quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A Caminhada

Obrigada por me acompanhar. Ainda que seja para caminhar ao meu lado em silêncio. Não compartilhamos os nossos silêncios com qualquer pessoa. Só com aquelas com as quais a nossa alma conversa. Os dias estão tão confusos, tanta gente falando ao mesmo tempo, quase não consigo ouvir meu coração. Silêncio é bom. É como se alcançássemos por alguns instantes a eternidade. Tenho vontade de segurar tua mão como fazia antigamente. Para atravessar a rua, passear nesse parque. Por que deixamos de dar as mãos? Já não me lembro. Em algum lugar entre o ser criança e essa vida louca. Sinto saudade desse tempo em que nada perturbava o meu sono, nada conseguia deixar inquieto meu coração. Não havia grandes decisões a serem tomadas. Viver bastava. Era um tempo bom e a gente não sabia. E vivíamos sonhando com o futuro. Que tolos éramos nós!

Caminhar por esse parque traz calma ao meu coração. Sinto-me mais forte por você estar aqui. És o meu chão. Fico me perguntando se você ainda sabe disso. Costumava dizer isso sempre quando era criança, e depois não sei mais porque deixei de lhe dizer. Porque mesmo que deixamos de dizer as coisas mais importantes?

Estava pensando e pensando sem parar sobre o que tenho que fazer, sobre a grande decisão que eu tenho que tomar, até você chegar. E trazer de volta a paz. Você sempre disse que eu fico nervosa à toa, mas não sei ser diferente. Nunca soube. Ir ou ficar, partir ou chegar, sempre é tão difícil escolher. E mesmo que eu não dissesse nada, bastava um olhar e você me via por inteiro. Espelho.

Caminhar mais um pouco para acalmar o coração, assim em silêncio mesmo. Nossas almas conversam, se entendem. Sempre foi assim. Mesmo que eu não diga nada. Mesmo que a gente não dê as mãos. Há uma força tão grande nesse amor que pode afastar qualquer coisa dolorosa do caminho. Espanta o medo, apaga a dor, alimenta. Amor-chão.

(Paula Dutra - 28/09/2013)
*texto inspirado em uma fotografia, exercício de escrita criativa - a fotografia em preto e branco é de um parque no inverno, provavelmente coberto de neve. No plano de fundo, duas mulheres caminham lado a lado.

domingo, 29 de setembro de 2013

Para não perder a ternura

Valter Hugo Mãe inquieta-se no seu novo livro

Desde que eu li O Filho de Mil Homens que me encantei pela escrita do Valter Hugo Mãe. Poético, intenso, imensamente humano. Cada livro é uma aventura poética, que provoca em nós a reflexão sobre temas importantes da vida. Tive a sorte de conhecer a escrita de Valter Hugo Mãe lendo O Filho de Mil Homens, que é meu grande favorito. Depois dele nenhum outro livro chegou tão perto do meu coração. Por tudo isso, a expectativa em relação ao novo romance, A Desumanização, que acaba de ser lançado em Portugal (com previsão de lançamento aqui no Brasil para o início de 2014) era das maiores. E o livro não me decepcionou. Continuou sendo essa leitura que instiga e que é por si só uma aventura.

Mas A Desumanização não é um livro fácil, que possibilite aquela leitura corriqueira e despretensiosa. Estava tão ansiosa para ler o livro que ele foi devorado tão logo chegou às minhas mãos. E apesar de ter gostado muito da leitura, terminei de ler com a sensação de quero mais, de quero outra vez, porque eu fui rápida demais. Então comecei a ler novamente. Sem pressa. Apreciando a linguagem como esse livro deve ser lido. E senti a necessidade de reescrever esse comentário sobre o livro.

A linguagem poética de Valter Hugo Mãe parece emergir dessa Islândia onde a natureza é tão forte, onde a solidão é tão grande. Sim, o livro fala de solidão, mas não só sobre isso. Fala de amor, de perdas, de luto, de relações familiares, e muitas outras coisas. E contando a história de uma menina que perde a sua irmã gêmea quando criança, nessa Islândia que passamos a imaginar pelas descrições como um lugar talvez difícil de se viver (uma representação do mundo de hoje?), onde as pessoas vão perdendo a sensibilidade para conseguir continuar vivendo diante de ações e sentimentos cada vez mais desumanos. A decadência da família de Halla é contada, e todo o sofrimento que a perda de sua irmã gêmea vai acarretar na vida das personagens é o fio condutor da história. Temos uma criança perdendo sua inocência e lutando para manter sua individualidade, e é bem chocante a figura materna nessa história, que não se conforma com a dor de perder uma filha, e que acaba por se tornar uma pessoa muito cruel pelo sofrimento. A filha que sobrevive será sempre a lembrança da que morreu. A solidão na dor e na ausência, por parte da mãe, e a solidão imensa da filha que fica "órfã" de mãe em vida e que perde sua metade, sua irmã. 

Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho”, essa frase de Halldór Laxness, é a epígrafe do livro e a inspiração para o nome da personagem principal, Halldora, uma menina de 11 anos. É muito interessante ver a capacidade do autor de dar voz a essa personagem, narrando os sentimentos dessa menina, que ao longo do livro vai se tornando mulher, enfrentando todas as mudanças e descobertas que uma menina entrando na adolescência vai vivenciar.

Em A Desumanização, a figura paterna ganha força na história como ponto de equilíbrio diante da crueldade da figura materna. É o pai de Halla que traz a poesia e a literatura para a vida da filha e com isso ambos ganham uma dose extra de força para sobreviver aos desencantos:

"Os poemas, dizia o meu pai, podem ser completos como muito do tempo e do espaço. Podem ser verdadeiramente lugares dentro dos quais passamos a viver".

"O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia".

Continuo achando que Valter Hugo Mãe é um dos escritores contemporâneos que devem ser lidos, porque em todos os livros dele terminamos a leitura refletindo sobre algo relevante. É sempre difícil terminar de ler um livro dele e dizer alguma coisa a respeito, pelo menos é assim que eu me sinto. É como se precisássemos de silêncio para que toda essa realidade dolorosa dos temas que ele aborda possa ser absorvida. E se essa não é a literatura que transforma, então eu não sei mais o que é. Creio que foi em O Filho de Mil Homens que o autor nos deu uma pequena permissão para sonhar, pois nos outros livros, e em A Desumanização não é diferente, por mais doloroso que nos seja, (por mais doloroso que seja para o autor também, como ele mesmo afirmou em entrevistas) a vida não perdoa os personagens. E nem todo leitor está preparado para esse tipo de leitura. Eu já espero ansiosamente pelo próximo livro do Valter Hugo Mãe.

Valter Hugo Mãe. A Desumanização. Portugal: Porto Editora, 2013. 252 páginas

O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer.” ...”Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos.”

Link para uma entrevista do autor sobre A Desumanização: clique aqui

Link para o vídeo do autor apresentando o livro:


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Para acordar com os Ipês



Para acordar com Ipês não é preciso muitas horas de sono, nem que o sono tenha sido aquele que consideramos ideal. Não se preocupe se você não dormiu a noite inteira. É importante, contudo, que se sonhe com alguém que a gente ama ou já amou (e visto que a medida exata do amor nunca é algo fácil de se precisar, que seja pelo menos alguém que soube ou sabe lhe fazer sorrir).

Para acordar com Ipês é preciso que o despertar seja leve, de preferência com um cheiro de café fresco vindo da cozinha, feito com amor, para que a alma desperte (ela pode ainda querer continuar o sonho). É importante não se exceder: apenas uma xícara de café para nos alimentar com a energia necessária para acordar com os Ipês.

Há que se abrir as janelas com o coração repleto de pensamentos bons, com o desejo mais sincero de dias de sol e tardes de primavera, um pouco de chuva também, mas na medida certa. É importante caminhar descalço, sentindo o chão sob os pés em um contato íntimo com a terra, terra que nos sustenta e nos protege. Sentir os pés na grama e na terra, ainda que um pouco seca, é quase que um requisito indispensável para ver os ipês. É a terra que nos lembra onde estamos, onde nascemos, e aonde pertencemos.

Para acordar com os ipês é preciso ter a alma limpa de dores e dúvidas, há que se esquecer de tudo que nos aflige. É preciso caminhar lento, com tranquilidade, não há por que ter pressa, não queremos derrubar as flores. Os ipês são tão delicados quanto os sonhos bons que não queremos que terminem com o raiar do dia: podem se desfazer com o vento. O ideal é evitar pensamentos e ter em mente apenas a brancura suave das flores.

Se você já teve a sorte de acordar com os ipês sabe que eles são um lembrete de que tudo é efêmero e transitório; estamos aqui de passagem e a beleza grandiosa da vida está ali, ao nosso alcance. É só abrir as janelas. E acordar com os ipês.

Brasília, 26 de setembro de 2013.
*Na foto, os ipês vistos da minha janela e que inspiraram esse texto.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Biblioteca.


Um pedacinho da minha biblioteca.

"Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas."

José Luís Peixoto, in Abraço

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Doce Gabito

Ando com muita vontade de reler alguns livros, principalmente Cem anos de solidão, que já foi lido duas vezes, mas que é um daqueles livros que podemos ler pela vida inteira, certos de que cada leitura será única e desvendará um universo novo, que não tinha sido percebido na primeira vez. 

Bom, isso tudo não é só para dizer que me rendi à nova edição de Cem Anos de Solidão que encontrei na livraria, porque achei que Gabo merecia um exemplar novo na minha estante. A minha edição surradinha, cheia de anotações minhas e de minha irmã, vai ficar de lembrança. Temos afeto por ela. É parte de nossa história. 

Então me lembrei do segundo livro de Francisco Azevedo que estava na minha estante esperando para ser lido desde o ano passado e, veja só, ele fala muito de Gabriel Garcia Márquez e Cem anos de solidão. Na verdade, a narradora da história, Gabriela Garcia Márquez, tem Gabo como amigo imaginário e anjo guardião. No decorrer da história, personagens do clássico colombiano aparecerão no enredo e interferirão no destino da menina Gabriela.


Já tinha mencionado o escritor Francisco Azevedo aqui no blog quando comentei sobre o livro O Arroz de Palma, que me conquistou não apenas pela capa linda, mas pela doçura e sensibilidade do texto. Nele Francisco Azevedo fala de família de um jeito que nos transporta para o nosso próprio universo familiar, para nossas próprias lembranças.

Foi com uma expectativa bem maior que encontrei Doce Gabito, que dessa vez prometia falar de uma paixão que compartilhamos: a literatura. E de como nossa capacidade de imaginação torna a vida diferente. E como a literatura interfere diretamente no universo real em que vivemos.

A narrativa continua sendo poética, com frases curtas e sutis, mas que dizem muito. É como se estivéssemos sentados ao lado do escritor, bebericando uma xícara de chá e ouvindo suas histórias. Achei o livro muito envolvente, a história muito bem pensada e terminei de ler com mais vontade ainda de ler Cem anos de solidão outra vez.

Francisco Azevedo. Doce Gabito. Rio de Janeiro: Record, 2012.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Meu País Inventado



"De qualquer modo, a vida é sonho" [pág 92]

Gosto muito da Isabel Allende. Desde que li "Paula" pela primeira vez que me encantei por sua escrita sensível e tão intensa. Em "Meu País Inventado", conhecemos o Chile (sempre presente em tudo que ela escreve) através dos olhos e das memórias de Allende. E como em qualquer história por ela contada, esta história, que é a história da própria Isabel e também a história do Chile, acaba por ser uma viagem fascinante. 

O livro tem um tom intimista, de confissão autobiográfica, mas impregnado de poesia. Uma das formas mais bonitas de se falar sobre o exílio que eu já li. Ela diz: "escrevo como um exercício constante de saudade" [pág. 11]. E eu sempre me encanto com a forma como Isabel Allende consegue reinventar essa saudade.

"Não seria escritora sem ter passado pela experiência do exílio". [p.200]


Isabel Allende. Meu país inventado. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 238 páginas. Tradução: Mario Pontes.

domingo, 22 de setembro de 2013

Primavera num espelho partido

Este foi o meu primeiro livro do escritor uruguaio Mario Benedetti e confesso que me apaixonei por sua escrita apaixonada.
A história gira em torno de Santiago, preso durante a ditadura uruguaia, e Graciela, sua mulher. De um lado temos Santiago, que de dentro da prisão sente que o tempo parou e se alimenta das lembranças, sempre descritas com muita sensibilidade, para suportar a vida na cadeia. Do outro temos Graciela, que se muda para a Argentina com sua filha Beatriz e tenta reconstruir sua vida, enquanto espera durante anos que o seu marido seja libertado. Mas a distância e o tempo agem sobre o amor de Graciela e nós, leitores, sofremos por ver os dois caminharem em direção oposta.
Além desses dois, o livro intercala outras vozes como a de Beatriz, filha de Santiago, que encanta em seus comentários com uma visão infantil e inocente que nos emociona e muitas vezes nos faz rir; e Dom Rafael, pai de Santiago, por quem me apaixonei. As partes mais bonitas do livro são quando ele fala, e são sempre cheias de poesia.

Temos também a voz do próprio Benedetti, que em certos momentos narra acontecimentos e memórias de seu próprio exílio.

Vale a pena ler.

"Às vezes os jovens têm uma coragem à prova de bala e, no entanto, não possuem um ânimo à prova de desencantos. Se pelo menos eu e outros veteranos pudéssemos convencê-los de que sua obrigação é só a de continuarem jovens. Não envelhecer de saudade, de tédio ou de rancor, mas continuar jovens, para que na hora da volta voltem como jovens e não como resíduos de rebeldias passadas. Como jovens, quer dizer, como vida". [pág. 170]

"O essencial é adaptar-se. Já sei que com essa idade é difícil. Quase impossível. E contudo. Afinal de contas, meu exílio é meu. Nem todos têm um exílio próprio. A mim quiseram empurrar um alheio. Tentativa inútil. Transformeio-o em meu. Como foi? Isso não importa. Não é um segredo nem revelação. Eu diria que é preciso começar apoderando-se das ruas. Das esquinas. Do céu. Dos cafés. Do sol, e o que é mais importante, da sombra. É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua pára de vê-lo como um estranho. E assim com todo o resto." [pág. 17]

Mario Benedetti. Primavera num espelho partido. Rio de Janeiro: objetiva, 2009. 218 páginas.

sábado, 21 de setembro de 2013

O Filho de Mil Homens



Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho”. É assim que começa o romance O Filho de Mil Homens (Cosac Naify, 2012) do escritor angolano Valter Hugo Mãe, vencedor do Prêmio José Saramago em 2007.

O livro conta a história de um pescador de quarenta anos que vive em uma aldeia onde os sonhos são anulados pela dura realidade e que sente uma imensa vontade de ter filhos. Tudo gira em torno dessa vontade de ter um filho e do quanto isso significa que acreditamos em um mundo melhor. A esperança transborda de forma poética em cada página e, um dia, o Crisóstomo, personagem central da história, encontra o órfão Camilo e o adota como filho. A partir de então vemos a construção e a invenção de uma família que, no decorrer dos capítulos, atravessa temas como a solidão, o preconceito, o amor e a compaixão. Escrito com grande sinceridade, é quase impossível não se encantar por esses personagens, não lhes querer bem. Em algum ponto, invariavelmente nos identificamos com eles, principalmente em relação ao seu desejo de ser feliz. Nessa procura pela felicidade, torcemos para que eles sejam felizes e, com isso, refletimos sobre nossa própria capacidade de ser feliz.

O Filho de Mil Homens é uma história de esperança, um lembrete daquela esperança na vida e no futuro, às vezes esquecida. E é também uma história de amor, contada com a poesia de Valter Hugo Mãe, um acalanto para aqueles que ainda acreditam que o amor é possível, que a felicidade pode estar logo ali, porque “quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz” (pág. 18). Um dos melhores livros que já li. E nem preciso dizer que depois de ler essa história, o Valter Hugo Mãe passou a ocupar aquele cantinho sagrado da minha estante e do coração.





"Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstratas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o teto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com teto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça." (página 69)

Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify, 2012. 208 pp.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Como um romance

Os direitos do leitor:

1. O direito de não ler
2. O direito de pular páginas
3. O direito de não terminar o livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler qualquer coisa
6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)
7. O direito de ler em qualquer lugar
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de se calar






Encontrei esse livro por acaso em uma das minhas andanças pelas livrarias. Reconheci o autor, de quem já havia lido um livro muito inspirador sobre ser professor (Diário de Escola, Rocco, 2004), e esse livro aberto na capa me chamou a atenção.

Com base em sua experiência como professor e romancista, Pennac fala de forma poética sobre o mundo mágico da leitura, mundo este que ele ama tanto quanto nós.
Neste ensaio muito sensível, Pennac mostra que muito da magia da leitura se perde quando o livro deixa de ser o objeto de encantamento de nossa infância, quando pedimos aos nossos pais que contem e recontem as histórias de que gostamos, e passa a ser a leitura obrigatória do programa escolar.

Só pelo que lemos nesse livro já dá para sentir que Pennac é desses professores que inspiram e encantam os alunos pela paixão que ele compartilha e demonstra. É lendo para seus alunos adolescentes, que dizem num primeiro momento não gostar de ler, que Pennac os faz perceber que todos os grandes escritores, que eles julgavam incapazes de entender, contam uma história. E que, para entendê-la, é necessário voltar ao despudor da primeira infância, quando queríamos tudo descobrir.

"E se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?" (página 73)

"Não se força uma curiosidade, desperta-se", e é lendo esses romances de grandes autores como Tolstói, Calvino, Dostoiévski, Gabriel Garcia Márquez, John Fante, entre outros, que ele desperta o desejo de ler nos alunos, que não conseguem esperar até a próxima aula para saber como aquela história continua e correm para as livrarias e bibliotecas para terminar de ler o livro. E um livro leva a outro, e a outro, e a outro... O universo mágico da literatura é reencontrado e eles agora podem continuar a descobrir os seus próprios caminhos entre os livros.

"O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vivem em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Essa leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivências entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade." (página 150)

Achei esse livro apaixonante quando o li pela primeira vez em 2009,  e hoje relendo-o pela terceira vez, ele se faz ainda muito atual e acredito que sempre será. Os direitos do leitor, que ele lista no livro, foram libertadores para mim, principalmente o direito de não terminar o livro (porque sempre me sentia culpada quando a leitura não fluía e eu não queria abandonar o livro na metade) e o direito de calar, que é libertador no sentido de que não devemos explicações sobre o que lemos para ninguém. Gostaria de ter lido esse livro mais cedo, ainda na escola, e gostaria que todos os professores tivessem que ler esse ensaio para que a abordagem em sala de aula fosse diferente. Para que a literatura não ficasse sendo uma coisa chata e obrigatória para muita gente que não teve a sorte de ter um professor que os inspirasse.

E, a propósito dessa releitura hoje, entre os direitos do leitor, Pennac lista o direito de reler:

"Reler o que me tinha uma primeira vez rejeitado, reler sem pular, reler sob um outro ângulo, reler para verificar, sim ... nós nos concedemos todos esses direitos. 
Mas relemos sobretudo gratuitamente, pelo prazer da repetição, a alegria dos reencontros, para pôr a prova a intimidade.
"Mais", "mais", dizia a criança que fomos...
Nossas releituras adultas têm muito desse desejo: nos encantar com a sensação de permanência e as encontrarmos,  a cada vez, sempre rica em novos encantamentos." (página 137)

Um livro para ser lido, relido e compartilhado.

Daniel Pennac. Como um romance. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mimos


Presentes queridos que chegaram hoje na minha caixa de correio e que alegraram meu dia!


"Aquilo que lemos de mais belo deve-se, quase sempre, a uma pessoa querida. E é a essa mesma pessoa querida que falamos primeiro. Talvez porque, justamente, é próprio do sentimento, como do desejo de ler, preferir. Amar é, pois, fazer dom de nossas preferências àqueles que preferimos. E esses partilhamentos povoam a invisível cidadela de nossa liberdade. Somos habitados por livros e amigos". (Página 77)

Daniel Pennac. Como um romance. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008.