sábado, 21 de setembro de 2013

O Filho de Mil Homens



Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho”. É assim que começa o romance O Filho de Mil Homens (Cosac Naify, 2012) do escritor angolano Valter Hugo Mãe, vencedor do Prêmio José Saramago em 2007.

O livro conta a história de um pescador de quarenta anos que vive em uma aldeia onde os sonhos são anulados pela dura realidade e que sente uma imensa vontade de ter filhos. Tudo gira em torno dessa vontade de ter um filho e do quanto isso significa que acreditamos em um mundo melhor. A esperança transborda de forma poética em cada página e, um dia, o Crisóstomo, personagem central da história, encontra o órfão Camilo e o adota como filho. A partir de então vemos a construção e a invenção de uma família que, no decorrer dos capítulos, atravessa temas como a solidão, o preconceito, o amor e a compaixão. Escrito com grande sinceridade, é quase impossível não se encantar por esses personagens, não lhes querer bem. Em algum ponto, invariavelmente nos identificamos com eles, principalmente em relação ao seu desejo de ser feliz. Nessa procura pela felicidade, torcemos para que eles sejam felizes e, com isso, refletimos sobre nossa própria capacidade de ser feliz.

O Filho de Mil Homens é uma história de esperança, um lembrete daquela esperança na vida e no futuro, às vezes esquecida. E é também uma história de amor, contada com a poesia de Valter Hugo Mãe, um acalanto para aqueles que ainda acreditam que o amor é possível, que a felicidade pode estar logo ali, porque “quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz” (pág. 18). Um dos melhores livros que já li. E nem preciso dizer que depois de ler essa história, o Valter Hugo Mãe passou a ocupar aquele cantinho sagrado da minha estante e do coração.





"Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstratas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o teto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com teto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça." (página 69)

Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify, 2012. 208 pp.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Como um romance

Os direitos do leitor:

1. O direito de não ler
2. O direito de pular páginas
3. O direito de não terminar o livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler qualquer coisa
6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)
7. O direito de ler em qualquer lugar
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de se calar






Encontrei esse livro por acaso em uma das minhas andanças pelas livrarias. Reconheci o autor, de quem já havia lido um livro muito inspirador sobre ser professor (Diário de Escola, Rocco, 2004), e esse livro aberto na capa me chamou a atenção.

Com base em sua experiência como professor e romancista, Pennac fala de forma poética sobre o mundo mágico da leitura, mundo este que ele ama tanto quanto nós.
Neste ensaio muito sensível, Pennac mostra que muito da magia da leitura se perde quando o livro deixa de ser o objeto de encantamento de nossa infância, quando pedimos aos nossos pais que contem e recontem as histórias de que gostamos, e passa a ser a leitura obrigatória do programa escolar.

Só pelo que lemos nesse livro já dá para sentir que Pennac é desses professores que inspiram e encantam os alunos pela paixão que ele compartilha e demonstra. É lendo para seus alunos adolescentes, que dizem num primeiro momento não gostar de ler, que Pennac os faz perceber que todos os grandes escritores, que eles julgavam incapazes de entender, contam uma história. E que, para entendê-la, é necessário voltar ao despudor da primeira infância, quando queríamos tudo descobrir.

"E se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?" (página 73)

"Não se força uma curiosidade, desperta-se", e é lendo esses romances de grandes autores como Tolstói, Calvino, Dostoiévski, Gabriel Garcia Márquez, John Fante, entre outros, que ele desperta o desejo de ler nos alunos, que não conseguem esperar até a próxima aula para saber como aquela história continua e correm para as livrarias e bibliotecas para terminar de ler o livro. E um livro leva a outro, e a outro, e a outro... O universo mágico da literatura é reencontrado e eles agora podem continuar a descobrir os seus próprios caminhos entre os livros.

"O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vivem em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Essa leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivências entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade." (página 150)

Achei esse livro apaixonante quando o li pela primeira vez em 2009,  e hoje relendo-o pela terceira vez, ele se faz ainda muito atual e acredito que sempre será. Os direitos do leitor, que ele lista no livro, foram libertadores para mim, principalmente o direito de não terminar o livro (porque sempre me sentia culpada quando a leitura não fluía e eu não queria abandonar o livro na metade) e o direito de calar, que é libertador no sentido de que não devemos explicações sobre o que lemos para ninguém. Gostaria de ter lido esse livro mais cedo, ainda na escola, e gostaria que todos os professores tivessem que ler esse ensaio para que a abordagem em sala de aula fosse diferente. Para que a literatura não ficasse sendo uma coisa chata e obrigatória para muita gente que não teve a sorte de ter um professor que os inspirasse.

E, a propósito dessa releitura hoje, entre os direitos do leitor, Pennac lista o direito de reler:

"Reler o que me tinha uma primeira vez rejeitado, reler sem pular, reler sob um outro ângulo, reler para verificar, sim ... nós nos concedemos todos esses direitos. 
Mas relemos sobretudo gratuitamente, pelo prazer da repetição, a alegria dos reencontros, para pôr a prova a intimidade.
"Mais", "mais", dizia a criança que fomos...
Nossas releituras adultas têm muito desse desejo: nos encantar com a sensação de permanência e as encontrarmos,  a cada vez, sempre rica em novos encantamentos." (página 137)

Um livro para ser lido, relido e compartilhado.

Daniel Pennac. Como um romance. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mimos


Presentes queridos que chegaram hoje na minha caixa de correio e que alegraram meu dia!


"Aquilo que lemos de mais belo deve-se, quase sempre, a uma pessoa querida. E é a essa mesma pessoa querida que falamos primeiro. Talvez porque, justamente, é próprio do sentimento, como do desejo de ler, preferir. Amar é, pois, fazer dom de nossas preferências àqueles que preferimos. E esses partilhamentos povoam a invisível cidadela de nossa liberdade. Somos habitados por livros e amigos". (Página 77)

Daniel Pennac. Como um romance. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

Uma casa na escuridão


Quando li esse livro pela primeira vez em 2010, nada conhecia sobre o autor. Havia lido todos os livros da Inês Pedrosa e amado, e procurava na livraria mais literatura portuguesa para ler quando encontrei "Uma Casa na Escuridão" e resolvi arriscar. A narrativa de José Luís Peixoto era poética, mas bem diferente dos textos da Inês. Comecei a ler intrigada, sem saber muito bem onde aquela história ia chegar.
Fui grifando trechos do livro já desde o início, seja porque eram poéticos e de imensa beleza, seja porque me faziam refletir e estabelecer conexões com outros textos, outras vivências, no que eu chamo de conversa livro-leitor. Quanto mais grifos há num livro que eu li, maior sinal de que gostei do que li. 
Mas a história, apesar dos trechos poéticos que me encantavam, seguia por caminhos diferentes do que eu esperava encontrar quando comprei o livro. Realismo mágico português? Caminhos por vezes intensos, sofridos, com cenas fortes que por vezes foi necessário parar a leitura para respirar. Mas onde que esse livro vai parar?, pensava eu. Mesclando momentos assim, em que o leitor mais sensível sente lhe faltar o ar com passagens de grande força poética, a história se desenrola de forma intensa; é mesmo uma casa na escuridão. Mas mesmo nessa escuridão eu consegui encontrar luz no texto do JLP. Pontos de doçura, delicadeza e poesia. Como nesse trecho aqui:

"O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante da manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e da areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente." (pág. 28)

Não sei se era o momento certo para ler o livro, ou se o compreendi como deveria, se é que é possível todos compreendermos os livros como deveríamos, mas quando terminei de ler achei difícil dizer algo sobre ele. O JLP diz que esse é seu livro mais difícil, que os leitores costumam amá-lo ou odiá-lo, mas não conseguia me definir por nenhum dos extremos. Não o amei por conta das partes por vezes tão pesadas, mas certamente não o odiei, porque ele contém tantos grifos de partes que me encantaram. Se não tivesse gostado, acredito que não teria procurado outros livros do JLP para ler. Mas creio que não o compreendi por inteiro, creio que fiquei na metade do caminho.

Depois de ter lido os outros livros do José Luís e admirá-lo cada vez mais, acho que estava mais preparada para ler uma casa na escuridão uma segunda vez. Já não tinha mais a angústia de não saber onde aquela história ia parar; já sabia mais um pouco sobre o autor; já estava mais madura como leitora para dizer algo sobre o livro.
Continuo amando a escrita poética que me encanta; continuo precisando de ar em algumas partes, porque isso não muda. Mas talvez agora tenha caminhado um pouco mais nessa leitura, já não estou mais no meio do caminho. E se essa casa é a humanidade e estamos em muitos momentos na escuridão de atitudes e pensamentos tão desumanos da época em que vivemos, eu fico feliz por ter tido olhos para encontrar pontos de luz no texto, pontos de esperança na vida.

Esse livro é e será sempre especial para mim por muitos motivos: por ter sido o primeiro livro do JLP que eu li; por ter a descrição mais linda e poética do que é tradução que eu já vi na vida (mais precisamente nas páginas 262,263 e 271) e sendo tradutora isso já bastava para me conquistar para todo o sempre; e também porque de todos os autógrafos que eu ganhei do Zé Luís, esse é o mais bonito, um dos mais especiais para mim.

José Luís Peixoto. Uma casa na escuridão. Rio de Janeiro: Record, 2009.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Milagrário Pessoal

Atualmente muita importância é dada às línguas estrangeiras, parecem ser sempre mais belas e mais difíceis, tanto que geralmente nos esquecemos da beleza e da riqueza de nossa própria língua. José Eduardo Agualusa, escritor nascido em Angola, faz belo uso das palavras e nos presenteia com um romance que pode ser descrito como uma história da língua portuguesa, seu ritmo, seus desdobramentos, suas raízes. Uma história de alguém apaixonado por palavras, pela vida própria que as línguas têm e seu poder de unir destinos e histórias nos mais variados territórios.

Em Milagrário Pessoal, publicado no Brasil pela Editora Língua Geral, especializada em publicar apenas escritores de países falantes de língua portuguesa e cuja linda edição por si só já é um presente, Agualusa conta a história de um velho professor angolano que reencontra uma ex-aluna, agora uma pesquisadora especialista em neologismos, as palavras novas que vão surgindo nas línguas a cada dia. Juntos os dois contarão uma fábula sobre a história da língua portuguesa em uma das aulas de Lingüística mais simples e poéticas que já vi.

O livro é, acima de tudo, uma história de amor, bonita e delicada como o próprio texto e capaz de emocionar diferentes leitores. É a história de um homem mais velho que, com grande sensibilidade, nos ensina a apreciar a beleza da vida nas coisas mais simples ao anotar em um caderno, seu "milagrário pessoal", aqueles pequenos milagres cotidianos que dão sentido à vida e que nem sempre valorizamos como deveríamos, o que é sem dúvida uma grande lição para muitos de nós.

Milagrário Pessoal é um romance apaixonado sobre a língua portuguesa, o passar do tempo, os amores impossíveis e a beleza das coisas pequenas, mas não menos importantes. Um livro delicioso de ler e pelo qual é impossível não se apaixonar.

"Vou anotando nas páginas do meu Milagrário Pessoal os fatos extraordinários que me sucedem, ou de que sou involuntária testemunha, dia após dia. É um diário de pequenos prodígios. Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos". (pág. 18)


José Eduardo Agualusa. Milagrário Pessoal. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Um estranho em Goa


"Uma vez uma jovem jornalista quis saber porque é que eu escrevia. Os jornalistas menos experientes costumam perguntar isto a quem escreve, para ganhar tempo, enquanto pensam no que vão perguntar em seguida. Há quem assuma, com ar trágico, que a literatura é um destino: "Escrevo para não morrer." Outros fingem desvalorizar o próprio ofício: "Escrevo porque não sei dançar." Finalmente existem aqueles, raros, que preferem dizer a verdade: "Escrevo para que gostem de mim." (o português José Riço Direitinho) ou "Escrevo porque não tenho olhos verdes." (o brasileiro Lúcio Cardoso). Podia ter respondido alguma coisa deste gênero, mas decidi pensar um pouco, como se a pergunta fosse séria, e para minha própria surpresa encontrei um bom motivo: "Escrevo porque quero saber o fim." Começo uma história e depois continuo a escrever porque tenho de saber como termina. Foi também por isso que fiz esta viagem. Vim à procura de um personagem. Quero saber como termina a história dele." (Página 12)


A literatura de viagens não é coisa fácil. Fico sempre receosa se eu também, ao ler o livro, vou conseguir viajar pelos mesmos lugares em que o autor esteve, na minha imaginação. Quando vi esse livro na livraria há um tempo atrás, decidi comprá-lo simplesmente porque era Agualusa e isso para mim bastava para ter entrada livre na minha estante. Depois que li Milagrário Pessoal, principalmente, ele tem entrada livre para a minha estante de favoritos.

Hoje estava querendo viajar um pouco, passear por lugares distantes, talvez para fugir um pouco do calor. E nas palavras de Agualusa, a viagem foi muito prazerosa. Logo de cara nos deparamos com um texto que tem essa poesia que amo, poesia de quem tem uma sensibilidade para capturar e descrever nuances dos lugares, das cores, dos cheiros, do jeito de olhar das pessoas. Agualusa nos transporta por essa aventura exótica pelos caminhos de Goa, e já não sabemos o que é literatura de viagem e o que é ficção. Ao mesmo tempo, temos o prazer da companhia do autor, que mostra um pouco mais da sua relação com a escrita, com a literatura e com seu processo de criação neste livro, que dá a impressão de ser um diário da realidade (ou da imaginação):

"Escrevi, há três ou quatro anos, um conto que começava assim. Muita gente me perguntou se a história era verdadeira. Costumo insinuar, quando a propósito de outras histórias me colocam idêntica pergunta, que já não sei onde ficou a verdade - embora me recorde perfeitamente ter inventado tudo do princípio ao fim. Naquele caso fiz o contrário. "Tretas", menti, "pura ficção". Disse isso porque queria encontrá-lo. Inventei um nome para ele, ou nem isso, dei-lhe o nome de outro homem". (página 13)

Mais adiante, na página 52, o autor diz:
"Começo imediatamente a associar frases soltas, ocorrências, pormenores. É um vício intelectual. Deem-me dois ou três fatos, ou nem isso, apenas vagos indícios, e eu construo um romance. Aliás, quanto menos fatos melhor, a realidade atrapalha a ficção".

E na página 147, cita o sábio conselho de outro grande escritor que vale a pena anotar:
"Não se esqueça que o medo, como dizia Hemingway, é quase sempre uma falta de capacidade para suspender a imaginação." 

Esse tom de diário, que comenta desde a melancolia de certos lugares que o agradam (agradam-me também) ao fato de sofrer por ser pontual (acontece comigo também!), nos aproxima do autor. E compartilhamos o mesmo amor pelos livros:

"Passava pela Praça da Igreja, em Pangim, quando vi os livros. Sou atraído por livros assim como outros homens são atraídos, sei lá, por um par de pernas morenas de mulher. Um par de pernas, eventualmente, também me atraem - mas os livros atrem-me sempre". (página 79)

Gostei muito de ter lido hoje Um estranho em Goa. Agualusa diz que "Viajar é perder pessoas", e talvez seja de certa forma assim. Mas é no talento de escritores como ele que essas pessoas se eternizam e podem viajar conosco sempre que o livro for reaberto. Porque nem sempre lemos para saber o final. Às vezes, o mais importante é a viagem em si.

José Eduardo Agualusa. Um estranho em Goa. Rio de Janeiro: Gryphus, 2010. 159 páginas.



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Escrever.

Das coisas lindas que achamos pelo caminho:

"Não creio que para escrever seja preciso ir à procura de aventuras. A vida, a nossa vida, é a única, a maior aventura. O papel de parede que vimos na infância, uma árvore ao entardecer, o voo de um pássaro, aquele rosto que nos surpreendeu no elétrico, podem ser mais importantes para nós do que os maiores feitos do mundo. Quem sabe se quando esquecermos uma revolução, uma epidemia ou os nossos piores infortúnios, talvez permaneça em nós a recordação da parede, da árvore, do pássaro, do rosto. E se permanecerem, é porque algo os tornará memoráveis, havia neles algo de imperecível, e a arte só se alimenta daquilo que continua a vibrar na nossa memória." | Julio Ramón Ribeyro

domingo, 15 de setembro de 2013

Domingo.




 Deveria haver estrelas para grandes guerras como a nossa. 
(Sandra Cisneros)

sábado, 14 de setembro de 2013

A Delicadeza

 Os títulos me conquistam com grande facilidade. Uma capa então, pode me ganhar ou me perder. Às vezes, é amor à primeira vista, como aconteceu quando vi nas prateleiras da livraria a capa de Delicacy, do David Foenkinos, que eu não conhecia. Comecei a ler e me encantei pelo estilo do Foenkinos: poético, com a dose certa de humor e de ternura, realmente delicado como o título sugeria. 
Nathalie, a personagem principal da história, tem realmente um quê de Amelie Poulain. O mesmo ar sonhador e romântico, a mesma timidez. Um dia ela conhece François e, num desses acasos felizes da vida, os dois se apaixonam e vivem a história de amor que qualquer um sonha em viver. O pedido de casamento é daqueles que nos deixam sonhando.
Esta não é apenas mais uma história de amor. É uma história sobre perdas, recomeços e segundas chances. É uma história bonita sobre encontrar a delicadeza necessária para reencontrar o amor e a alegria de viver.
"Procurava lembrar para onde estava indo quando topara com ele. Era algo turvo. E, no entanto, ela não era do tipo que anda por aí sem ter um ponto definido para chegar. Não tinha planejado perfazer o percurso daquele romance de Cortázar que tinha acabado de ler? A literatura estava ali, agora, entre os dois. Sim, era isso mesmo, ao ler O jogo da amarelinha gostara especialmente daquelas cenas em que os heróis tentam se cruzar na rua seguindo itinerários saídos da frase de um clochard. À noite, reconstruíam os percursos em um mapa, para ver em que momento poderiam ter se encontrado, em que momentos certamente teriam roçado um no outro. Era por ali que ela estava andando: dentro de um romance". (pág. 12)

Este é um daqueles livros que nos levam das lágrimas ao riso, mas com a delicadeza de uma escrita cuidadosa nos detalhes em cada página. O David Foenkinos, atualmente considerado um dos melhores escritores da nova geração na França, traz a simplicidade de histórias comuns e as transforma em poesia, com alusões à literatura, à música e à pintura. É bonito como o amor à leitura é inserido na história, na cena sutil em que a leitura de um livro marcada com um marcador de páginas simboliza o momento da grande perda de Nathalie e, a leitura do mesmo livro, mais adiante, marcando um recomeço, uma nova história de amor. Essa história linda foi traduzida para o cinema de forma igualmente bela em A delicadeza do amor, com a Audrey Tautou no papel da Nathalie e François Damiens no papel do desengonçado e doce Markus.



Recomendo para quem está precisando relembrar da beleza da vida nas pequenas coisas que fazem toda a diferença.

David Foenkinos. A Delicadeza. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. Tradução: Bernardo Ajzenberg.

P.S: para acompanhar o filme e/ou o livro, não posso deixar de recomendar a receita delícia da Sara  Graciano

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Away from her

Depois de ver o vídeo tão bonito feito pela Juliana Brina (para ver o vídeo, clique aqui) e uma resenha ainda melhor sobre a escritora canadense Alice Munro, comecei a ler o livro Away from her (Longe dela), que na verdade é o título do filme dirigido pela Sarah Polley e que é baseado em um conto da Alice Munro chamado "The Bear Came Over The Mountain". Li e reli esse conto, e olha que não sou grande fã de contos, prefiro romances, mas a escrita da Alice Munro é realmente como a Juliana tão bem descreveu. O conto é lindo e quero muito ver o filme da Sarah Polley que, pela introdução tão apaixonada do conto nesse livro também foi mordida pela delicadeza e sutileza da escrita da Alice Munro. Selecionei esse trecho da introdução feita pela Sarah Polley que para mim resumiu muito bem essa história:


"the things you remember, not in words but in the very molecules that make up your being, can be more painful than the things that are forgotten"

O conto é uma história de amor delicada e sutil. É um conto sobre a memória, a vida, e a dor de se lembrar e se esquecer. Gostei muito. Gracias pela dica, Juliana Brina :)
E para quem gosta de fazer mágica na cozinha e curtir o filme, não posso deixar de recomendar a receita maravilhosa da Sara Graciano :)