quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Para acordar com os Ipês



Para acordar com Ipês não é preciso muitas horas de sono, nem que o sono tenha sido aquele que consideramos ideal. Não se preocupe se você não dormiu a noite inteira. É importante, contudo, que se sonhe com alguém que a gente ama ou já amou (e visto que a medida exata do amor nunca é algo fácil de se precisar, que seja pelo menos alguém que soube ou sabe lhe fazer sorrir).

Para acordar com Ipês é preciso que o despertar seja leve, de preferência com um cheiro de café fresco vindo da cozinha, feito com amor, para que a alma desperte (ela pode ainda querer continuar o sonho). É importante não se exceder: apenas uma xícara de café para nos alimentar com a energia necessária para acordar com os Ipês.

Há que se abrir as janelas com o coração repleto de pensamentos bons, com o desejo mais sincero de dias de sol e tardes de primavera, um pouco de chuva também, mas na medida certa. É importante caminhar descalço, sentindo o chão sob os pés em um contato íntimo com a terra, terra que nos sustenta e nos protege. Sentir os pés na grama e na terra, ainda que um pouco seca, é quase que um requisito indispensável para ver os ipês. É a terra que nos lembra onde estamos, onde nascemos, e aonde pertencemos.

Para acordar com os ipês é preciso ter a alma limpa de dores e dúvidas, há que se esquecer de tudo que nos aflige. É preciso caminhar lento, com tranquilidade, não há por que ter pressa, não queremos derrubar as flores. Os ipês são tão delicados quanto os sonhos bons que não queremos que terminem com o raiar do dia: podem se desfazer com o vento. O ideal é evitar pensamentos e ter em mente apenas a brancura suave das flores.

Se você já teve a sorte de acordar com os ipês sabe que eles são um lembrete de que tudo é efêmero e transitório; estamos aqui de passagem e a beleza grandiosa da vida está ali, ao nosso alcance. É só abrir as janelas. E acordar com os ipês.

Brasília, 26 de setembro de 2013.
*Na foto, os ipês vistos da minha janela e que inspiraram esse texto.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Biblioteca.


Um pedacinho da minha biblioteca.

"Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas."

José Luís Peixoto, in Abraço

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Doce Gabito

Ando com muita vontade de reler alguns livros, principalmente Cem anos de solidão, que já foi lido duas vezes, mas que é um daqueles livros que podemos ler pela vida inteira, certos de que cada leitura será única e desvendará um universo novo, que não tinha sido percebido na primeira vez. 

Bom, isso tudo não é só para dizer que me rendi à nova edição de Cem Anos de Solidão que encontrei na livraria, porque achei que Gabo merecia um exemplar novo na minha estante. A minha edição surradinha, cheia de anotações minhas e de minha irmã, vai ficar de lembrança. Temos afeto por ela. É parte de nossa história. 

Então me lembrei do segundo livro de Francisco Azevedo que estava na minha estante esperando para ser lido desde o ano passado e, veja só, ele fala muito de Gabriel Garcia Márquez e Cem anos de solidão. Na verdade, a narradora da história, Gabriela Garcia Márquez, tem Gabo como amigo imaginário e anjo guardião. No decorrer da história, personagens do clássico colombiano aparecerão no enredo e interferirão no destino da menina Gabriela.


Já tinha mencionado o escritor Francisco Azevedo aqui no blog quando comentei sobre o livro O Arroz de Palma, que me conquistou não apenas pela capa linda, mas pela doçura e sensibilidade do texto. Nele Francisco Azevedo fala de família de um jeito que nos transporta para o nosso próprio universo familiar, para nossas próprias lembranças.

Foi com uma expectativa bem maior que encontrei Doce Gabito, que dessa vez prometia falar de uma paixão que compartilhamos: a literatura. E de como nossa capacidade de imaginação torna a vida diferente. E como a literatura interfere diretamente no universo real em que vivemos.

A narrativa continua sendo poética, com frases curtas e sutis, mas que dizem muito. É como se estivéssemos sentados ao lado do escritor, bebericando uma xícara de chá e ouvindo suas histórias. Achei o livro muito envolvente, a história muito bem pensada e terminei de ler com mais vontade ainda de ler Cem anos de solidão outra vez.

Francisco Azevedo. Doce Gabito. Rio de Janeiro: Record, 2012.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Meu País Inventado



"De qualquer modo, a vida é sonho" [pág 92]

Gosto muito da Isabel Allende. Desde que li "Paula" pela primeira vez que me encantei por sua escrita sensível e tão intensa. Em "Meu País Inventado", conhecemos o Chile (sempre presente em tudo que ela escreve) através dos olhos e das memórias de Allende. E como em qualquer história por ela contada, esta história, que é a história da própria Isabel e também a história do Chile, acaba por ser uma viagem fascinante. 

O livro tem um tom intimista, de confissão autobiográfica, mas impregnado de poesia. Uma das formas mais bonitas de se falar sobre o exílio que eu já li. Ela diz: "escrevo como um exercício constante de saudade" [pág. 11]. E eu sempre me encanto com a forma como Isabel Allende consegue reinventar essa saudade.

"Não seria escritora sem ter passado pela experiência do exílio". [p.200]


Isabel Allende. Meu país inventado. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 238 páginas. Tradução: Mario Pontes.

domingo, 22 de setembro de 2013

Primavera num espelho partido

Este foi o meu primeiro livro do escritor uruguaio Mario Benedetti e confesso que me apaixonei por sua escrita apaixonada.
A história gira em torno de Santiago, preso durante a ditadura uruguaia, e Graciela, sua mulher. De um lado temos Santiago, que de dentro da prisão sente que o tempo parou e se alimenta das lembranças, sempre descritas com muita sensibilidade, para suportar a vida na cadeia. Do outro temos Graciela, que se muda para a Argentina com sua filha Beatriz e tenta reconstruir sua vida, enquanto espera durante anos que o seu marido seja libertado. Mas a distância e o tempo agem sobre o amor de Graciela e nós, leitores, sofremos por ver os dois caminharem em direção oposta.
Além desses dois, o livro intercala outras vozes como a de Beatriz, filha de Santiago, que encanta em seus comentários com uma visão infantil e inocente que nos emociona e muitas vezes nos faz rir; e Dom Rafael, pai de Santiago, por quem me apaixonei. As partes mais bonitas do livro são quando ele fala, e são sempre cheias de poesia.

Temos também a voz do próprio Benedetti, que em certos momentos narra acontecimentos e memórias de seu próprio exílio.

Vale a pena ler.

"Às vezes os jovens têm uma coragem à prova de bala e, no entanto, não possuem um ânimo à prova de desencantos. Se pelo menos eu e outros veteranos pudéssemos convencê-los de que sua obrigação é só a de continuarem jovens. Não envelhecer de saudade, de tédio ou de rancor, mas continuar jovens, para que na hora da volta voltem como jovens e não como resíduos de rebeldias passadas. Como jovens, quer dizer, como vida". [pág. 170]

"O essencial é adaptar-se. Já sei que com essa idade é difícil. Quase impossível. E contudo. Afinal de contas, meu exílio é meu. Nem todos têm um exílio próprio. A mim quiseram empurrar um alheio. Tentativa inútil. Transformeio-o em meu. Como foi? Isso não importa. Não é um segredo nem revelação. Eu diria que é preciso começar apoderando-se das ruas. Das esquinas. Do céu. Dos cafés. Do sol, e o que é mais importante, da sombra. É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua pára de vê-lo como um estranho. E assim com todo o resto." [pág. 17]

Mario Benedetti. Primavera num espelho partido. Rio de Janeiro: objetiva, 2009. 218 páginas.

sábado, 21 de setembro de 2013

O Filho de Mil Homens



Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho”. É assim que começa o romance O Filho de Mil Homens (Cosac Naify, 2012) do escritor angolano Valter Hugo Mãe, vencedor do Prêmio José Saramago em 2007.

O livro conta a história de um pescador de quarenta anos que vive em uma aldeia onde os sonhos são anulados pela dura realidade e que sente uma imensa vontade de ter filhos. Tudo gira em torno dessa vontade de ter um filho e do quanto isso significa que acreditamos em um mundo melhor. A esperança transborda de forma poética em cada página e, um dia, o Crisóstomo, personagem central da história, encontra o órfão Camilo e o adota como filho. A partir de então vemos a construção e a invenção de uma família que, no decorrer dos capítulos, atravessa temas como a solidão, o preconceito, o amor e a compaixão. Escrito com grande sinceridade, é quase impossível não se encantar por esses personagens, não lhes querer bem. Em algum ponto, invariavelmente nos identificamos com eles, principalmente em relação ao seu desejo de ser feliz. Nessa procura pela felicidade, torcemos para que eles sejam felizes e, com isso, refletimos sobre nossa própria capacidade de ser feliz.

O Filho de Mil Homens é uma história de esperança, um lembrete daquela esperança na vida e no futuro, às vezes esquecida. E é também uma história de amor, contada com a poesia de Valter Hugo Mãe, um acalanto para aqueles que ainda acreditam que o amor é possível, que a felicidade pode estar logo ali, porque “quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz” (pág. 18). Um dos melhores livros que já li. E nem preciso dizer que depois de ler essa história, o Valter Hugo Mãe passou a ocupar aquele cantinho sagrado da minha estante e do coração.





"Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstratas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o teto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com teto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça." (página 69)

Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify, 2012. 208 pp.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Como um romance

Os direitos do leitor:

1. O direito de não ler
2. O direito de pular páginas
3. O direito de não terminar o livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler qualquer coisa
6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)
7. O direito de ler em qualquer lugar
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de se calar






Encontrei esse livro por acaso em uma das minhas andanças pelas livrarias. Reconheci o autor, de quem já havia lido um livro muito inspirador sobre ser professor (Diário de Escola, Rocco, 2004), e esse livro aberto na capa me chamou a atenção.

Com base em sua experiência como professor e romancista, Pennac fala de forma poética sobre o mundo mágico da leitura, mundo este que ele ama tanto quanto nós.
Neste ensaio muito sensível, Pennac mostra que muito da magia da leitura se perde quando o livro deixa de ser o objeto de encantamento de nossa infância, quando pedimos aos nossos pais que contem e recontem as histórias de que gostamos, e passa a ser a leitura obrigatória do programa escolar.

Só pelo que lemos nesse livro já dá para sentir que Pennac é desses professores que inspiram e encantam os alunos pela paixão que ele compartilha e demonstra. É lendo para seus alunos adolescentes, que dizem num primeiro momento não gostar de ler, que Pennac os faz perceber que todos os grandes escritores, que eles julgavam incapazes de entender, contam uma história. E que, para entendê-la, é necessário voltar ao despudor da primeira infância, quando queríamos tudo descobrir.

"E se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?" (página 73)

"Não se força uma curiosidade, desperta-se", e é lendo esses romances de grandes autores como Tolstói, Calvino, Dostoiévski, Gabriel Garcia Márquez, John Fante, entre outros, que ele desperta o desejo de ler nos alunos, que não conseguem esperar até a próxima aula para saber como aquela história continua e correm para as livrarias e bibliotecas para terminar de ler o livro. E um livro leva a outro, e a outro, e a outro... O universo mágico da literatura é reencontrado e eles agora podem continuar a descobrir os seus próprios caminhos entre os livros.

"O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vivem em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Essa leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivências entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade." (página 150)

Achei esse livro apaixonante quando o li pela primeira vez em 2009,  e hoje relendo-o pela terceira vez, ele se faz ainda muito atual e acredito que sempre será. Os direitos do leitor, que ele lista no livro, foram libertadores para mim, principalmente o direito de não terminar o livro (porque sempre me sentia culpada quando a leitura não fluía e eu não queria abandonar o livro na metade) e o direito de calar, que é libertador no sentido de que não devemos explicações sobre o que lemos para ninguém. Gostaria de ter lido esse livro mais cedo, ainda na escola, e gostaria que todos os professores tivessem que ler esse ensaio para que a abordagem em sala de aula fosse diferente. Para que a literatura não ficasse sendo uma coisa chata e obrigatória para muita gente que não teve a sorte de ter um professor que os inspirasse.

E, a propósito dessa releitura hoje, entre os direitos do leitor, Pennac lista o direito de reler:

"Reler o que me tinha uma primeira vez rejeitado, reler sem pular, reler sob um outro ângulo, reler para verificar, sim ... nós nos concedemos todos esses direitos. 
Mas relemos sobretudo gratuitamente, pelo prazer da repetição, a alegria dos reencontros, para pôr a prova a intimidade.
"Mais", "mais", dizia a criança que fomos...
Nossas releituras adultas têm muito desse desejo: nos encantar com a sensação de permanência e as encontrarmos,  a cada vez, sempre rica em novos encantamentos." (página 137)

Um livro para ser lido, relido e compartilhado.

Daniel Pennac. Como um romance. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mimos


Presentes queridos que chegaram hoje na minha caixa de correio e que alegraram meu dia!


"Aquilo que lemos de mais belo deve-se, quase sempre, a uma pessoa querida. E é a essa mesma pessoa querida que falamos primeiro. Talvez porque, justamente, é próprio do sentimento, como do desejo de ler, preferir. Amar é, pois, fazer dom de nossas preferências àqueles que preferimos. E esses partilhamentos povoam a invisível cidadela de nossa liberdade. Somos habitados por livros e amigos". (Página 77)

Daniel Pennac. Como um romance. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

Uma casa na escuridão


Quando li esse livro pela primeira vez em 2010, nada conhecia sobre o autor. Havia lido todos os livros da Inês Pedrosa e amado, e procurava na livraria mais literatura portuguesa para ler quando encontrei "Uma Casa na Escuridão" e resolvi arriscar. A narrativa de José Luís Peixoto era poética, mas bem diferente dos textos da Inês. Comecei a ler intrigada, sem saber muito bem onde aquela história ia chegar.
Fui grifando trechos do livro já desde o início, seja porque eram poéticos e de imensa beleza, seja porque me faziam refletir e estabelecer conexões com outros textos, outras vivências, no que eu chamo de conversa livro-leitor. Quanto mais grifos há num livro que eu li, maior sinal de que gostei do que li. 
Mas a história, apesar dos trechos poéticos que me encantavam, seguia por caminhos diferentes do que eu esperava encontrar quando comprei o livro. Realismo mágico português? Caminhos por vezes intensos, sofridos, com cenas fortes que por vezes foi necessário parar a leitura para respirar. Mas onde que esse livro vai parar?, pensava eu. Mesclando momentos assim, em que o leitor mais sensível sente lhe faltar o ar com passagens de grande força poética, a história se desenrola de forma intensa; é mesmo uma casa na escuridão. Mas mesmo nessa escuridão eu consegui encontrar luz no texto do JLP. Pontos de doçura, delicadeza e poesia. Como nesse trecho aqui:

"O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante da manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e da areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente." (pág. 28)

Não sei se era o momento certo para ler o livro, ou se o compreendi como deveria, se é que é possível todos compreendermos os livros como deveríamos, mas quando terminei de ler achei difícil dizer algo sobre ele. O JLP diz que esse é seu livro mais difícil, que os leitores costumam amá-lo ou odiá-lo, mas não conseguia me definir por nenhum dos extremos. Não o amei por conta das partes por vezes tão pesadas, mas certamente não o odiei, porque ele contém tantos grifos de partes que me encantaram. Se não tivesse gostado, acredito que não teria procurado outros livros do JLP para ler. Mas creio que não o compreendi por inteiro, creio que fiquei na metade do caminho.

Depois de ter lido os outros livros do José Luís e admirá-lo cada vez mais, acho que estava mais preparada para ler uma casa na escuridão uma segunda vez. Já não tinha mais a angústia de não saber onde aquela história ia parar; já sabia mais um pouco sobre o autor; já estava mais madura como leitora para dizer algo sobre o livro.
Continuo amando a escrita poética que me encanta; continuo precisando de ar em algumas partes, porque isso não muda. Mas talvez agora tenha caminhado um pouco mais nessa leitura, já não estou mais no meio do caminho. E se essa casa é a humanidade e estamos em muitos momentos na escuridão de atitudes e pensamentos tão desumanos da época em que vivemos, eu fico feliz por ter tido olhos para encontrar pontos de luz no texto, pontos de esperança na vida.

Esse livro é e será sempre especial para mim por muitos motivos: por ter sido o primeiro livro do JLP que eu li; por ter a descrição mais linda e poética do que é tradução que eu já vi na vida (mais precisamente nas páginas 262,263 e 271) e sendo tradutora isso já bastava para me conquistar para todo o sempre; e também porque de todos os autógrafos que eu ganhei do Zé Luís, esse é o mais bonito, um dos mais especiais para mim.

José Luís Peixoto. Uma casa na escuridão. Rio de Janeiro: Record, 2009.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Milagrário Pessoal

Atualmente muita importância é dada às línguas estrangeiras, parecem ser sempre mais belas e mais difíceis, tanto que geralmente nos esquecemos da beleza e da riqueza de nossa própria língua. José Eduardo Agualusa, escritor nascido em Angola, faz belo uso das palavras e nos presenteia com um romance que pode ser descrito como uma história da língua portuguesa, seu ritmo, seus desdobramentos, suas raízes. Uma história de alguém apaixonado por palavras, pela vida própria que as línguas têm e seu poder de unir destinos e histórias nos mais variados territórios.

Em Milagrário Pessoal, publicado no Brasil pela Editora Língua Geral, especializada em publicar apenas escritores de países falantes de língua portuguesa e cuja linda edição por si só já é um presente, Agualusa conta a história de um velho professor angolano que reencontra uma ex-aluna, agora uma pesquisadora especialista em neologismos, as palavras novas que vão surgindo nas línguas a cada dia. Juntos os dois contarão uma fábula sobre a história da língua portuguesa em uma das aulas de Lingüística mais simples e poéticas que já vi.

O livro é, acima de tudo, uma história de amor, bonita e delicada como o próprio texto e capaz de emocionar diferentes leitores. É a história de um homem mais velho que, com grande sensibilidade, nos ensina a apreciar a beleza da vida nas coisas mais simples ao anotar em um caderno, seu "milagrário pessoal", aqueles pequenos milagres cotidianos que dão sentido à vida e que nem sempre valorizamos como deveríamos, o que é sem dúvida uma grande lição para muitos de nós.

Milagrário Pessoal é um romance apaixonado sobre a língua portuguesa, o passar do tempo, os amores impossíveis e a beleza das coisas pequenas, mas não menos importantes. Um livro delicioso de ler e pelo qual é impossível não se apaixonar.

"Vou anotando nas páginas do meu Milagrário Pessoal os fatos extraordinários que me sucedem, ou de que sou involuntária testemunha, dia após dia. É um diário de pequenos prodígios. Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos". (pág. 18)


José Eduardo Agualusa. Milagrário Pessoal. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010.