errado e enviado por engano. O livro é todo contado através de emails, os muitos trocados pelo casal em quase dois anos de correspondência. Eles nunca se viram pessoalmente, apenas imaginam como são, com base em tantas conversas que foram mais reais para eles do que eles esperavam. Emmi é casada com um homem mais velho que ela, tem um casamento bem sucedido e vive feliz com seu marido, um músico famoso, e seus dois filhos, que perderam a mãe muito cedo e que tem por Emmi uma consideração maternal. Tudo corria bem até que Emmi enviou por engano um email para Leo achando que estava enviando um email de cancelamento para uma revista.

A partir de então, os dois passam a conversar diariamente (e muitas vezes por dia) compartilhando emoções, pensamentos, medos, e percebem que estão apaixonados. O relacionamento que estava destinado a existir somente no mundo virtual, acaba por começar a interferir também no mundo real dos personagens. Terminei de ler @mor e segui ansiosa para ler 'Emmi & Leo: a sétima onda", continuação do primeiro livro, pois ficamos na expectativa do encontro entre os dois (recomendo fortemente que você só comece a ler se tiver os dois livros, porque não tem como não ficar curiosa pelo final da história). É uma dessas histórias bonitinhas, bem leve e super romântica, para aqueles dias em que estamos precisando sonhar um pouco e, por alguns momentos, acreditar no amor.


Daniel Glattauer. @amor. São Paulo: Suma de Letras, 2013. 188 páginas. Tradução: Eduardo Simões

Daniel Glattauer. Emmi & Leo: a sétima onda. São Paulo: Suma de Letras, 2013. 168 páginas. Tradução: Eduardo Simões.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Na escuridão, amanhã


Há livros que nos conquistam pela força narrativa, ainda que a história arraste consigo nosso coração. É assim com "Na escuridão, amanhã", livro de estréia do escritor Rogério Pereira (Cosac Naify, 2013). A epígrafe, um poema lindo do José Luís Peixoto sobre a família, já sugere que as influências na escrita do autor são de grande peso. Esta é a história de uma família marcada pelo sofrimento, pela violência, pelo que não é dito. Uma família do interior, pobre, sofrida, mas o pior sofrimento é o que acontece ali, dentro da própria casa, fruto de um pai dominador, que comete todo o tipo de abusos. A mãe padece diariamente diante dos olhos dos filhos, sem saber nem como, nem se pode resistir ou lutar. A única coisa que faz é rezar, tentando de algum modo proteger seus filhos. Mas os filhos já não acreditam nesse Deus que os castiga com aquela vida.
Um livro marcado por perdas, ausências, gritos silenciados. Um grito de um filho questionando a vida, a existência de um Deus, e a figura desse pai, que ele nunca conseguiu compreender porque os machuca tanto. Um livro intenso, quase claustrofóbico nessa mistura tão dolorosa de sentimentos e angústias. Uma prosa poética, mas aviso: machuca o coração.

Rogério Pereira. Na escuridão, amanhã. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 127 páginas.

Casa das Estrelas



Todo mundo que já teve a oportunidade de ensinar crianças sabe o quanto especial é o universo que elas habitam. É necessário ter uma sensibilidade grande para respeitar e também aprender muito com o que esses pequenos dizem e pensam. Nos tempos de hoje, em que cada dia mais nos afastamos da criança que fomos um dia, revisitar esse universo sempre que possível é um presente e algo que deveríamos fazer sempre. Em Casa das Estrelas, o professor colombiano Javier Naranjo registrou, durante vários anos, definições poéticas e muito especiais que as crianças diziam e escreviam durante suas aulas. Pode parecer algo bobo, mas é impressionante o quanto uma frase tão simples na linguagem contém uma visão de mundo tão peculiar e tão honesta que nos sacode, e nos tira de nossa zona de conforto e questiona um pouco nossas certezas. Algumas delas nos emocionam pela delicadeza, outras em poucas palavras conseguem nos atingir mais do que gostaríamos, porque não é fácil perceber em uma frase pequenina o sofrimento grande pelo qual uma criança passou, ou um sonho que já foi destruído pelas coisas dos homens.

 Fiquei encantada com o livro, que pode ser lido bem rapidinho, mas que é um livro que se deve ter ali, sempre ao alcance das mãos, para de vez em quando podermos respirar novamente esse universo tão cheio de estrelas que normalmente deixamos de vivenciar por conta das nossas rotinas. O livro conta com ilustrações lindas de Lara Sabatier que dão cor às definições sugeridas pelas crianças. Recomendo para todos os adultos que andam precisando de um pouquinho de esperança e doçura no coração. Acho que o mundo precisa ouvir mais as crianças em sua sabedoria simples e cheia de poesia.

Javier Naranjo é escritor e professor. Nascido em 1956, na Colômbia, se destacou como pesquisador da linguagem infantil. Autor de seis livros, reuniu as definições de "Casa das Estrelas", o maior sucesso da Feira Internacional do Livro de Bogotá em 2013.

Javier Naranjo. Casa das Estrelas: o universo contado pelas crianças. Rio de Janeiro: Foz, 2013. Tradução: Carla Branco.



sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Fim de Verão


Esta poderia ser a história de um verão qualquer, aquele que antecede a volta às aulas, que marca o fim de um período de descanso e de férias. Mas é a história do fim daquela inocência que marca a infância, aquela linha tênue que separa a infância da adolescência, quando passamos a ver o mundo com outros olhos.

Esta é a história de um menino de treze anos, Henry, que está deixando de ser criança e passando por todos os percalços da adolescência: as mudanças no corpo, os questionamentos, as descobertas. Henry vive com a mãe, Adele, uma mulher que ficou depressiva e se isolou do mundo depois da separação e de ter perdido um filho no parto, criando um mundo só dela e de Henry, seu único companheiro. O pai de Henry casou-se novamente, e tem um filho pequeno com uma nova mulher, mas Henry não se sente muito bem acolhido nessa nova família que o pai construiu para si. Nesse aspecto, ele é um garoto bem maduro, que cresceu conversando muito com a mãe, que às vezes se esquecia de que ele era só uma criança e acabava por contar histórias e compartilhar lembranças que o tornaram maduro um pouco mais cedo do que o normal, mas que fizeram dele um menino mais sensível ao sentimento dos outros. Henry não tem amigos na escola, não faz parte do time dos populares, e é um menino com bom coração, sentindo-se responsável por não deixar a mãe sozinha.

Um dia os dois estão no supermercado da cidade pequena onde moram, e um homem ferido na perna, com a roupa de um dos funcionários do supermercado, pede uma carona aos dois. O que pareceria insensato para qualquer pessoa (afinal, é bem estranho encontrar uma pessoa com a perna ferida no supermercado, não é?) é algo que não desperta a menor reação na mãe de Henry, que parece estar anestesiada pela tristeza constante que sente. O garoto, apesar de ver o homem roubando um boné do supermercado, simplesmente sente que pode confiar nesse homem estranho que acaba de conhecer. No carro, o homem pede abrigo por uns dias na casa de Adele, e a mãe aceita, só depois vindo a descobrir que ele é um fugitivo da penitenciária local. Cria-se um clima de suspense, mas não há violência. O texto de Joyce Maynard é bem sentimental e nesse ritmo a autora constrói uma história que nos envolve, pois é narrada através do olhar desse menino, mas que aguça nossa curiosidade para saber o que vai acontecer, sempre com o receio de algo muito ruim possa acontecer com aquela família. A dúvida se é mesmo uma história de amor, ou se é síndrome de Estocolmo passou pela minha cabeça durante a leitura, assim como a dúvida de se haverá um final feliz, mas aos poucos percebemos que é uma história de amor. 

Com essa história, a autora nos faz pensar nas injustiças e nos julgamentos que às vezes fazemos do outro, fazendo-nos lembrar que todo mundo tem uma história que merece ser ouvida, que às vezes estamos presos a uma situação que não desejamos, e que a atitude que temos com aqueles que estão ao nosso redor é o que realmente importa. 

Este é um dos livros que foram adaptados para o cinema esse ano: Refém da Paixão tem estréia prevista para 14 de março nos cinemas brasileiros e tem Kate Winslet no papel de Adele. A seguir, o trailer do filme, que já me deixou bastante curiosa:


*Uma curiosidade: a autora Joyce Maynard teve um relacionamento de 10 meses com o escritor J. D. Salinger (autor de O apanhador no campo de centeio) quando ele tinha 53 anos e ela, apenas 18. Salinger, conhecido pelo seu isolamento, terminou seu relacionamento com Maynard de forma abrupta, deixando-a devastada. Ela abandonou a faculdade para morar com ele durante esses 10 meses e depois nunca retomou os estudos. Já expôs muito de sua história pessoal no que escreve: seus distúrbios alimentares (mencionados no livro Fim de Verão na personagem da primeira namoradinha de Henry), os problemas de alcoolismo do pai, seu divórcio conturbado (talvez recontado no sofrimento da personagem Adele, em fim de verão).  Artigo em inglês sobre o relacionamento da autora com Salinger aqui.

Joyce Maynard. Fim de Verão. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. 223 páginas. Tradução: Caroline Chang.