quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Away from her

Depois de ver o vídeo tão bonito feito pela Juliana Brina (para ver o vídeo, clique aqui) e uma resenha ainda melhor sobre a escritora canadense Alice Munro, comecei a ler o livro Away from her (Longe dela), que na verdade é o título do filme dirigido pela Sarah Polley e que é baseado em um conto da Alice Munro chamado "The Bear Came Over The Mountain". Li e reli esse conto, e olha que não sou grande fã de contos, prefiro romances, mas a escrita da Alice Munro é realmente como a Juliana tão bem descreveu. O conto é lindo e quero muito ver o filme da Sarah Polley que, pela introdução tão apaixonada do conto nesse livro também foi mordida pela delicadeza e sutileza da escrita da Alice Munro. Selecionei esse trecho da introdução feita pela Sarah Polley que para mim resumiu muito bem essa história:


"the things you remember, not in words but in the very molecules that make up your being, can be more painful than the things that are forgotten"

O conto é uma história de amor delicada e sutil. É um conto sobre a memória, a vida, e a dor de se lembrar e se esquecer. Gostei muito. Gracias pela dica, Juliana Brina :)
E para quem gosta de fazer mágica na cozinha e curtir o filme, não posso deixar de recomendar a receita maravilhosa da Sara Graciano :)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Contadora de Filmes


A Contadora de Filmes, do escritor chileno Hernán Rivera Letelier, foi uma daquelas pequenas grandes descobertas. Em uma edição linda da Cosac Naify (2012), o livro é uma ode ao poder mágico de contar histórias e ao cinema.

A história se passa em um povoado onde seus habitantes, os trabalhadores das minas de sal, viviam uma vida difícil, sem ter dinheiro suficiente, e sua única diversão era ver os filmes exibidos no cinema local, que ainda assim era muito caro para alguns. No livro, a magia e o fascínio que o cinema exercia na época, influenciando a vida das pessoas já que não existia televisão, são contados com uma certa dose de saudosismo e nostalgia que os amantes da sétima arte sem dúvida vão gostar.

A protagonista da história é a menina Maria Margarita, única mulher em uma família de três irmãos. A mãe abandonou a família quando o pai ficou paralítico por conta de um acidente. Como todos da região, Maria Margarita espera ansiosamente pela estréia do novo filme no cinema local. O cinema aqui aparece como uma realidade de sonho e fantasia, que transporta as pessoas, mesmo que por algumas horas, da dura realidade em que viviam. Mas o dinheiro é pouco para que todos os membros da família possam ir ao cinema. É quando o pai decide decide criar uma competição entre os irmãos para descobrir que será o melhor contador de filmes que irá ao cinema ver os novos filmes e voltar para casa para contar as histórias para a família. É assim que Maria Margarita se transformará na contadora de filmes e vai mudar sua vida para sempre.

Extremamente comovente e terno, o livro é uma homenagem ao cinema e à arte perdida de contar histórias. Ao poder que a imaginação tem de nos transportar para uma realidade menos sofrida.

Não posso deixar de comentar que as páginas do livro  são diagramadas como retângulos brancos sob um fundo preto, que nos transportam para a tela em branco no escuro de uma sala de cinema. Esses detalhes tão cuidadosos que sempre vemos nas edições da Cosac e que são sempre um elemento a mais durante a leitura.

Hernán Rivera Letelier. A Contadora de Filmes.São Paulo: Cosac Naify, 2012. 112 páginas. Tradução: Eric Nepomuceno.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

É assim que você a perde

O escritor Junot Díaz tem sido aclamado por sua escrita arrebatadora que, com um ritmo acelerado, se aproxima muito da oralidade. Nascido em Santo Domingo, na República Dominicana, é vencedor de vários prêmios, entre eles o Pulitzer de Ficção em 2008 pelo romance A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao. O autor é considerado um dos grandes nomes da nova geração.



Trazendo sempre para a história a perspectiva dos imigrantes, Díaz aborda questões interessantes como o "sentir-se estrangeiro", o preconceito contra os imigrantes latinos e a língua como instrumento de dominação e poder. Como uma marca de resistência, encontramos no texto de Díaz palavras no seu idioma materno, o espanhol, o que confere ao texto uma característica própria da literatura pós-colonial e não deixa dúvidas sobre sua identidade, representando a língua dos imigrantes que por vezes é completamente oprimida.

"Nessa noite, eu e Ana Iris vamos ver um filme. Não entendemos inglês, mas gostamos dos tapetes limpos do novo cinema". (pág. 81)

Nessa história, ou melhor, nas várias histórias que compõem o livro e se entrelaçam, Díaz nos fala de relacionamentos perdidos e da vida de um homem acostumado a trair suas namoradas, mas sem ser piegas ou clichê. A vida se apresenta real e intensa no decorrer das páginas e no ritmo acelerado de Díaz, apesar de às vezes chocante, no final até conseguimos entrever uma certa dose de romantismo.

"Ela balança a cabeça, o rostinho de criança inexpressivo. Na certa está com saudades do filho ou do pai do filho. Ou do nosso país inteiro, no qual você nunca pensa até se mandar e que você nunca ama até não estar mais lá." (pág. 72)

Este é um daqueles livros que nos tiram de nossa zona de conforto porque confronta o leitor com um choque de realidade e de loucura que não vemos nos filmes de amor. Começamos a ler sem saber muito bem onde o autor quer chegar, mas nesse ritmo próprio Junot Díaz nos conduz por uma narrativa diferente, que nos faz pensar, mas não apenas no amor. 

Junot Díaz. É assim que você a perde. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2013.

domingo, 1 de setembro de 2013

Duas pessoas são muitas coisas

Quando eu li "Papel Manteiga para Guardar Segredos: cartas culinárias" fiquei apaixonada pela escrita tão delicada e poética da Cris Lisbôa. O livro tem um pouco de tudo que eu gosto: cartas, amigos, amor, receitas, em uma alquimia tão perfeita quanto a que acontece quando se prepara um bolo gostoso. Dá até para sentir o cheiro dos sabores que a autora tão bem descreve.
Encontrar "Duas Pessoas São Muitas Coisas" foi uma alegria. Saber um pouco mais sobre a história de Virgínia, personagem de Papel Manteiga, foi lindo que só. As receitas tem nomes tão bonitos que devem ser feitas recitando poesia, ou lembrando de um grande amor.
Recomendo aos que sorriem com os olhos, porque ainda acreditam.

"Gosto das folhas caídas. Gosto das árvores nuas. Porque sei que o ciclo sempre faz com que tudo nasça de novo e caia e nasça. Isso de morrer e teimar em reviver me encanta. Pena que não seja lei." pág. 31

Be Kind.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

The Cuckoo's Calling


O Chamado do Cuco

Fiquei curiosa quando soube que a J.K. Rowling, autora de Harry Potter, havia lançado um livro novo, mas sob o pseudônimo de Robert Galbraith. O livro, uma história de mistério, havia vendido cerca de 1500 cópias antes da notícia de que era da J.K. Rowling ser divulgada. Se foi mesmo uma tentativa de ter um pouco mais de liberdade e menos pressão para escrever, ou se foi apenas mais uma grande estratégia da editora para alavancar as vendas, não sei dizer. Mas que isso aumentou a curiosidade dos leitores sobre o livro, isso aumentou. Nem precisa dizer que depois da notícia o livro começou a vender feito água e a tradução em português deve ser lançada em 01 de novembro pela Editora Rocco.

Comprei o ebook em inglês e comecei a ler. E a história realmente me prendeu. Não consegui largar o livro até terminar. A narrativa da J.K. é muito gostosa, e adoro como ela cria esses personagens por quem imediatamente sentimos afeto. Mas esse é o único aspecto em comum aos livros anteriores escritos pela Rowling. Então, não espere encontrar Harry Potter nele para não se decepcionar. O detetive e sua assistente merecem destaque no quesito personagem. O Detive Cormoran Strike é um ex-soldado que lutou no Afeganistão, que está sem clientes, passando por uma crise financeira e afetiva, sendo perseguido pelos credores por não pagar o aluguel e vivendo provisoriamente em seu escritório. Ele não tem dinheiro nem para contratar uma secretária/assistente. Por isso acaba recebendo estagiários de uma empresa de recrutamento de pessoas, que normalmente mudam de trabalho a cada uma semana. Um dia surge Robin, que deveria ficar trabalhando como assistente de Cormoran por uma ou duas semanas, mas que acaba conquistando seu lugar e também a amizade do detetive.

A história se desenvolve a partir de um evento trágico: uma modelo famosa (Lula Landry, chamada pelos amigos de Cuckoo, daí o título) se suicida causando uma grande comoção na imprensa. O irmão da modelo, contudo, decide contratar um detetive para investigar melhor a morte da irmã, pois acredita que ela tenha sido assassinada. Cormoran então passará a investigar esse assassinato com a ajuda de sua assistente, Robin.

O livro é gostoso de ler e divertido, e me deu vontade de ler mais histórias de detetive e de mistério depois dele, gênero pelo qual até então não me aventurei muito. Comprei um livro da Agatha Christie depois disso, e acho louvável isso na J.K.Rowling: ela desperta o desejo de ler. Seremos sempre gratos por Harry Potter e por tantos jovens e adultos que descobriram o prazer de ler por que se apaixonaram pelo pequeno bruxo. E imagino que deve ser um peso muito grande para um escritor criar novas histórias depois de ter tanto sucesso com sua primeira criação. Mas acho que mudando um pouco de ares como ela tem feito e dando passos seguros nas histórias de detetive, que provavelmente continuarão nos próximos livros de Cormoran Strike (a J.K já anunciou que vem outras histórias por aí), ela certamente conseguirá conquistar novamente esse público órfão de Harry Potter com novas histórias e novas personagens. Se tivesse que dar estrelas para avaliar esse livro, acho que ficaria em dúvida: três ou quatro estrelas...3 estrelas e 3/4?

Dentro de ti ver o mar




Entrar em ti e dentro de ti ver o mar...

Os livros da Inês Pedrosa são sempre muito intensos. Este não é diferente. O amor, a paixão, a solidão navegam pela escrita de Inês como nos versos de um fado. As personagens femininas se sobressaem, mostrando-nos uma força que nem elas sabem que possuem.

Em Dentro de ti ver o mar, título lindíssimo por sinal, conhecemos três mulheres distintas que estão tentando encontrar sua identidade. Rosa, uma cantora de fado que, depois de perder quem considerara ser sua mãe por toda a vida, decide sair em busca de seu pai e de sua verdadeira história. Vivendo um amor intenso e arrebatador por Gabriel, um homem casado, que mantêm um casamento de aparências por conta dos filhos e uma relação de abuso emocional com a esposa, e que tem medo de viver plenamente seu verdadeiro amor por Rosa.

Luísa, uma mulher que não teve uma mãe na infância e que, quando engravida de um homem pobre na juventude, decide dar a criança para uma amiga, por que também não quer ser mãe, nem perder a chance de encontrar um marido melhor, que pudesse lhe oferecer uma vida melhor.
Escolhas que causarão grande sofrimento e solidão, mostrando que deixar de ser feliz agora pode ser um grande erro, pois pode não haver oportunidade melhor no futuro.

Farimah, uma jovem que busca sua própria identidade longe das amarras de sua cultura e da opressão que as mulheres sofrem em seu país, fica um pouco perdida quando de repente encontra diante de si a liberdade que nunca teve. É encontrando um grande amor que ela aprende que a liberdade com a qual tanto sonhou só vale se for mesmo conquistada.

É em torno dessas três mulheres que a história se desenvolve, abordando temas importantes como o abuso emocional a que algumas mulheres se submetem nos seus relacionamentos, mas também mostrando que são mulheres fortes e capazes de ter uma segunda chance.

Gostei do livro, principalmente porque nele a Inês volta a abordar um tema que desenvolve muito bem, que é o universo feminino. O texto continua tão poético e apaixonado como no Fazes-me falta.

O livro será lançado no Brasil pela Editora Alfaguara em São Paulo no dia 22 de setembro de 2013, mas o ebook já está disponível para compra.


Para ver o vídeo da Inês Pedrosa falando sobre o livro, clique aqui.

domingo, 25 de agosto de 2013

A Improvável Jornada de Harold Fry


Começar uma jornada sem saber onde chegaremos; tentar fazer alguma coisa nova sem saber se seremos capazes; arriscar, simplesmente porque o seu coração diz que você deve tentar. Sem se importar com o que os outros vão pensar de você. Se vão rir de você ou achar que você é maluco. Essa é a essência da emocionante jornada de Harold Fry.

Harold é um aposentado, vivendo uma vida tranquila e sem muita emoção ao lado da esposa Maureen. O casamento dos dois já não é como antes. Acostumaram-se tanto um com o outro que não sabem mais o que dizer. Ou ficou muita coisa por dizer. Até que um dia Harold recebe uma carta de uma colega de trabalho que não vê há muitos anos, com uma triste notícia: Queenie está com câncer e está morrendo.

Abalado com a notícia, Harold fica sem saber o que fazer. Gostava muito de Queenie, uma pessoa que sempre foi muito gentil com Harold no trabalho, uma verdadeira amiga. O que me fez pensar que o que realmente faz alguma diferença nesse mundo é a maneira como tratamos as pessoas e como as fazemos sentir quando estão conosco, mesmo que seja no ambiente de trabalho. Mesmo que seja por alguns instantes. Harold então decide escrever uma carta para Queenie, e vai caminhando até o posto de correio mais próximo. Mas Harold não consegue apenas colocar a carta no correio. Afinal, o que podemos dizer para alguém que está morrendo em uma carta? Seria uma carta o suficiente? E nesse pequeno trajeto até o correio, Harold encontra algumas pessoas com quem conversará, e que ajudarão a transformar esse pequeno trajeto até o correio em uma jornada para salvar Queenie, e que termina por salvar o próprio Harold de seus medos, de sua dor, dando-lhe uma nova esperança diante da vida. Harold decide caminhar de sua cidadezinha ao sul da Inglaterra até a cidadezinha ao norte do país onde Queenie está. Sem estar preparado para a caminhada, Harold decide seguir em frente, simplesmente porque acredita que Queenie o esperará.

Durante a caminhada, Harold encontra pessoas de todos os tipos e de todos os lugares; e cada um, do seu jeito, lhe ensinará alguma coisa. E com Harold aprendemos a aceitar as pessoas como são, porque no fundo quase todas elas tem algo de bom a oferecer. Basta acreditar.

Pode parecer um pouco tolo para as pessoas que desde sempre têm na ponta da língua todas as respostas, e as maiores certezas de como a vida deve ser ou do que devem fazer, mas A Improvável Jornada de Harold Fry, usando todas as incertezas possíveis, nos mostra que o que importa mesmo não é ter todas as respostas, e sim estar aberto a descobrir as perguntas que a vida nos oferece a todo o momento e o que elas nos ensinarão. A jornada de Harold nos mostra que o mais importante é ter fé, principalmente em nós mesmos.

Rachel Joyce. A Improvável Jornada de Harold Fry. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Mimo



Minha irmã chegou aqui trazendo esse texto para mim. Ser lembrada com coisas lindas assim é sempre uma alegria. E um mimo para o coração.

Os livros de nossas vidas

"O que você está lendo?" - Para todos os amantes dos livros essa pergunta é sempre garantia de uma boa conversa, ou pelo menos tem tudo para ser o início de uma boa conversa. Muito do prazer de ler vem de poder compartilhar o que sentimos, pensamos e aprendemos durante a leitura, pois é assim que damos um significado ao que lemos.

No livro The End of Your Life Book Club (Random House, 2012, 336 páginas) ou O clube do livro do fim da vida, a história não é diferente: Will Schwalbe cresceu em uma família onde o amor pelos livros se fez presente desde os primeiros anos. Seus pais, leitores vorazes, incentivaram nos filhos o amor pela leitura simplesmente porque eram grandes leitores, o que nos mostra a importância desse incentivo e exemplo por parte dos pais na formação de filhos leitores.

Quando Mary Anne, mãe de Will, é diagnosticada com câncer no pâncreas e descobre que tem pouco
tempo de vida, mãe e filho se servirão desse amor pela leitura para aproveitar juntos o tempo que lhe resta. Eles criam uma espécie de "clube do livro" só para os dois, para terem um momento só deles para conversar sobre o que leram, ou, como Will depois explica, para que ele tivesse a chance de perguntar e ouvir de Mary Anne suas histórias, suas vivências, seu amor pela vida e pela leitura. E é contando sobre os livros que leram juntos que essa relação mãe e filho se fortalece ainda mais, ajudando a administrar a dor da inevitável despedida.

O livro é um relato sincero e emocionado de um filho em busca de algum conforto diante da perda de sua mãe, mas é também uma celebração da vida que continua, apesar de. Pois nos livros que lemos, que compartilhamos com os amigos, que carregamos conosco por nossos caminhos, também deixamos muito de nós.

O livro não deixa de ser uma declaração de amor de um filho à sua mãe, alguém que ele muito admirava, e uma bonita homenagem à literatura e seu poder de aproximar as pessoas, de nos tornar mais humanos em nossos sentimentos, de nos ajudar a atravessar os momentos difíceis da vida.

Para os apaixonados por livros, resta ainda uma lista com ótimas indicações de livros para ler e compartilhar depois.

Will Schwalbe. The End of Your Life Book Club. Estados Unidos, Random House, 2012. 336 páginas.