terça-feira, 8 de outubro de 2013
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Tudo o que eu queria lhe dizer
Recebi uma fotografia e ela tinha que resultar em um texto. Exercício de escrita e imaginação. A fotografia colorida mostrava um casal jovem, abraçados, como se dançassem ou pulassem juntos, sorrindo. Estão no meio de uma praça onde se vê ao fundo muitas árvores, muito verde, algumas pessoas. Há uma fonte ou chafariz no centro da praça.
E o texto foi esse aqui:
Não tinha me dado conta de que o passado tinha ficado para trás, guardado em algum cantinho do coração. Será que eu também te esqueci? Abro uma pasta antiga, da qual já nem mais lembrava, e vejo você. E o seu sorriso gritando a nossa alegria. Aquele dia, lembra? Quando a gente era tão feliz sem saber. Aquela música que você gosta começou a tocar no rádio da loja da esquina, tão alto que a gente começou a rir. E você disse que queria dançar. Aqui no meio da praça? Tem certeza? E você disse que sim. Que queria dançar o nosso amor para o mundo inteiro ver. E eu te puxei para perto de mim e a gente dançou até depois da música acabar. Como pude esquecer esse dia?
Esse jeito tão seu foi o que me conquistou. Tinha um brilho no olhar e uma vontade tão grande de viver. Tinha pressa. Você dizia que eu era um bobo, me chamava de careta. Sempre pensei demais, Júlia, enquanto você dizia e fazia tudo sem pensar. Juntos, éramos completos.
Olho para trás e vejo esse céu azul que você amava, e me perco olhando esse azul dos seus olhos cansados ainda hoje. Eles dizem que você não se lembra, que eu preciso ter paciência. Ter paciência, Antônio, digo para mim. Faz parte da vida aceitar as coisas que não podemos mudar. Vejo seu olhar perdido nesse céu azul, e quero tanto saber o que você pensa nesse silêncio sem tamanho.
Trouxe comigo essa foto do nosso amor, que não envelhece, não no meu peito. Coloquei a fotografia no seu colo, depois de beijar seu rosto e sorrir para você. Eles dizem que você não se lembra de mim e isso vai me matando aos poucos. Como você pôde me esquecer assim?
Você pega a fotografia com ternura, seus dedos sobre o meu rosto jovem um carinho. E a gente se olha nos olhos e, por alguns instantes, eu vejo o mesmo brilho de antes nos seus. E você sorri pra mim.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Extremamente alto e incrivelmente perto
Histórias podem ser contadas e recontadas de várias maneiras, cada uma a partir de uma perspectiva diferente. Quando achei que nada mais podia ser contado sobre a tragédia de 11 de setembro que abalou os Estados Unidos, eis que surge Jonathan Safran Foer, uma das grandes promessas da literatura contemporânea, e nos emociona com a sua versão da história, que mistura humor e melancolia.
Uma história de sobreviventes, é assim que podemos resumir "Extremamente alto e incrivelmente perto" (Extremely loud & incredibly close, EUA, 2005), publicado no Brasil pela Editora Rocco, com ótima tradução do escritor Daniel Galera. O livro conta a história do pequeno Oskar Schell, um menino de 9 anos que perdeu o pai na queda das torres gêmeas e sofre com essa perda. Quando encontra a chave de uma porta e um nome anotado em um papel entre as coisas do pai, o menino, que nos encanta por sua inteligência, decide sair em busca da porta que será aberta pela chave, na esperança de encontrar um pouco mais do pai, sem se dar conta de que, na verdade, está apenas buscando uma forma de exorcizar a tragédia que abalou sua família. Durante essa jornada pelas ruas de Nova York, Oskar fará novos amigos, todos eles sobreviventes de alguma tragédia, seja ela física ou não, e aos poucos redescobrirá o amor de sua mãe, a quem estava culpando por tentar seguir uma vida normal sem o pai.
É uma história que nos faz pensar sobre as nossas próprias relações familiares e nos leva do riso (diante da inocência de Oskar ao ver o mundo) às lágrimas, quando compreendemos um pouco mais do seu sofrimento e sentimos vontade de consolá-lo. Depois de ler "Extremamente alto e incrivelmente perto" acho pouco provável que alguém tenha a coragem de deixar uma carta sem resposta, principalmente se for de uma criança, por mais corrida que a vida possa ser. E ainda: acho que depois desse livro não perderemos mais a chance de dizer às pessoas que nos são importantes o quanto as amamos, sempre que houver uma oportunidade.
O livro de Jonathan Safran Foer ganhou em 2012 uma nova tradução, agora para o cinema, com direção de Stephen Daldry e tem no elenco grandes nomes como Sandra Bullock e Tom Hanks. No Brasil o filme tem o título "Tão forte e tão perto", e também me emocionou bastante.
Jonathan Safran Foer. Extremamente alto e incrivelmente perto. Rio de Janeiro : Rocco,
2006.
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013
A Elegância do Ouriço
Estou revisitando alguns livros de minha estante sobre os quais, não sei porque motivo, deixei de registrar minhas impressões. Hoje decidi então escrever sobre um livro que me é muito querido: A Elegância do Ouriço, da escritora francesa Muriel Barbery. Lembro que fiquei sabendo desse romance logo que ele foi lançado pela Companhia das Letras, em 2008, quando meu pai me mostrou um comentário na revista Carta Capital falando sobre o livro e me disse que ele tinha tudo a ver comigo pela descrição. Uma personagem que é a zeladora de um prédio muito chic em Paris e que esconde um segredo: uma paixão pela arte e pela literatura. E logo que ele terminou de me dizer isso eu já estava na livraria comprando o livro. E ele tinha toda razão, porque me apaixonei pela história. Depois disso, acho que já comprei duas ou três edições que acabaram virando presente para pessoas queridas, que depois de uma conversa gostosa sobre a história ficaram com muita vontade de ler também. E hoje procurando o livro me dei conta de que não tenho mais a edição em português. Nesses momentos, ter mais de uma edição de um livro favorito, ainda que em outro idioma, não tem preço. (tudo culpa dessa mania de ser precavida, viu, gente? Precaução: motivo maior de se ter mais de uma edição do mesmo livro) =]
A outra personagem principal é a zeladora Renne, uma mulher
discreta, calada, meio sisuda, sobre a qual ninguém sabe nada. E é aqui que talvez esteja a grande
crítica da Muriel Barbery: será que a Renne realmente esconde um segredo ou
será que ela é invisível pela condição social que ocupa entre os habitantes
desse prédio? Os moradores entram e saem sem lhe dirigir o olhar. Muitos deles
nem sabem o nome da zeladora, que segue cuidando e mantendo a rotina do prédio
em funcionamento e, ao final do dia, encontra no seu quarto um pequeno
refúgio, espaço para seu gato e para os muitos livros que devora. Renné é uma leitora voraz, uma mulher extremamente culta, mas que não fica esnobando esse conhecimento todo para os outros.
E é isso o que eu mais gosto nessa personagem. Renne tem um conhecimento vasto
sobre os clássicos da literatura mundial, que acumula em cada canto disponível
do seu quarto; sabe muito sobre teatro, sobre ópera, sobre música clássica. Paloma, essa menina inteligente, mas que anda cultivando pensamentos mórbidos, é a única
moradora do prédio que consegue de fato “ver” Renne. E Renne, por sua vez, sendo igualmente sensível diante do universo que habita, consegue ver que Paloma está sofrendo, pois entende como ela se sente. As duas, através do
amor à literatura e à arte, desenvolverão uma amizade bonita e redentora. Por
conta de Renne, os planos de Paloma talvez mudem. E com Paloma, talvez Renne se
faça notar, sem esconder o que de belo tem na alma.
Enquanto essa amizade se desenvolve, é o gato de Renne que
vai mudar todo o destino da história. Um novo morador chega ao prédio, um japonês
muito educado chamado Kakuro Ozu, e notando o nome do gato de Renne percebe imediatamente que ela não é tão comum quanto o que os outros moradores pensam. Ele também tem olhos que conseguem ver as pessoas como elas são e o muito que elas podem trazer para nossas vidas.
A Elegância do Ouriço não é só um livro sobre amizade. É um
livro sobre a vida, sobre a importância do conhecimento (mas do conhecimento
que se compartilha e que nos enriquece, sem esnobismos), uma reflexão bonita e, em alguns momentos, até filosófica sobre o ser humano (acredito que por conta da formação da autora
em filosofia) através de personagens extremamente complexos.
Hoje fiquei
com muita vontade de reler essa história (já estou com minha edição em inglês em mãos) e isso já é o suficiente para dizer o
quanto esse livro é especial. São poucos os livros que podemos revisitar. Só aqueles dos quais sentimos saudades. Não posso deixar de recomendar também o filme que é
igualmente lindo e tem cenas muito engraçadas: A Elegância do Ouriço (Mona Achache, Le Hérrison, 2009).
Muriel Barbery. A elegância do ouriço. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 352 páginas. Tradução: Rosa Freire D'Aguiar.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
A Caminhada
Obrigada por me acompanhar. Ainda que seja para caminhar ao meu lado em silêncio. Não compartilhamos os nossos silêncios com qualquer pessoa. Só com aquelas com as quais a nossa alma conversa. Os dias estão tão confusos, tanta gente falando ao mesmo tempo, quase não consigo ouvir meu coração. Silêncio é bom. É como se alcançássemos por alguns instantes a eternidade. Tenho vontade de segurar tua mão como fazia antigamente. Para atravessar a rua, passear nesse parque. Por que deixamos de dar as mãos? Já não me lembro. Em algum lugar entre o ser criança e essa vida louca. Sinto saudade desse tempo em que nada perturbava o meu sono, nada conseguia deixar inquieto meu coração. Não havia grandes decisões a serem tomadas. Viver bastava. Era um tempo bom e a gente não sabia. E vivíamos sonhando com o futuro. Que tolos éramos nós!
Caminhar por esse parque traz calma ao meu coração. Sinto-me mais forte por você estar aqui. És o meu chão. Fico me perguntando se você ainda sabe disso. Costumava dizer isso sempre quando era criança, e depois não sei mais porque deixei de lhe dizer. Porque mesmo que deixamos de dizer as coisas mais importantes?
Estava pensando e pensando sem parar sobre o que tenho que fazer, sobre a grande decisão que eu tenho que tomar, até você chegar. E trazer de volta a paz. Você sempre disse que eu fico nervosa à toa, mas não sei ser diferente. Nunca soube. Ir ou ficar, partir ou chegar, sempre é tão difícil escolher. E mesmo que eu não dissesse nada, bastava um olhar e você me via por inteiro. Espelho.
Caminhar mais um pouco para acalmar o coração, assim em silêncio mesmo. Nossas almas conversam, se entendem. Sempre foi assim. Mesmo que eu não diga nada. Mesmo que a gente não dê as mãos. Há uma força tão grande nesse amor que pode afastar qualquer coisa dolorosa do caminho. Espanta o medo, apaga a dor, alimenta. Amor-chão.
(Paula Dutra - 28/09/2013)
*texto inspirado em uma fotografia, exercício de escrita criativa - a fotografia em preto e branco é de um parque no inverno, provavelmente coberto de neve. No plano de fundo, duas mulheres caminham lado a lado.
domingo, 29 de setembro de 2013
Para não perder a ternura

Desde que eu li O Filho de Mil Homens que me encantei pela
escrita do Valter Hugo Mãe. Poético, intenso, imensamente humano. Cada livro é uma aventura poética, que provoca em nós a reflexão sobre temas importantes da vida. Tive a sorte de conhecer a escrita de Valter Hugo Mãe lendo O Filho de Mil Homens, que é meu grande favorito. Depois dele nenhum outro livro chegou tão perto do meu coração. Por tudo isso, a expectativa em relação ao novo romance, A Desumanização,
que acaba de ser lançado em Portugal (com previsão de lançamento aqui no Brasil
para o início de 2014) era das maiores. E o livro não me decepcionou. Continuou sendo essa leitura que instiga e que é por si só uma aventura.
Mas A Desumanização não é um livro fácil, que possibilite aquela leitura corriqueira e despretensiosa. Estava tão ansiosa para ler o livro que ele foi devorado tão logo chegou às minhas mãos. E apesar de ter gostado muito da leitura, terminei de ler com a sensação de quero mais, de quero outra vez, porque eu fui rápida demais. Então comecei a ler novamente. Sem pressa. Apreciando a linguagem como esse livro deve ser lido. E senti a necessidade de reescrever esse comentário sobre o livro.
Mas A Desumanização não é um livro fácil, que possibilite aquela leitura corriqueira e despretensiosa. Estava tão ansiosa para ler o livro que ele foi devorado tão logo chegou às minhas mãos. E apesar de ter gostado muito da leitura, terminei de ler com a sensação de quero mais, de quero outra vez, porque eu fui rápida demais. Então comecei a ler novamente. Sem pressa. Apreciando a linguagem como esse livro deve ser lido. E senti a necessidade de reescrever esse comentário sobre o livro.
A linguagem
poética de Valter Hugo Mãe parece emergir dessa Islândia onde a natureza é tão
forte, onde a solidão é tão grande. Sim, o livro fala de solidão, mas não só sobre isso. Fala de amor, de perdas, de luto, de relações familiares, e muitas outras coisas. E contando a
história de uma menina que perde a sua irmã gêmea quando criança, nessa Islândia
que passamos a imaginar pelas descrições como um lugar talvez difícil de se viver (uma representação do mundo de hoje?), onde as pessoas vão perdendo a sensibilidade para conseguir continuar vivendo diante de ações e sentimentos cada vez mais desumanos. A decadência da família de Halla é contada, e todo o sofrimento que a perda de sua irmã gêmea vai acarretar na vida das personagens é o fio condutor da história. Temos uma criança perdendo sua inocência e lutando para manter sua individualidade, e é bem chocante a figura materna nessa história, que não se conforma com a dor de perder uma filha, e que acaba por se tornar uma pessoa muito cruel pelo sofrimento. A filha que sobrevive será sempre a lembrança da que morreu. A solidão na dor e na ausência, por parte da mãe, e a solidão imensa da filha que fica "órfã" de mãe em vida e que perde sua metade, sua irmã.
“Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho”, essa frase de Halldór Laxness, é a epígrafe do livro e a inspiração para o nome da personagem principal, Halldora, uma menina de 11 anos. É muito interessante ver a capacidade do autor de dar voz a essa personagem, narrando os sentimentos dessa menina, que ao longo do livro vai se tornando mulher, enfrentando todas as mudanças e descobertas que uma menina entrando na adolescência vai vivenciar.
Em A Desumanização, a figura paterna ganha força na história como ponto de equilíbrio diante da crueldade da figura materna. É o pai de Halla que traz a poesia e a literatura para a vida da filha e com isso ambos ganham uma dose extra de força para sobreviver aos desencantos:
Continuo achando que Valter Hugo Mãe é um dos escritores contemporâneos que devem ser lidos, porque em todos os livros dele terminamos a leitura refletindo sobre algo relevante. É sempre difícil terminar de ler um livro dele e dizer alguma coisa a respeito, pelo menos é assim que eu me sinto. É como se precisássemos de silêncio para que toda essa realidade dolorosa dos temas que ele aborda possa ser absorvida. E se essa não é a literatura que transforma, então eu não sei mais o que é. Creio que foi em O Filho de Mil Homens que o autor nos deu uma pequena permissão para sonhar, pois nos outros livros, e em A Desumanização não é diferente, por mais doloroso que nos seja, (por mais doloroso que seja para o autor também, como ele mesmo afirmou em entrevistas) a vida não perdoa os personagens. E nem todo leitor está preparado para esse tipo de leitura. Eu já espero ansiosamente pelo próximo livro do Valter Hugo Mãe.
Em A Desumanização, a figura paterna ganha força na história como ponto de equilíbrio diante da crueldade da figura materna. É o pai de Halla que traz a poesia e a literatura para a vida da filha e com isso ambos ganham uma dose extra de força para sobreviver aos desencantos:
"Os poemas, dizia o meu pai, podem ser completos como muito do tempo e do espaço. Podem ser verdadeiramente lugares dentro dos quais passamos a viver".
"O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia".
Continuo achando que Valter Hugo Mãe é um dos escritores contemporâneos que devem ser lidos, porque em todos os livros dele terminamos a leitura refletindo sobre algo relevante. É sempre difícil terminar de ler um livro dele e dizer alguma coisa a respeito, pelo menos é assim que eu me sinto. É como se precisássemos de silêncio para que toda essa realidade dolorosa dos temas que ele aborda possa ser absorvida. E se essa não é a literatura que transforma, então eu não sei mais o que é. Creio que foi em O Filho de Mil Homens que o autor nos deu uma pequena permissão para sonhar, pois nos outros livros, e em A Desumanização não é diferente, por mais doloroso que nos seja, (por mais doloroso que seja para o autor também, como ele mesmo afirmou em entrevistas) a vida não perdoa os personagens. E nem todo leitor está preparado para esse tipo de leitura. Eu já espero ansiosamente pelo próximo livro do Valter Hugo Mãe.
Valter Hugo Mãe. A Desumanização. Portugal: Porto Editora, 2013. 252 páginas
“O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer.” ...”Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos.”
Link para uma entrevista do autor sobre A Desumanização: clique aqui
Link para o vídeo do autor apresentando o livro:
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quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Para acordar com os Ipês
Para acordar com Ipês não é preciso muitas horas de sono, nem que o sono tenha sido aquele que consideramos ideal. Não se preocupe se você não dormiu a noite inteira. É importante, contudo, que se sonhe com alguém que a gente ama ou já amou (e visto que a medida exata do amor nunca é algo fácil de se precisar, que seja pelo menos alguém que soube ou sabe lhe fazer sorrir).
Para acordar com Ipês é preciso que o despertar seja leve, de preferência com um cheiro de café fresco vindo da cozinha, feito com amor, para que a alma desperte (ela pode ainda querer continuar o sonho). É importante não se exceder: apenas uma xícara de café para nos alimentar com a energia necessária para acordar com os Ipês.
Há que se abrir as janelas com o coração repleto de pensamentos bons, com o desejo mais sincero de dias de sol e tardes de primavera, um pouco de chuva também, mas na medida certa. É importante caminhar descalço, sentindo o chão sob os pés em um contato íntimo com a terra, terra que nos sustenta e nos protege. Sentir os pés na grama e na terra, ainda que um pouco seca, é quase que um requisito indispensável para ver os ipês. É a terra que nos lembra onde estamos, onde nascemos, e aonde pertencemos.
Para acordar com os ipês é preciso ter a alma limpa de dores e dúvidas, há que se esquecer de tudo que nos aflige. É preciso caminhar lento, com tranquilidade, não há por que ter pressa, não queremos derrubar as flores. Os ipês são tão delicados quanto os sonhos bons que não queremos que terminem com o raiar do dia: podem se desfazer com o vento. O ideal é evitar pensamentos e ter em mente apenas a brancura suave das flores.
Se você já teve a sorte de acordar com os ipês sabe que eles são um lembrete de que tudo é efêmero e transitório; estamos aqui de passagem e a beleza grandiosa da vida está ali, ao nosso alcance. É só abrir as janelas. E acordar com os ipês.
Brasília, 26 de setembro de 2013.
*Na foto, os ipês vistos da minha janela e que inspiraram esse texto.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Biblioteca.
Um pedacinho da minha biblioteca.
José Luís Peixoto, in Abraço
"Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas."
José Luís Peixoto, in Abraço
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terça-feira, 24 de setembro de 2013
Doce Gabito
Ando com muita vontade de reler alguns livros, principalmente Cem anos de solidão, que já foi lido duas vezes, mas que é um daqueles livros que podemos ler pela vida inteira, certos de que cada leitura será única e desvendará um universo novo, que não tinha sido percebido na primeira vez.
Bom, isso tudo não é só para dizer que me rendi à nova edição de Cem Anos de Solidão que encontrei na livraria, porque achei que Gabo merecia um exemplar novo na minha estante. A minha edição surradinha, cheia de anotações minhas e de minha irmã, vai ficar de lembrança. Temos afeto por ela. É parte de nossa história.
Então me lembrei do segundo livro de Francisco Azevedo que estava na minha estante esperando para ser lido desde o ano passado e, veja só, ele fala muito de Gabriel Garcia Márquez e Cem anos de solidão. Na verdade, a narradora da história, Gabriela Garcia Márquez, tem Gabo como amigo imaginário e anjo guardião. No decorrer da história, personagens do clássico colombiano aparecerão no enredo e interferirão no destino da menina Gabriela.
Já tinha mencionado o escritor Francisco Azevedo aqui no blog quando comentei sobre o livro O Arroz de Palma, que me conquistou não apenas pela capa linda, mas pela doçura e sensibilidade do texto. Nele Francisco Azevedo fala de família de um jeito que nos transporta para o nosso próprio universo familiar, para nossas próprias lembranças.
Foi com uma expectativa bem maior que encontrei Doce Gabito, que dessa vez prometia falar de uma paixão que compartilhamos: a literatura. E de como nossa capacidade de imaginação torna a vida diferente. E como a literatura interfere diretamente no universo real em que vivemos.
A narrativa continua sendo poética, com frases curtas e sutis, mas que dizem muito. É como se estivéssemos sentados ao lado do escritor, bebericando uma xícara de chá e ouvindo suas histórias. Achei o livro muito envolvente, a história muito bem pensada e terminei de ler com mais vontade ainda de ler Cem anos de solidão outra vez.
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segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Meu País Inventado
"De qualquer modo, a vida é sonho" [pág 92]
Gosto muito da Isabel Allende. Desde que li "Paula" pela primeira vez que me encantei por sua escrita sensível e tão intensa. Em "Meu País Inventado", conhecemos o Chile (sempre presente em tudo que ela escreve) através dos olhos e das memórias de Allende. E como em qualquer história por ela contada, esta história, que é a história da própria Isabel e também a história do Chile, acaba por ser uma viagem fascinante.
O livro tem um tom intimista, de confissão autobiográfica, mas impregnado de poesia. Uma das formas mais bonitas de se falar sobre o exílio que eu já li. Ela diz: "escrevo como um exercício constante de saudade" [pág. 11]. E eu sempre me encanto com a forma como Isabel Allende consegue reinventar essa saudade.
"Não seria escritora sem ter passado pela experiência do exílio". [p.200]
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