domingo, 22 de dezembro de 2013

Poesia domingueira: Ana Cristina Cesar

Travelling (Ana C. Cesar)

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirmava, "Perder é mais fácil que se pensa".
Rasgo os papéis todos que sobraram.
"Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não", dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. "É perigoso",                                          
ria a Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco
sem notar
como quem procura um fio.
Nunca mais te disse
uma palavra, repito, preciso alto,
tarde da noite,
enquanto desalinho
sem luxo
sede
agulhadas
os pareceres que ouvi num dia interminável:
sem parecer mais com a luz ofuscante desse mesmo
dia interminável.

Ana Cristina Cesar. A teus pés. São Paulo: Ed. Ática/ IMS, 1998. pág. 73-74

sábado, 14 de dezembro de 2013

Falar Sozinhos


“Um talento iluminado. A literatura do século XXI pertencerá a Neuman 
e a alguns poucos de seus irmãos de sangue.” – Roberto Bolaño

Falar sozinhos é o segundo livro do escritor argentino Andrés Neuman publicado no Brasil. Com cinco livros já publicados e elogiado por Bolaño como um dos grandes autores do século XXI, Neuman é também considerado um dos melhores jovens escritores em língua espanhola.
Falar Sozinhos é um romance sobre partir e ficar; sobre despedidas, saudade e silêncios; sobre a comunicação em uma família e sobre tudo o que falamos sozinhos. Narrado a três vozes, cada uma delas muito bem construída, o texto flui à medida que vamos conhecendo esses três personagens e nos encantando por eles.

Lito é um menino de 10 anos de idade, com uma imaginação e uma inocência que nos comovem, e que acredita que enquanto está com o pai viajando de caminhão, o que ele sente pode interferir nas condições do tempo. Fazendo uma viagem de caminhão com o pai, que está muito doente e não quer contar ao filho sobre a gravidade do problema, seja por não ter coragem, seja por não saber como. Mario se despede em silêncio a cada momento que tem para estar com o filho, de poder alimentar seus sonhos, sua fantasia de criança. Nessas horas fica impossível não se comover e de sentir essa melancolia da despedida muito bem retratada no texto de Neuman.

Elena é uma mulher prestes a ficar viúva, obcecada com a ideia de perda,  que mergulha em uma aventura sexual para desafiar seus limites enquanto cuida do marido, e que busca nos livros uma forma de enfrentar sua dor, tentando se deparar com sua vida em tudo o que lê. É na voz de Elena que vamos encontrar diversas referências literárias, que parecem dar continuidade ao texto.

"Quando um livro me diz o que eu queria dizer, sinto o direito de me apropriar de suas palavras, como se alguma vez tivessem sido minhas e as estivesse recuperando." pág.122

Neuman coloca uma nota no final do livro dizendo que as traduções dos trechos citados são improvisações do autor, pois "se a escritura nos permite falar sozinhos, ler e traduzir são semelhantes a conversar".
O único porém (na minha humilde opinião de leitora comum) foi que cada vez que ele citava um trecho de um romance de Atwood, de Hemingway, e de tantos outros, eu, na minha curiosidade de leitora ciente de que um livro sempre nos leva a descobrir muitos outros, me perguntava: qual romance? qual o título? Não há nenhuma referência bibliográfica e eu lamentei muito por isso. Ficamos sem saber quais são os livros que Elena lia, temos a chance apenas de ler os trechos que se mesclam ao texto com perfeição. O que fiz foi apenas listar todos os autores que ele cita, mas sem saber de qual livro é cada trecho.

"Vou escolher os textos para os exames. Depois vou passar a tarde lendo. Meus nervos se acalmam com a leitura. Falso. Não se acalmam: mudam de direção. Quando saí do consultório, fui (fugi) a uma livraria. Comprei vários romances de autores que eu gosto (fiz isso rapidamente, quase sem olhar, como se fosse analgésicos) e um diário de Juan Gracia Armendáriz que folheei por acaso. Imagino que este livro, mais que um analgésico, poderia ser uma vacina: vai inocular em mim a inquietação que tento combater". pág. 22

Mario está muito doente e sabe que pouco tempo de vida lhe resta, por isso sofre nas pequenas despedidas silenciosas que faz do filho de 10 anos, registrando também com um gravador o que gostaria de dizer ao filho e à esposa, mas não tem coragem. A consciência da morte próxima e as reflexões que ele faz enquanto observa silencioso alguns momentos do dia a dia e da convivência com Lito e Elena são realmente capazes de levar os leitores mais sensíveis às lágrimas.

"Acredito que todas as despedidas são incompletas. Como na nossa vida. Por isso vivemos nos despedindo. E talvez por isso, também, somos viciados em ficção: para nos completarmos, para fabricarmos o tempo e a vida que não teremos." (Em entrevista para o Estadão, 13/11/2013)

Andrés Neuman me conquistou com esse livro, que mesmo me fazendo chorar, me deixou sem querer parar de ler o livro até o fim. Entrou para a minha lista de melhores leituras de 2013. Recomendo.

Andrés Neuman. Falar Sozinhos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. 168 páginas. Tradução: Maria Alzira Brum Lemos.

A seguir, compartilho o link para o blog do Andrés Neuman, considerado um dos melhores blogs literários da Argentina; o link para uma entrevista linda que ele deu para o Estadão, o primeiro capítulo para quem quiser ler, e a lista com os autores citados no livro.

Entrevista com Andrés Neuman : Todas as formas de viver e morrer

Blog do Andrés Neuman: Microrréplicas

Primeiro Capítulo: Falar Sozinhos

Autores citados:
Margaret Atwood; Sylvia Plath;Virginia Woolf ; Flannery O'Connor ; Kenzaburo Oe ; Roberto Bolaño; Mallarmé; Justo Navarro; Hemingway; Ana María Matute; Lorrie Moore;Javier Marías; Chekov; Iréne Némirovsky; César Aira; Philippe Ariés; Christian Bobin; Richard Gwyn; Juan Gracia Armendáriz; John Banville; Cynthia Ozick; Helen Garner; Shakespeare; Alonso Quijano;  De Pablos;  Funes;  Neruda;  Keats; Bécquer; Garcilano

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Anatomia de um desaparecimento


"Às vezes a ausência do meu pai pesa tanto quanto uma criança sentada no meu peito".

Anatomia de um desaparecimento conta a história de Nuri, um menino de 13 anos que perde sua mãe muito cedo e que, pouco tempo depois, tem que se acostumar com a presença de Mona, a nova esposa de sua pai. Mona é muito mais jovem que o pai de Nuri e acho que podemos dizer que ela foi o primeiro amor desse menino, que tinha por ela uma espécie de encantamento platônico antes mesmo dela se relacionar com seu pai. Esse encantamento era bastante incentivado pela madrasta, que desde o início mostra ser uma incógnita em relação aos seus sentimentos.

As descrições desse garoto sobre o objeto de sua paixão são bastante líricas, e o texto de Hisham Matar é de modo geral bem delicado e melancólico na forma de narrar os relacionamentos descritos: de Nuri com sua mãe; com Naima, a criada que cuida dele como se fosse um filho; com seu pai, que sempre foi muito distante mesmo quando estava em casa; e de Nuri com sua madastra. Há uma delicadeza no texto que foi muito bem reconstruída na tradução de Julian Fuks.

Depois de algum tempo, o pai de Nuri desaparece misteriosamente no que parece ser um sequestro motivado por razões políticas. Kamal tem uma aura de mistério desde o início do livro, o que faz com que Nuri o veja com admiração, mas também com certo distanciamento, um sentimento de nunca o ter conhecido ou compreendido por completo. Com o desaparecimento do pai, a vida de todos os personagens muda significativamente e todo o restante da história passa a ser a busca de um filho por si mesmo, por seu lugar no mundo sem o pai, tentando lidar com a perda, com a ausência de quem ele amava e com os muitos segredos que aos poucos o tempo vai revelando. 

Um romance/ fábula sobre a perda e sobre como a ausência de alguém que amamos pode moldar nossas vidas para sempre.

Hisham Matar. Anatomia de um desaparecimento. São Paulo: Record, 2012. 220 páginas. Tradução: Julian Fuks.                                                                      

sábado, 7 de dezembro de 2013

O Testamento de Maria


"He was the boy I had given birth to and he was more defenceless now than he had been then. And in those days after he was born, when I held him and watched him, my thoughts included the thought that I would have someone now to watch over me when I was dying, to look after my body when I had died. In those days if I had even dreamed that I would see him bloody, and the crowd around filled with zeal that he should be bloodied more, I would have cried out as I cried out that day and the cry would have come from a part of me that is the core of me. The rest of me is merely flesh and blood and bone." [pág. 74]

Entre os finalistas do Booker Prize 2013, O Testamento de Maria (The Testament of Mary, Penguin 2013), do escritor irlandês Colm Tóibín, conta uma história de luto e perda, um tema recorrente na obra de Tóibín. O Testamento de Maria é uma novela melancólica sobre o sofrimento de uma mãe que perdeu um filho. É assim que podemos resumir esse livro e foi assim que tentei ler essa história, fugindo dos enlaces teológicos que certamente devem ter causado alguma polêmica em torno do livro. Mas o que Tóibín tentou fazer, acredito que ele conseguiu: humanizar uma "personagem" que é um mito, torná-la antes de mais nada uma mulher, uma mãe. E são esses sentimentos humanos e maternais que nos aproximam de Maria, uma mulher que perdeu seu filho para o mundo, que não aceita tê-lo perdido, que não acredita no que os outros dizem: que ele é o filho de Deus. Sem entrar em nenhum mérito religioso (lembremos que é ficção), vamos reviver eventos já bastante conhecidos, mas eles não são o foco aqui. A história toda é contada através dos olhos de Maria, do seu luto, seu sofrimento, sua perda. Raiva e um sentimento de culpa por não ter conseguido salvar seu filho se misturam na narrativa de Maria, que é bastante lírica ao relembrar os últimos dias do seu filho antes da crucificação e o que aconteceu depois disso.

Uma perspectiva muito interessante e que me emocionou bastante.

Colm Tóibín. The Testament of Mary. UK: Penguin Books, 2013. 104 págs.

Edição brasileira:
Colm Tóibín. O Testamento de Maria. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 88 páginas. Tradução: Jorio Dauster. (29 reais)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

TAG: Um livro que...



A querida Juliana Brina me indicou para responder uma TAG criada pela Lélia Santos e eu fiquei muito contente com a indicação. Vou tentar responder, mas acho difícil conseguir citar um só livro para cada pergunta:

1) Um livro que te emocionou muito...

Foram tantos! Provavelmente depois me lembrarei de mais algum, mas, por hora, fechei os olhos e tentei lembrar dos livros que me deixaram muito comovida quando terminei de ler (sabe quando a gente termina de ler um livro, deitada na cama tarde da noite, e ele acaba e, quando nos damos conta estamos abraçadas ao livro? São esses que vou citar:

Nas tuas mãos, da Inês Pedrosa - Foi a Inês Pedrosa que me fez enveredar pelas linhas da literatura portuguesa e serei sempre grata a ela por isso. Depois de ler todos os livros dela, senti tanta falta dessa linguagem poética e apaixonada que saí em busca de mais livros que me fizessem sentir assim. Foi procurando nas livrarias que encontrei livros muito queridos de José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Miguel Sousa Tavares e claro, do Valter Hugo Mãe. Nas tuas mãos é um livro sobre as muitas formas de amar.

Seda, do Alessandro Baricco - Para quem não sabe,  o escritor italiano Alessandro Baricco é um dos três mosqueteiros do meu coração, como eu costumo brincar (os outros dois são José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe).  Seda é um poema em prosa, de uma delicadeza que apaixona. Adoro a forma como Baricco usa a linguagem para contar histórias incríveis nas entrelinhas. Vou fazer um comentário sobre esse livro em breve aqui no blog.

O Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mãe -  Não tinha como não citar esse livro que tem sido meu xodó desde que foi lido (e já relido também). É um livro que recomendo sempre.

A Trégua, do Mario Benedetti. Um dos livros da minha vida, sem dúvida. Já tem comentário sobre ele aqui.

2) Um livro que queria muito ler, mas descobriu que não era tudo aquilo que pensava...

O Conto do Amor, do Contardo Calligaris
Um quarto para ela, da Helen Garner
A livraria, da Penelope Fitzgerald
A visita cruel do tempo, da Jeniffer Egan

3) Um livro que achava que não iria gostar e te surpreendeu...

Não te deixarei morrer, David Crocket -  do Miguel Sousa Tavares. É uma coletânea de contos, que não é meu gênero favorito, e tem esse nome estranho, mas foi uma surpresa, tem contos lindos nesse livro. O Miguel Sousa Tavares, para quem não sabe, é filho da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen.

As boas mulheres da China, de Xiran. Todo mundo devia ler esse livro.

4) Um livro que já tem há muito tempo em sua estante e ainda não leu...
Já estou com vergonha de dizer isso, mas são eles: Crime e Castigo e O jogo da amarelinha

5) Um livro que te passou uma lição de vida...
Escolhi livros que me ensinaram alguma coisa:
Novecentos, do Alessandro Baricco. Um dos meus livros favoritos, acho que faz a gente pensar muito na vida.
A solidão dos números primos, do Paolo Giordano

6) Um livro que te fez suspirar...

Carta a D., história de um amor - Não tem como não se emocionar com essa história de amor.
84 Charing Cross Road, da Helene Henff (em português: Nunca te vi, sempre te amei) -  Sou apaixonada por essa história, caminhei pela Charing Cross Road em Londres procurando o lugar onde a livraria existiu, já não existe mais, apenas para dizer "Helen, eu consegui!"

7) Um livro que você ainda não tem e quer muito ler...

A Ju já comentou isso no vídeo dela e porque adoro a literatura portuguesa ando muito curiosa para ler os livros do Afonso Cruz, principalmente o "Para onde vão os guarda-chuvas"

Os livros infantis que o Valter Hugo Mãe escreveu, quero muito ler e não consigo encontrar esses livros para comprar aqui. Tenho todos os romances, as poesias, só falta os livros infantis para a coleção Valter Hugo Mãe ficar completa.

Tem um livro que eu li emprestado da biblioteca e que amei e gostaria de ter na minha estante: O Colecionador de Mundos, do Ilija Trojanov.

E tem uma lista enorme de desejados que vocês podem ver no meu perfil do skoob :)

8) Um livro que de tão bom era difícil de parar de ler...

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata, um dos livros mais queridos da minha estante, que tem uma história bonita desde a sua criação. Fiz muitos amigos por conta desse livro, que é uma homenagem ao amor pelos livros, ao poder transformador da literatura.

9) Um livro que não é muito seu estilo, mas tem vontade de ler...

A Guerra dos Tronos. Não é muito meu estilo, mas agora que o frisson está diminuindo (e os preços dos livros também) eu ando curiosa para ler para ver se é tão envolvente quanto dizem. Será que vou gostar?

10) Um livro que indica...

Leio muita coisa, mas só comento aqui livros que eu indico. Às vezes o blog fica sem atualização, mas não é porque não estou lendo, só não encontrei nada que gostasse tanto a ponto de indicar.

Mas posso recomendar sem pestanejar qualquer um dos livros do Valter Hugo Mãe;

Mário Benedetti, sempre.

Livro, de José Luis Peixoto, um dos melhores do autor.

O último chef chinês, da Nicole Mones - Adoro livros que misturam literatura e culinária e esse foi um dos mais interessantes que eu já li.

A Caixa Preta, do Amós Oz - um livro que pouca gente comenta, mas que é um absurdo de bom e que eu sempre recomendo. Uma história de amor e de separação com toda a elegância da escrita do Amós Oz.

A arte de ler, da Michele Pétit - apesar de ser um livro mais acadêmico, mesmo quem não tem formação na área consegue ler sem problema e se encanta, porque o amor pelos livros e pela literatura está presente em cada página.

A Máquina, da Adriana Falcão. Uma história de amor bonita, poética e bem brasileira.

Já que estamos falando de linguagem poética, não poderia deixar de indicar um livro que é quase um haikai: Rakushisha, da Adriana Lisboa.

A chave de casa, da Tatiana Salem Levy, uma das escritoras brasileiras contemporâneas de quem mais gosto.

Espero que vocês tenham gostado e obrigada pelo interesse! :)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

E a noite roda


"Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. 
Esquece a morte e segue-me".

E a Noite Roda é o primeiro romance da jornalista Alexandra Lucas Coelho, que já publicou narrativas de viagem e que por esta primeira aventura pelos campos da ficção recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) relativo a 2012, prêmio já concedido a grandes autores como José Saramago e Antonio Lobo Antunes. 

E a Noite Roda é a história de amor entre uma jornalista catalã (Ana Blau, a narradora) e um jornalista belga (Léon) que se conhecem em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat. Essa história de amor atravessa várias cidades e paisagens diferentes, levando o leitor a viajar junto com os personagens por esses espaços, seus cheiros, imagens e climas tão diversos. Em meio às descrições de lugares e cenários políticos, muitos dos quais são zonas de conflito, passamos a conhecer mais sobre Ana e Léon e o que os une, enquanto a narradora reconta os capítulos dessa relação. Um amor que desde o início está fadado ao fracasso, mas é daquelas paixões arrebatadoras, nas quais mergulhamos de olhos fechados, mesmo sabendo que, cedo ou tarde, chegará ao fim.

"Não posso dizer que não sei: eu vejo. Mas é para a frente que caminho. 
Se for amor, deixará de ser crime." [pág.66]

As referências literárias e musicais permeiam o texto e acabamos por terminar de ler com uma lista interessante de coisas novas a serem lidas ou descobertas. De Proust a Amós Oz, de Victor Hugo a Alejandra Pizarnik, de Wislawa Szymborska a Sigur Rós, entre tantos outros. São os livros e poemas que os personagens trocaram, como acontece em qualquer história de amor; são as músicas que ouviram juntos ou recomendaram e gravaram um para o outro, e que passam a ser a memória afetiva dessa saudade, dessa paixão.

"Um amor é sempre a sua circunstância.[...] Cada um saberá o que 
vê no outro e sobre isso mais ninguém sabe nada". [pág. 59]

As descrições de Alexandra Lucas Coelho são líricas e poéticas, há diversas frases que sozinhas já são tão belas que merecem destaque. É com essa narrativa cheia de lirismo que a autora cativa o leitor, que termina por se apaixonar e sofrer junto com Ana e Léon, torcendo por um final feliz. A experiência da autora com as narrativas de viagem contribui para que o texto flua com muita suavidade permitindo que nós, leitores, possamos também viajar pelos lugares citados, sem que a viagem seja cansativa: passeamos por Jerusalém, Gaza, Roma, Barcelona, entre outros.

A cor azul da capa (que por sinal é muito bonita) é também simbólica no texto já desde a sua epígrafe: "Se azuis são os seus olhos, azul será a minha lança" (Ibn Al Qaysaran). Foi interessante encontrar detalhes significativos na história que possuem essa cor: os olhos de Léon, a cor da permissão para entrar em Jerusalém, o vestido que ela usa quando se encontraram, e o próprio sobrenome da narradora, Ana Blau. 

Viajar nas palavras de Alexandra Lucas Coelho foi uma experiência muito prazerosa, ainda que meu coração sempre sofra um pouco com histórias de amor assim. Inesquecíveis, porém reais e bem possíveis de acontecer. Recomendo.

"Noite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé." [pág. 82]

Alexandra Lucas Coelho. E a noite roda. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2012. 247 páginas.


Andrea del Fuego

É sempre uma delícia ouvir os escritores que nós gostamos falarem sobre seu processo de escrita e criação, esse universo mágico que me encanta. E é sempre uma delícia ouvir a Andrea del Fuego. Vale a pena ver o vídeo:




 Andrea del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e jornalista, publicou os volumes de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e Nego fogo (Dulcinéia Catadora, 2009), além de diversos livros juvenis e infantis. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), foi ganhador do Prêmio Saramago de literatura em 2011. Seu mais recente romance, As Miniaturas, foi publicado em 2013 pela Companhia das Letras. 

Para baixar o primeiro capítulo do livro Os Malaquias clique aqui

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Todo mundo já leu (menos eu!)

Apesar de ler muito e de sempre estar fazendo listas dos livros que pretendo ler no ano (e que nunca dão certo, porque sempre acabo lendo outros autores que não constam na lista), há aqueles livros e autores que todo mundo já leu menos eu.
Essa tag, que vi no canal da Inês e que foi criada pela Nayara é o que vou responder aqui hoje, assim, quem sabe, terei esse registro de pelo menos cinco livros que eu não posso deixar de ler em 2014.

1) Dostoiévski - Crime e Castigo
Tenho certeza de que vou gostar desse livro, já me foi recomendado por muitas pessoas, é um clássico da literatura mundial e sinto vergonha de dizer que apesar de ter o livro há anos, ele ainda não foi lido. A culpa é toda minha. =/

2) Cortázar - O Jogo da Amarelinha
Ganhei de presente de aniversário há alguns anos e não sei porque motivo ainda não li esse livro. Olho para ele na minha estante e sinto culpa, mas ao mesmo tempo é daqueles livros que sabemos desde sempre que vamos gostar. Espero não me desapontar!

3) Antonio Lobo Antunes
Todos elogiam esse escritor. O Valter Hugo Mãe elogia muito ele. E eu, vergonhosamente, ainda não o li.
E confesso que tenho um pouco de medo de não gostar (ou de não entender). Já tenho o livro "Os cus de Judas" aqui para começar a conhecer o Lobo Antunes.

4) Javier Marías
Tenho uma amiga que é super fã do Javier Marias. Ela diz que eu vou gostar do Javier. E estou fazendo uma pequena chantagem com ela: só vou ler o Javier Marias quando ela começar a ler o Valter Hugo Mãe. Porque tenho certeza de que ela vai gostar dos livros dele também. :) Ainda estou decidindo se vou começar por Os Enamoramentos, por Todas as Almas ou se por Coração tão branco.

5) Carlos Ruiz Zafón
Mesmo com tantos elogios que já ouvi sobre A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e os outros todos, nunca li o Zafón, mas espero conseguir conhecer pelo menos A Sombra do Vento em breve.

Quem tiver alguma recomendação/indicação de livro bom para começar a ler esses autores e quiser compartilhar comigo, vai me deixar muito contente. E quem quiser responder a essa tag também, fique à vontade.
:o)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Vermelho Amargo



"Para alimentar a saudade do meu primeiro amor, comia retratos, rezava sem fé, mastigava hóstia, subtraía-me, entregava-me às amoras e seus aromas. Não havia mundo lá fora. Só amor, dentro e fora de mim. Virei dois, como a mulher de duas almas que visitava a minha rua. Faltavam-me rédeas para frear meu amor. Ele me roubava para o fundo do quintal, afogava-me nos rios, transportava-me para os pastos, subia-me nos galhos das árvores, mesmo sem fruto para colher. Eu amava, ou melhor, por inteiro, eu só era amor." [pág.22]


"Sempre suspeitei o nascer como entrar num trem andando. Só que, o mundo, eu não sabia de onde vinha nem para onde ia. E, no meu vagão, não escolhi os companheiros para a viagem. Eram todos estranhos, severos, amargos, impostos. Também entrei sem comprar o bilhete de viagem. Minha bagagem, pequena, cabia debaixo do banco - da segunda classe - sem incomodar. Contrabandeava poucos pertences : uma grande dor que doía o corpo inteiro e a vontade de encontrar um remédio capaz de remediar o incômodo. Até hoje o mundo ainda não atracou. Vou sem escolher o destino. O trem estancava na minha cidade, trocava de carga e reabastecia-se. O mundo só nos permite uma baldeação definitiva."
[pág. 38]

Bartolomeu Campos de Queirós. Vermelho Amargo. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

sábado, 16 de novembro de 2013

Fliporto


Desde que cheguei aqui que fico pensando no que vou escrever para contar para vocês como está sendo minha primeira vez em uma feira literária. Mas tem sido uma mistura de encantamento e emoção que as palavras faltam. E quem está acompanhando as fotos no meu Instagram pessoal vai entender que uma imagem às vezes fala bem mais que mil palavras. E que olhos brilhando dizem mais ainda. 

Descobri que não é tão ruim quanto se pensa viajar só. Porque quando estamos sozinhos ficamos de coração mais aberto para conversar com quem encontramos, para fazer novos amigos, para querer fazer coisas novas que talvez, se estivéssemos acompanhados não faríamos. Tem sido divertido. E quando me perguntam se eu estou só a primeira coisa que escuto é: como você é corajosa! E inevitavelmente lembro da epígrafe do novo livro de Valter Hugo Mãe: "um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho". Talvez isso seja um começo pra mim.

O primeiro dia na Fliporto foi emocionante. Valter Hugo Mãe e Andrea del Fuego leram juntos a autobiografia de José Saramago. Os dois vencedores do Prêmio José Saramago, que ajuda a reconhecer os novos talentos da literatura em língua portuguesa. Depois, ouvir a Pilar Del Rio. E se emocionar, porque quando ela terminou de falar eu estava mesmo com os olhos marejados. Arrepiada. Porque ela disse tudo desse amor que sentimos pelos escritores e que quem não ama literatura nunca vai compreender. Emocionante lembrar de Saramago, na véspera do seu aniversário. Saber do dia do desassossego.

Estar cercada de literatura. De gente que gosta de ler, dos escritores e tradutores que você já leu e gosta, ter a chance de dar um abraço no seu escritor preferido, tem sido uma grande emoção. Hoje e amanhã teremos ainda muita coisa boa no congresso literário. Hoje verei o escritor Francisco Azevedo, autor de O Arroz de Palma. Amanhã tem Andrea del Fuego e Valter Hugo Mãe, o mais esperado. O final de semana vai ser lindo. Como o dia lindo de sol que está fazendo aqui em Olinda. Só não está perfeito porque eu ainda não consegui comer o bolo de rolo pernambucano que eu adoro. Mas até terça isso precisa mudar. :)